sábado, 25 de dezembro de 2010

Retrô (spectiva)

"O rock acabou, melhor ligar sua tv"

Eu queria estar dormindo. Não por estar com sono, estou totalmente bem descansada. Também não por que eu estou cansada, estou realmente elétrica, como se tivesse tomado muitas xícaras de café. Enquanto a rede de comunicações aqui do trabalho não volta, eu estou aqui, sem fazer absolutamente nada. Talvez elétrica não seja bem a palavra. Sendo ou não, eu estou tão cansada. De viver. De consertar. De respirar. Cada suspiro que eu dou parece tão injustificado. Me pergunto por que tudo não pode simplesmente se esvair tênue e breve, que nem a fumaça leve de um cigarro, que vem e vai, mas nunca se demora. E eu descobri sozinha e por acaso que a vida não é um filme. Não tem pessoas te esperando atrás da porta com flores, nem festas surpresas no seu aniversário por que você espera. Não tem finais totalmente felizes, mas isso também depende do seu conceito de felicidade. A grande verdade é que nesse momento existem mais homens do que mulheres no mundo, então tem uma grande probabilidade de você acabar sozinho. Sozinho talvez não seja ruim, só mais solitário de um modo ou de outro. Talvez não pior. Aprendi, também, que de certa forma, estamos todos sozinhos em dado momento em que não queríamos estar, quando na verdade queríamos estar cercado de pessoas, com um sorriso meio amarelo só pra evitar de chorar. Vi que chorar não é fraqueza, mas que quando a gente chora expõe o lado fraco que fica incutido em uma estante empoeirada e obscura lá dentro. E quando chora, fica com medo de expor, e inventa milhares de pretextos e argumentos imbecis pra fingir que está tudo bem. Agora, na verdade, não está tudo bem. Se estivesse, eu provavelmente não estaria com essa vontade louca de colocar tudo pra fora em um jato desesperado de emoções contidas. Berrar incontrolavemente. Dançar na chuva. Esquecer e fumar um cigarro sem retaliações. Sexo sem compromisso. Afinal, quem precisa colocar um rótulo em tudo? Na verdade, quem é que precisa de alguém, de verdade? Digo, de um casamento estável, da aprovação quase desesperada da sociedade quanto a você e quanto ao que você faz ou deixa de fazer. Deveria, supostamente ser da sua conta. E um beijo pra quem discorda, um beijo pra os egocêntricos, pra os neuróticos, pra os absurdos, pra os imbecis, pra os babacas, pra os que acham que sabem tudo, pra os ninfomaníacos, pra os socialistas, pra as minorias. Por que no final, não importa. Vai todo mundo pra o mesmo lugar, pra o mesmo buraco sem fundo e tão ébrio quanto o buraco que saímos antes, esse buraco que a gente chama de vida. Eu percebi, de uma forma ou de outra, que é melhor amar do que não fazê-lo, por que sempre dói mais se arrepender do não feito do que do malfeito, já que na verdade, o malfeito nunca é tão malfeito assim e você deu o melhor de si. E sim, é verdade. Você deu mesmo o melhor de si, e não adianta mentir pra mim nem pra você, por que quando você diz que não fez, raramente podia ter sido diferente, por que se era pra acabar assim, não precisa de um motivo, só de um fim. E pontos finais, esses traiçoeiros, inimigos, antagonismos desesperados pra findar a frase, findar o texto, findar a vida. Findar. Acho engraçado como as coisas findam. E sempre findam, não há como evitar. O fim é óbvio, menos pra quem prefere não enxergar. E assim, mesmo sem sentido, sem cópia e sem direção, vai indo, rumando pra o desconhecido de outro ano, outro mês, outro dia, outra década, outro minuto, por que é tudo maravilhosamente incerto e incessante para fecharmos os olhos por um segundo se quer pra o que nos cerca, já que cerca de tal maneira que fica impossível refrear, e se é impossível, só deixa rolar até a música acabar, a vontade morrer e o desejo cessar.

sábado, 27 de novembro de 2010

Quelqu'un M'a Dit

“Pourtant quelqu'un m'a dit
Que tu m'aimais encore
C'est quelqu'un qui m'a dit que tu m'aimais encore
Serais ce possible alors?”


Alguém me disse que a vida é breve e passa como um raio. Esvai que nem um rio que seca, e acaba murcha que nem uma rosa. Enquanto eu limpo minhas lágrimas, alguém me disse que você ainda me amava. Será verdade? Espero que sim. Levanto o vestido e sacudo as folhinhas e pedaços de grama que grudaram nele enquanto estive sentada. Alguém me disse que o tempo é um bastardo e se fortalece nas nossas tristezas. Alguém me disse que você ainda me amava. Será possível então? Giro no campo florido esperando talvez prolongar algo inacabado mas que já dá seu último adeus e se joga na caixa de lembranças. As coisas passam rápido diante dos meus olhos que giram. Será que ainda me ama? As nuvens, as flores, os pássaros, os carros, longínquos, e o som das coisas inexistentes, mas que insisto em ouvir. Caindo no chão, vejo as nuvens gordas caminhando suavemente no céu, com a preguiça de sempre, mas como de usual, diferentes. O vinho vermelho como sangue inquieto na garrafa verde, assinalando para um promissor dia de verão. Será que ainda me ama? E girava, e ria, eu ria e girava. Alguns pingos de chuva finos começaram a cair. E eles engrossaram. Apontavam para que eu corresse com a garrafa de vinho na mão para lá. Correndo, quase derrubei a garrafa, mas eu ainda sorria. Será que ainda me ama? Chegando, bati na porta. “Alguém me disse que você ainda me amava. Agora não me lembro mais quem foi, só do tom da sua voz dizendo ‘ele ainda te ama, mas jamais conte a ele que eu lhe contei’ era tarde da noite, mas não me lembro mais” e entrei. Alguém me disse que a vida é tão breve quanto um dia, e que um dia se está lá, e no outro não se está mais. Alguém me disse que o tempo constrói a ele mesmo na tristeza, mas que se passa longamente. Alguém me disse que você ainda me amava. Alguém estava certo.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Aonde Quer Chegar?

“Já são quase cinco da manhã, por que ainda insiste? Faz muito tempo que não tem o que dizer Ando aqui pensando em nós dois. Será que temos tempo?”

Tamborilava os dedos incessantemente na mesa. As unhas faziam um barulho surdo ao baterem na superfície de madeira. Estava esperando impacientemente por ela. “Ah, oi, desculpa o atraso.” Ela chegou, não podendo ser chamada de radiante ou algo parecido, só de presente. “Ah, oi. Então, vamos caminhar lá fora? Já são quase cinco da manhã.” Ela assentiu e comentou. “Cara, por que você ainda insiste? Faz muito tempo que não tem o que dizer.” Ele olhou com uma cara igualmente desprovida de emoções. “Eu ando aqui pensando em nós dois. Será que temos tempo?” Ela deu de ombros, não por que não sentisse nada, só não sabia exatamente o que sentir. “Eu te fiz promessas que eu não posso apagar.” Ele fez um gesto que mostrava que não dava realmente a mínima pra aquelas promessas. “Logo você, que dizia saber, não sabe aonde quer chegar.” Sentaram-se na beira do cais, e ela deixou seus pés nus entrarem quase sem querer na água salgada do mar. E ele sentou-se ao seu lado, de pernas cruzadas. Passaram bastante tempo assim, tempo o suficiente para que ele olhasse para o relógio oito vezes, para que ela colocasse o próprio cabelo atrás da orelha cinco vezes, para que ele cruzasse o descruzasse as pernas quinze vezes, e pra que eles não se decidissem apesar de tudo. “Já são quase sete da manhã. Por que não se decide?” Ela tombou a cabeça pra o lado, e respirou fundo. “Joguei minhas fichas a muito tempo atrás” Ele estava desistindo, Jogando ao mar as esperanças. “Olha que fez, perdeu-se outra vez” E as esperanças flutuaram pra longe, deixando duas pessoas no cais. “Já são quase nove da manhã.” E eles foram embora, talvez tentar mais uma vez, talvez não.

She Will Be Loved

“And she will be loved, she will be loved.”

Estava trancada no banheiro, o único cômodo da casa que tinha uma tranca de verdade. Limpou a maquiagem escorrida dos olhos com o dedo e examinou a sujeira. Maquiagem preta. Ela limpou na toalha de rosto branca que estava pendurada em um gancho branco, acima de uma pia de mármore igualmente branca. Revirou no fundo de um armário e pegou uns pacotes de esparadrapo e gaze, uns remédios pra dor de garganta, outros pra dor de cabeça, outros analgésicos, água oxigenada, rifocina, band aids, remédios pra cólica, e uma bolsa de água quente. Jogou tudo isso em uma mala preta, em um compartimento reservado pra coisas desse tipo. Pegou a pasta de dente fechada dentro do armário, e a aberta em cima da pia. Pegou sua escova de cabelos, seu pente, seu shampoo, seu condicionador, dois sabonetes lacrados, e sua escova de dentes. Saiu do banheiro quieta e entrou em seu quarto. Nele, olhou as estantes repletas de livros. Pegou alguns de seus favoritos: Eu Mato, Harry Potter, Memórias de Uma Gueixa, Cem Anos De Solidão, O cortiço, Confie Em Mim, O Último Judeu, Enciclopédia de Seriais Killers, O Mundo De Sofia e por fim, alguns dos livros de Desventuras Em Série. Encheu metade da mala dividida em dois com esses livros e os remédios. Se esta enchesse, tinha outra, e só mais outra, por que era o máximo que ela podia carregar. Apesar de o recomendável fosse que só levasse uma mala. A outra metade foi aberta, e nela, algumas roupas foram despejadas: blusas, shorts, casacos, e bermudas. Acabou de encher essa mala. Cuidadosamente, pegou a outra e a abriu ao lado da outra que se encontrava fechada e pronta para ir. Jogou três pares de tênis, meias, sapatilhas, havaianas, um chapéu, uma capa, algumas outras roupas aleatórias, loção de calamina, repelente de mosquitos, perfume, e alguns hidratantes. Foi-se metade da mala. Abriu a outra metade, e colocou seus CD’s favoritos: Absolution, Brand New Eyes, Another Brick In The Wall, Resistance, Black Ice, RadioActive, Que País É Esse?, Rádio Pirata Ao Vivo, From The Cradle, Idem, Complete, Abbey Road, e um CD só de músicas dos Beatles que ela tinha montado. Eram os únicos que cabiam. No meio de todos aqueles CD’s, ela colocou uma infinidade de canetas. Muitas mesmo, uma caixa de canetas BIC. E colocou todos os cadernos virgens que ela encontrou. Eram dez cadernos virgens, no total. E colocou alguns cadernos usados, mas que eram muito importantes pra ela. Fechou essa mala. Pegou uma mochila e a abriu. Nessa mochila ela despejou toda a comida que deveria ter sido comida por ela durante o semestre. E no bolso, colocou sua maquiagem, o MP4 e o celular, que só seria usado em caso de emergência extrema. Vestiu uma calça que roubou da sua mãe, por que fora ela, só tinha uma calça preta. Colocou uma blusa preta, um casaco por cima, colocou dois pares de meias, um colar, um boné, e colocou os óculos no rosto. Estava praticamente irreconhecível. Levou dois lençóis na mochila, também, caso não encontrasse onde dormir. Levou sua vaca de pelúcia, e seu gato de pelúcia. Estava completamente carregada de coisas, mas a noite era ébria, e ninguém sequer notava uma figura baixa carregando um monte de malas. Era normal por aquelas bandas, de certa forma. E foi caminhando por um caminho bastante deserto, com uma lua relativamente grande e uma lanterna para ajudá-la. Era domingo a noite, e todos estavam absortos nos próprios problemas, como de praxe. Andou até encontrar um ônibus que a levaria pra onde ela queria ir. Pra longe de todos, daqueles que não a queriam, daqueles que ela não queria. Pegara todo o dinheiro da carteira dos dois antes de sair. Tinha duzentos e sete reais e quarenta e cinco centavos. Entrou no ônibus. E na calada da noite, como quem não quer nada, como quem se perde inocentemente e tem medo do escuro, ela se foi, e se foi pra nunca mais voltar a vir. Se foi para longe, pra onde ninguém podia pegá-la por um tempo. Em duas horas, estava na praia. Não tinha uma barraca e não pretendia arranjar uma. Tinha cobertores e um saco de dormir. Montou-se do modo mais arrumado que pôde naquele terreno arenoso e por lá ficou até quando sua comida e água permitiram. De lá, rumou para o eterno desconhecido.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

You Found Me



“Don’t let me go, don’t let me go, don’t let me go, don’t let me go, don’t let me go, don’t let me go.”

Precisava de um cigarro. Desesperadamente. Talvez não fosse de um cigarro que precisava, mas foda-se, era isso que ela ia fazer. Fumar um cigarro. Pegou um isqueiro preto no bolso e abriu a bolsa a procura de um maço de uma marca qualquer de cigarros. Pegou um deles, e colocou na boca. Acendeu, e ficou lá, sentada no banco, aproveitando seu último cigarro, por que o maço acabara e ela estava sem dinheiro pra outro. Ficou observando as pessoas que passavam, absortas em seus próprios problemas, em suas próprias angústias. Privadas de algo, felizes por um reencontro, chateadas por um bolo, tristes por um fora. Olhou também pra aquelas grandes caixas de metal. Onde cada um também vivia a sua vida. Onde várias famílias respiravam e aspiravam ares diferentes dos outros que estavam no carro com eles. Ela costumava viver a própria vida também. Um tempo atrás, ela costumava viver a própria vida também. Levantou-se meio tonta do banco. Apagou o cigarro no primeiro lugar que achou conveniente e jogou-o no lixo. Saiu andando a esmo pela cidade, aquela brilhante cidade, que brilhava mais ainda sob as luzes laranjas do pôr-do-sol. Fazia dois dias que tinha ido embora, que tinha jogado seu celular fora, e simplesmente esquecido propositalmente de mandar lembranças ou votos de que tudo ia ficar melhor. Não achava conveniente dar satisfações, já que resolveu que ia viver a própria vida, só pra variar. O tempo passava rápido, sem que ela mesma se desse conta, ele voava diante de seus olhos. Prendeu o cabelo em um coque apertado, ajeitou as saias, desceu as meias do tênis surrado, abotoou todos os botões da blusa, suavizou a maquiagem com a ajuda de um espelho, colocou seu melhor sorriso falso, e adentrou em uma loja que ostentava um enorme aviso de “estamos contratando”. “Olá, em que posso ajudá-la?” outra vendedora com um sorriso tão plastificado quanto o dela mesma veio em seu socorro. “Obrigada. Eu vi o aviso lá fora, e estava me perguntando se ainda estão contratando.” Apesar do sorriso, seus olhos diziam muito. “Oh, claro, venha por aqui.” E a levou pra uma sala pintada em tons de verde, com uma mulher vestida em tons de amarelo sentada em uma escrivaninha cinza claro. Quinze minutos depois, conseguira o emprego, o que era realmente bom, já que só tinha mais uns duzentos reais, e não tinha certeza nem se isso ia dar pra pagar as contas. Era um emprego banal de vendedora, mas dava pra pagar as contas, então não se importava realmente se ia ter que manter esse sorriso estúpido e esse ar de interessada na vida alheia todo dia, pelo resto da sua vida. Começaria na segunda. Era uma terça. Ainda ia ter uma maldita semana controlando totalmente todo seu dinheiro pra poder sobreviver. Saiu andando de lá, a esmo de novo. Nunca tinha realmente um rumo certo. Nem pra ela, nem pra sua vida, nem pra nada. Só ia sair andando até encontrar algo satisfatório pra fazer. E se nunca encontrasse, nunca ia parar de andar. Era essa lógica que ela sempre seguiu. Andou até que seus pés começaram a doer e seu estômago começou a revirar. Precisou sentar. Não, cólicas não. Remédio pra isso era caro. E estava a umas duas horas de casa, longe de um ponto de ônibus e longe de tudo que conhecia. Sentiu uma súbita tontura e um desejo incontrolável de vomitar. Ao invés disso, perdeu os sentidos. Quando acordou, tinha tanta certeza de onde estava quanto antes. Ou seja, nenhuma. Estava em uma cama. Ligada a uns aparelhos. Graças aos céus, ninguém estava no quarto. Ela estava sozinha, como sempre esteve. Mais tarde, uma enfermeira disse-lhe que podia ir embora, e que não sabia quem a tinha deixado lá. Foi-se. Continuou a andar com uma vaga impressão de que alguma coisa estava completamente errada, ou completamente torta. Os dias passaram quentes, e as noites passaram frias. Segunda chegou. Ela trabalhou um mês, dois meses, três meses, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, um ano, dois anos, três anos, quatro anos. Tinha feito exatamente vinte anos faziam dois dias. Tinha o suficiente pra ir embora pra onde ela quisesse ir, seu maior sonho. E foi pra o Rio de Janeiro. Do Rio de Janeiro, foi pra outro país. Inglaterra. Tinha as mesmas perspectivas de vida, só que vivendo uma vida mais feliz, menos atribulada de sentimentos, mais vazia, de certa forma. Começou a trabalhar em um jornalzinho de quinta, que ficava em um beco escuro de uma rua meio suspeita de Londres. Comprou um celular, mas mudou seu número. Alugou um apartamento de três cômodos. Cozinha, banheiro, e quarto. Pequeno, mas o que dava pra pagar com o salário que ela ganhava. Mas estava relativamente feliz. Deixou tudo que ela conhecia pra trás. Ia ao mercado todo dia, comprava o essencial, e as vezes o supérfluo, por que era uma pessoa supérflua. Pra o mundo ela era ninguém e pra alguém ela era exatamente o mesmo que ela era pra o mundo. Em um dia chuvoso, ela saiu pra fazer compras com seu guarda chuva amarelo. Estava com pressa. Tropeçou em uma pedra estúpida regida pela maldita lei de que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço. E caiu no chão, ralando o joelho, e ensangüentando seu vestido branco. Uma pessoa aleatória a ajudou a levantar e a levou pra um lugar onde havia uma pia. Nesse tempo todo, não fez nenhuma questão de olhar pra tal pessoa, nem de falar nada, estava muito ocupada praguejando o vestido novo da Gucci arruinado que nem se importou de verdade com aquela pessoa que a estava ajudando. Sim, um vestido da Gucci. Estava trabalhando pra o maior jornal da Inglaterra como editora sênior, agora. Já faziam quase dez anos que ela estava em Londres. Quase quinze anos que tinha ido embora da sua própria casa e deixado de viver a vida dos outros. De outro. Depois de alguns infindáveis minutos molhando o vestido e tentando incansavelmente tirar a mancha, virou para a pessoa que a tinha ajudado a levantar. Era um rapaz alto e magro, de cabelos compridos. Parecia ter mais ou menos a mesma idade que ela. Estava usando uma calça jeans, uma blusa branca, e um tênis realmente muito surrado. Mais surrados que os tênis que ela tinha no dia que fugiu de si e dos outros pela primeira vez. Eram inconfundíveis. “Mark?” ela chamou, e sabia que não em vão. “Você nunca me mandou nenhuma carta, nunca atendeu meus telefonemas, nunca respondeu meus emails, mensagens, nunca me deixou nenhum sinal de nada, de que talvez você ainda quisesse me encontrar pra tomar a droga de um café.” Ele parecia chateado, com a mesma voz que sempre fazia quando estava chateado. Ela sabia que era ele. “Eu não queria tomar um café com você.” Ela respondeu, categórica, e ainda tentando limpar o sangue do vestido. “Onde você esteve, afinal?” Ele perguntou, firme. “Por aí.” Ela respondeu, com a mesma firmeza proposta por ele. “Por aí onde?” Ele estava com raiva. “Por aí. Por que isso te interessa afinal? Por que qualquer uma dessas coisas te interessa? Foda-se. Está muito tarde, certo? Muito tarde. Quase quinze anos tarde demais.” Ela também estava com raiva. “QUAL O SEU PROBLEMA?” Ele estava gritando, em português. “VOCÊ É A PORRA DO MEU PROBLEMA, CARALHO. Sempre foi.” Ela estava com medo de desabar em lágrimas. Se segurou e largou a barra do vestido, ainda levemente avermelhada. “EU SOU O SEU PROBLEMA?” ele ainda estava gritando. “Sempre foi, cacete. Foi por quinze anos, e ainda é. Eu viajo pra muitos quilômetros de você, e você vem atrás de mim? Qual é o SEU problema, afinal? Você preferiu assim, se lembra? É SUA CULPA, CACETE, LEVE UM POUCO DA MERDA DA RESPONSABILIDADE QUE EU CARREGUEI POR MUITO TEMPO.” Ela também sabia gritar. “Eu tentei te achar. Eu juro. Eu tentei de todas as formas possíveis. E aqui, em um dia no mercado, na minha segunda semana em Londres, eu achei você.” Ele não estava mais gritando. “Parabéns. Você me achou. Tarde demais.” Ele estava meio aflito. “Por quê?” Ela virou-se, e cruelmente disse-lhe. “Onde você estava quando tudo que eu precisava era de uma ligação? Onde você estava quando eu precisava de um abraço? Onde você estava quando eu fugi? Onde você estava quando eu realmente quis a sua presença? Onde você estava quando eu queria você? ONDE? Agora eu não quero mais. Só um pouco tarde demais. Está cedo, eu tenho que trabalhar, tenho que trocar a minha roupa, tomar outro banho e esquecer de novo que você existe. Meus sentimentos são mais importantes que os seus, certo? E sempre vão ser. Agora eu não estou mais perdida, e você não precisa me achar. Tarde demais. Talvez uma semana atrás não fosse tarde demais. Mas agora é. Por que você precisava esperar pra me encontrar? Eu vou esquecer de novo que você existe, ter todo esse trabalho pra esquecer do seu cheiro, da sua presença, do seu cabelo, da sua voz. Eu já tinha até esquecido como soava, como era estar perto de você. Eu vou ter todo o trabalho de novo. E se seus planos forem ser de ficar aqui, eu simplesmente vou mudar de país. Se você passar a vir nesse mercado, eu vou mudar de mercado. Se isso lhe deixa contente consigo mesmo, ficou uma marca, que nunca vai sumir. Duas semanas por uma vida. Então, tudo que eu tenho a lhe pedir é que facilite nossa vida, e vá embora, por que é isso que EU vou fazer. Antes, eu ficaria acordada a noite inteira. Acho que agora também. Mas, como eu lhe disse, é tarde demais. Adeus.” Saiu, batendo os sapatos fortemente contra rua, na mesma direção de que veio, e foi a vez dele ficar assistindo ela sumir na multidão enquanto se perguntava qual era o seu problema. Foi e vez dele de morrer um pouco por dentro, a vez dele de criar uma cicatriz. Por que no final, todo mundo acaba sozinho, sendo quem você é, quem você não é, ou quem você quer ser, todo mundo acaba sozinho. Ele e ela eram só mais um e uma. Ela, afinal, não foi trabalhar. Deitou na cama, e não se atreveu a levantar. Ligou o som, e ouviu You Found Me do The Fray incansavelmente. Ele voltou pra o apartamento que dividia com um cara qualquer, e dormiu. Dormir. A cura, e o problema.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Dez Coisas Que Eu Odeio Em Você



As minhas dez coisas que eu odeio em você
Eu odeio quando você me encara
Eu odeio quando você acha que tem razão mas na verdade não tem
Eu odeio seu casaco idiota de couro
Eu odeio quando você usa aquelas suas blusas xadrez
Eu odeio muito seja lá quem ela for
Eu odeio como você faz com que eu me sinta
Eu odeio como você me convence a fazer alguma coisa
Odeio o modo como você corta seu cabelo
Odeio seu perfume
Odeio todas as músicas que você me mostrou.
E a décima primeira coisa que eu odeio é em mim, não em você.
Odeio como eu não consigo odiar de verdade nenhuma dessas coisas, nem um pouquinho.
(inspirado no filme 10 Things I Hate About You)

Para Giovani

"Love, love, love. What is it good for? Absolutely nothing"

As pessoas machucam. Digo, relacionamentos machucam. Uma mulher + um cara ás vezes dá certo, as vezes não. As lembranças assolam a sua mente. As boas lembranças, as más. De repente faz tudo valer a pena. O fato de que a tristeza dura menos do que as boas lembranças, que duram pra sempre, ou então até o pra sempre durar. O importante é limpar o coração, fechar os olhos e se preparar pra algumas porradas de vez enquando. Tentar pensar em como foi bom ajuda. As lembranças fazem de você quem você é e quem você foi, e por mais que as vezes machuque, tente guarda-las com carinho dentro de você, mesmo que em alguma parte um pouco esquecida e menos machucada. Uma parte, a melhor parte de você. Aquela parte que não esqueceu de como é amar, de como é ser criança, de como é pular, gritar, viajar, sentir, se apaixonar e viver.
Espero que ajude, G.
beijos <3
(ficou ruim, mas ok.)

O Amor Está Morto

O amor está morto. O matei sozinha, com uma bazuca e uma faca anormalmente grande. O esfaqueei centenas de vezes. Descontei toda a minha raiva e frustração ao som de Wolfgang Amadeus Mozart. Queria chorar. Chorou. O pesar está morto. Alguém o matou sozinho com uma adaga e uma garrafa de vinho. Descontou toda a sua vontade e preencheu as lacunas que gritavam. Queria gritar. Gritou. O calor está morto. Ela matou-o sozinha, com uma arma e um pedaço de barbante. Descontou sua vontade ao som de Ludwig Van Beethoven. Queria girar. Girou. O sentido está morto. Se jogou sozinho da janela do quinto andar, ao som de Antonio Vivaldi. A raiva está obsoleta, a inveja está enterrada, o mistério se perdeu, o ciúmes está se escondendo, a fúria está obscura, o carinho acabou, as caricias foram esquecidas, as palpitações, quentes como o inferno, foram deixadas pra lá. Em busca de algo novo, perdeu tudo o que já tinha. E quando voltou, estava tudo guardado e trancado, de um modo inquebrável e indiscutível. Não esperaram pela volta, e nunca o iriam fazer. Um brinde, uma taça. Quebrou-se a taça e a comida esfriou. Ninguém botou os pés na cozinha. Os rastros da sua presença se foram, até o seu cheiro. O cheiro que predominava agora era um cheiro de enxofre. Explodiu. E então, o amor estava morto.

domingo, 24 de outubro de 2010

Pesar.

Gotas grossas manchavam o carpete. Gotas pretas no carpete cinza. Gotas pretas em uma vida cinza. Cinza como o céu, e negra como a previsão que fazia de si. As gotas formavam poças. As poças cresciam com uma velocidade anormal. E a cada gota, algo ia embora. E ia indo, tudo ia se resvalando sem o menor pudor. Tentava segurar a enchente, a grande enchente de poças negras como seu coração. E ele batia. Batia forte contra o peito, mas ela não agüentaria que ele pulasse pra fora. Tinha saído da gaiola vagarosamente, sem que notassem ou apontassem de uma maneira acusatória. Mas fora de lá era frio, e de um frio rascante, pereceu. Pereceu sem querer, e rápido, por que nesse mundo se tem pressa. Mesmo que quisesse aproveitar o momento, já se fora, e como ele mesmo, jamais voltaria. Muito menos da mesma maneira. E com essa bravura breve, mostrou o quanto era sozinho e o quanto era cheio de pesares. Pesares demais pra alguém sustentar, pesares demais para um pobre enjaulado, um pobre animal esquecido.De coisas tolas como o amor, a coisas profundas como a dor, sempre tinha aquela linha tênue que era sua responsabilidade. Uma responsabilidade pesada demais, mas realmente tão pesada que o fazia andar curvado. E essa curvatura proposital mas não exatamente proporcional gerou um estorvo. E esse estorvo pesava. Pesava tanto que ele não sabia como se sentia antes disso. E não sentia mais nada direito no geral. Estava tudo jogado de qualquer maneira em uma caixa esquecida no fundo de um baú antigo e empoeirado, intitulado de perigoso. Perigoso como as gotas que não paravam de jorrar. Perigoso como sentir, como amar. Amar. Era o estorvo mais pesado. Ocupava mais espaço na caixa. Naquela pequena caixa, estufada até o topo com coisas mesquinhas e mundanas como o amor. E no ostracismo dessas emoções, escondia-se coisas próprias e impróprias, alguns impropérios e algumas palavras fortes, coisas acorrentadas de modo a nunca se soltarem ou assolarem a si mesmas, de modo a guardarem essa dança viciante, esse ciclo doloroso, essa decepção constante para si. Mas, de algum modo, crescia e nutria algo de fato grande. Algo que não tinha medo de gritar, não tinha medo do ridículo, não tinha medo de ser, de crescer, expandir e espalhar. E pelo ralo corria, corria, corria. Até, que finalmente, o sofrimento acabou. Acabou-se a dor, o choro, as manchas no carpete, o liquido negro que escorria de seu peito. Tudo cessou da maneira mais inesperada, e dessa maneira inusitada, calou. Calou pra sempre ou momentaneamente, mas calou. Calou de forma insegura, que balançava com o menor dos ventos e com a menor das expectativas. A dor acabou. Mas morreu. Morreu, e não pretende voltar jamais. A completa falta de sentimentos lhe acolhe e arrasta para a escuridão, onde finalmente é seguro. Morreu.

Hug Me

Todas as pessoas olhavam bestificadas. As luzes, a dança, as pessoas e os sorrisos. Todos realmente felizes e satisfeitos. Ela olhava de uma forma diferente. Não menos feliz, mas de certa forma, diferente.Estava surpresa consigo mesma. Queria estar ali, mas queria que mais alguém estivesse ali com ela. Achava realmente bonito tudo aquilo, mas de algum modo, sentia como se algo estivesse longe, perdido ou só distante. Queria saber o que era. Provavelmente, não saber o que diabos a incomodava era o verdadeiro incômodo. Em dado momento, pensou que só tinha guardado algo ra si ou para alguém, alguém que não sabia quem era. Ou preferia não saber quem era. Em uma fração de segundo, sentiu algo perto dela. Um araço. O alguém e o ninguém ao mesmo tempo. Agora o vazio se esvaia, resvalando por um ralo aberto.E se prencheu aos poucos com algo proibido, algo indesejado. E foi levada pra isso. Droga.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

I Wanna Hold Your Hand

“And when I touch you I’ll feel happy inside, it’s such a feeling that my love, I can’t hide. (…) I wanna hold your hand.”

Corpos se entremeavam em um pequeno cemitério. Ela andava na frente, com um negro vestido, e tão negro quanto o vestido, o véu. Sua fisionomia era séria, como a de quem perdeu alguém. O que, de fato, era verdade. Andava com passinhos curtos todo o fúnebre trajeto. Ela e cem mais pessoas, todas com a mesma sensação de perda, uma sensação nada agradável. Chorava em pequenos soluços, não queria alardear sua dor, que vinha de dentro, que vinha pra si, como ele veio pra ela, de forma sorrateira, quase imperceptível, mas intensa, e forte, como um rasgo, um rompimento na artéria aorta, algo difícil, quase impossível de consertar. Coisas quebradas involuntariamente, sombras esquisitas. Pesadelos que a circundavam de uma forma puramente melancólica, como seu estado de espírito. É verdade que ela não queria nada além dele. Queria a companhia eterna, mesmo que eterno por alguns segundos. Queria escutar mais uma vez a voz dele dizendo que tudo ia ficar bem. Queria segurar sua mão. E é essa a verdade sobre a maioria das mulheres. Elas só querem segurar a sua mão.

Don't Let Me Go

"Where were you, when all I needed was a call?"

Estava deitado no chão. Uma garrafa praticamente vazia de rum ao seu lado. Uma música perturbadoramente melancólica tocando em alto e bom som. Ela abriu e se deparou com a figura de seu namorado estatelada no chão. Ele estava balbuciando algumas palavras quase ininteligiveis. "Onde você estava quando tudo que eu precisava era de uma ligação?" Essas palavras atingiram ela como um trem. Ela estava perambulando por alguma ruela qualquer a procura de alguma coisa realmente nada importante, depois da briga quase que apoteótica que eles tiveram naquele dia mais cedo. Algo sobre o fato de que ela não estava nem um pouco afim de continuar aguentando algumas coisas estúpidas que ele fazia, e de ele mandando ela ir se foder. Foi aí que ela saiu correndo e bateu a porta atrás de si, chorando. Estava magoada demais. Os dois estavam. Tinham que cortar toda aquela porcaria. E ela saiu correndo por essas ruas aleatórias a procura de respostas. Ele ficou em casa, bebendo rum e escutaqndo músicas melancólicas. Quando ela chegou, algumas horas depois, encontrou essa cena. Então, resolveu. Dali a dois dias iria embora. E os dois dias se arrastaram. Ela passou os dias fora, e as noites também. Ele passou os dias sem uma percepção realmente boa das coisas, e sem saber exatamente o que fazer. Ela clamava dentro de si pra ele não deixá-la ir. Não queria ir. Mas o orgulho a impedia de ficar. O dia chegou. Era uma noite realmente chuvosa de outubro, mas ela decidiu continuar. Enfiou tudo no porta-malas, e começou a ir. O pneu furou. Ela foi sair do carro pra tentar trocar o pneu, e encontrou alguém.
"O que diabos você está fazendo aqui?" ela disse, querendo dizer com todas as fibras de si que não a deixasse ir pra Michigan.
"Esperando você."
"Ah, é? Agora você me espera?"
"Eu sempre te esperei, e sempre vou esperar."
"Você é um babaca, sabia?"
"Eu sei disso. Minha mãe sabe disso, só você não sabia disso"
"Que seja. Vou chamar um táxi"
"Você pode deitar aqui na chuva comigo e não ir pra Michigan"
"É, e eu também posso comer cacos de vidro, mas adivinha só: Eu não vou"
"Vamos lá, eu sei que você quer"
"O caralho que eu quero. Pode sentar sozinho. Aproveita e fica por aí."
"Ok, então."
Ela telefonou pra um táxi, que chegaria em vinte minutos.
"Tem certeza que não vai sentar comigo?"
"Tenho, babaca."
Então, subitamente, ele a derrubou no chão.
"Porra, vai se foder. Qual o seu problema, afinal?"
"Você. Você é a raiz de todos os meus problemas, e ao mesmo tempo, a solução. Irônico, não?"
"Agora eu estou suja de lama"
Ele gargalhou e ela ficou levemente corada, algo praticamente imperceptivel através dos grossos pingos de chuva que caiam cada vez mais ritmadamente.
Ela o encarou, com um misto de raiva e tristeza. E chorou. Outra coisa que geralmente ficaria imperceptivel em uma noite chuvosa. Mas não pra ele.
"Não chore. Não vá. Fique."
"Eu... Não posso"
"Fique."
"Mas..."
"Fique."
E ela ficou. Ficou por mais tempo do que imaginaria. Ficou pra beijos e abraços, tormentas e amassos, brigas e risadas, e ficou feliz por ter ficado.

Amor é... Amor.

"If you love me, won't you le me know?"

Amava. Amava até com pronome obliquo em começo de frase.Amava com letra minúscula. Amava em tiops. Amava como nunca amou. Amava como nunca fora amado, mas com a intensidade de quando fora partido. E como quando fora partido, doía. Sangrava e manchava os pulmões de vermelho. Escorria pelos orgãos, pintando tudo com o escárnio e deixando uma cicatriz pegajosa e infima, mas que aria como o inferno. Naquela tarde pincelada pelos raios dourados do sol de final de verão ele podia sentir o sangue fervilhando e cozinhando ao som das suas próprias lamúrias molhadas. Sentia como se estivesse a alguns metros do sol. Queimando cheio de algo misterioso que se desfazia em águas revoltas e em essências esquecidas. Na sua própria essência esquecida. Apertava o ferimento, e sangrava mais, pingando na superficie amarelada do sol. E o ferimento se rompeu, trazendo a tona seu coração. O coração, o qual, tão cheio de remendos dava pena. Dava pena dele, e pena de quem ele estava sendo pra ela. Era um pouco tarde demais. Enterrou seu salto no pobre coração. Tarde demais.

Hold Me Tight.

"So hold me through the night, you'll be unawere, if you need me, I'll be there."

O colchão estava molhado. O gato miava, completamente alheio ao pequeno embrulho no colchão. Um coração pulsava, quente como novo. Pulsava pequeninho. E o outro pulsava grande, bem ao seu lado. Mas variava. Ficava na dele, batendo cada vez mais devagar. Batia e parava. Tum. Silêncio. Tum. Silêncio. Tum. Silêncio. Ambos batiam em harmonia, as vezes mais baixo, as vezes mais alto. Esse coro as vezes se misturava e se perdia nas buzinas do trafego agitado das manhãs barulhentas de Manhattan. Perdia-se com as almas corrompidas de policiais e bandidos, mendigos e hérois, deixados no limbo ou esquecidos aos sol para queimarem. Esses dois corações pulsantes temem e sofrem, esperando acordar ou jamais fazê-lo, e perseguem esse objetivo cegamente, com medo de desistir de si e deixar-se pra trás.

Would You Be Mine?

"Well it's a big, big city and it's always the same, can never be too pretty, tell me you name. Is it out of line, if I were simply bold and say would you be mine?

Mãos. O esmalte vermelho-fosco dela se destacava nas costas da mão esquerda dele. Pés. Andavam de modo quase que automático, quase que sincronizado. Batiam no asfalto com leves estalidos tímidos. O sol anunciava que o fim de tarde estava chegando O vento batia nos cabelos dela, assanhando a franja. Ele olhava para os pés, como de costume. Ela olhava pra ele. O barulho dos carros, motos, pessoas e vidas enchiam o ar. Ele parou pra amarrar os sapatos. Ela encarou o horizonte. Imaginava coisas. Coisas que a apraziam, de certo modo. Desejos. Ela a abraçou e tomou-a pela cintura. Andaram assim por alguns minutos. Ele sentou-se no meio fio e olhou os carros passarem. Ela gostaria de ter feito o mesmo. Ao invés de fazê-lo, ficou em pé, encarando os negros cabelos dele. Sentia o coração ribombar fortemente contra o peito. Tudo que ela queria era perguntar se ele seria dela, e só dela pra sempre, ou pelo menos enquanto o pra sempre durasse. Não tinha coragem. Se perguntava se algum dia teria. Ele havia se tornado frio e bastante distante nos últimos dias. Faltava algo entre eles, algo que já havia existido, mas que tinha escapado das mãos abertas deles, algo que não mudou, mas que de certa forma se metamorfoseou, se transformou, e que, em tão pouco tempo, foi embora do mesmo modo que chegou.

Oh My

"I'm not pretty, isn't it a pitty?"

O céu encheu-se de estrelas demasiadamente grandes para ocuparem somente os lugares que lhes foram designados. Em baixo, no cais, com os pés na água, um corpo deita-se e observa as estrelas. Procurando algumas respostas nelas, por mais esparsas ou deliberadas que fossem, ainda seriam respostas. Em algum tempo amanheceria, e do que ela mais sentiria falta era da forma que ele lhe cumprimentava todo dia. A lua estava cheia de um modo que parecia pronta a irromper em algo decididamente novo. Bom ou ruim de fato era indefinido, mas realmente novo.

"You love me but you don't know who I am"
He said. I told him to shuvle it into his fucking ass.

Ninguém Veio.

O jantar está frio e ninguém veio. É engraçado como as pessoas andam sozinhas quase sempre e se mostram tão dependentes de alguém. O conceito de depêndencia também é engraçado. Assim como muitos conceitos. O de amor, de dor, ardor, vida e coisa e tal. O amor dói, mas doa o que doer, é muito pior viver sem ele. É como uma grande ferida aberta que nunca se fecha. A dor, tão cruel, complementa o amor. Amor dolorido, as vezes sem um porquê, as vezes sem rumo e sem os pés no chão. A dor coloca os pés dele no chão, na verdade, nas brasas. E queima. E acaba provocando o ardor. Talvez por alguns segundos, talvez por mais. Escondido por trás da ferida ou do esparadrapo, geralmente atrás do pudor. A vida descansa na cama, deixando-se levar. Espera que alguém a acorde e está pronta pra despertar. E tem a coisa e tal, que acaba sendo a mesma coisa que o tal e coisa. O jantar estava frio, e ninguém o comeu. Ficou a noite lá, pairando no ar, como palavras não ditas, pedras não atiradas e vidas imaculadas. Quando finalmente foi jogado fora, levou junto a ferida, a cama, as brasas e o esparadrapo, deixando algo insólito demais pra continuar pairando.

Leave Me A-L-O-N-E

Estando em posição de pedir, deixe-me em paz. Por que te deixar em paz? Porque a minha paz de espirito não tem preço, senhor. Não quero comprá-la, só quero entender o que te leva a essa decisão. Amor, meu senhor. E amor mata? Mata sim senhor, falta dele. Minha querida, não te jogas, que pra tudo nesse mundo tem solução. E você não te metes, querido, que por tua culpa me jogo. Nunca pedi a ti pra fazê-lo. Nunca precisou. Mas o que passa contigo para tão drástica decisão, querida? O fato é que acabou, e acabando, meu coração partiu, e não há esparadrapo que cole. Não pule. Não insista em pedir-me tal coisa. Amor. Me ame. Não dá. Adeus.

Eu Não Gosto De Ninguém

“Mesmo que eu pudesse controlar a minha raiva, mesmo que eu quisesse conviver com a minha dor, nada sairia do lugar que já estava, não seria nada diferente do que sou”
Caiu no chão. Tudo estava girando.Tentaram ampara-la. “Eu não gosto de ninguém. Então, solte-me.” Ela dizia, e se levantava sozinha. Depois de quinze shots de tequila, era normal cair. Mas não era isso que a corroia. Não, não. Coisa muito menos finda, muito menos longe da realidade do que o álcool. Caiu do barco. Na verdade não caiu, mas deixou cair, e foi como se a sua alma caísse e ficasse por lá, molhada e perdida na imensidão azul do mar. Na verdade, foi pior do que deixar cair. Empurrou. Quis deixar cair, em um rompante insano de fúria, deixou e por alguns instantes nublados não sentiu culpa. E essa ausência de culpa, de poder e pudor a deixou desamparada como nunca ficara. Eles sangraram. Ela estava penando agora por isso. Eles sentiram por uns instantes, mas ela iria sentir a vida toda. Não conseguia entender por que a afetava tanto. Eram apenas quase desconhecidos em um barco, como muitos outros que ela empurrou de várias maneiras e lugares diferentes. Mas tinha algo de esquisito e especial na face deles, algo bizarramente tenebroso que a fez gemer por dentro, e quase perder o prazer que toda aquela carnificina lhe provocava. Um prazer extremamente pessoal e doentio. Não gostava de ninguém, e ninguém nunca gostou dela, desde os tempos mais remotos, onde tudo era mais uma questão de repulsa e opinião até agora que seus delírios apontavam para algo maior. Estava absolutamente perdida. Remorso. Que sensação estranha. Seria a primeira e última vez. Jamais iria se permitir abrir daquele modo. E pra isso, teria que empurrar a si mesma, e não de modo metafórico. Teria que parecer algo que não fora planejado. E assim, acabou.

Ode To Joy

Alegria. Que coisa incerta. Simplesmente incerta. Insípida. Incolor. Inexplicável. Irrecuperável. Inestimável. Eu poderia achar muitos adjetivos com "I" para a palavra "alegria", mas não é exatamente sobre isso que eu quero falar nesse post. Eu quero falar da alegria de uma lágrima. Da alegria clandestina. Da alegria que você não sabe que sente ou faz alguém sentir. Quero falar de mim e de vocês (se é que alguém está lendo meu post). Algo que vem mais de dentro pra fora do que de fora pra dentro. Alegria. Sete letras. Com um significado tão grande. Felicidade. Proporcionar isso a alguém esquenta você por dentro. Não como auto-imolação, mas como se uma pequena chama estivesse cozinhando lá dentro. Isso pode até ser clichê. Mas sendo clichê ou não, foda-se. Eu estou sentindo algo como isso agora. Algo que me faz sentir viva. Que me dá vontade de sair correndo e gritar pra todo mundo escutar. Eu faço alguém feliz. Eu tenho essa capacidade, quase que uma dádiva. Eu faço alguém feliz. Mais do que alguém. Faço algumas pessoas felizes. E recementemente descobri que faço uma quase-desconhecida feliz. E isso me deixa inesperadamente feliz. Feliz como se eu não tivesse nada a perder. Feliz como se um raio de 500 voltz estivesse percorrendo o meu corpo. É como eletricidade. Um sentimento muito novo pra mim. Na verdade, eu o sinto fazem duas semanas, aproximadamente. Culpa de um cara. Mas agora, a intensidade disso cresceu. Eu faço alguém feliz. Alguém me faz feliz. A eletricidade ainda me percorre. Alegria. Felicidade. Gosto de me sentir assim. Vou fazer o possível para que nunca mude. Paixão. Voracidade. Joy.

Twelve Of July

Então, esse dia é realmente um dia esquisito. Um dia que você não sabe exatamente o que fazer, ou como agir. A maioria das pessoas nem tem com quem comemorar essa data. Tem amigos, parentes. Mas não tem o que o dia propõe, que é um namorado. Alguns se sentem rejeitados por não terem um namorado. Outros não ligam. E outros mandam tudo pra o inferno e saiem com os amigos pra ver filmes de terror. O fato é que o dia dos namorados não passa de puro maketing. Assim como várias datas comemorativas. Como é que um golpe de marketing afeta tanto as pessoas assim? Simples. A solidão desse dia. O que representa estar sozinho em um dia criado para se celebrar o amor ou paixão de duas pessoas, sejam elas do sexo oposto ou não. Sejam gays, bisexuais, ou héteros, ninguém quer estar sozinho nesse dia. Quer estar com quem se ama. Segurando mãos. Dando beijos e abraços. Entregando presentes. Aproveitando a companhia. Vivendo os momentos. E todos preferem estar com alguém especial, alguém que vá fazer esse dia ficar especial. Sejam eles amigos, namorados, ficantes, ou até seu cachorro. Confesso que eu gostaria de passar o Dia Dos Namorados com o meu ficante. Mas ele terá que viajar. Eu respeitarei isso. Não sou de fazer escândalo. Desde que depois eu possa estar junto dele, sentindo o cheiro dele, acho que tudo ficará bem. Estar sozinha nesse dia não é nada demais. Significa que você AINDA não arranjou alguém pra aproveitar. Estamos todos fadados a encontrar esse alguém. Ou talvez não. Não sei. Não sei de mais nada. Na verdade, não estou me aguentando. Feliz Dia dos Namorados, queridos. Boa sorte.

Liberdade

Então, rececentemente tivemos essas discussões na aula de português sobre esses tópicos aleatórios. E um tópico escolhido foi a liberdade. Pra mim, liberdade é muita coisa.
Libertinagem. Ausência de autoridades. Ausência dos pais. Sexo. Drogas. Rock 'n' Roll. Fazer o que você quiser fazer quando você quiser fazer. Ouvir música alta. Se libertar. Sair do cotidiano. Passar a perna no sistema. Mandar essa merda se foder. Pintar o cabelo. Pular a janela. Pular a cerca. Comer no quarto. Usar o computador escondido. Matar aula. Burlar as regras. Pular. Dançar na chuva. Usar sapatos coloridos na escola. Dormir até tarde. Se acabar em uma festa. Sair de casa. Ligar pra alguém. Tomar coca-cola. Andar de ônibus. Tomar sorvete com chuva. Se beijar na frente de muita gente. Escapar de si mesmo. Andar no meio-fio. Dirigir. Comprar bebida. Beber. Ir a festas. Usar emoticons. Comer chocolate. Beber wisk com coca-cola. Ouvir Beatles. Aumentar o som até os seus vizinhos reclamarem. Andar de skate, bicicleta, patins, patinete, ou correr. Sentir o vento nos cabelos. Amar. Não amar. Se contrariar. Dominar a situação. Não dominar. Deitar na grama. Rolar no chão. Tomar banho de piscina. Mergulhar de cabeça no mar. Sentar na areia. Dormir na aula. Roer as unhas. Printar coisas no MSN. Escrever. Sorrir. Fazer alguém sorrir. Olhar o sol se pôr. Sair com os amigos. Pintar a parede. Redecorar seu quarto. Ler antes de dormir. Dormir de luz acesa. Ver TV. Assistir a copa com os amigos. Jogar Banco Imobiliário. Comer pão-de-queijo enquanto vê a chuva cair. Ver a chuva cair e o sol surgir. Ir ao médico. Compor. Testar sua paciência. Xingar bandas coloridinhas. Perder no poker. Fazer criancices. Crescer. Namorar. Ficar. Virar a noite. Se sentir uma criança. Dormir fora. Fazer festas do pijama. Brincar de barbie. Fazer vídeos. Tirar fotos. Ser feliz. Liberdade. Ar fresco.

domingo, 10 de outubro de 2010

Desculpa

Então, desculpa, gente.
Ainda estou sem computador pra postar, apesar de ter milhares de textos pra postar aqui. Quando puder, posto.
Beijos, pra quem quer que me leia, se é que alguém me lê.

domingo, 12 de setembro de 2010

Parque das Dunas


Acho que ficar sozinha em um parque, às três e meia da tarde, quando o mesmo está fechado, não é exatamente o tipo de programa realmente especial que uma garota gostaria de fazer. Não é realmente o programa especial que NINGUÉM gostaria de fazer. Fiquei sentada no sol por algum tempo, olhando para o lado em que a luminosidade vinha, por que era esse o lado o qual supostamente viriam os carros das mães das minhas amigas. Muitos carros passaram. Nenhum conhecido. Os minutos correram. Acho que fiquei sentada lá mais tempo do que eu posso contar, com o sol na minha cara, esperando. E doente, eu estava doente. O guarda com uma farda do exército me perguntou se eu queria entrar, e eu aceitei. Entrei e sentei-me na calçada que dividia a rua por onde alguns carros do exército entravam e o posto onde geralmente se compravam as entradas para o parque. Aparentemente, nas segundas o parque só abria para pessoas que praticavam cooper. Eu não praticava cooper. Natália não praticava cooper. Malu não praticava cooper. Ninguém praticava cooper. E pensar que eu fiz a mãe de Eric me levar até lá pra absolutamente nada. Certo, eu não a fiz me levar, ela quis me levar. Eu até a pedi pra não me levar. Mas mesmo assim. Pra nada. “O que você está fazendo aqui, em uma segunda feira de sol, sentada no meio fio, com uma bolsa enorme e um livro?” O guarda parecia ser do tipo amigável, e estava sendo um pouquinho inconveniente, já que eu estava bastante absorta no livro que eu estava lendo e nos meus pensamentos mais profundos sobre as coisas mais aleatórias. Despertei desse tipo de transe que eu entro às vezes. É realmente involuntário. “Eu ia me encontrar com as minhas amigas. Aparentemente elas estão atrasadas.” Respondi, sem desviar o olhar para ele, mas marcando o livro com o dedo, apesar de saber exatamente a página que eu estava, 121. “Parece que as suas amigas não vem” Atestar o óbvio é realmente deprimente. “Eu estou vendo. Sabe, esse livro me irrita. Tem tantas percepções do amor que realmente me aborrecem.” Ele me olhou com curiosidade. Garotas de 14 anos geralmente não tem exatamente percepções do amor aborrecidas ou que não tenham nada a ver com um vampiro brilhoso e idiota. “Por que você se aborrece com essas perspectivas do amor?” Ele parecia realmente interessado. “Ah. Por que eu não acredito no amor.” Isso o surpreendeu. Discutimos o assunto. O qual, na verdade, era um assunto realmente esquisito pra se conversar com um cara do exército que estava tomando conta do parque nas segundas e das pessoas que faziam cooper. Não era um assunto convecional, na verdade. No fim, acabamos conversando durante meia hora, ou mais. Estava ficando escuro. “E então, você não vai pra casa?” A verdade é que eu não tinha dinheiro. “Eu, bem, não tenho dinheiro pra pegar o ônibus até o natal shopping. Ia pegar carona pra lá com a minha amiga, que não veio.” “Onde você mora?” “Em piau. Em uma fazenda” Ele ficou estupefato. “Eu tenho família em Arez. Seu pai é Alexandre?” Eu sorri. “É sim.” Ele sorriu. “Eu o conheço. Quer saber? Tome, dois reais, pra você pegar o ônibus.” “Eu não posso aceitar.” “Pode sim. Vá e chegue bem em casa” Eu agradeci, mas nunca soube o nome dele.

sábado, 11 de setembro de 2010

Ele Não Está Tão Afim De Você


Então, aqui vamos falar de caras que não estão tão afim de você.

Se ele não te liga:
Aqui é a caixa postal do Aaron. Deixe a sua mensagem e me deixe em paz.

“Er, oi Aaron. Já faz uma semana, e eu queria saber se você já voltou pra casa daquele congresso. Então, me liga. É a Melissa falando. Tchaaaau.”

“Aaron? Aconteceu alguma coisa? Por que você não retorna as minhas ligações? Me liga. Melissa”

“Aaron, estou ficando preocupada. Quando poderemos nos ver de novo? Melissa.”

“Já faz quase um mês. Você ainda vai me ligar? Se não, eu vou ligar pra o Kurt. Me avisa, por favor. Pra a gente poder marcar alguma coisa. Melissa falando.”

“Chega disso. Estou te apagando da minha vida, Aaron. Adeus. Melissa falando.”

“Eu estou tãaaaaaaaao bêbada. Eu quero você de volta, Aaron. Eu preciso de você. Agora, comigo. Me abraça? Nunca consegui ninguém depois de você, foste especial. Me liga, por favor. É a Melissa, sua Melzinha”
Quando ele termina com você:
“Não é você. Eu só não consigo lidar com o fato de que você é tão maravilhosa.” = ele é um imbecil.

“Não é você, sou eu” = Ele é um imbecil

“Preciso de um tempo só pra mim, estou passando por mudanças” = Ele é um imbecil

“Quero ficar sozinho” = ele é esquizofrênico

“Não estou pronto pra um relacionamento sério agora” = ele é um bebezão

“Você é demais pra mim” = Ele não te agüenta mais

“Acho que nós deveríamos ver outras pessoas” = “Eu vi minha vizinha gostosa ontem a noite, e, francamente, ela é a única pessoa que eu quero ver nas próximas noites”

“Vejo você como amiga” = você não beija bem

“Ainda podemos ser amigos” = Ou não

Quando ele te trai:

“Então, benzinho, eu tenho que te confessar uma coisa que me aconteceu esses dias”

“O quê, meu amor?”

“Lembra-se daquela vez que a gente brigou por causa dos seus ciúmes?”

“Sim, amor.”

“Então, naquele dia, Hanna, Cristal e Chantal me ligaram, queriam me chamar pra uma festa no quarto da Karen. E eu fui.”

Quando ele não te ama:

“Oh, querido, que filme romântico”

“Sim.”

“Está gostando?”

“Não. Vou comprar pipoca.”

2 horas depois

“E então eu disse que era uma idéia realmente estúpida”

“Quem é essa?”

“Ah, sim, essa? A Kristen. Conheci ela no balcão quando você estava vendo aquele
negócio estúpido no cinema. Eu e ela vamos ver O Massacre da Serra Elétrica. Tchau”

Quando ele mente:

“Eu te comprei flores, mas no caminho de casa, um cachorro as comeu”

“Juro que eu não a beijei, ela que veio pra cima de mim”

“Eu sempre te amei”

“No que eu estou pensando? Em como você é linda”

“Eu te amo”

“Se eu me arrependo de ter gastado meu dinheiro da aposentadoria nessa casa fria e
sem aquecimento? Em momento algum”

“Tudo que te deixar feliz, querida”

“Gorda? Você? Imagina.”

“Seu corte de cabelo novo é maravilhoso”

“Claro que eu quero conhecer seus pais!”

Tirem suas próprias conclusões.

Te quero tanto


“Tanto, é tanto, se ao menos você soubesse. Te quero tanto”

Tap. Tum. Tap. Tum. Tap. Tum. Tum. Tum. Tap. Tap. Tum. Tum. Tum. Em um ato desesperado, corria. Não queria mostrar fraqueza. Era demais. Continuou batendo os sapatos pretos da escola no chão cimentado do pátio. Provavelmente essa correria seria captada pelas câmeras. Foda-se. Continuou deixando o coração bater. Tum. Tap. Tum. Tap. Incoerentemente, correu até a porta branca da sala que deixou cinco minutos antes. Seria pego. O jogo estaria acabado. Foda-se. Não tirava da cabeça. Sorria. Não queria sorrir. Não queria ser pego. Não queria esquecer. Correr tirava tudo momentaneamente da sua cabeça. Não sentia mais as pernas. Foi para outra porta branca fechada. Era a porta dela. Inconscientemente andara até lá. Via o cabelo dela. A cabeça suavemente recostada na carteira. Estava dormindo. Aula de Química. Ligações covalentes. Estavam estudando ligações covalentes. Menos ela. Estava dormindo. Dormir. Era só o que ele tinha feito atualmente. Ela também. Tocou o sinal. Acabou a aula da qual ele fugiu. Aula de física. Correu escadas acima. Ia assistir aula de história. Gostava da aula de história. Deu uma última olhadela nela. Continuava imersa em sonhos.
Subitamente, levantou a cabeça e coçou os olhos. A aula de química tinha acabado, e provavelmente o toque a havia perturbado. Seu cabelo estava bagunçado, sua mesa vazia, sua maquiagem borrada. Mas ela estava linda. Linda como nunca. Não dava pra vê-lo ali, por causa da película aplicada no vidro da porta. Falou com alguém e sorriu. Sorrir. Tinha medo de que nunca mais fosse vê-la sorrir. Ela olhou para a porta significativamente. Não dava pra vê-lo, mas ela sentia seu perfume. Invadia suas narinas com a violência de um corte profundo. Tinha um corte. Que ele deixara. Um corte. Estava ali, pulsando. Sangrando. Não tinha como contê-lo. Ela queria estancar. Queria parar. Não conseguia. Doía. Como todos os cortes faziam. Ele, há essa hora, estava na sala, assistindo à aula de história, bastante concentrado. Ela levanta-se e vai até a porta. Corredor vazio. Um forte cheiro do perfume dele indica sua recente presença ali. Ela gostava de pensar que fora por sua causa. Não sabia. Fechou a porta atrás de si, e foi ao bebedouro. Voltou à sala. A próxima aula seria de português. Ótimo. Iria dormir um pouco mais. Recostou a cabeça na carteira e deixou-se levar, carregada por sonhos e embebida em esperanças.
Ele estava um pouco perturbado. Não queria ter que dizer o que tinha que dizer. Não hoje. Não nunca. Não estava preparado. Desconfiava que ela também não. Os ponteiros do relógio corriam. Ou talvez se arrastassem. Era difícil dizer. Ele queria que o intervalo chegasse, mas temia a hora que teria que falar, finalmente, o que precisava ser dito. Não era exatamente o que podia se chamar de decidido. Ou seguro. Ou muitas coisas requeridas para dizer o que tinha que ser dito. Sentiu enjôo. Sentiu algo queimando na boca do estômago. Não era amor.
Ela descia as escadas, pulando os degraus de dois em dois. Parou na frente da sala dele. Olhou-o por demorados minutos, até que o inspetor expulsou-a de lá e ela foi obrigada a caminhar até o pátio cinzento do primeiro andar. Comeu mecanicamente. Não estava realmente uma personificação da felicidade. Não precisava de um homem. Mas foda-se, ela queria. Estava tentando ser otimista. Sorria roboticamente. Sentia que algo ruim estava por vir. Não dormia faziam três noites. Não era sua culpa. O intervalo acabou. Subiu para a sala. Queria ele. De novo. Iria reconquistá-lo. Ou simplesmente ia chorar no travesseiro, do mesmo modo que fez nas três noites anteriores.
Ele fê-lo no dia seguinte. O travesseiro dela tornou-se seu melhor amigo. Ela queria tanto. Ele queria tanto querer também.

Alguém


Clichê, clichê, clichê. Foda-se. Mue blog, minhas regras u_u

Eu quero um que diga eu te amo sem medo. Eu quero um que fique feliz em me ver. Eu quero um que tenha opinião. Eu quero um que não idolatre uma menina estúpida. Eu quero um que não saiba como lidar comigo, mas aprenda. Eu quero um com o qual eu não saiba lidar, mas aprenda. Eu quero um que goste de mim pelo que eu sou. Eu quero um que não queira só sexo. Eu quero um que me respeite. Eu quero um que não seja surfista, não escute forró, não seja pegador, não seja imbecil, goste de ler, escute músicas decentes, veja filmes decentes, seja uma pessoa interessante. Quero um que não se submeta a tudo que eu digo. Quero um que saiba beijar. Quero um que seja que nem eu, de cuecas. Quero um diferente. Quero um que não se importe em ser chamado de diferente, esquisito, emo. Quero um que seja como eu quero, mas com um toque de rebeldia. Quero um rebelde nato e sem causa. Quero um descomplicado, desneurado, natural. Quero um que se importe menos com besteiras. Um que meus amigos gostem tanto quanto eu. Quero um que tenha um CD do Muse o qual eu possa roubar. Quero um que saiba o que eu quero. Quero um que me agrade e me desagrade, que me tire do chão, que me faça fazer esse coração de gelo bater mais forte. Quero um cara melhor do que você. Não quero mais te querer, quero algo melhor do que você.

sábado, 4 de setembro de 2010

O Cara Perfeito?

Que pergunta inexata hm
Perfeito em aparência? Em personalidade? Hm, certo, já que as duas se complementam, vou dar uma descrição mais ou menos satisfatória, por que me faltam palavras pra descrever isso. Ou não.
Tá, eu tenho uma tara por garotos loiros, mas talvez o menino perfeito não seja loiro. Mas, como eu disse, ele DEVERIA ser atencioso, e engraçado. Não exatamente engraçado, mas com piadas idiotas que me façam rir quando eu tiver perdido quase que totalmente a fé na humanidade, entende? Ele precisa me fazer sentir no céu mesmo que eu esteja indo pro inferno. Ele não precisa saber o que eu quero ou sinto, só saber que eu gosto de abraços, abraços verdadeiros, quando estou triste. Ele não precisa ser lindo, não precisa ser poético, não precisa ser estudioso, não precisa viver cego de nostalgia, não precisa de nada disso. Ele só precisa me abraçar. Não precisa fugir, mesmo que não saiba do que está fugindo. Ele precisa estar ali. Precisa ser honesto. Não precisa estar sempre certo, nem sempre perto. Só precisa estar ali. Não precisa ser perfeito. Só precisa fazer com que eu espere ansiosa pra vê-lo, e com que eu anseie por sua presença. Não precisa ser compositor, ou tocar instrumentos. Só precisa ter um bom gosto musical. E por fim, não precisa amar todo mundo, não precisa ser vegetariano, não precisa ser anarquista, não precisa querer salvar o mundo, não precisa ser politicamente correto, não precisa ser rico, não precisa ser nada. Só precisa ser o cara certo pra mim. Por que eu cansei do incerto, do talvez, e do não. Eu só preciso tomar um chá e limpar o coração. E então, deixar rolar. Portanto, é assim que seria um cara perfeito pra mim.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Whistle For The Choir

"And I must confess, my heart's broken pieces and my head's a mess"

Estava completamente cheio dessas pessoas irritantes de nova york. Naquela porcaria de boate não tocava nenhuma porcaria de música decente nessa porcaria de noite idiota. Essa droga de música eletrônica só serve pra dar dor de cabeça, e estragar o que mestres como Hendrix levaram uma vida pra criar: música de verdade. E essas porcarias de pessoas que frequentam essas boates só se preocupam com coisas realmente irrelevantes pra todo o resto da humanidade, como as suas mini-saias e seus malditos carros de merda que tocam coisas como 50 Cent. Por que eu venho a esses lugares, então? Por dois motivos: O primeiro motivo é realmente muito simples: Eu não tenho vida social. Eu ando nessas boates por que eu não tenho praticamente nenhuma vida social, e ir lá com pessoas normais pra variaar deixa meus pais mais que felizes, já que eu estou fazendo algo normal. E o segundo motivo é realmente mais smples ainda: Não tendo vida social, eu não tenho nada pra fazer as sextas a noite, quando todo mundo sai. Portanto, eu me submeto a essa tortura quase que diária, por que, sejamos sinceros e nada modestos: Eu sou um aluno brilhante. E ser um aluno brilhante significa conseguir absolutamente tudo que eu quiser com meus pais. Portanto eu venho a esses lugares sempre que eu quiser. Não que eu goste de estar aqui, nem nada. Eu só não tenho nada melhor pra fazer. E antes que você me ache o maior bossal, deixa eu dizer uma coisa: Como eu não tenho vida social, eu estudo. Estudando, eu me transformo em um aluno brilhante. Portanto, isso é matemática básica. CARA, ESTÁ TOCANDO MUSE. PORRA, ESTÁ TOCANDO MUSE. FINALMENTE ALGO QUE NÃO SEJA UMA MERDINHA TOTALMENTE FABRICADA QUE NEM A PORRA DA BRITNEY SPEARS. Metade da boate fez cara de nojo, e saiu. AAAAAH, ELES SAÍRAM DA MINHA VIDA. FINALMENTE. Está tocando Supermassive Black Hole. Eu amo essa música. E parece que a garota que está em alguns metros de distância de mim e está gritando em plenos pulmões a letra da música também gosta de Muse. Mas isso é só um palpite. Não é como se eu fosse chegar nela e falar alguma coisa realmente idiota, do tipo "Hey, eu vi você praticamente estourando meus tímpanos cantando Muse. Será que você gosta dessa banda?" É tão ridiculamente óbvio que ela gosta de Muse que só um retardado cego e surdo não percebeu. E sabe do que mais? Eu não vou ser o retardado imbecil que vai chegar com aquelas cantadas de pedreiro nela. Não mesmo. E daí que ela é linda pra caralho, não está de mini saia, não é loira, não tem esses olhos azuis que, hoje em dia, qualquer um tem, não tem essas unhas obviamente falsas, gosta de Muse, parece ser realmente legal, e usa essas roupas muito legais? Tá, não existem muitas dessas pessoas por aí. Mas quem liga? Eu provavelmente só iria levar um fora de proporções endêmicas e iria pra casa, sozinho, deprimido pra caralho. Que porra, nem falei com ela e já estou deprimido.Eu devo ter algum problema crônico, sério. E claro, eu sou realmente um idiota pragmático, mas foda-se, o que eu posso fazer? Tá, talvez eu fosse simplesmente levar a porcaria de um fora, mas sinceramente? Who gives a shit? Eu fui até o bar, onde, graças a deus, eu podia beber um pouco. Eu estava realmente precisando de uma bebida. E cara, sabe qual a melhor parte? Eu posso beber. Não preciso ficar dando uma de boiola pra ver se o barman gosta da minha bunda ou coisa assim e finge que eu tenho vinte e um. Eu fiz vinte e um anos semana passada. Se foderam, otários. Será que tem tequila? Tem. Acho que alguém ouviu minhas preces. Porra, sete dólares um copinho do tamanho de nada? Foda-se, o dinheiro nem é meu, mesmo. Enquanto eu estava bebendo a minha tequila vagarosamente, por que essa porra custou sete dólares, ela se encostou no balcão e pediu alguma coisa na qual eu não prestei a mínima atenção. Provavelmente me fazer de difícil ou qualquer que seja a merda do tipo que as mulheres fazem não vai dar certo, já que ela parece ser o tipo de pessoa que está pouco se fodendo pra metade do mundo. E quer que a outra metade vá se danar. Portanto, eu me virei pra ela, e fingi que ia começar uma conversa. Eu não tinha absolutamente nada pra comentar sobre porra nenhuma. Eu não tenho vida, não tenho assunto, não tenho praticamente nenhum amigo. Tudo que eu tenho é uma porra de uma guitarra, umas partituras, e um carro. Digo, tudo que eu tenho de interessante. Também tem a minha coleção de CD’s, e minha biblioteca particular. Eu não sou a pessoa mais interessante do mundo, na verdade. Ela foi se afastando do balcão com um drink, e eu quis segurar tanto a mão dela, que o fiz, inconscientemente. E eu acho que foi a coisa mais estúpida que eu fiz a minha vida toda. Ou talvez não. Ela virou pra mim com uma cara meio enfurecida. Porra, ela era linda pra caralho. – Será que você se importaria em soltar a porcaria da minha mão pra eu poder voltar e ver as únicas músicas decentes que estão tocando a porcaria da noite toda? – CARALHO, ELA CONCORDA COMIGO, não acredito. – Então você gosta de Muse? – Coisa idiota pra se dizer, eu sei, mas eu não sou exatamente um expert nisso. Os olhos dela brilharam com uma intensidade do caralho, provavelmente admirada que eu não fosse um playboyzinho de merda que só estivesse querendo conquistá-la com o meu sorriso sedutor ou coisa assim. – É, eu gosto de Muse. E amo essa música. Minha mão, por favor. – Eu não sei o que deu em mim, sério. Eu puxei a mão dela para a pista de dança, a qual estava quase completamente vazia, e, sem mais nem menos, a puxei para uma valsa. Eu sou uma daquelas pessoas que deveriam sofrer uma lobotomia, ou ser tratado com tratamento de choque, por que eu vou te contar, eu tenho algum distúrbio BEM sério. Ela sorriu. Eu achei que ela ia me achar um retardado pombão que nem eu estou achando que eu sou, mas acho que ela achou fofo. Por algum motivo realmente escroto, Resistance parou de tocar, e começou a tocar Lil Wayne. Porra. Ela fez uma careta digna do momento – Caralho, boy, puta que pariu, VÃO SE FODER. – Ela gritou alto o suficiente pra a boate toda escutar, e depois ELA me puxou pra fora da boate, em meio a risos nossos. – Então, você agora supostamente vai me abandonar aqui fora e ir procurar um cara gostoso e interessante ou vai ir a pé comigo até algum lugar randômico que toque música boa? – Ela deu um muxoxo. – Você não tem um carro? Andar a pé é tão cansativo. AAAAAAAAh, mas eu gosto de andar a pé, posso dizer ao meu pai que fiz exercício, por que ir pra academia é igual ser embebida em óleo e jogada na frigideira, vou te contar. Sedentarismo é o que há. – Eu concordei com a cabeça – Eu tenho um carro, na verdade. Mas eu vim a pé, estava com uma preguiça quase mórbida de ir até um posto de gasolina, fora o fato de que eu sou pobre. – Ela gargalhou. Aposto que já tinha bebido umas. – Eu sou pobre, também. Digo, estou. Mamãe tirou meu carro depois que eu o bati a terceira vez. – Acho que estamos mais ou menos no mesmo barco, então.- Outra coisa idiota pra se dizer – Ah, é? Pra onde vamos, então, capitão? Haha, rimou. – Ela sorriu com a rima quase forçada que fez, e me fez sorrir também. – Não sei, é uma cidade grande pra caramba. Estamos em NY, poxa. Aliás, me diz seu nome? – Ela fez uma mesura demasiadamente exagerada, e sorriu. Tomara que ela não seja do tipo de pessoas que só sorri o tempo todo, essas pessoas me assustam pra caralho. – Meu nome? Rosemary. Odeio meu nome com todas as minhas forças, na verdade. Só consigo apelidos toscos com um nome como Rosemary Beatrice Winder. Winder, cara. Parece vento. E o seu nome, sweetie? – Ela sorriu de novo. – Meu nome é Andrew Leonard Graff Rabbit. Sim, meu último nome é coelho. Um tanto ridículo. Mas eu gosto de Graff, é um sobrenome legal. – Só parei pra reparar que ela estava sem os sapatos agora. Estava com eles nas mãos, um vestido esquisito pra uma boate, todo branco, e comprido. Uma maquiagem suave. Uma bolsinha pequena, com uma abotoadura dourada. – Cara, de onde você veio? – Ela não sorriu dessa vez. – Do maior quase erro da minha vida. – Ela segurou a ponta do vestido, que a estava incomodando. E puxou o corpete do vestido. – O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO? – Berrei pra os parcos bêbados que circundavam o local escutarem. Não exatamente pra eles escutarem, mas foda-se, berrei tão alto que até eles escutaram –Tirando isso. Será que dá pra me ajudar? – Ela era, definivamente, absurda. Absurda de um jeito esquisito, do tipo loucamente absurda. – Pronto, assim está melhor. Aquele treco estava me apertando. – Ela estava com uma blusa rosa bebê, um jeans e descalça. – Você é LOUCA? Que tipo de noiva vai para o altar com uma blusa e um jeans? – Ela jogou os sapatos de salto na lixeira mais próxima e ficou parada a encarando, decidindo se jogava o vestido lá também. – O tipo de noiva que definitivamente não quer se casar com um idiota metido a gente que os pais escolheram, e que decide que vai abandoná-lo no altar. Esse tipo de noiva. Eu jogo essa porcaria de vestido fora ou o dôo pra alguém? – Espere. Ela tinha acabado de fugir do altar? Quantos anos ela tem? – Depende. Você ama esse cara ou não? Se não, joga fora e dane-se quanto dinheiro dele ele colocou nisso. – Ela deu um sorriso de canto dos lábios e tacou o vestido na lixeira. – Eu não sou tão velha. Casar, veja só. Vinte e três anos, acabei de sair da porcaria da escravidão que é a faculdade e minha mãe vem com essa? O cacete que eu ia casar com ele. Pouco me importa se ele é rico. Depender de homens é pra as fracas. – Ela andava com fúria. Era engraçado, até. E a voz dela ficava rouca quando ela ficava com raiva. – Eu percebi que você usa bastante a palavra “porcaria”. – Ela riu. – É, eu uso. Não sou a maior fã de palavrões. Tá, mentira. Eu gosto da ênfase que “porcaria” dá. Tipo, porcaria é tão poético. Ou não. Mas que seja. – Ela pegou algo no chão – OLHA, UMA MOEDA. Que lindo – Eu estou me perguntando se eu escolhi a única pessoa psicótica esquisita e com medo de relacionamentos do bar, ou se eram todos assim – Cara, você é completamente maluca. Completamente. – Ela estacou no chão e gritou – PORRA, MERDA, CARALHO, UM VIDRO NO MEU PÉ – Que gentil. Eu me sentei do lado dela para ver o vidro. A faculdade de medicina tem que servir pra alguma coisa, por que médico é que eu não vou ser. O vidro tinha entrado bastante, e eu via a vermelhidão da planta do pé dela aparecer, era o sangue contido pelo caco. Delicadamente, eu tirei o caco, tirei meu tênis, e fiz um curativo com a minha meia pra ela. – Veja se você sente agora. – Apertei um pouco a meia/curativo, e ela gemeu. Em segundos, ela estava se debulhando em lágrimas. – O que foi? – Será que a culpa tinha sido minha? – É que eu não consigo me lembrar da última vez que alguém foi legal assim comigo, e agora eu sou uma fracassada qualquer que está chorando feito uma imbecil no colo de um quase completo estranho, foragida da própria casa e da porcaria de vida comum que as pessoas costumam ter. – Ela enxugou as lágrimas com as costas da mão, a qual eu peguei. Enxuguei as lágrimas que restaram com a minha própria mão, e encarei a maquiagem borrada dela. – Calma. Tudo vai dar certo, Mary. – Ela sorriu como antes, e levantou. Puxou meu braço e disse, baixinho, como um segredo, como algo meu e dela, o que me arrepiou. – Mon coeur s’ouvre a ta voix – E continuamos andando. Mon coeur s’ouvre a ta voix. Eu já escutei isso em algum lugar. MUSE. I BELONG TO YOU + MON COEUR S’OUVRE A TA VOIX. Meu coração se abre ao som da tua voz. Sim. Eu peguei o significado. Ela começou a correr por entre os becos de NY, e eu corri atrás dela, com um gosto diferente da vida. Uma vontade diferente de viver, um tipo de gosto amargo, agridoce, e faiscante percorrendo meu corpo, transcorrendo pelas minhas veias. Uma sensação de vida, de alcance. De poder. De conseguir. Talvez eu seja um pedinte imundo e você seja a rainha, talvez eu seja um valete qualquer e você seja a dama. Sinceramente, uma garota que nem você é simplesmente irresistível. Cara, praticamente todas as luzes dos prédios estão apagadas, deve ser realmente muito tarde. Foda-se, como se eu me importasse. – Então, pra onde você quer ir? – Ela se vira subitamente pra mim, que dou de ombros. Desde que eu esteja com ela, vou até a porra do inferno.

sábado, 26 de junho de 2010

Into Your Arms


O portão sinalizava para que adentrasse. Estava esperando. Não sabia se deveria esperar. Não tinha certeza do que sentia. Sempre fora completamente confuso, e demasiado complicado, mas parecia ter encontrado alguém que entendesse isso, e que fosse tão complicado quanto a si próprio. Às vezes sentia-se desconfortável com a sua presença, como se ela soubesse demais, mesmo que não tivessem contado nada. Incomodava. Mas supunha que isso fazia ele se sentir aceso por dentro, queimando como a chama recém acesa de uma vela, querendo mais de si e do mundo. O coração dançava em suas mãos, por que do peito havia saído a tempos. Um vulto encasacado entrou no recinto, mesmo com o calor infernal que impregnava a cidade. Ele sabia quem era. Perguntava-se por que ela perdia seu tempo com ele, não é como se ela não fosse a voz que está na cabeça dele. Ecoando, e repetindo coisas que ela já disse, como se ainda fossem verdade. Apesar de tudo, sentia vertigem. Um legítimo medo de cair. Cair de algo incerto. Ela não o seguiria até o escuro. Não sabia onde tinha errado, perdeu um amigo. Uma amiga, na verdade. Enquanto ela chegava mais perto, ele observava. Os cabelos dela voando, os peitos dela balançando na blusa preta decotada, os sapatos batendo no chão com um estalido falso, o casaco aberto farfalhando junto ao corpo dela, as unhas vermelho-escuro brilhando, os olhos tapados por um par de óculos de grau realmente grande, e o batom tão vermelho quanto às unhas cintilando. Conforme ela ia se aproximando, a nuca dele ia ficando suada. Ele deu um sorriso nervoso. Ela não estava encarando ele. Estava olhando para frente, com um olhar mecânico, como se tivesse que olhar pra frente. Ele sentia bichinhos no estômago. Borboletas. Que fosse. Ele queria se jogar nela e nunca mais soltar. Por mais gay que isso pudesse parecer. Ela continuava andando como se tivesse um prazo a cumprir, uma missão, algo realmente importante. Por alguns segundos, ele pensou ser essa missão importante. Ele não conseguia ver o que ninguém conseguia ver em ninguém além dela. Ela não parecia ver, nem sentir, nem nada do gênero. O telefone dele começou a vibrar no bolso, e ele o pegou gritando Rock You Like A Hurricane, do Scorpions. Ele o pegou com a mão trêmula de nervosismo. “Alô?” Ele disse, com a voz tão trêmula quanto as mãos. “Eu estou te vendo. Vem até aqui, por favor.” Ele assentiu com a cabeça, sabendo que ela estava vendo. Ele queria sair correndo, mas conteve-se. Conteve-se por medo do ridículo. Conteve-se por medo de errar. Conteve-se por medo do que ela ia pensar. Parou por alguns segundos na frente dela. “Bon Voyage” Ela disse. Passou o dedão na bochecha dele, a unha cintilando como sangue escorrendo por sua face. Ele assentiu. Ela tascou-lhe um beijo. Ou ele o fez. Nenhum dos dois tinha certeza. Pararam por alguns segundos, para ouvirem suas respirações. Respiravam longamente, com uma pitada de medo e insegurança. Continuaram ali, se beijando e apoiando um ao outro atrás do quiosque de café. “Última chamada para o vôo 37589 com destino á Praga.” Separaram-se. Ela lhe deu um olhar profundo e penetrante. E sem mais nenhuma palavra, saiu. Bateu seus saltos duramente no chão do aeroporto, e ele, como bobo, só pôde observar ela ir embora enquanto se atrasava para o vôo. Não suportava essa idéia. Não suportava a si mesmo. Não suportava nem a chuva que batia incessantemente no telhado, fazendo barulhos estrondosos e inoportunos.
TRIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIM
O despertador tocou. Lembranças assolavam-lhe os pensamentos. Lembrava do sonho. Parte dele fora real. Parte dele não. Jamais teria alguém assim esperando por ela. Talvez fosse só pessimismo. No fim das contas, quem andou para fora da vida dela fora ele, e não o contrário. Resolveu acordar, amarrar os cabelos, e fingir que não tinha chorado até pegar no sono. Decidiu ir para aquele lugar, agüentar aquelas pessoas, tudo para tê-lo por cinco segundos que fossem. Ou para ter mais alguém. Era só o que restava. Entorpeceu seus sentidos e se preparou para mais um dia. Tinha uma grande frase de impacto. Não ia usa-la. Tomou um longo gole de tequila. Bom dia, sol. Bom dia, mundo.
“When we were in Love, things were better than they are, let me back into your arms”

(Tem uma mensagem "escondida" na foto. Look for it ;)"

domingo, 6 de junho de 2010

Stop Telephoning Me

"Sorry I can't answer you, I'm kinda busy"

O telefone tocou pela vigésima vez nos últimos dez minutos. Ele apertou o botão de "ignore call". Estava se cansando aos poucos dela. Não é que ela fosse desinteressante, chata, incompatível, burra, gorda, irritante, ou qualquer coisa assim. Ela era perfeita. Pra outro cara. Ele conheceu outra garota. Na verdade, já a conhecia. Ja fora apaixonado por ela. Mas de repente, ela voltara a se tornar interessante, como se a luz tivesse e acendido com um clique abafado, e tivesse tomado conta de algo que ele não sabia que podia ser tomado. Ana era linda. Inteligente. Da sua idade. Talvez um pouquinho menos complicada que Ingrid. Sorridente. Com menos coisas pra fazer, mas mais tempo pra aproveitar. Menos compromissada. E assim, como um piscar de olhos ou um estalo de dedos, vai embora e não pretende voltar, deixando a chave da casa, um armário vazio, e um bilhete insólito, que mais tarde ficaria borrado de lágrimas sinceras de um amor verdadeiro. O bilhete dizia algo banal, mas tão banal que machucava. E dor penetrava nela exatamente como uma faca recentemente afiada, como um punhal que tem um ponto certo pra acertar. E sufoca seu coração de uma forma que o faz perder a confiança em si e nos outros. A mensagem, era algo normal, mas estranho pra ela "escutar" dele.

"Sinto muito. Eu te amo. E por isso, eu realmente sinto muito."

domingo, 30 de maio de 2010

Motivo da minha ausência

Queria me desculpar com vocês, se é que alguém lê isso aqui.
Estou empenhada com um novo projeto, com a @klutchenca. Fizemos um blog.
www.dontlikesoup.blogspot.com
Portanto, ficarei mais ausente. Amo todos vocês que me leem, e peço que sejam pacientes comigo e com a minha ausência. Obrigada por lerem. Beijos da tia Bee.
@beeberry_

sexta-feira, 14 de maio de 2010

I Belong To You


(Não, eu NÃO escrevi pensando em Crepúsculo nem em nenhuma dessas mopinhas aí u_u)

“Ah! Verse-moi l'ivresse, Verse-moi, verse-moi l'ivresse, Réponds à ma tendresse, Réponds à ma tendresse, Ah! Verse-moi l'ivresse, I belong, I belong to you”


Gotas espalhadas. Um relógio atrasado. Uma noite que jamais acabou. Devaneava sobre o ocorrido. Parava em uma cena, arrastava-a por todo lado. Não sabia se a odiava ou amava. Aquela maldita cena. Era de um ardente amor. Mas de um constante desprezo. O tiquetaquear do relógio o ensandecia. Mente sã, corpo são, correto? Não quando se estava deitado de bruços em um motel barato qualquer, sangrando. Não externamente. Internamente. Seu coração sangrava. Não um real sangramento. Não. A dor atravessava barreiras. Vinha do interior de si. Sentia-se um vagabundo qualquer perante aquela rainha. Sentia-se algo pequeno. Declarava-se em silêncio. Permaneceria em silêncio. Ferir a paz de espírito era proibido. Mas de dentro, vinha um som inevitável. Batendo lá dentro. Gritando, berrando. Eu pertenço a você. Milhões de cacos voaram. De dentro pra dentro. De fora pra fora. Viajaria todo o mundo para poder dizer que pertence a você. Pagaria tudo. Se transformaria em tudo que fosse possível, e iria além. Eu pertenço a ti. Não existem palavras. Não as encontro. Não há como dizer. Eu pertenço a você. Responde ao meu afeto. Responde a minha ternura. Responde a mim. Eu pertenço a você.

domingo, 9 de maio de 2010

Good day, sunshine.

"I'm in love with her and I fell fine"

Abro os olhos. Pego meus óculos na mesa de cabeceira ao meu lado, e levanto-me vagarosamente. Abro as cortinas e deixo o sol inundar o quarto como inunda a mim. Eu não sou realmente fã do sol, mas hoje, ele parece realmente maravilhoso. Até o calor parece esplêndido hoje. Até o fato de que hoje é segunda feira parece perfeito. Vou ao banheiro, tomo banho e preparo-me para ir para a escola Coloco o som no máximo, o qual berra Good Day Sunshine, dos Beatles. Sabia que os Beatles usaram a palavra 'love' seiscentas e treze vezes nas suas músicas? Não que isso tenha realmente a ver com qualquer coisa, mas eu precisava comentar esse fato. Estou pronto. Desligo o som, e vou até a cozinha pra tomar café. Engulo uma torrada com manteiga e um copo de suco de uva mais rápido do que alguém conseguiria dizer 'supercalifraginiespialidoucious'. Isso é, se alguém tentasse dizer isso. Meu pai me olha com uma cara desconfiada. Ele nunca gostou muito do meu estilo, mas foda-se. Não vou virar um playbozinho qualquer que escuta Garota Safada e vai pra jogos do América só por que ele quer. Descemos, entramos no carro, e ele me leva pra escola. Provavelmente terei que passar o dia lá, mas que seja. Eu tenho prova, hoje. E nada poderia ser menos animador do que uma prova em um a segunda feira. Na verdade, até isso me parecia menos desanimador do que de costume. Eu me sentia como se já tivesse feito a prova e tivesse tirado dez e meio. Subi as escadas pulando os degraus. Larguei as coisas na mesa e fui pra porta da sala, pra o corredor. E lá estava. Não me conhecia, não sabia quem eu era, sequer sabia meu nome. Mas lá estava ela. E sempre iria estar, a minha espera ou não. Mas eu posso sonhar.Posso querer. E um dia, ela vai ser completamente minha, e eu finalmente vou ver como o sol brilha e como as pessoas são esplendorosamente lindas ou cruéis.

sábado, 8 de maio de 2010

Ressaca da vida.


Acordara de ressaca no dia seguinte. As coisas pareciam meio erradas, meio incertas. Não sabia por que. Estendeu a mão até o parapeito da janela e olhou as horas no celular. Dez e dez. Que grande mentira, “junto de ti está quem tu ama”. Levantou-se com dificuldade da cama, e fora lavar o rosto. Tirou toda a maquiagem, e sentou-se no chão. Tentava com afinco lembrar-se do que acontecera na noite anterior. Nada vinha-lhe completamente a cabeça. Só flashes. Voltou para o quarto, e agradeceu aos céus pelo tempo. Estava chuvoso. Não precisaria se preocupar em usar óculos escuros, nem com a piora da dor de cabeça. Não se preocupou em vestir mais nada que não estivesse usando. Estava vestida com uma blusa enorme, com a estampa do coliseu. Seu pai havia trazido para ela quando estivera em Roma. Deitou-se novamente na cama, e lembrou-se de algumas coisas. De como ela queria beijá-lo, de quantos copos de vodka ela bebera, de conversas esparsas e aleatórias escolhidas, de pessoas novas, de pessoas conhecidas, de amigos. Lembrou-se de pontadas de dor ferroando-lhe por dentro. E lembrou-se de como as escondia bem. Lembrou-se de como algumas coisas pareceram desastres, e de como não foram tão desastrosas. Precisava de veredictos. De quem, ela sabia muito bem. Será que tinha dado certo? Será que ela conseguira? Não sabia, e a incerteza a abalou do jeito que sempre abalava. Levantou-se e foi em direção ao quarto. Deitou-se na cama, e deixou-se vagar por lugares conhecidos e desconhecidos de sua mente. Não queria estar acordando ali. Queria estar em outro lugar. Uma sensação a comprimia. Ela não sabia por que, como, nem quando a sensação começou. Parecia alojada ali fazia tempo, e poderia ser a origem das ferroadas. Era tudo muito misterioso, incerto. Talvez misterioso não fosse bem a palavra. Ela queria estar no mesmo recinto que todos os seus amigos. Ela queria estar festejando. Queria estar livre. Liberdade. Era isso que ela queria. Queria poder ir pra o shopping com seus amigos. Queria poder ir pra casa deles quando bem entendesse. Queria poder ir a praia, por mais que a detestasse. Queria ser jovem, porra. Só se é adolescente uma vez. E ela estava esquecendo como era a sensação. Por vezes perdia-se em quem era, e demorava a retornar a superfície. Ia-se de um modo quase surreal, e voltava a si repentinamente, insanamente. Queria que esse desespero passasse. Essa clausura. Sentia saudades das festas. Sentia saudade daquele cheiro de gordura dos shoppings, do ar condicionado impregnado de vírus. Sentia falta do burburinho das pessoas, dos abraços, da atmosfera lotada de seres tão incertos quanto ela, de várias mentes pensando como uma só. De tanta gente querendo a mesma coisa, do mesmo modo, mas mesmo assim, sendo completamente diferente, tão perdidos quanto todos, tão únicos quanto uns.Incontáveis mentes perturbadas. Simples de um modo complicado. Sentia falta disso. Queria ele. É, ela também o queria. Mais do que podia suportar. Mais do que podia prever. Porra. Sentia sangrar. Por dentro. Sentia dor. Aquela imensa dor, do que podia acontecer. Medo. Também sentia medo. E receava por não ter coragem. Queria mostrar. Não sabia como. Não sabia se podia. Queria quebrar as regras, mas talvez estivesse tarde demais pra isso. Chorava. A angústia pesava em Lorraine. Mais angústia do que ela podia suportar. Restava-lhe agora dormir. E foi o que fez. Sonhou consigo e com ele. Sonhou e deixou que ela se apoderasse de si mesma. Enfim dona de si. Presa em si.

Paranóia.


Nada comparava-se ao simples prazer de pintar a paisagem outonal do Central Park. Era realmente uma visão. Não se importava se estava um pouco frio, sentia como se a paisagem aquecesse tudo, ou um calor interno. E então, uma súbita raiva subiu a sua cabeça. Raiva de si mesmo. Então cortou a pintura com um grande “X” vermelho. Não queria mais pintar paisagens outonais. E se irritava por não querer continuar pintando. Alguém cobriu o nariz dele com um pano. Um pano embebido em algo forte. E ele desmaiou. Seu corpo caiu no chão. E a próxima coisa que ele vira, foi realmente esquisita. Estava em algum lugar. Sua pintura com ele. Encostada no cavalete. A mochila dele, os pincéis, a paleta de tintas. Tudo lá. Naquela sala branca. E ele estava sentado em um sofá futurista, vermelho como sangue. Sentado não seria exatamente a palavra. Estava acorrentado ao sofá. Mas suas mãos estavam livres. Fato que o ajudou a ajeitar o cabelo e se ajeitar no sofá. Por que ele estava ajeitando o cabelo? Não sabia. Sentiu uma necessidade de ajeitá-lo, então o fez. Levantou-se do sofá. A corrente que o prendia no sofá era realmente bem extensa, e ele conseguia quase chegar até a porta, não chegando por alguns passos. Ele sentou-se no chão frio, e olhou para o sofá. Era um sofá bonito. E ele viu que havia uma nova tela ao lado do cavalete. Então ele se pôs a pintar as únicas coisas que ele via: O sofá e a mochila. A sua mochila, que era muito surrada, destoava do sofá, bastante novo. E ele terminou de pintar em um curto espaço de tempo, que ele estimava que fosse de uma a duas horas. Para ele, isso era pouco para se concentrar em uma pintura. Já passara dias sem se alimentar, tomando apenas água e coca-cola, e dormindo duas ou três horas para poder terminar uma pintura. Ele deitou as costas doloridas no assoalho e ficou encarando o teto, com a esperança de algo acontecer. O teto era tão branco quanto o resto do quarto. E de fato, aconteceu. Ele sentiu outra onda de tontura, e desmaiou de novo. Acordou então, jogado ao banco do parque, sem as correntes, do mesmo modo que estava disposto antes. Ele levantou-se, e viu o quadro do sofá e sua mochila. Soube, instantaneamente, que alguém o estivera observando. Ou ele estava ficando completamente louco. Não sabia, mas estava inclinado a se exilar em sua casa, com raras saídas. Paranóia, Paranóia.

(Foto meio nada a ver, mas que seja.)

Comentando músicas


Música: Ow Baby
Compositor: Pedro H.
Banda: StoneJam

Meu comentário:

A música pode ser considerada um clichê em si, mas eu a acho bonita. Não estou babando o ovo por que foram meus amigos que compuseram, nem por que é da minha banda. Eu realmente levo música muito a sério pra isso. Ela se encaixa bastante em todos nós, pelo menos um pouquinho. Fala de quando o amor se desgasta. Ou de quando o amor não é mútuo. Aquela pontada no peito, aquela sensação desagradável. E mesmo quando você está sofrendo por causa daquele certo alguém, você ainda deixa seu orgulho de lado, e entrega seu coração. Nessas horas, eu paro pra pensar se não seria muito mais fácil se o amor não dependesse de outra pessoa. Ou não, por que aí você não ia ter o gostinho de ser amado de volta. Mesmo quando cansa de amar, você ainda fica do lado do telefone, esperando ele tocar. Que mesmo quando diz que vai pegar todos, você fica na sua até a festa acabar. Por que mesmo que você saiba que você é só amiga, fica sonhando acordada, esperando ele se declarar. E mesmo quando você se toca que isso jamais vai acontecer, você ainda fica com o coração na mão e não coloca a plaquinha de vago, por que você já entregou seu coração, e agora, só resta esperar ele ser devolvido.

Viúvas negras.


(Texto inspirado no atentado que ocorreu recentemente, no metrô da capital russa)

Uma bomba. Duas bombas. Três bombas. Quatro, cinco bombas. Bum. Todas faziam o mesmo som. Umma estava desesperada. Sentia-se vulnerável. Ele morrera, e não a deixara nada mais que dois filhos crescidos e amor de sobra. Que faria? Vivia na Rússia faziam dois anos. Podia juntar-se as chamadas Viúvas Negras. Mas não queria se vender para matar gente. Mas um arroubo de vingança percorreu suas veias. Ela soube que precisava fazer. Não podia ter deixado seu marido ir em vão. Procurou-os por todas as partes. Enfim, encontrou-os. De volta a Chechênia, encontrou-os. Visitou os túmulos de seus pais e marido, e seguiu para onde sabia que os encontraria. Entrou em ruelas envergadas e suspeitas, e finalmente os encontrou. Prometeu explodir aquele lugar que a trazia tanto rancor, e finalmente aplacar sua dor. Era isso. Na gélida manhã de segunda feira, ela pegou o metrô. Com uma enorme e suspeita bolsa. Mas estavam todos muito ocupados indo para o trabalho ou o que quer que fosse. O ódio e o medo penetraram fundo em suas veias. Sua íris ficara vermelha de cólera. Mas uma ponta de medo a assolava. Entrou no metrô. Sete e cinqüenta e cinco. Quase lá. A ponta de medo que foi o estopim do vacilo ao entrar no metrô aumentou. Ela não estava tão confiante quanto estivera algumas semanas atrás. Na verdade, sua confiança foi lentamente se esvaindo com o passar das semanas, e ela podia sentir que era mais medrosa do que qualquer outra coisa. Sete e cinqüenta e seis. Um minuto. Quanto a vida dela poderia mudar em um minuto? Bastante. Por que no próximo minuto, não haveria mais vida. Nem dela nem de muitos outros. A culpa a corroeu, mas era tarde demais. Talvez esse não fosse o jeito certo de ser lembrada. Mas era tarde demais para ponderar sobre isso. Ela não tinha o poder de desistir. Não cabia mais a ela escolher o destino de tantas pessoas. Sete e cinqüenta e sete. Bum. Pedaços voaram. Pessoas se foram. Mas Umma não tinha perdido uma coisa, que era a que mais lhe importava, acima da integridade, da coragem, do medo, da justiça, do sangue, dos costumes, da vida. Não tinha perdido ele. Ele sempre iria estar em seu dilacerado coração. E agora, eles iam se encontrar. Mesmo que isso significasse que ela tivera que morrer por ele. Ela morreu pelos dois. Pela sua pátria. Por todas as crianças chechenas mortas. Morte por morte, olho por olho, dente por dente. Talvez esse não fosse o modo certo de resolver as coisas, afinal. Mas de que adiantaria esperar? Não estava ficando mais jovem, isso era fato. Acabou-se por uma justa causa. E ainda iria encontrar seu amor. Não sabia se ele tinha subido ou descido, mas tinha a leve impressão de que ela iria descer. Não achou ruim. Sua vida era fadada a terminar, como a de todos. Ficara famosa. E agora, podia dormir em paz, junto dele, junto do silêncio que abatera a estação.

domingo, 18 de abril de 2010

Eles que se fodam.

Eles que se fodam por serem tão tremendamente escrotos. Eles que se fodam por se acharem os donos do mundo. Eles que se fodam por me isolarem do mundo. Eles que se fodam por poderem mandar na minha vida. Eles que se fodam por estragarem a minha felicidade quando eu finalmente consegui. Eles que se fodam por estragarem a minha vida. Eles que se fodam por acharem que estão sempre certos. Eles que se fodam por serem tão hipócritas. Eles que se fodam. É, eles que se fodam. E eu que me foda. Eu que me foda por ser tão desmerecedora de alguma alegria, ou de qualquer porcaria de felicidade. Eu que me foda por ser tão estúpida. Eu que me foda por não dar satisfações. Eu que me foda por responder as pessoas. Eu que me foda por ser sempre tão mimada. Eu que me foda por não dar a mínima pra nada. Eu que me foda por não amá-los. Eu que me foda por não valorizá-los. Eu que me foda com essa mania de querer estar sempre certa. Eles que se fodam. Eu que me foda. Eu que me foda. E eles que se fodam. Eles que se fodam por poderem me punir. Eles que se fodam por sempre esperarem demais de mim. Eles que se fodam por me darem castigos tão compridos e estúpidos. Eu que me foda por publicar isso no blog. Eu que me foda por ser tão tremendamente escrota quando eu não devo. Eu que me foda. Eles que se fodam. Eles que se fodam. Eu que me foda. Eles que se fodam por serem tão autoritários. Eles que se fodam por acharem que resolvem tudo, quando só cobrem com uma maquiagem ridícula. Eles que se fodam por achar que meus problemas são problemas deles. Eles que se fodam por se meterem na minha vida. Eles que se fodam por não me deixarem em paz. Eles que se fodam. Eu que me foda por realmente dar a mínima pra muitas dessas coisas. Eu que me foda por ser tão igual a eles. Eu que me foda por não ter aprendido tudo direito. Eu que me foda por não ser perfeita. Eu que me foda por dormir nas aulas. Eu que me foda por tirar notas baixas. Eu que me foda por não ser uma filha decente. Eu que me foda por ter problemas. Eu que me foda por gastar muito dinheiro no telefone. Eu que me foda por ser tão exigente. Eu que me foda por ser consumista. Eu que me foda por morar na roça. Eu que me foda por não ser boa em nada. Eu que me foda. Eles que se fodam. Eu que me foda. Eles que se fodam. Eles que se fodam por serem tão irritantes. Eles que se fodam por rir de mim. Eles que se fodam por me chamarem de gorda. Eles que se fodam por me reprimir. Eles que se fodam por me proibir. Eles que se fodam por terem esquecido o que são adolescentes. Eles que se fodam por não lembrarem como é ser adolescente. Eles que se fodam por achar que eu sou criança. Eles que se fodam por não reconhecer meus méritos. Eles que se fodam por só apontarem minhas falhas. Eles que se fodam. Eu que me foda. Eu que me foda por falhar de mais. Eu que me foda por não ser o orgulho dos meus pais. Eu que me foda por ser tão egoísta. Eu que me foda por não agradecer. Eu que me foda por achar que sou alguém. Eu que me foda por ser sedentária. Eu que me foda por agir como criança às vezes. Eu que me foda por beber. Eu que me foda por sempre querer. Eu que me foda. E eles que se fodam.