quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Me Enamora

Andando pela rua, pensando no que ia fazer quando chegasse em casa. Deleitava-se com a possibilidade de só deitar na cama e ligar pra alguém, passar horas lá, deitada, conversando e rindo. Muito tempo que não se sentia assim. Leve, leve. Apesar de parecer que quase tudo ao seu redor explodia levemente ao som de uma sinfonia de beethoven, ela se sentia como se pudesse flutuar a qualquer momento. Sim, andara tendo crises inexplicáveis de choro. Mas, de uma forma ou de outra, não se sentia sozinha ou desamparada. Sentia como se tivesse sempre alguém ali. Alguém pra ela ir conhecendo e se apaixonando pelas coisas mais bobas, pelo jeito mais simples. Alguém pra quem ela não teria vergonha de dedicar os escritos mais bregas e cheios de significância. Alguém pra me ver chorar, no meio de uma crise totalmente sem sentido. Alguém que não a fosse julgar pelas besteiras que ela já fez. E quando julgou que nunca mais ia sentir-se assim, que nunca mais ninguém seria capaz de sentir alguma coisa por ela, ele apareceu. Não foi em um cavalo branco, nem com uma rosa na mão (ainda bem, detestava rosas), mas foi com o coração só pra ela. E o coração dela era só pra ele. A fez chorar, muito. Preocupou-a diversas vezes. Mas as lágrimas, sempre pelas coisas lindas que dizia ou fazia. A preocupação, eram outros quinhentos. Como é que havia de não se preocupar, com alguém que sempre foi tão importante, e agora, mais ainda? Como? Sentia que estava em um romance diferente. Eram diferentes. Falavam espanhol, entre si. Tratavam um ao outro como amigos e como amantes, assim como disse Vinícius de Moraes. Era isso. Algo de melhor que aconteceu em 2012. Algo de bom que esse ano tinha que trazer. Se sentia tão intrínseca à ele, ao modo de viver, particular aos dois. Estavam tão perto do aniversário, do primeiro aniversário. Estava apreensiva, sem saber se ele ia gostar do tal texto que mandou. Esperava que sim. Destrancou a porta de casa, e entrou. Tirou o telefone do gancho. Discou os números.
"Alô?"
"Hola, mi amor."
E assim, só assim, pôde ser feliz.

sábado, 24 de novembro de 2012

Quando Eu Estiver Triste, Simplesmente Me Abrace

Quase todos os meus relacionamentos afundaram. E afundaram feio. Não sei lidar com o amor das pessoas, sempre penso que este é efêmero demais, e se acabar dependendo dele, vou afundar quando acabar. Por isso sempre fiz questão de acabar. A gente é feito pra acabar. Sempre acreditei na efemeridade da coisa. Dos sentimentos. Do amor. Do coração batendo forte, das pernas bambas, das borboletas do estômago. Sempre achei muito incerto quem não demonstra afeto, quem não diz que ama. Também achava grudento quem dizia isso em demasia, e me punha em um enfado que era difícil de tirar. Ninguém nunca achou um equilíbrio. Eu sou meio desequilibrada, então achar alguém que aguente tamanha mudança de humor de forma constante, e que aceite isso numa boa, foi difícil. Eu sou difícil. Reconheço isso. Difícil, chata, insuportável, irritante, meio egoísta, abusada. E nem é charminho. Percebi o quanto é fácil cair na rotina, desaparecer quando você namora. Se infiltrar no outro ao ponto de saber quais os problemas, soluções e palavras que vão vir dele. Não se infiltrar, mas entrar aos poucos. E com permissão. Essa é essencial. Não gosto de relacionamentos mornos. Sou intensa. Mas enjoo de viver em filme live action com o armaggedon me perseguindo por aí. Gosto de ficar em casa, dormir, ver filme, ir ao cinema, caminhar. Uma pessoa que faz parecer que estão juntos a tempos. Que tem a capacidade de fazer você virar as costas pra o Murilo Rosa enquanto ele canta uma balada famosa do Skank. Uma pessoa que é totalmente diferente de você em quase todos os aspectos da vida, de uma forma quase que só pra fazer birra. O lance é o seguinte: obrigada.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Daqui A Alguns Anos

Acordou em uma cama, que não era a sua. Olhou pra um teto, que não era o seu. Passou a mão pelas cobertas quentes, que não eram as suas. Olhou pra o marido, de olhos fechados e barriga pra cima, que não era o seu. Tentou se situar numa vida que não parecia sua. Levantou e colocou os pés no chão gelado. Aquele chão gelado não era do seu Brasil. Pela janela, uma paisagem gélida de inverno. Reparou que estava com frio, em meio a confusão. Buscou um casaco no closet daquela casa. Pegou botas de neve, calças de frio, meias, casacos, luvas e um gorro. Vestiu-se, e com o homem dormindo na cama, saiu. Sentou-se em um banco lotado de neve, depois de espaná-la pra longe. Parou pra pensar. Aquela era a vida que ela tinha vivido nos últimos seis anos. Daqui meia hora, Jackie, sua filha, teria acordado, e estaria faminta por algo além de ficar dentro de casa. E Matthew, seu filho, estaria sendo provocado por Jackie. Quando foi que as coisas mudaram tanto? Lembrava dos namoros da adolescência, das bebedeiras, das novas experiências, das notas baixas, dos bares, dos shows. E isso ficou pra trás? Quando? Quando é que tudo ficou sério? Quando ela saiu da faculdade com noivado engatado? Ou quando nasceu seu primeiro filho? Quando ela saiu do Brasil já casada? Ou quando se viu na cozinha, revezando as tarefas diárias, desejando uma taça de vinho, e conversando com o marido? Foi quando ela deixou a boneca de lado? Quando acabou o ensino fundamental? Ou o médio? Foi quando arrumou um emprego meia boca em um jornal que demorou a lhe reconhecer como talento? Não sabia. Que manhã normal, pra acabar cheia de perguntas. Isso era o que ela queria? Não tinha mais tempo pra pensar no que ela queria. Daqui a pouco, estaria em uma casa em plena atividade matinal, cheia dos berros das crianças e da correria do marido. Os amava, e não os trocaria por nada. Mas tanta coisa que não havia feito... Pular de bungee jump, saltar de asa delta, escalar o Everest, ménage a trois, relacionamento aberto, experimentar LSD, correr o país inteiro, cozinhar jantar pra três, repintar a sala sozinha, dormir sozinha só consigo mesma, cantar sozinha sem medo de ouvirem-na. Tanto que não tinha feito. Casou-se com um inteligente, teve filhos comportados, comprou uma casa bonita. Seguiu vivendo a sua vida que não parecia sua, ouvindo as músicas que pareciam ter perdido o sentido. Não havia do que reclamar, em teoria. Pra quê crescer? Não sabia. Mas seguia. Sempre em frente. Um vulto empacotado em roupas invernais saiu de casa, acompanhado de outro vulto consideravelmente menor. Jackie e seu marido.
- Mamãaaaaaaaaaaaaae - Seus olhinhos brilharam ao escalar os joelhos da mãe.
- Olá, querida. - Abraçou-a. Dylan, seu esposo, sorriu. E juntou-se ao abraço. Não sabia se estava onde deveria estar, mas sabia que estava onde queria estar. Mesmo com o tempo ruim, com a neve, e com a adolescência distante.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Ando Em Frente Por Sentir Saudade

Na classe, o professor colocou um vídeo. Vídeo pesado. Cheio de terror. Não havia sangue. Havia brutalidade. Algo nada incomum no mundo. Crueldade, exposta, nua e crua. Seus olhos lacrimejavam. Já tinha visto tal vídeo uma vez. Não estava gostando de vê-lo de novo. Esfregando na cara aqueles corpos putrefatos de milhares de judeus no holocausto. Era judia. Se sentia judia. Sentia dor mental e física vendo aquilo. As pessoas, negando envolvimento. Como podiam? Nunca protestaram. Nunca foram contra. Se não foram contra, apoiaram. Sentia nojo, sentia repulsa. No escuro, encontrou uma mão. Uma mão que afagou a sua, que apertou a sua, que partilhava da sua repulsa. Uma mão, que por mais que fosse quase tão fajuta judia quanto a dela, era uma mão amiga. Uma mão que sentia, involuntariamente, as agruras do vídeo. Sentia mais que os outros. Apertaram as mãos, em sentimento conjunto de cumplicidade. Eram amigos a mais tempo do que podiam contar. Aquela intimidade, de apenas segurarem as mãos, deu a ela forças pra não chorar, levantar a cabeça e encarar os dias. Se os sobreviventes tão sofridos dos campos de concentração conseguiram, ela conseguiria. Conseguiriam. Como estava sendo tão difícil sem ele. Sem aquela mão ossuda pra apertar, aquele corpo conhecido pra sentir junto ao seu quando as lágrimas rolavam, que nem no dia do vídeo. Volta. Aquele vídeo mostrou pra ela que enquanto tivesse aquela mão, nunca estaria sozinha. Super amigos pra sempre.

domingo, 11 de novembro de 2012

I Want You To Be Crazy, 'Cause You're Stupid, Baby, When You're Sane

Câmera foca em um grupo de jovens descendo de um carro por volta do meio dia, na frente de uma fonte que está sendo restaurada. O grupo conversa animadamente. Pegam as malas na mala do carro, e se dirigem até a pousada do amigo, na qual irão se instalar. Corta para eles chegando no caminho tortuoso até a casa que vão ficar. Andam os quatro, rindo e conversando. Chegam na casa, e entram sem bater. Se deparam com uma casa meio escura. Quarto lotado de pessoas semi acordadas. Acendem a luz e se juntam a eles, rindo. Conversam, até sentirem fome. AUG reclama até que cedem aos seus apelos, e vão ao restaurante. Câmera corta para fila do restaurante self service, onde todos conversam animadamente enquanto comem avidamente. Corta para o quarto do jovem dono da casa, onde alguns estão jogando poker em duplas. Riem. Câmera foca na janela, que mostra o dia apagando aos poucos. PH entra no quarto, e informa que vai até a casa de BR, se arrumar lá. B levanta e vai também.
PH: Vou me arrumar lá em BR, falou.
B: É? Vou também. Tchau, galera.
Câmera corta para os dois andando nas ruas tortuosas de Pipa, até a casa de BR. Conversando sobre a vida. Câmera corta pra os dois entrando na casa de BR. PH e B deitam na cama com BR, que se mostra aflita. Confessa não saber como que vai ser quando chegar na casa de RR. PH e B mostram suas opiniões e oferecem ombros amigos. Os três tomam banho e se arrumam. Corta para a festa de RR. BR, B e PH chegam. Foco nas mãos entrelaçadas de B e BR, como sinal de apreensão. Encontram com LS, RR, ROD no caminho. RR e Brisa se abraçam. BR continua andando pra casa, enquanto RR e os meninos vão atrás das bebidas. Close na mesa posta, comida, e pessoas sentadas rindo. Conversas giram em torno de sexo, platelmintos, comida, experiências e sexo. Corta para ROD rindo e bebendo. Corta pra RIC bebendo. MA bebendo. BEC bebendo. PH e B sóbrios, assistindo. Fotos. Muitas fotos. Corta pra o rosto vermelho de MA. Choro. Gritos. Câmera gira, confusa. Intermitentemente, pessoas conversam. BR e RR voltam a namorar. MAR grita, esperneia. Está triste. Tentativas de consolo, de ajeitar as coisas. Câmera corta pra momentos mais tarde, pra o Quarto dos Sóbrios. Conversa sobre sexo. Vibradores. Hentai. PV entra, pálido. Câmera foca no rosto dele. PV entra em um quase coma alcoolico. Tentativas afoitas de salvá-lo. PV se recupera, e dorme. Enquanto isso, a câmera passeia pelos vários ambientes da casa. Encontra bêbados, foca em garrafas semi vazias de bebidas. Foca em um beijo lésbico entre BF e B. Foca em REB e MA se maquiando pra sair. Volta pra um dos quartos, onde PH, AM, B, MAC e BR dançam ao som de S&M da Rihanna. AM vai pra casa, e as pessoas se movimentam pra sair. Foca no grupo na praça. Arriba, Abajo, Al Cientro, Adentro! Sal, tequila e limão. Felicidade está entre o sal e o limão. Marijuana. Câmera foca em vários jovens. Cigarros. Corta pra a descida da praia. Praia. B e PH sobem pra casa. Dormem várias pessoas juntas. EMO dorme no chão. RR acorda B para um pedido de ménage. Câmera apaga. De manhã, a luz inunda o cômodo. Descem pra o café. Comem. Riem. Juventude perdida é o caralho.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Nem Santa, Nem Puta. Mulher.

Aproveitando o gancho do meu projeto da CIARTE, quero falar sobre uma coisa que me enfurece MUITO. Andar na rua e ser cantada a cada dois passos que se dá. É a coisa mais irritante, constrangedora, babaca e exasperante do mundo. Até por que eu ando muito sozinha, quando essas "cantadas" rolam depois das cinco da tarde, já ando assustada e com passos largos, com medo do que pode me acontecer se eu me demorar.

Mas a pergunta é: Quem é que te deu o direito de violar meu direito desse jeito? Quem é que te autorizou a entrar assim na minha vida, olhar pra mim desse jeito e falar essas coisas pra mim? Meu short? Meu decote? Sinto muito, amigo, mas o meu decote NÃO é convite. O comprimento do meu short só interessa a mim. Em uma cidade quente que nem a que eu moro, impossível andar sempre de jeans, casaco, camisa, e tênis. E mesmo se andar, ainda tem nego cara de pau que passa cantada.

O negócio é o seguinte: o corpo é meu, e eu ando vestida como eu quiser, por que isso é problema meu. Não tem esse lance de "roupa de vadia". Se a guria quiser andar de short beira cu, salto 234832842 e top, ela anda, e tu não tem nada com isso. É essa a questão. Nossos pais sempre nos ensinam a fechar as pernas, a sermos recatadas, usarmos roupas compridas. Mas por que a gente que tem que se fechar? Quem viola o direito da vítima é o estuprador, não é a roupa que eu uso ou deixo de usar.

Acho que falo por todas as garotas, que o sentimento de aflição ao ouvir coisas como "Ei, gostosa", "Vem cá, linda" e assobios por aí é grande. É irritante, é babaca.
Portanto, antes de meter a mão na buzina e assobiar do banco do seu carro, pensa que aquela pessoa a qual você está tratando como um mero pedaço de carne, tem sentimentos, corpo, alma, respira e pensa. Não é um brinquedinho sexual, não é algo pra você tirar proveito. É uma mulher, que, apesar de estar usando um short curto ou uma blusa que mostra a barriga, NÃO está lhe convidando a introduzir seu pênis troglodita nela. Grata se for respeitada na rua.

sábado, 3 de novembro de 2012

Ela É Linda Linda

Eu devo mais a ti do que eu posso pagar. Devo mais a ti do que a qualquer um. Devo quem eu sou, devo quem eu fui, e devo quem eu vou ser, e gosto de devê-lo. Eu te amo. E a distância me mata, vó. Sempre tive muita inveja de todas as minhas amigas que tem avós que moram do lado. Você escolheu morar do outro lado do mundo e me matar de saudades. Você escolheu sempre ser feliz, e ser sempre minha avó, não importando a besteira que eu tivesse feito daquela vez. Nos meus piores momentos, eu tenho certeza que você estava lá. E que sempre vai estar. Agora, aí em Israel, são quase duas da manhã. Mas eu aposto que se eu precisasse de você nesse instante, e ligasse pra aí, você ainda ia me atender. Com uma puta raiva. Mas ia me atender e ia procurar me entender. Você sempre procurou entender minhas babaquices. Sempre me amou, por mais que eu gritasse, esperneasse e disesse que não queria ir pra sua casa. Encaremos a verdade: eu adorava a sua casa. Aquelas porcelanas, aqueles panos coloridos, os degraus que rangiam, o armário gigante, a cozinha minúscula com aqueles mesmo azulejos quebrados desde sempre, aquele banheiro no final do corredor, a sala que dava pra a rua, a tv que não era a cabo, o armário das suas miniaturas. Todas aquelas vezes que eu acordava cedo e brincava com o fogãozinho e as panelinhas de porcelana, todas as vezes que eu fazia inúmeros espetáculos de dança e teatro pra você e pra o tio Paulo, todas as vezes que eu cozinhava comida de mentirinha, as vezes que você me levava pra o teu atelier, as vezes que você bronqueava comigo, que você me escutava, que contava histórias do seu falecido gato Leo, aquela vez que você me comprou um gato de pelúcia igual ao teu gato, aquelas vezes que você veio aqui pra casa pra me trazer um pouco de você e ir embora logo depois. Queria ter tido mais tempo pra ficar com você, pra que você me conhecesse, pra poder te abraçar, conversar, colocar meus problemas, ouvir os seus. Queria que desse pra gente se conhecer melhor, vó, que a saudade aperta nos piores momentos. Esse vazio que fica, essa vontade de ficar duas horas te abraçando, te dizendo o quanto eu senti sua falta e o quanto eu queria você perto de mim. Eu queria poder te apresentar meus amigos, te mostrar a minha escola, te mostrar os lugares que eu gosto de ir, te levar pra o shopping comigo, ir com você comprar tecidos, inventar roupas, vestir bonecas, escutar mpb, tomar café. E como essa saudade aperta, vó. Eu me lembro de todos os livros que você me deu, de todos os abraços que você achou que eu merecia, mesmo quando eu não merecia, de todas as vezes que eu estava errada, você sabia que eu estava errada, mas mesmo assim me abraçou, e disse que ia ficar bem. Da sua comida. Da sua presença. No meu mural tem uma foto sua, vó. Eu devia ter uns cinco anos, e estava chorando. E você estava dando um beijo na minha bochecha. Acho que essa é a foto mais linda da face da terra. Você me apresentou Harry Potter. Você fazia brincadeiras comigo, e eu dizia que “minha avó é doida”. Minha vó não é mesmo normal. Mas eu acho que se ela fosse, não seria a minha avó. A avó que eu tanto amo, e que eu tanto quero por perto. É uma pena que eu não possa te abraçar e que você não possa dizer “eu estou aqui”. Você é uma das pessoas pelas quais eu me atiraria na frente de uma bala, se eu precisasse fazê-lo. E eu sei que você vai sempre estar aí pra me apoiar e me dar broncas quando eu precisar. Chorar escrevendo esse texto foi a coisa mais egoísta que eu já fiz na minha vida inteira, por que você está feliz, e se você está feliz, eu estou feliz. Quando você puder me dar colo, eu vou querer. Acho que isso é ainda pior do que quando eu pegava o avião de volta pra cá, e assim que eu dava o braço pra a aeromoça e entrava na sala de espera pra voltar pra casa, meu coração apertava, e eu queria chorar. Mas eu nunca chorava. E agora, depois de grande, eu estou chorando que nem uma boba na frente do computador. Eu te amo, Vó.

Por Hoje A Vida Dança Sem Sinal

Estava na fila do supermercado, carregando oito sacolas lotadas de decoração temática de halloween pra sua festa. Estava quase atrasada pra a própria festa. Victória já estava lá, no salão de festas. E ela do outro lado da cidade, esperando na fila pra comprar uma coca cola e uma garrafa de groselha. Conseguiu carona com o Matheus. Chegou, tomou banho, desceu e ajudou Victória a arrumar o salão. Subi pra pegar minha fantasia de chapeileiro maluco versão feminina. Quando desci, havia um desconhecido junto aos meus amigos. Um desconhecido que logo virou conhecido, e era simpático. Mais pessoas foram chegando, e eu estava com medo de que a festa ficasse segregada, que as pessoas não se misturassem, que tudo desse errado. Não deu. Fantasias, conversas, doses e mais doses da groselha batizada. De vodka. Insônia. Tapas. E beijos. Muitos beijos. Tontura. Beijo. Em todos. Todos merecem o meu amor. Música. Risos, muitos risos. E o prédio tá se mexendo. Juventude perdida é o caralho, eu tenho muito mais pra contar. Andar até o supermercado de fantasia, comprar mais bebida, comer mais bala, beber mais coca, rir mais. Por que é isso que eu quero. Ser roteiro de skins, viver no último. Se não for pra viver sempre querendo mais, não há pra quê viver. Se não for pra estar na beira, no limite, pra quê viver? Como já dizia Pessoa, tudo vale a pena se a alma não é pequena. Tequila. Insônia. Vodka. Arrumar tudo, e depois ir pra cama. Cama? Conversar com Victória até dormir. Acordar e comer. E experimentar a melhor das dores de cabeça, a de saber que tudo foi bom. A de saber que fez o que quis, e não há do que se arrepender. Afinal de contas, pra quê viver pela metade?

ENEM e outras desgraças

Nove da manhã. Levanto da cama, tomo banho nas pressas. Por que eu não tenho nenhuma bosta de caneta preta translúcida? Agora vou ter que correr pra o supermercado antes da maldita prova. Ok, 9:30. Dá tempo. Dá? Vai ter que dar. Por que o supermercado tem que ser tão longe? Eu só queria UMA caneta preta, mas tive que comprar um pacote com TRÊS canetas, uma preta, uma azul e uma vermelha. E enfrentar a fila, com o tempo correndo pelos meus dedos. A porcaria da fila de pequenas compras está lotada de pessoas, e dando voltas.
- Licença, moça. É que eu vou fazer ENEM, e só preciso comprar essas canetas pra prova, vou pagar em dinheiro, juro que são só cinco minutos, será que eu podia passar na sua frente, por favor? -
- Não. - E virou o rosto. Na verdade, não olhou pra o meu rosto. Só murmurou um não indigesto que me fez ficar com a pior impressão do mundo. Fiquei ali, atrás da dita cuja, com raiva. Ela não tinha que me ceder o lugar dela, mas poxa, custava tanto olhar na minha cara pra negar? Quando as compras do carrinho abarrotado da mulher acabaram de ser passadas, ela ainda fez um barraco infundado por causa de uma promoção fora do prazo, e algo dentro de mim não descartava a possibilidade de ser só pra me irritar. 10:30. Ainda era um bom horário. Passei as malditas canetas, e acabei descobrindo que não ia ter dinheiro pra voltar pra casa depois da prova. Tudo bem. Eu arranjo carona. Corri pra o ponto de ônibus, com as canetas na bolsa. E com fome. Meu estômago estava embrulhado. Menos de cinco minutos depois, o ônibus rumo à Ponta Negra apareceu. Abarrotado de gente. E eu não podia me dar ao luxo de não pegar o ônibus e esperar pelo próximo, que provavelmente estaria mais lotado ainda, se é que possível. Acho que os ônibus ignoram aquela lei da física que diz que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. Fui em pé metade da viagem, lotada de trancos e solavancos. O trânsito estava praticamente parado. Acho que mais da metade das pessoas que estavam dentro do veículo estava indo prestar o ENEM. E estavam impacientes. Extremamente impacientes. Uma pequena revolta surgiu, e três pontos antes, várias pessoas desceram do ônibus e correram loucamente em direção ao local do exame. Faltava meia hora. Eu estava profundamente enjoada, com medo de perder a prova, e de ser barrada por não estar com o comprovante de inscrição. Cheguei a apelar pra um Deus que eu não acredito pra pedir pra não vomitar no colo do menino do lado, de tanto nervosismo. Como a anta aqui esqueceu o comprovante de inscrição em casa, eu não fazia ideia de qual era a minha sala. Antes do ponto, todos os participantes do ENEM decidiram descer do ponto e sair correndo pra chegar em tempo. Acabei chegando quinze minutos antes e vomitando no banheiro antes da prova.
- Oi, Bianca, por que tá todo mundo correndo? -
- Por que estão com medo dos portões fecharem. -
- Mas ainda faltam quinze minutos pra isso. -
- É, mas o pessoal está nervoso. -
- Qual a sua sala? -
- Minha sala? Acho que é... 103B - Chutei o número da sala de um menino que tava do meu lado no ônibus, o mesmo que eu me contive pra não vomitar em cima. Na verdade, entrei em um pânico profundo por não saber. Liguei pra minha avó.
- Vó, em cima da minha mesa, tem o meu cartão de comprovação do ENEM. Preciso que você olhe qual é a sala que eu vou fazer a prova. -
- Certo, minha filha, só um segundo. - Depois de dois minutos que pareceram dois milênios, minha avó volta ao telefone.
- Hmmmm. UNP Roberto Freire... Segundo bloco... -
- Não, vó, isso eu já sei, qual é a sala? - Desesperada.
- Não tem a sala aqui...-
- Claro que tem! -
- Ah! Achei! 223C -
- Obrigada, vó, tchau -
- Tchau - Corri pra o fiscal mais próximo, que me indicou que eu deveria subir pra o terceiro andar. Cheguei, viva, na sala da prova. Nervosa, porém, viva. E tremendo de medo que me barrassem por que não estava com o meu cartão de comprovação do ENEM. Mas nada me impediu de entrar. Uma vez dentro, me senti mais tranquila. Em uma sala entupida de xarás, lá estava eu, semi encolhida, sentada e apreensiva. E a prova chegou. Tinha uma menina atrás de mim que estava comendo Doritos. Da forma mais barulhenta possível. Eu tive vontade de esganá-la. Ela passou a prova inteira deglutindo coisas barulhentas, e eu passei a prova inteira imaginando maneiras nada delicadas de silenciá-la. Conforme fui fazendo as questões, fui me tranquilizando. Não tinha nada demais. Muito mais simples do que uma prova da minha escola. Me animei, e acabei cedo demais. Tentei enrolar pra poder levar o cartão de respostas, mas não consegui e acabei saindo, confiante. O que posso dizer é que amanhã eu vou levar Doritos pra comer na prova, e que eu memorizei o nome da menina que comeu. Vou chegar cedo e sentar atrás dela. Espero que a prova seja tão boa quanto hoje. Boa prova pra todos!