domingo, 20 de fevereiro de 2011

Desprogramar.

Girou para o lado contrário dessa vez. Bateu de encontro com a porta aberta. Gemeu de dor em uma sintonia diferente. Gritou. Caiu no chão, em pedaços. Desespero.As últimas notas da música ainda retumbavam nas paredes brancas. E ainda ressoavam insistentemente nos seus ouvidos. Tampava-os. Respiração descompassada. Tremeu. Batia a cabeça no piano, tentando arrancar mais notas ou talvez alguma significância. Foi em vão. Tudo foi em vão. Ela era em vão. Estava girando, girando, girando, girando, girando. O coração lutava pra sair do peito. Batia com uma força impressionante, machucando ela por dentro. Ultimamente tudo a machucava. As pessoas apontavam dedos acusatórios, ela apontava pra si mesma no espelho, a sua imagem fazia com que quisesse vomitar. Enquanto girava, caiu. Caiu em cima do tornozelo, quebrou. E um grito de dor lancinante percorreu todo o caminho até a sua boca, mas voltou. Voltou de teimoso. Ela não era de desistir, mas dessa vez estava cansada demais pra continuar. Deixou-se levar pela dor, prazerosa dor. Quando conseguiu levantar, caiu de novo, e deixou-se tomar pela dor de novo. E de novo, e de novo, e de novo, e de novo, e de novo. Deixou-se tomar pela dor de dentro e de fora, deixou-se perder e enlouquecer dentro e fora. E de novo, e de novo, e de novo, e de novo. Caiu pela terceira e última vez.

Desespero.

Contava os segundos. Um, dois, três, quatro. Passavam e escorriam de seu relógio de pulso para seu pulso nu. Escorriam para o chão, sem direção e sem ter pra onde ir, de qualquer forma. Olhava com um rosto controverso para o rio lá embaixo. Algumas gotas pingavam incessantemente na água, tornando-a inquieta. Inquieta de uma forma que ele entendia, que todos entendiam. Revolta, pronta pra uma rebelião de proporções endemicas, mas no segundo seguinte, conformada com seu destino certo e previsível, e voltando ao comodismo enervante que era sua vida diária. Essa superfície límpida que era a água funcionava do mesmo modo que seu emocional. Sempre estava irrequieto por dentro, contrariado e contradito, impactante e estável, morto e vivo, por dentro e por fora, por fora e por dentro. Sempre sendo ele e nunca sendo quem ele queria ser. Pomposo, e estava enlouquecendo. Queria se livrar dessas sombras, desse passado hediondo que ele levava nas memórias e carregava dentro do peito, em um desespero quase mudo na maior parte do tempo. Mudo. Era o que ele tinha se tornado. Do expressionismo jovial que sempre tinha seguido, a esse conformista mudo, cego e surdo. E em tal hedonismo ardoroso, e narcisismo estrondoso, se perdeu. E se perdeu pra nunca mais voltar. Entristecia com tal perspectiva. Enegrecia por dentro, e nada bom podia vir de tão vil cor, não é mesmo? Sua combinação interna era preta e cinza, cinza e preta. De maneira implacável a dor e o desespero inundavam-no. Estava tudo tão perdido, tudo tão embaçado, um futuro tão triste, uma vontade tão estúpida, uma vilania tão perversa. Jogou-se e juntou-se as gotas.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Poemas random.

Cansada
Respirar
Pra dentro
Pra fora
Quanto trabalho.
Não é mais fácil
Dormir
E ficar por lá?

Terra de ninguém
Preso
Preso pra sempre
Em si mesmo
E na sua prisão
Preso.

Gotas que caem no chão
Gotas que molham o pão
Gotas que nunca se esgotam
Gotas que chovem dentro
Gotas que chovem fora
Gotas que nunca mais choverão
Gotas que caem da face
Em direção ao duro
Chão.

Morte.
Tenra.
DOCE.
IMPERCEPTÍVEL
FINALMENTE,
Fim.

Fecha e não abre,
Descansa e não volta jamais.
Me deixa em paz.

A porta aberta,
A porta fechada.
Longe de mim,
Me separando de ti.