sábado, 30 de junho de 2012

O Melhor Da Vida É Isso E Ócio

Depois de todos aqueles anos, estavam sentados nas mesmas cadeiras, decidindo pra onde ir. Todos rindo e discutindo como se fosse o maior dos problemas, ou o menor deles. Estavam todos recém saídos do trabalho, ainda com seus ternos, paletós, blazers, saltos, óculos de leitura e cabelo arrumado. A primeira deles estava da forma mais casual possível. Abraçou a carreira de jornalista, portanto podia ostentar as tatuagens de maneira menos discreta. Os saltos eram menos altos, a blusa era menos sisuda, e o cabelo mais desajeitado. A segunda tinha os saltos, a saia social, o blazer pendurado na cadeira, e um sorriso sem batom. Tinha um emprego em que a seriedade era vital, mas assim que saía do escritório era só sorrisos e brincadeiras idiotas, que nem sempre foi. O terceiro usava paletó e gravata o dia inteiro, mas não se sentia confortável com isso. Portanto, o blazer estava jogado na mesa, a gravata pendurada na cabeça, e ria descontroladamente. Estava com um bebê nos braços, e fazia de tudo para encantá-lo constantemente. O quarto usava seus óculos com certa seriedade, cara que geralmente fazia quando estava prestando atenção em alguém, no intuito de fazer algum tipo de brincadeira chata, que eram o seu forte. Ainda estava com toda a roupa do escritório, mas reclamava de calor a cada cinco minutos. Era um chato sempre que possível, mas sempre estava lá quando preciso. O quinto estava de calça jeans, camisa social, e tênis. Tinha jogado as roupas mais sérias no carro, e no momento estava discutindo com alguém por telefone. Tinha um sorriso vitorioso no rosto, daqueles que dá vontade de arrancar com as unhas. A sexta estava sentada em cima da mesa, cortando papel em cima da sua saia. Como seguira carreira no ramo do direito, estava excessivamente arrumada, mas parecia uma criança, roendo o esmalte (era sexta feira), picotando papel, e com o coque meio solto, ao mesmo tempo compenetrada na atividade secundária, e na conversa. A sétima estava ironizando um dos meninos, enquanto ele estava no telefone. Com seu blazer claro e um vestido preto por baixo, parecia fantástica. O cabelo solto e já comprido, as unhas bem feitas, e as cadeiras meticulosamente arrumadas. O nono e o décimo estavam discutindo algum videogame, e rindo. Um deles com roupa de trabalho, outro com roupa de ficar em casa. O décimo primeiro contava piadas sem graça, que eram menos levadas a sério quando ele estava, também, com uma gravata na cabeça. Os primos se matavam de rir, e se batiam a cada dois segundos. Esse grupo inusitado de pessoas constituía o mesmo grupo há mais de dez anos. Com as mesmas risadas, com as mesmas brincadeiras, com as mesmas pirraças. Não havia maior amor que isso. Cada um tinha seus filhos, seus cônjuges, suas casas. Mas sempre se encontravam nas noites de sexta, apesar dos trabalhos cansativos, das obrigações diárias, sempre havia tempo pra um jogo no videogame, um filme no cinema, uma budweiser no bar.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Solidão Não Cura Com Aspirina

Um dia desses, em um show cover interessante na Ribeira, eu vi um cara. Na verdade, depois de um show na Ribeira, do lado de fora do Dosol, ouvindo Metallica. Enquanto eu assistia esse cara, uma história engraçada se desenrolava ao meu lado. Mas o desenrolar dessa outra história não interfere na primeira, só serviu pra situar as pessoas que não estiveram lá. É importante frisar que a rua do Dosol é uma rua apertada, de paralelepípedos, com cheiro pungente de urina, lotada de pessoas semi bêbadas, com seus cigarros nas mãos e suas caras de indiferença, tentando parece legais a todo custo. Tem aqueles ambulantes que vendem cigarros de péssima qualidade a preços exorbitantes, bebidas sujas, e esqueiros. Lotada de bares e casas de shows, que apresentam peças e shows do interesse dessas pessoas, algumas fingindo gostar e outras suadas e nojentas, com sorrisos imensos, apesar das roupas pretas que não oferecem nenhum tipo de receptividade. Essa é a Rua Chile. Enquanto o show se desenrolava lá dentro, bebíamos uma vodka barata vendida ali ao lado, conversávamos e minha amiga se empenhava em se livrar de um bêbado insistente. Era um cara de calça de couro, jaqueta de couro, coturnos, blusa de alguma banda que eu sou incapaz de me lembrar, cabelo bagunçado de suado do show (ou do calor que provavelmente estava fazendo dentro das roupas que ele estava usando, já que a cidade é realmente quente), e uma cara de interesse em qualquer coisa. Estava em um grupo de amigos. E eu no meu grupo de amigos. Nunca tinha visto essa criatura na minha vida. Por que agora, Deus, por que agora? Estava solteira. E surpresa por nunca tê-lo visto, já que a cidade é relativamente pequena, apesar de ser a capital. Passei a observá-lo. E um dos meus amigos notou minha fascinação. Não fui discreta, na verdade. "Ó que cara gato" "Vai lá falar com ele." "Que tal assim, só que não?" "Vá falar com ele antes que ele vá embora" E ele estava indo embora. Lentamente caminhando com os amigos. "Mas eu nem o conheço" "E daí?" "Eu vou chegar lá e dizer "ei, tudo bem? te achei gatinho, quer ficar comigo?" "Não, seja mais sutil. Mas fale com ele" "Nãaaaaaao" "Quem perde é você, tsc" Meu amigo saiu e me deixou sozinha com meus pensamentos enquanto eu assistia o menino ir embora. Ele era, evidentemente, mais velho que eu. Não que eu me importasse. Não costumava namorar caras mais novos, e não ia começar agora. E ele foi se afastando. Acho que esse homem foi um dos meus maiores arrependimentos, principalmente por que depois não o vi nunca mais. Era de se esperar o contrário de uma cidade pequena, mas ele provavelmente não era daqui. Me arrependi amargamente do que poderia ter sido. Acho que o maior problema é esse: Nunca ter sido. Por que algo que nunca foi, é algo que incita nossa imaginação sobre como e se poderia ter sido. Imaginar o que poderia ter sido pode ser confundido com saudades, mas nesse caso, como pode ser saudades de uma coisa que nunca existiu. Talvez o problema seja solidão. Sei que parei pra pensar nisso enquanto pintava, e acabou saindo isso, esse rancor de mim, esse medo da solidão, essa vontade de sair pra o Dosol todo dia. Correndo o risco de parecer idiota, esse pode ser classificado como um dos meus maiores arrependimentos.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Wonderful Tonight

Ontem, em um surto de raiva total e insana, a procura do quimono pra o judô, eu joguei todas as roupas do meu armário no chão. Achei o quimono, e na pressa pra sair de casa, larguei tudo como estava. Quando voltei, mais tarde, suada e nojenta, tomei um banho. E as roupas continuaram jogadas no chão. Antes de dormir, depois de um trabalho particularmente difícil de sociologia, catei as roupas do chão e as joguei de qualquer forma no armário, torcendo pra que eu não me sentisse incomodada pela manhã, quando meu cansaço fosse menor. Pela manhã, quando fui procurar meu uniforme, já atrasada pra o colégio, vi a bagunça que eu tinha deixado pra trás. Resolvi que arrumaria depois da escola. Cheguei em casa tão ensopada do banho de chuva que tomei, que não arrumei nada. Tirei a roupa que eu estava usando, tomei um banho, almocei e rumei de volta pra escola. Quando voltei pela segunda vez da escola, ignorei o armário e dormi. A noite, percebi que estava com uma das unhas pintadas descascando. Quando abri a porta do maldito armário, lá estavam as roupas, jogadas de qualquer jeito, me encarando. Resolvi arrumá-las. Cuidadosamente as tirei das prateleiras e as movi pra minha cama. Enquanto ia dobrando as roupas pra colocá-las de volta em seus devidos lugares, lembrei de situações nas quais as usei. O vestido vermelho que me faz sentir bem, e que usei na festa de um amigo. O short jeans já gasto, mas que é meu favorito. A blusa azul marinho que usei em uma manhã agradável no centro da cidade. A saia preta rodada que estava na minha mochila, e que eu gosto de usar sempre que possível. As minhas toneladas de blusas de banda, todas recortadas, e usadas em shows, noites em bares, festas, todos os lugares. Os sapatos de salto, escolhidos cuidadosamente para combinar com as festas que eu teria no momento. Os milhares vestidos esporte fino pras festas de 15 anos, que agora são parte de um passado relativamente distante. A blusa verde de listras, que eu usei naquela vez em Pipa. Então, ao som de Wonderful Tonight, do Eric Clapton, eu sentei na cama e chorei. Chorei de saudades. Chorei de solidão. Chorei de vontade. Chorei de tristeza. Chorei de felicidade. Chorei. Quando a música repetiu, e veio o Eric (me permitindo a intimidade de chamá-lo só pelo primeiro nome) dizer "And I say yes, you look wonderful tonight", chorei mais. Mas enxuguei as lágrimas, sorri pra mim mesma no espelho, levantei da cama, e fui pra cozinha. E ainda sim, eu estava maravilhosa hoje a noite.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

O Eles Partiu

Mesmo que não acredite, em conto de fada, em beijo de filme, tem que haver alguém nesse mundo que não te despreze, que não te repulse Estava sentado em um banquinho meio decrépito que estava mais para lá do que para cá. Suspirava incansavelmente. Coração na mão, que nem sempre esteve. Meio esquisito de segurar, mas não cabia mais no peito. Nunca coube de fato. Não sabia se era grande, ou se o buraco em que devia estar que era pequeno. Mesmo reduzido a pó, ainda era pó demais para se alojar. Observar o entardecer sentado naquele banquinho não parecia ser tão ruim. Ficava pensando nos highlights da vida, nas coisas que fizeram da sua vida interessante. Eram menores que as coisas que a fizeram desinteressante. De uma forma ou de outra, era de seu próprio interesse ser discreto. Sempre foi. Não tinha uma autoestima de dar inveja, não teve muitas namoradas, nem fez muito sexo. Na escola, sentava com um caderno e uns amigos no intervalo. No trabalho, preferia beber seu café sozinho. Nas noites de sexta, ia ver o jogo na casa de algum amigo, ou tocava violão em algum bar com a antiga banda de colégio. É, era uma pena que as coisas tivessem que ser tão breves. A distância pode arruinar as coisas de formas interessantes, por caminhos que você nunca enveredaria se não tivesse esse peso ao seu lado. De repente, se foi. Ela se foi, e o eles partiu. Só ele ficou, contemplando o vazio. Por muito tempo, tudo que restou na casa vazia foi ele e o gato chamado Steve. Só as marcas que o fizeram jurar nunca mais repetir. Se encontrasse oportunidade, se tivesse como, se pudesse achar quem fizesse jus, será que o faria? Quando ela aparecesse, será que deixaria entrar? Apesar de todos os poréns, todos as possíveis objeções, todos os defeitos, deixaria entrar? Magra ou não, esquiva e quem sabe a resposta pra alguma pergunta não proferida? Que haverá de fazer? Ela, apaixonada, se pergunta se isso seria possível , e determina tanto quanto ele determinou outras coisas antes, resolveu cair do penhasco, sem saber se haveria alguém para impedir a queda. Assim que ela sempre se machucava, sangrava e cortava, mas queria mais. Queria se dar de corpo pra alguém que tivesse condições de cuidar. Ou pelo menos de estar lá, de espírito, perguntando besteiras ao longo da madrugada. Queria mais do que chorar, queria você.

Você só tá querendo paz

Não sei escrever música. Tentei, tive uma carreira decadente, umas poucas pessoas tiveram o infortúnio de ler as coisas que eu tive a audácia de escrever pra serem acompanhadas por um violão. Quase uma afronta a músicos de verdade, por Deus. Mas aprendi que sei escrever em prosa. E de tanto saber escrever em prosa sem invocar falsa modéstia, me perco no assunto. Juro que não vai ser pra você, mas sempre acaba transparecendo. Que dos aspectos da minha vida que estão indo mal no momento (e estes não são poucos, infelizmente)um dos quais eu tenho trabalho de verdade pra engolir é você, eu já sabia. Mas de que adianta jurar que não vou falar nada que me lembre remotamente as coisas que eu sinto, se eu sei que não vou cumprir? A solidão me dói, e qualquer imbecil pode ver. Sinto a necessidade de usar palavras tipo "imbecil", por que expressar minha raiva é tão eu quanto falar dos meus outros sentimentos. Nada do que eu escrevo foge completamente de mim. Nem poderia. Acho que não conseguir escrever bastante há tempos, mostra o quanto eu tenho tentado fugir de mim. Por que o ser está me inquietando. Tenho recorrido a métodos não ortodoxos pra me satisfazer com o presente e com o futuro. Uma coisa que eu não gosto de usar é parágrafo. Gosto de usar aspas, por que nos textos dissertativo-argumentativos, geralmente mostram ironia. Eu gosto de ironia, principalmente quando é ácida. Ironia em textos sérios é acidez disfarçada. Que bom que eu não estou escrevendo nenhum texto sério, nem com nenhum tipo de pretensão pseudo intelectual prepotente. Que saudade que eu tive das palavras fluindo nas pontas dos meus dedos. Não sei se por que eu tenho outras coisas pra fazer, e até escrever um texto totalmente sem sentido é mais interessante do que dever de casa, mas essa coisa sem sentido está me satisfazendo temporariamente com as coisas. Só temporariamente, antes que tudo pare de fazer esse sentido reconfortante.