sábado, 1 de dezembro de 2012

Home Is Where The Heart Is



















Olhando minhas fotos ao som de Memory Lane, do Mcfly, descobri relíquias. Fotos que eu nem lembrava existirem. Eventos que eu nem lembrava ter comparecido. Pessoas que faziam parte do meu dia, do cotidiano, que eu sabia de quase tudo, e que agora não sei de absolutamente nada. Tudo muda tanto. Suas escolhas influenciam mais que diretamente em quem você se torna ou se tornou, e algumas pessoas simplesmente não cabem mais na sua presente ou passada situação. Não é culpa sua. Não é culpa delas. Só não cabe mais. Me dei conta de quantas pessoas passaram pela minha vida. Não foram poucas. Já participei de vários grupos de amigos, várias tribos, de muitas pessoas diferentes. Ofendi e fui ofendida. Mudei e mudaram. Todos mudam. E acontece que agora não sei a que grupo pertenço. Tenho, ao meu lado, as pessoas que eu sempre tive ao meu lado, e as quais eu tenho a certeza que não me deixarão jamais. Algumas pessoas, por mais que efêmeras na minha vida, deixaram marcas eternas. Marcas de como me comporto, de como me comportarei, de mim. Fizeram de mim o que eu sou hoje, e sou eternamente grata. Algumas, consegui ofender e afastar da minha vida, apesar de que, no geral, essa nunca foi minha intenção. De algumas, sinto enorme falta. De outras, não sinto e provavelmente jamais sentirei (apesar de "jamais" ser uma palavra de enorme significância, e que não deve ser usada em vão). Às vezes, só às vezes, sinto aquele aperto gostoso e dolorido no peito, quase sempre de saudade, e vejo as fotos. Pra algumas pessoas, que a vida separou, a gente diz que sente saudade, que devemos marcar encontro, e nunca liga. Pra outras, a gente liga do nada e resolve que o tempo que passou separado foi o suficiente. Mais do que o suficiente. Teme que quando encontrá-la, não saberá o que dizer, como se portar, mas assim que a encontra, parece que nunca estiveram separados. E é assim a vida, cheia de reviravoltas, curvas, becos sem saída. Pessoas que não há mais chance de reconquistar. Pessoas que não foram totalmente perdidas, mas que precisam que você reconheça o erro, ao invés de persistir nele. Pessoas que você não sabe que farão falta até que saiam, aos poucos ou abruptamente, da sua vida. Aos que ofendi ao longo do ano e dos anos, minhas mais sinceras desculpas. Planejo começar o ano de 2013 de consciência limpa, ao menos. Desculpas vindas do coração. Meus erros foram maiores que meus acertos? Espero que não. Espero que ainda possamos telefonar uns pros outros e marcar de ir à praia, à roça, ao açaí. Espero que possamos começar 2013 de forma limpa. Com menos problemas, menos inimizades, menos coração cheio de problemas. Àqueles que planejam ir pra longe, meu até logo. Adeus, nunca. Nunca, adeus. Sei que sou eternamente responsável por aquilo que cativo, e espero conseguir semear um pouco do bem que me foi semeado. E que isso não seja um adeus, nunca. Sempre até logo, sempre vírgulas. Pontos finais são muito difíceis de aceitar. Bem. Não consegui chegar até o final do texto sem lágrimas, como havia me prometido fazer. Até logo e obrigada por cada dia bem vivido da minha vida.









quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Me Enamora

Andando pela rua, pensando no que ia fazer quando chegasse em casa. Deleitava-se com a possibilidade de só deitar na cama e ligar pra alguém, passar horas lá, deitada, conversando e rindo. Muito tempo que não se sentia assim. Leve, leve. Apesar de parecer que quase tudo ao seu redor explodia levemente ao som de uma sinfonia de beethoven, ela se sentia como se pudesse flutuar a qualquer momento. Sim, andara tendo crises inexplicáveis de choro. Mas, de uma forma ou de outra, não se sentia sozinha ou desamparada. Sentia como se tivesse sempre alguém ali. Alguém pra ela ir conhecendo e se apaixonando pelas coisas mais bobas, pelo jeito mais simples. Alguém pra quem ela não teria vergonha de dedicar os escritos mais bregas e cheios de significância. Alguém pra me ver chorar, no meio de uma crise totalmente sem sentido. Alguém que não a fosse julgar pelas besteiras que ela já fez. E quando julgou que nunca mais ia sentir-se assim, que nunca mais ninguém seria capaz de sentir alguma coisa por ela, ele apareceu. Não foi em um cavalo branco, nem com uma rosa na mão (ainda bem, detestava rosas), mas foi com o coração só pra ela. E o coração dela era só pra ele. A fez chorar, muito. Preocupou-a diversas vezes. Mas as lágrimas, sempre pelas coisas lindas que dizia ou fazia. A preocupação, eram outros quinhentos. Como é que havia de não se preocupar, com alguém que sempre foi tão importante, e agora, mais ainda? Como? Sentia que estava em um romance diferente. Eram diferentes. Falavam espanhol, entre si. Tratavam um ao outro como amigos e como amantes, assim como disse Vinícius de Moraes. Era isso. Algo de melhor que aconteceu em 2012. Algo de bom que esse ano tinha que trazer. Se sentia tão intrínseca à ele, ao modo de viver, particular aos dois. Estavam tão perto do aniversário, do primeiro aniversário. Estava apreensiva, sem saber se ele ia gostar do tal texto que mandou. Esperava que sim. Destrancou a porta de casa, e entrou. Tirou o telefone do gancho. Discou os números.
"Alô?"
"Hola, mi amor."
E assim, só assim, pôde ser feliz.

sábado, 24 de novembro de 2012

Quando Eu Estiver Triste, Simplesmente Me Abrace

Quase todos os meus relacionamentos afundaram. E afundaram feio. Não sei lidar com o amor das pessoas, sempre penso que este é efêmero demais, e se acabar dependendo dele, vou afundar quando acabar. Por isso sempre fiz questão de acabar. A gente é feito pra acabar. Sempre acreditei na efemeridade da coisa. Dos sentimentos. Do amor. Do coração batendo forte, das pernas bambas, das borboletas do estômago. Sempre achei muito incerto quem não demonstra afeto, quem não diz que ama. Também achava grudento quem dizia isso em demasia, e me punha em um enfado que era difícil de tirar. Ninguém nunca achou um equilíbrio. Eu sou meio desequilibrada, então achar alguém que aguente tamanha mudança de humor de forma constante, e que aceite isso numa boa, foi difícil. Eu sou difícil. Reconheço isso. Difícil, chata, insuportável, irritante, meio egoísta, abusada. E nem é charminho. Percebi o quanto é fácil cair na rotina, desaparecer quando você namora. Se infiltrar no outro ao ponto de saber quais os problemas, soluções e palavras que vão vir dele. Não se infiltrar, mas entrar aos poucos. E com permissão. Essa é essencial. Não gosto de relacionamentos mornos. Sou intensa. Mas enjoo de viver em filme live action com o armaggedon me perseguindo por aí. Gosto de ficar em casa, dormir, ver filme, ir ao cinema, caminhar. Uma pessoa que faz parecer que estão juntos a tempos. Que tem a capacidade de fazer você virar as costas pra o Murilo Rosa enquanto ele canta uma balada famosa do Skank. Uma pessoa que é totalmente diferente de você em quase todos os aspectos da vida, de uma forma quase que só pra fazer birra. O lance é o seguinte: obrigada.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Daqui A Alguns Anos

Acordou em uma cama, que não era a sua. Olhou pra um teto, que não era o seu. Passou a mão pelas cobertas quentes, que não eram as suas. Olhou pra o marido, de olhos fechados e barriga pra cima, que não era o seu. Tentou se situar numa vida que não parecia sua. Levantou e colocou os pés no chão gelado. Aquele chão gelado não era do seu Brasil. Pela janela, uma paisagem gélida de inverno. Reparou que estava com frio, em meio a confusão. Buscou um casaco no closet daquela casa. Pegou botas de neve, calças de frio, meias, casacos, luvas e um gorro. Vestiu-se, e com o homem dormindo na cama, saiu. Sentou-se em um banco lotado de neve, depois de espaná-la pra longe. Parou pra pensar. Aquela era a vida que ela tinha vivido nos últimos seis anos. Daqui meia hora, Jackie, sua filha, teria acordado, e estaria faminta por algo além de ficar dentro de casa. E Matthew, seu filho, estaria sendo provocado por Jackie. Quando foi que as coisas mudaram tanto? Lembrava dos namoros da adolescência, das bebedeiras, das novas experiências, das notas baixas, dos bares, dos shows. E isso ficou pra trás? Quando? Quando é que tudo ficou sério? Quando ela saiu da faculdade com noivado engatado? Ou quando nasceu seu primeiro filho? Quando ela saiu do Brasil já casada? Ou quando se viu na cozinha, revezando as tarefas diárias, desejando uma taça de vinho, e conversando com o marido? Foi quando ela deixou a boneca de lado? Quando acabou o ensino fundamental? Ou o médio? Foi quando arrumou um emprego meia boca em um jornal que demorou a lhe reconhecer como talento? Não sabia. Que manhã normal, pra acabar cheia de perguntas. Isso era o que ela queria? Não tinha mais tempo pra pensar no que ela queria. Daqui a pouco, estaria em uma casa em plena atividade matinal, cheia dos berros das crianças e da correria do marido. Os amava, e não os trocaria por nada. Mas tanta coisa que não havia feito... Pular de bungee jump, saltar de asa delta, escalar o Everest, ménage a trois, relacionamento aberto, experimentar LSD, correr o país inteiro, cozinhar jantar pra três, repintar a sala sozinha, dormir sozinha só consigo mesma, cantar sozinha sem medo de ouvirem-na. Tanto que não tinha feito. Casou-se com um inteligente, teve filhos comportados, comprou uma casa bonita. Seguiu vivendo a sua vida que não parecia sua, ouvindo as músicas que pareciam ter perdido o sentido. Não havia do que reclamar, em teoria. Pra quê crescer? Não sabia. Mas seguia. Sempre em frente. Um vulto empacotado em roupas invernais saiu de casa, acompanhado de outro vulto consideravelmente menor. Jackie e seu marido.
- Mamãaaaaaaaaaaaaae - Seus olhinhos brilharam ao escalar os joelhos da mãe.
- Olá, querida. - Abraçou-a. Dylan, seu esposo, sorriu. E juntou-se ao abraço. Não sabia se estava onde deveria estar, mas sabia que estava onde queria estar. Mesmo com o tempo ruim, com a neve, e com a adolescência distante.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Ando Em Frente Por Sentir Saudade

Na classe, o professor colocou um vídeo. Vídeo pesado. Cheio de terror. Não havia sangue. Havia brutalidade. Algo nada incomum no mundo. Crueldade, exposta, nua e crua. Seus olhos lacrimejavam. Já tinha visto tal vídeo uma vez. Não estava gostando de vê-lo de novo. Esfregando na cara aqueles corpos putrefatos de milhares de judeus no holocausto. Era judia. Se sentia judia. Sentia dor mental e física vendo aquilo. As pessoas, negando envolvimento. Como podiam? Nunca protestaram. Nunca foram contra. Se não foram contra, apoiaram. Sentia nojo, sentia repulsa. No escuro, encontrou uma mão. Uma mão que afagou a sua, que apertou a sua, que partilhava da sua repulsa. Uma mão, que por mais que fosse quase tão fajuta judia quanto a dela, era uma mão amiga. Uma mão que sentia, involuntariamente, as agruras do vídeo. Sentia mais que os outros. Apertaram as mãos, em sentimento conjunto de cumplicidade. Eram amigos a mais tempo do que podiam contar. Aquela intimidade, de apenas segurarem as mãos, deu a ela forças pra não chorar, levantar a cabeça e encarar os dias. Se os sobreviventes tão sofridos dos campos de concentração conseguiram, ela conseguiria. Conseguiriam. Como estava sendo tão difícil sem ele. Sem aquela mão ossuda pra apertar, aquele corpo conhecido pra sentir junto ao seu quando as lágrimas rolavam, que nem no dia do vídeo. Volta. Aquele vídeo mostrou pra ela que enquanto tivesse aquela mão, nunca estaria sozinha. Super amigos pra sempre.

domingo, 11 de novembro de 2012

I Want You To Be Crazy, 'Cause You're Stupid, Baby, When You're Sane

Câmera foca em um grupo de jovens descendo de um carro por volta do meio dia, na frente de uma fonte que está sendo restaurada. O grupo conversa animadamente. Pegam as malas na mala do carro, e se dirigem até a pousada do amigo, na qual irão se instalar. Corta para eles chegando no caminho tortuoso até a casa que vão ficar. Andam os quatro, rindo e conversando. Chegam na casa, e entram sem bater. Se deparam com uma casa meio escura. Quarto lotado de pessoas semi acordadas. Acendem a luz e se juntam a eles, rindo. Conversam, até sentirem fome. AUG reclama até que cedem aos seus apelos, e vão ao restaurante. Câmera corta para fila do restaurante self service, onde todos conversam animadamente enquanto comem avidamente. Corta para o quarto do jovem dono da casa, onde alguns estão jogando poker em duplas. Riem. Câmera foca na janela, que mostra o dia apagando aos poucos. PH entra no quarto, e informa que vai até a casa de BR, se arrumar lá. B levanta e vai também.
PH: Vou me arrumar lá em BR, falou.
B: É? Vou também. Tchau, galera.
Câmera corta para os dois andando nas ruas tortuosas de Pipa, até a casa de BR. Conversando sobre a vida. Câmera corta pra os dois entrando na casa de BR. PH e B deitam na cama com BR, que se mostra aflita. Confessa não saber como que vai ser quando chegar na casa de RR. PH e B mostram suas opiniões e oferecem ombros amigos. Os três tomam banho e se arrumam. Corta para a festa de RR. BR, B e PH chegam. Foco nas mãos entrelaçadas de B e BR, como sinal de apreensão. Encontram com LS, RR, ROD no caminho. RR e Brisa se abraçam. BR continua andando pra casa, enquanto RR e os meninos vão atrás das bebidas. Close na mesa posta, comida, e pessoas sentadas rindo. Conversas giram em torno de sexo, platelmintos, comida, experiências e sexo. Corta para ROD rindo e bebendo. Corta pra RIC bebendo. MA bebendo. BEC bebendo. PH e B sóbrios, assistindo. Fotos. Muitas fotos. Corta pra o rosto vermelho de MA. Choro. Gritos. Câmera gira, confusa. Intermitentemente, pessoas conversam. BR e RR voltam a namorar. MAR grita, esperneia. Está triste. Tentativas de consolo, de ajeitar as coisas. Câmera corta pra momentos mais tarde, pra o Quarto dos Sóbrios. Conversa sobre sexo. Vibradores. Hentai. PV entra, pálido. Câmera foca no rosto dele. PV entra em um quase coma alcoolico. Tentativas afoitas de salvá-lo. PV se recupera, e dorme. Enquanto isso, a câmera passeia pelos vários ambientes da casa. Encontra bêbados, foca em garrafas semi vazias de bebidas. Foca em um beijo lésbico entre BF e B. Foca em REB e MA se maquiando pra sair. Volta pra um dos quartos, onde PH, AM, B, MAC e BR dançam ao som de S&M da Rihanna. AM vai pra casa, e as pessoas se movimentam pra sair. Foca no grupo na praça. Arriba, Abajo, Al Cientro, Adentro! Sal, tequila e limão. Felicidade está entre o sal e o limão. Marijuana. Câmera foca em vários jovens. Cigarros. Corta pra a descida da praia. Praia. B e PH sobem pra casa. Dormem várias pessoas juntas. EMO dorme no chão. RR acorda B para um pedido de ménage. Câmera apaga. De manhã, a luz inunda o cômodo. Descem pra o café. Comem. Riem. Juventude perdida é o caralho.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Nem Santa, Nem Puta. Mulher.

Aproveitando o gancho do meu projeto da CIARTE, quero falar sobre uma coisa que me enfurece MUITO. Andar na rua e ser cantada a cada dois passos que se dá. É a coisa mais irritante, constrangedora, babaca e exasperante do mundo. Até por que eu ando muito sozinha, quando essas "cantadas" rolam depois das cinco da tarde, já ando assustada e com passos largos, com medo do que pode me acontecer se eu me demorar.

Mas a pergunta é: Quem é que te deu o direito de violar meu direito desse jeito? Quem é que te autorizou a entrar assim na minha vida, olhar pra mim desse jeito e falar essas coisas pra mim? Meu short? Meu decote? Sinto muito, amigo, mas o meu decote NÃO é convite. O comprimento do meu short só interessa a mim. Em uma cidade quente que nem a que eu moro, impossível andar sempre de jeans, casaco, camisa, e tênis. E mesmo se andar, ainda tem nego cara de pau que passa cantada.

O negócio é o seguinte: o corpo é meu, e eu ando vestida como eu quiser, por que isso é problema meu. Não tem esse lance de "roupa de vadia". Se a guria quiser andar de short beira cu, salto 234832842 e top, ela anda, e tu não tem nada com isso. É essa a questão. Nossos pais sempre nos ensinam a fechar as pernas, a sermos recatadas, usarmos roupas compridas. Mas por que a gente que tem que se fechar? Quem viola o direito da vítima é o estuprador, não é a roupa que eu uso ou deixo de usar.

Acho que falo por todas as garotas, que o sentimento de aflição ao ouvir coisas como "Ei, gostosa", "Vem cá, linda" e assobios por aí é grande. É irritante, é babaca.
Portanto, antes de meter a mão na buzina e assobiar do banco do seu carro, pensa que aquela pessoa a qual você está tratando como um mero pedaço de carne, tem sentimentos, corpo, alma, respira e pensa. Não é um brinquedinho sexual, não é algo pra você tirar proveito. É uma mulher, que, apesar de estar usando um short curto ou uma blusa que mostra a barriga, NÃO está lhe convidando a introduzir seu pênis troglodita nela. Grata se for respeitada na rua.

sábado, 3 de novembro de 2012

Ela É Linda Linda

Eu devo mais a ti do que eu posso pagar. Devo mais a ti do que a qualquer um. Devo quem eu sou, devo quem eu fui, e devo quem eu vou ser, e gosto de devê-lo. Eu te amo. E a distância me mata, vó. Sempre tive muita inveja de todas as minhas amigas que tem avós que moram do lado. Você escolheu morar do outro lado do mundo e me matar de saudades. Você escolheu sempre ser feliz, e ser sempre minha avó, não importando a besteira que eu tivesse feito daquela vez. Nos meus piores momentos, eu tenho certeza que você estava lá. E que sempre vai estar. Agora, aí em Israel, são quase duas da manhã. Mas eu aposto que se eu precisasse de você nesse instante, e ligasse pra aí, você ainda ia me atender. Com uma puta raiva. Mas ia me atender e ia procurar me entender. Você sempre procurou entender minhas babaquices. Sempre me amou, por mais que eu gritasse, esperneasse e disesse que não queria ir pra sua casa. Encaremos a verdade: eu adorava a sua casa. Aquelas porcelanas, aqueles panos coloridos, os degraus que rangiam, o armário gigante, a cozinha minúscula com aqueles mesmo azulejos quebrados desde sempre, aquele banheiro no final do corredor, a sala que dava pra a rua, a tv que não era a cabo, o armário das suas miniaturas. Todas aquelas vezes que eu acordava cedo e brincava com o fogãozinho e as panelinhas de porcelana, todas as vezes que eu fazia inúmeros espetáculos de dança e teatro pra você e pra o tio Paulo, todas as vezes que eu cozinhava comida de mentirinha, as vezes que você me levava pra o teu atelier, as vezes que você bronqueava comigo, que você me escutava, que contava histórias do seu falecido gato Leo, aquela vez que você me comprou um gato de pelúcia igual ao teu gato, aquelas vezes que você veio aqui pra casa pra me trazer um pouco de você e ir embora logo depois. Queria ter tido mais tempo pra ficar com você, pra que você me conhecesse, pra poder te abraçar, conversar, colocar meus problemas, ouvir os seus. Queria que desse pra gente se conhecer melhor, vó, que a saudade aperta nos piores momentos. Esse vazio que fica, essa vontade de ficar duas horas te abraçando, te dizendo o quanto eu senti sua falta e o quanto eu queria você perto de mim. Eu queria poder te apresentar meus amigos, te mostrar a minha escola, te mostrar os lugares que eu gosto de ir, te levar pra o shopping comigo, ir com você comprar tecidos, inventar roupas, vestir bonecas, escutar mpb, tomar café. E como essa saudade aperta, vó. Eu me lembro de todos os livros que você me deu, de todos os abraços que você achou que eu merecia, mesmo quando eu não merecia, de todas as vezes que eu estava errada, você sabia que eu estava errada, mas mesmo assim me abraçou, e disse que ia ficar bem. Da sua comida. Da sua presença. No meu mural tem uma foto sua, vó. Eu devia ter uns cinco anos, e estava chorando. E você estava dando um beijo na minha bochecha. Acho que essa é a foto mais linda da face da terra. Você me apresentou Harry Potter. Você fazia brincadeiras comigo, e eu dizia que “minha avó é doida”. Minha vó não é mesmo normal. Mas eu acho que se ela fosse, não seria a minha avó. A avó que eu tanto amo, e que eu tanto quero por perto. É uma pena que eu não possa te abraçar e que você não possa dizer “eu estou aqui”. Você é uma das pessoas pelas quais eu me atiraria na frente de uma bala, se eu precisasse fazê-lo. E eu sei que você vai sempre estar aí pra me apoiar e me dar broncas quando eu precisar. Chorar escrevendo esse texto foi a coisa mais egoísta que eu já fiz na minha vida inteira, por que você está feliz, e se você está feliz, eu estou feliz. Quando você puder me dar colo, eu vou querer. Acho que isso é ainda pior do que quando eu pegava o avião de volta pra cá, e assim que eu dava o braço pra a aeromoça e entrava na sala de espera pra voltar pra casa, meu coração apertava, e eu queria chorar. Mas eu nunca chorava. E agora, depois de grande, eu estou chorando que nem uma boba na frente do computador. Eu te amo, Vó.

Por Hoje A Vida Dança Sem Sinal

Estava na fila do supermercado, carregando oito sacolas lotadas de decoração temática de halloween pra sua festa. Estava quase atrasada pra a própria festa. Victória já estava lá, no salão de festas. E ela do outro lado da cidade, esperando na fila pra comprar uma coca cola e uma garrafa de groselha. Conseguiu carona com o Matheus. Chegou, tomou banho, desceu e ajudou Victória a arrumar o salão. Subi pra pegar minha fantasia de chapeileiro maluco versão feminina. Quando desci, havia um desconhecido junto aos meus amigos. Um desconhecido que logo virou conhecido, e era simpático. Mais pessoas foram chegando, e eu estava com medo de que a festa ficasse segregada, que as pessoas não se misturassem, que tudo desse errado. Não deu. Fantasias, conversas, doses e mais doses da groselha batizada. De vodka. Insônia. Tapas. E beijos. Muitos beijos. Tontura. Beijo. Em todos. Todos merecem o meu amor. Música. Risos, muitos risos. E o prédio tá se mexendo. Juventude perdida é o caralho, eu tenho muito mais pra contar. Andar até o supermercado de fantasia, comprar mais bebida, comer mais bala, beber mais coca, rir mais. Por que é isso que eu quero. Ser roteiro de skins, viver no último. Se não for pra viver sempre querendo mais, não há pra quê viver. Se não for pra estar na beira, no limite, pra quê viver? Como já dizia Pessoa, tudo vale a pena se a alma não é pequena. Tequila. Insônia. Vodka. Arrumar tudo, e depois ir pra cama. Cama? Conversar com Victória até dormir. Acordar e comer. E experimentar a melhor das dores de cabeça, a de saber que tudo foi bom. A de saber que fez o que quis, e não há do que se arrepender. Afinal de contas, pra quê viver pela metade?

ENEM e outras desgraças

Nove da manhã. Levanto da cama, tomo banho nas pressas. Por que eu não tenho nenhuma bosta de caneta preta translúcida? Agora vou ter que correr pra o supermercado antes da maldita prova. Ok, 9:30. Dá tempo. Dá? Vai ter que dar. Por que o supermercado tem que ser tão longe? Eu só queria UMA caneta preta, mas tive que comprar um pacote com TRÊS canetas, uma preta, uma azul e uma vermelha. E enfrentar a fila, com o tempo correndo pelos meus dedos. A porcaria da fila de pequenas compras está lotada de pessoas, e dando voltas.
- Licença, moça. É que eu vou fazer ENEM, e só preciso comprar essas canetas pra prova, vou pagar em dinheiro, juro que são só cinco minutos, será que eu podia passar na sua frente, por favor? -
- Não. - E virou o rosto. Na verdade, não olhou pra o meu rosto. Só murmurou um não indigesto que me fez ficar com a pior impressão do mundo. Fiquei ali, atrás da dita cuja, com raiva. Ela não tinha que me ceder o lugar dela, mas poxa, custava tanto olhar na minha cara pra negar? Quando as compras do carrinho abarrotado da mulher acabaram de ser passadas, ela ainda fez um barraco infundado por causa de uma promoção fora do prazo, e algo dentro de mim não descartava a possibilidade de ser só pra me irritar. 10:30. Ainda era um bom horário. Passei as malditas canetas, e acabei descobrindo que não ia ter dinheiro pra voltar pra casa depois da prova. Tudo bem. Eu arranjo carona. Corri pra o ponto de ônibus, com as canetas na bolsa. E com fome. Meu estômago estava embrulhado. Menos de cinco minutos depois, o ônibus rumo à Ponta Negra apareceu. Abarrotado de gente. E eu não podia me dar ao luxo de não pegar o ônibus e esperar pelo próximo, que provavelmente estaria mais lotado ainda, se é que possível. Acho que os ônibus ignoram aquela lei da física que diz que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. Fui em pé metade da viagem, lotada de trancos e solavancos. O trânsito estava praticamente parado. Acho que mais da metade das pessoas que estavam dentro do veículo estava indo prestar o ENEM. E estavam impacientes. Extremamente impacientes. Uma pequena revolta surgiu, e três pontos antes, várias pessoas desceram do ônibus e correram loucamente em direção ao local do exame. Faltava meia hora. Eu estava profundamente enjoada, com medo de perder a prova, e de ser barrada por não estar com o comprovante de inscrição. Cheguei a apelar pra um Deus que eu não acredito pra pedir pra não vomitar no colo do menino do lado, de tanto nervosismo. Como a anta aqui esqueceu o comprovante de inscrição em casa, eu não fazia ideia de qual era a minha sala. Antes do ponto, todos os participantes do ENEM decidiram descer do ponto e sair correndo pra chegar em tempo. Acabei chegando quinze minutos antes e vomitando no banheiro antes da prova.
- Oi, Bianca, por que tá todo mundo correndo? -
- Por que estão com medo dos portões fecharem. -
- Mas ainda faltam quinze minutos pra isso. -
- É, mas o pessoal está nervoso. -
- Qual a sua sala? -
- Minha sala? Acho que é... 103B - Chutei o número da sala de um menino que tava do meu lado no ônibus, o mesmo que eu me contive pra não vomitar em cima. Na verdade, entrei em um pânico profundo por não saber. Liguei pra minha avó.
- Vó, em cima da minha mesa, tem o meu cartão de comprovação do ENEM. Preciso que você olhe qual é a sala que eu vou fazer a prova. -
- Certo, minha filha, só um segundo. - Depois de dois minutos que pareceram dois milênios, minha avó volta ao telefone.
- Hmmmm. UNP Roberto Freire... Segundo bloco... -
- Não, vó, isso eu já sei, qual é a sala? - Desesperada.
- Não tem a sala aqui...-
- Claro que tem! -
- Ah! Achei! 223C -
- Obrigada, vó, tchau -
- Tchau - Corri pra o fiscal mais próximo, que me indicou que eu deveria subir pra o terceiro andar. Cheguei, viva, na sala da prova. Nervosa, porém, viva. E tremendo de medo que me barrassem por que não estava com o meu cartão de comprovação do ENEM. Mas nada me impediu de entrar. Uma vez dentro, me senti mais tranquila. Em uma sala entupida de xarás, lá estava eu, semi encolhida, sentada e apreensiva. E a prova chegou. Tinha uma menina atrás de mim que estava comendo Doritos. Da forma mais barulhenta possível. Eu tive vontade de esganá-la. Ela passou a prova inteira deglutindo coisas barulhentas, e eu passei a prova inteira imaginando maneiras nada delicadas de silenciá-la. Conforme fui fazendo as questões, fui me tranquilizando. Não tinha nada demais. Muito mais simples do que uma prova da minha escola. Me animei, e acabei cedo demais. Tentei enrolar pra poder levar o cartão de respostas, mas não consegui e acabei saindo, confiante. O que posso dizer é que amanhã eu vou levar Doritos pra comer na prova, e que eu memorizei o nome da menina que comeu. Vou chegar cedo e sentar atrás dela. Espero que a prova seja tão boa quanto hoje. Boa prova pra todos!

domingo, 28 de outubro de 2012

Love Will Tear Us Apart Again

Nos últimos dois meses eu pude experimentar o que é uma amizade. Várias amizades. Eu estava extremamente carente por que muitos amigos tinham ido pra o intercâmbio, tava me sentindo meio sozinha, abandonada. E de repente, um dos meus blogueiros favoritos chegou com essa ideia de Blog. E poxa, que ideia genial. Juntar um monte de meninas pra desabafar, conversar, se amar, e contar suas histórias, suas jornadas. E uma das regras era estilo Clube da Luta, sabe? Nada pode sair dali. Mas saiu. E quando saiu, o grupo foi deletado nas pressas. Depois desse, surgiu outro, com beeeeeeem menos meninas, por que a gente gostou do clima intimista e amoroso do outro grupo. Ficamos confortáveis umas com as outras. Compartilhamos segredos, besteiras, fotos, nossas vidas, nossas partes do corpo, nosso amor, coração e vivências. Tava bom demais pra ser verdade. Veio mais um problema, um vazamento de informação. Poxa, um vazamento de informação de pessoas que em tão pouco tempo já estavam no meu dia-a-dia, pessoas pras quais eu contava minhas experiências, dividia meus medos, ria das minhas piadas e compartilhava, de verdade, um sentimento enorme de cumplicidade, amizade, honestidade e muito mais que isso. Um elo que eu não tenho com quase ninguém, eu consegui construir com vocês. Por mais que tenham dado problemas, é um elo que eu não quero quebrar. Quando for a SP quero ver a Jess, a Helo, a Rafa, a Érika, a Joi, a Gaby. Pra Minas, Nath, exijo abrigo na sua casa. Pro RJ, Cami Ripoll, Camis Frescurato, Tamys. Pra PE, tem a Mayra e a Dill. No RS tem a Gabi, a Jéssica Vinadé... Tem até a May em Manaus e o Doug em Brasília! O problema que rolou provavelmente vai acabar com a nossa terceira fuga, o nosso grupo que servia de porto seguro. Então eu estou me aproveitando da oportunidade de dizer que eu amei a experiência, e sempre que precisarem, podem ligar, mandar mensagem, falar no whats, inbox no fb... Eu sempre vou estar aqui. Ansiosa pra saber como vamos ficar. Acho que eu, ao menos, vou me sentir desamparada pra sempre. Conto com o amor de vocês. E podem contar com o meu. Tô escrevendo isso tudo por que escrever é a minha maneira de me expressar. Fora as lágrimas que tão rolando de saudade prematura e de desapontamento, é escrevendo que eu me solto. Obrigada por terem confiado tanto em mim o tanto eu confiei em vocês. Amo muito vocês, e espero poder manter a amizade ao longo dos anos. E ah, ainda espero vocês no meu halloween.
E na minha casa, quando puderem.
Milhares de beijos saudosos e tristes,
Bee Mascotinha

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Na Madrugada Sem Fim

- Vá lá. -
- Mas ele não me quer. -
- Mas vá! - Estava cansada de não fazer exatamente o que queria. Dane-se. Foi lá, decidida, pela oitava vez na noite. Mas a vodka já tinha-lhe subido à cabeça, então fez. Tascou o beijo. Não sabia que horas eram. Sabia que parecia que as coisas do lado de fora estavam entorpecidas. Que estava bom onde estava. Apesar dos inúmeros dedos enfiados no meio, vodkas jogadas na cara, e interrupções de bêbado, foi interessante. O beijo continuou, sem pausas pra conversa. E prosseguiram.
- Você me segura se eu cair? -
- Seguro. -
Andaram pelas tortuosas ruas de paralelepípedo. Tropeçando, mas não caindo de verdade. Isso podia ser entendido como uma metáfora pra sua vida. Tropeçando, mas nunca caindo. Aos tropeços, seguiam. Seguia. Tequila. Dedos entrelaçados. Sentiu falta desse entrelaçar de dedos. Não propriamente dele, mas desse gesto. Gostoso gesto. O grupo de amigos foi expulso de onde estavam por causar desordem. E rindo, foram embora. Que estraga prazeres. Andaram até a pizzaria fechada do amigo. Até os sofás da pousada. Sentaram lá, e exploraram. Voltaram até a pizzaria, com o intuito de jogar. Não deu. O jogo foi brutalmente interrompido por uma indiposição de uma das amigas, e por falta de fichas (o tal jogo era o famoso poker, com o adendo do strip). Voltaram pra casa do amigo, todos juntos, segurando o riso pra não acordaram os hospédes da pousada. Voltaram de mãos entrelaçadas, corpos juntos, mas sem palavras pronunciadas. Chegaram na casa. Enquanto todos se arranjavam pra dormir, ele deitou na rede e ela entrou pra se trocar. Voltou só usando uma calcinha e sua blusa favorita.
- Você vai deitar aqui? -
- Hm. Não sei. -
- Eu quero dormir sozinho. -
- Tá. Não vou dormir aqui. -
- Me bateu um mal estar, um arrependimento de ter ficado com você. Não queria ter ficado com ninguém. -
- E por que você não recusou? -
- Sei lá. -
- Eu já sabia que você não tava afim de mim -
- É. - Estava se sentindo horrorosa. Muito horrorosa. Quem já tinha se arrependido de ficar com ela, e dito assim, na cara dura. Só queria socá-lo. Ao mesmo tempo, queria ficar sentindo aquele cheiro enebriante do perfume dele.
- Você é um babaca. -
- Eu sei. -
- Posso te socar? -
- Tá, mas não no nariz. - Colocou as mãos em volta do nariz. Meteu-lhe um soco no maxilar, mas não usou a força total. Não queria machucar, verdadeiramente. Ou queria? Ainda estava pra decidir.
- Sabe o que é péssimo? Eu quero muito te socar, mas gosto do teu perfume. -
- Eu nem gosto muito dele, é muito comum. -
- Eu gosto. - Ficou lá, deitada, perto do pescoço dele.
- O que eu faço, ein? -
- Sei lá. -
- Sério, po. -
- Não sei. Só não me beije. -
- Não estou beijando. -
- Eu sei. -
Levantou pra tomar água e foi pra o sofá. Ela adormeceu por uma fração de segundo, e ele sentou no sofá. Levantou, com o intuito de ir dividir uma cama lá dentro, com uma das meninas.
- Vou entrar. Vá dormir na rede. - Selinho. Entrou, e ao não encontrar cama disponível, voltou e dormiu no sofá. Cochilou, das sete às oito da manhã. Quando acordou, ele já não estava mais na rede. Levantou, sem rumo, e o encontrou na porta do quarto onde todos dormiam. Murmurou um bom dia inaudível e voltou pra o sofá. Deitada, ainda só de blusão e de calcinha. Maquiagem borrada. Ele passou e parou.
- Praia? - Estava de bermuda e blusa.
- Agora? -
- É. -
- Ok. -
- Tô indo, qualquer coisa me liga. -
- Mas eu não tenho teu número. - E sumiu dentro da casa, decidida a se enfiar na saia da noite anterior, que nada tinha a ver com a blusa que estava vestindo.
- Vai anotar? -
- Me espera, tô indo. -
- Ok. - Depois de uma interminável luta com a saia, saiu, ainda de maquiagem borrada, saia amarrotada, blusa larga, sapatilha sujinha. Andaram em silêncio quase absoluto até a mesa do café, com o barulho dos passos de ambos ecoando fundo. Comeram quase que em silêncio. Ela, no celular, conversando com as amigas sobre o menino que estava na sua frente. Ele, ouvindo música no celular. Ela só tomou um copo de suco de goiaba, sem açúcar.
- Posso tomar um gole? -
- Pode, pode sim. - Terminaram e levantaram. Andaram quase em silêncio, apesar do burburinho da cidade praiana em plena atividade às nove da manhã. Andaram muito, quase sem falar. De vez enquando, soltavam comentários bobos sobre alguma coisa quase irrelevante que estava permeando a presente realidade deles. Sentaram na areia, em certo ponto. Ele começou a estourar as espinhas, e ela se ofereceu pra espremer os cravos.
- Você não acha isso tudo estranho? -
- Isso o quê? -
- Essa situação. -
- Não. - Ela resolveu se atirar no mar. De roupa e tudo. Deixar a água levar, a água levar. A água levou, e eles foram embora. No mesmo silêncio quase sepulcral de antes. No caminho, ela parou pra comprar uma lata de Coca-Cola, e ele ficou sentado esperando. Voltaram pra casa, e ela se trancou no banheiro, afim de um banho demorado. Não tocaram mais no assunto. No resto do dia, assistiu as intimidades dele com outras meninas, mas nada disse. Sentiu, mas controlou. E foda-se isso. Não gostava dessa situação. Não ia esperar por homem. Ia seguir. Quer ele se decidisse ou não, quer ele gostasse dela ou não. Quando foi pra casa naquela noite, estava decidida a isso. Encontrou-o no ônibus, no dia seguinte, voltando pra casa. E ainda estava resoluta. Sempre estava resoluta. Teu texto? Tá aqui. Praxe, essa minha mania de relatar as coisas. Mas só. Fim?

Too Many Fish In The Sea

Tive muitos amores. Alguns significativos, outros não. Me deu uma vontade enorme de contar um pouco da história deles pra mim e pra vocês.

-

- Olá. -
- Olá. -
- Como se chama? -
- Martin. -
- Bianca, prazer. -
Martin era um cara legal (Martin não é seu nome verdadeiro. E não vou revelar nome de ninguém.). Martin era BV. Acho que ele acabou sendo meu primeiro amor. Daqueles que a gente nunca esquece. Na época, eu era uma pirralhinha apaixonada, que achava que o gosto musical dele bater com o meu era motivo pra nos casarmos. Martin se apaixonou por mim, mas era uma paixão muito confusa. Fui lá, no calor de um momento inexistente, saindo do shopping, correndo atrás dele, que já tinha saído de volta pra escola, e confessei TODOS os meus sentimentos. Foi tão libertador. E aterrador. Em um momento, eu estava no controle da situação, e em outro momento não estava. Só que ele correspondeu, e trocamos o primeiro beijo da vida dele. Dois anos mais velho. Tivemos um romance permeado por uma visita à minha casa, uns filmes aqui e ali, mensagens carinhosas e conversas no MSN. Mas só. Um dia, Martin viajou. Era dia dos namorados. Não recebi nenhuma ligação, mas afinal, ele não era meu namorado. Chorei minhas pitangas pra uma amiga que estava na festa que eu estava. Quando Martin voltou de viagem, ao invés de confessar o amor que eu, ingênua, estava crente que ele sentia por mim, ele confessou que não estava mais apaixonado por mim, e isso foi um soco no estômago. Demorei um ano pra superá-lo propriamente, com recaídas severas, choro contínuo e todo o drama pré adolescente possível.

-

Meu primeiro namorado era uma graça. Mas ambos éramos muito novos, e eu não fazia ideia de como lidar com os sentimentos que ele estava me oferecendo. Achava um saco, um grude, o carinho que ele tinha. Mas era mesmo. O problema é que o coitado não sabia disso. Pouco durou. Hoje em dia, não nos falamos muito, mas por falta de oportunidade. Vale salientar que fui pedida em namoro POR MENSAGEM NO CELULAR.

-

Meu segundo namorado já não foi tão ruim. Foi mais de um ano depois do outro, e havia mais maturidade da minha parte pra mexer com os meus sentimentos. Mas com o tempo, a relação arrefeceu. Pelo menos do meu lado. E acabou do jeito que acabou. De um jeito brusco, mal resolvido, esquisito e meio pessoal demais.

-

Meu terceiro e último namorado foi o mais longo dos namoros, e meu segundo amor de verdade. Passei um ano sem ficar com ninguém depois que eu, anta, terminei o namoro que tinha tudo pra dar certo. Hoje em dia não consigo, de maneira alguma, me ver ao lado dele. Apesar de agradecer pelo bom relacionamento.

-

Mais recente relacionamento foi um ficante que veio de uma transa aleatória na praia regada à vodka. Relacionamento permeado por mensagnes e ligações, pouco contato físico, carência da minha parte. Deu no que deu: término do mesmo jeito que foi a ficada: por telefone. Hoje, um mês depois, já não tenho mais nenhuma mensagem dele no celular e faço questão de não lembrar nem o nome (apesar de ser difícil, por que ele tem um nome meio incomum).

-

Acho que essas foram as principais. De uma forma resumida, uma parte dos meus dez quase amores.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Pelados Em Pipa

Abrindo de uma forma sensacional: Vodka. Vodka. Orgasmo. Caipirinha. TGVA. Capeta. Texas Tier. Tequila. Um, dois, três. Beijos. Muitos beijos. Dançando. Vários jovens, corpos entremeados, dançando. Recapitulando: todos vestidos. Cada uma arranjada da forma que podia, e com quem podia. Opa, um selinho. Dois. Três. Tequila. Acho que já estamos todos bêbados. Você me segura se eu cair? Vamos voltar pra casa, tô tonta. E o strip poker? Não vai dar? Poxa, que vacilo. Você tá bem? Não acredito que você pegou esse boe! Cochilo. Praia? Claro, vamos. Banho demorado. Preciso dormir. Bom dia, gente. Agora o strip poker?
"Tira esse celular do meu rabo!"
"Eu não"
"Hm, sua vez de tirar a blusa"
"Se eu vou ter que tirar, então vou beber."
Depois de aberta a garrafa de vodka, todo mundo se viu em posição semelhante. Todos pelados. Pelados em Pipa. Melhor que pelados em santos. Ressaca, pouca roupa e intimidade. Intimidade era isso. Pegar nos peitos da amiga sem pudor, só por que eles "tem uma energia legal". E nomeá-los.
"Não coloquem a roupa agora! Vamos fazer alguma coisa legal."
"Boe, o que você quer fazer? Uma suruba?" E todos riram. A verdade é que explorar o corpo do outro estava bom. Não precisava de suruba. Seminus, foram de encontro àqueles vestidos. E riram. Sempre estavam rindo, seja da menina que queria ficar um dia dentro de uma bolha, seja das paródias engraçadas e curtas de músicas pop coreanas. A grande verdade é que as bebedeiras eternas, os problemas momentâneos, o dividir da intimidade os uniu. Não se importava de ficar pelada. Estava curtindo a vibe, a ressaca, a insônia. Uma dose de vodka? Duas. Três. Uma tequila. Duas tequilas. Três tequilas. Quatros tequhsudhlas. Cinco teoisdjdsh. Seis kjsdjfhsd. E com todo esse amor, a saudade bate. As meninas fofocam, se apoiam, se amam.
É, acho que não quero me afastar de vocês. Posso não me afastar?

(ficou UMA MERDA, odiei, mas depois faço outro, seus lindos)

Amores Imperfeitos São As Flores Da Estação

- Olá - Se olharam longamente, e ela sorriu.
- Ana. -
- Gustavo. - Passaram o resto da noite se conhecendo, e se conheceram mais profundamente. Beijaram-se. E mais. Rápido. Um pouco altos da bebida, porém, conscientes. Ela queria tão mais, ele não queria. Ou queria? Tentou sondá-lo nos dias que se passaram, mas nada. Era tão indiferente quanto o vento que passava e não ficava. Era esse o problema, no fim das contas: passava e não ficava. Por que não ficava? O problema era ela? Suas inseguranças inchavam, enquanto as dele ficavam intactas. Era esse meio de viver? Sempre insegura, sempre pensando no que ele poderia estar fazendo, no que vocês poderiam estar planejando? Não. Era essa a hora de mover-se em frente. E, apesar de saber que era hora de seguir em frente, doía e sangrava. Recente e não tão profundo assim, mas doía. Ela estava cansada. Por que ele não deixava de ser um babaca e assumia que ela era incrível?

~

A distância estava matando. Era ruim não poder sentir a pele dele contra a dela. Compartilhavam longas ligações no skype, fotos no facebook, no dropbox, trocavam ideias no chat, mandavam mensagem no whatsapp. Todos os meios de comunicação viáveis (telefone não era um deles) eram explorados diariamente de forma contínua. O coração sempre apertava, sempre tava na mão, mas eles iam levando, contando os dias pra pra o tormento da distância voluntária e involuntária acabar. Um ano é tanto tempo. As pessoas mudam tanto em um ano. A rotina, a vida, os quereres. Torcendo por si e pelo outro, caminhavam. Ela, as ruas de outro país, ele rumo à vida adulta.

~

Eram namorados. Se amavam, muito. Mas eram de um namoro diferente. Permeado por nudez alheia, por beijos triplos, selinhos autorizados, bundas e peitos de outras. Não havia isso de ciúme. Pra quê? Era dela, e ela sabia, não dava a mínima pra isso. Ele sabia que era ela e ela sabia que era ele, e eram felizes. Sempre felizes e aproveitando o que tinha de melhor. Sexo, ócio, bebida, e comida. Tava bom demais do jeito que estava, e não só eles concordavam, os casais todos invejavam.

~

Havia amor. Muito amor. Mas não havia tempo, não havia espaço. Sempre em segundo plano, mas não queria mais estar. Brigas, rompimentos, finais. Tristes finais. Mas finais que culminaram em um recomeço. Será que as coisas iam continuar bem? Tinham que continuar bem. Em tanto tempo, se transformaram em pilar um do outro. E eram bons nisso. Se faziam bem. Precisavam se fazer bem. Se resolveram. Apesar de tudo, se amavam. Era isso que importava. Não era?

~

A tarde linda que não quer se pôr. Se pôs. Ficaram. Tudo um bom negócio. Se jogou. Odiava se jogar, mas arriscou. E se machucou tanto. Ele beijava bem. Se beijaram até amanhecer. Não queria. Se sentiu... Horrorosa. Como se fosse desmaiar. Socos. Beijos. Fim?

~






(São histórias verídicas, cada uma sobre uma pessoa que eu conheço. Se achem aí, lindos)

domingo, 7 de outubro de 2012

Let's Keep This Two Hearts Beating Faster, Faster

Deitaram-se no banco de trás do carro. Puxou a blusa. Mão. Mãos. Tirou a blusa. Beijos. Braços. Tirou a outra blusa. Zíper. Mão. Mãos. Rápido, rápido.

~

- Bom dia. - Olhou ao redor de si. Roupas. Deitada na cama. Como chegara ali?
- Bom dia. - Levantou-se depois da saudação desajeitada, e planejava ir embora o mais cedo possível. O que foi que fizera?
- Hm. Quer tomar café? - Ele olhara pra ela como se disesse pra ficar.
- Não. - Catou as roupas do chão, e as estava vestindo apressadamente.
- Certeza? Tem panquecas. -
- Certeza. Vou indo. Tchau. - Saiu ainda vestindo o salto da noite anterior. Por que tudo parecia um borrão?

~

- Eu acordei e nem sabia onde eu tava. - Falou, de boca cheia, pra a amiga que chamara pra o café mais próximo da sua casa.
- Que vadia, você. - As duas riram. Ambas sabiam que não era verdade. Ou que, no fundo, era um pouco, e por isso era engraçado.
- Ele era bonitinho, mas não sei nem o nome dele, por Deus. - Enfiou outra garfada do waffle na boca, e enxugou o excesso do maple syrup que escorria pela mão com o guardanapo.
- Você não tem jeito, de verdade. -
- Essa é a graça. Você fuma uns, bebe uns, pega uns, e vai pra casa tranquila, devendo só pra o seu chefe e pra o banco. -
- Queria teu desapego pra mim. -
- Nem eu queria meu desapego pra mim, meu bem. -

~

Jogou a bolsa no sofá quando chegou em casa. Quem era o rapaz? Fez um esforço pra lembrar. Usou do ritual de vasculhar a bolsa a procura de pistas. Achou um número de telefone. Pensou em ligar. Ligou.
- Alô? - Era a voz do homem da manhã.
- Alô. - Respondeu, simplesmente, como se isso valesse de resposta pra tudo. O silêncio reinou de ambos os lados da linha.
- Qual o teu nome? -
- Oi? -
- Teu nome. -
- Leonardo. E o teu? -
- Sofia. - De novo, um silêncio incômodo de ambos os lados da linha.
- Você quer jantar, um dia desses? -
- A gente podia começar com menos. -
- Mas a gente já começou com mais. -
- Um café. Amanhã. Duas da tarde. Aquele na frente do jornal, na rua da catedral. Esteja lá. - E desligou o telefone.

~

13:40 estava lá. Óculos escuros, olheiras, sono. Ele chegou dez minutos mais cedo, e sentou-se na mesa com ela. Pediram dois cafés. Beberam, silenciosamente. Despediram-se, quase calidamente. Faltava algo. Faltava afeto. Faltava desejo. Era profunda lacuna. Nunca mais se encontraram, além de um furtivo e acidental encontro na sessão de legumes no mercado, ela fugindo de um conhecido desagradável, ele tentando melhorar a alimentação. Encontraram-se de novo na rua, mas dessa vez evitaram palavraas. Depois disso, ela mudou-se subitamente pra Londres, e ele ficou muito bem instalado em NY. Nunca mais se viram nem lembraram de suas existências. E esse, meus caros, foi um final feliz.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Brincadeira De Criança, Como É Bom

Antes que vocÊs pensem que vai ser o texto mais clichê do mundo sobre o dia das crianças, e ser criança, eu tenho que esclarecer uma coisa: provavelmente vai ser, mesmo. Então, se você tá afim de mergulhar na nostalgia antecipada de voltar à infância, bem vindo.

Vou começar falando do que me motivou a escrever o texto. Recentemente, conheci um grupo de algumas das pessoas mais incríveis que poderiam aparecer na minha vida, e essa noite, resolveram que o programa de quem ia ficar em casa seria uma sessão nostalgia. E que sessão, viu? Eu escutei a abertura de todas as novelas mexicanas que eu ia assistir na casa de Mariana depois/antes da natação (isso inclui Maria do Bairro, A Ursupadora, Chiquititas, Carrossel, O Diário de Daniela, Floribella, enfim, todas essas), todas as boys band vergonhosas (KLB, Broz), as cantoras esquecidas pela mídia mas que pra mim eram um arraso (Marjorie Estiano, Luka, Kelly Key), as girl band (Rouge), as coisas mais antigas (Angélica, Xuxa, Sandy e Júnior), os cantores (Felipe Dylon, Justin Timberlake), as cantoras que ainda se lançam (Pitty, Britney Spears), as mais vergonhosas (O Bonde do Tigrão, Molejo, Molecada, Latino, até umas coisas tipo Perlla, Aqua), e uma lista enorme de hits dos anos noventa, músicas como Olha a Onda, e Heloísa, Mexe A Cadeira. Os Mamonas, claro, não faltaram. Nem os hits internacionais de HSM e RBD.

Onde eu quero chegar com tudo isso? Em lugar nenhum, gente. Amei voltar, mesmo que momentanemanete, pra minha infância. Onde as músicas do Latino eram inocentes. E eu acreditava em contos de fada. Quando a gente tinha vergonha de sexo, de beijo, de pegar na mão. Que o menino tinha sapinho, a menina também, e a guerra dos sexos era infinita. Apesar disso, sempre preferi o azul ao rosa. Brincava de correr com os meninos (e as meninas também), assistia todos os desenhos na TV, andava de bicicleta, comia danoninho, brincava de adoleta, de barbie, de carrinho, de vampiro, de bruxa (era crente que era bruxa, acreditam?), de power ranger, de sereia na piscina, de cavaleiros do zodíaco. Enfim, fiz o que uma criança faz: ralei os joelhos.

Me deu uma saudade enorme dos meus amigos que eu mantenho até hoje, das festas da Casa Escola (Mah nishtanah, rs), dos desfiles de moda improvisados, do clube dos ricos, enfim, de como a vida era fácil e sempre engraçada. Sempre seguindo, sempre colorida e cheia de imaginação. Cresci, e minha vida foi permeada de novas influências musicais, televisivas, tecnológicas, todo o tipo de nova influência. Troquei o laboratório de Dexter por Dexter Morgan, o serial killer. Troquei Kelly Key por Los Hermanos. Troquei tica-tica por ficar no computador, dormir e estudar. Troquei esconde-esconde por barzinhos, shows, vodka. E queria não ter trocado.

Meu texto não tinha a intenção de ser totalmente saudosista. Tinha a intenção de me lembrar de uma parte de mim frequentemente esquecida. A parte que sabe cantar a música de abertura de Kim Possible todinha, mas que também escreve sem pudores sobre sexo. Estou nessa fase de transição, tão gostosa. Na qual eu ainda posso dançar nostalgicamente ao som de Musa do Verão e não tenho que lidar com o mercado de trabalho. Que eu posso baixar todos os episódios do Sítio do Pica Pau Amarelo, e amar Monteiro Lobato. Se ele era um velho nazista e preconceituoso, o que eu tenho com isso? Quando eu tinha 5 anos de idade, eu lá sabia o que era isso? Me infiltrei no mundo da Tia Nástacia e da Narizinho, e gostei de lá. Que eu posso me deixar levar pelo meu amor infindável ao meu passado.

Olho pra o futuro, mas sem um pé no passado, não dá. Espero que dê pra seguir assim, lembrando do Reino das Águas Claras, mas estudando termodinâmica. Fica aqui minha singela homenagem à tenra infância, ao ralar os joelhos, à Monteiro Lobato, às meninas do Prazamiga, aos lindos da Casa Escola, à minha infância linda, e por último, porém não menos importante, ao dia das crianças.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

And As The Years Go By

Tomava uma vodka pungente. Barata, porém pungente. Bateu o copo na mesa com uma força exagerada, advinda da bebida. A música de fundo do barzinho com tema latino era um melô romântico do Alejandro Sanz. Enxugou a boca com a manga do casaco e fodam-se as regras de etiqueta. Estava usando um vestido branco e um casaco bege. Não podia dirigir nesse estado pra casa. Então dirigiu a si mesma pra a casa do conhecido mais próximo. No caso, da conhecida. Bateu na porta, incontrolavelmente. E começou a rir. Rir da sua situação engraçada. Meio bêbada, na porta da casa de uma amiga, no meio da madrugada, e pensando se lembrou de fechar a pia. Depois de mais umas batidas meio desesperadas e mais uns risos escandalosos, ela abriu a porta. Com uma cara carrancuda, de quem acabou de ser acordada.
- Oiiiiiiiiiiiiiiiii - Disse, esperando uma saudação igualmente animada
- O que diabos você tá fazendo na minha porta a essa hora, satã? - Não foi uma saudação nada animada, afinal.
- Eu tava no barzinho aqui do lado, e lembrei de você -
- Aquele que toca Capim Cubano a porra da noite inteira? O que você tava fazendo lá? -
- Bebendo, ué. Quero ver um filme. - E entrou na casa da outra, sem cerimônias. Sentou-se no chão, perto dos DVDs, escolhendo um pra assistirem.
- Filme? VOCÊ SABE QUE HORAS SÃO? -
- Sei. Vamos ver Tudo Acontece Em Elizabeth Town? - Não esperou resposta a ligou a televisão e o DVD, como se fosse dona da casa.
- Você tem consciência de que são três da matina, de um sábado, eu estava dormindo, você está meio bêbada, e essa é a minha casa? - Perguntou, já sabendo a resposta.
- Se é a sua casa, então você faz o brigadeiro. - Ainda sentada no chão, escolhendo a linguagem do filme. A dona da casa arrastou-se pra a cozinha, amaldiçoando o dia no jardim de infância que resolveu se relacionar com aquela menina. Fez o brigadeiro semi acordada, e por sorte não se queimou. Chegando na sala, a amiga estava estatelada no sofá, com todas as almofadas e começou a ver o filme sozinha.
- VOCÊ VEM NA MINHA CASA, ME ESCRAVIZA, GASTA MINHA ENERGIA, COME MINHA COMIDA E INTERROMPE MEU SONO, AGORA ROUBA MEU SOFÁ? -
- É. Shiu, o filme já começou - Ficaram as duas caladas, assistindo ao filme ao som de ocasionais grunhidos por parte da dona da casa. O filme era engraçado, e as duas ficaram rindo que nem duas hienas. No final das contas, o sol teve que nascer. As duas desistiram de dormir e fizeram panquecas. Comeram até dizer chega, e se atiraram na cama de casal do quarto principal. Hibernaram. É assim que era. Nada de raiva. As oito da noite, quando ambas acordaram, resolveram ver outro filme. Férias do mundo lá fora. Aí é bom demais.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Mas Não Sou Beata, Me Criei Na Rua

E se eu tô te dando linha é pra comer você

Sábias palavras, Ana Carolina.

Agora começando o texto de verdade, acho tão absurdo sexo ser tabu. Como é que você nasceu? Seus pais transaram, simples assim. E não transaram só pra que você nascesse, não. E eu não estou falando do seu irmão. Todo mundo transa. Cedo ou tarde. Melhor que seja cedo, por que sexo é muito bom. Imagina perder a virgindade na cama com o seu marido? Imagina que tem sangue, dói, é incômodo, é desconfortável. Tem mulher que até chora. Agora imagina que isso seja com o seu marido, que vai passar o resto da vida transando com você. Você nunca vai saber se ele é de fato bom de cama, como é que é pra ser, se você faz direito. E aí você cansa de transar só com ele, toda vez, sem nunca ter experimentado com nenhum outro cara.

Legal é experimentar em lugares inusitados, construir fantasias, fazer com caras diferentes, com dois ao mesmo tempo... Enfim, como você achar melhor. Isso não faz de você, de forma alguma, uma puta. Faz de você uma pessoa que gosta de sexo, ponto. Se um homem gosta de sexo, ele não ganha rótulo, então se mulher gosta de sexo, tem que ser assim também. Até por que puta cobra pelo serviço, e você está cobrando, no máximo, um orgasmo. É pra o seu prazer.

Por que eu tô falando de sexo? Por que eu quero. O blog é meu, os assuntos são meus, não tô afim de melô dramático, nem de romance incurável. Se as pessoas vão ficar chocadas? Problema delas. Não deveriam ficar. Aceito uma velhinha chocada, afinal, a época era outra. Puta, na época da minha avó, era atriz, poetisa, jornalista. E, claro, puta mesmo. Mas um monte de adolescentes, que deveriam os que tem menos pudor possível, principalmente nessa fase da vida, que o que todo mundo que é ter prazer, ficarem chocados, não admito. Sexo é natural. Como dizia Rita Lee, amor é prosa, sexo é poesia. E olhe que minha avó é uma velhinha nada convencional, que trabalhou com teatro, gosta de costurar, chama minhas saias de abajour de buceta e já me disse pra dar logo pra eu aquietar de uma vez.

O amor nos torna patéticos, sexo é uma selva de epilépticos, pra mencionar, de novo, Rita Lee. Um amor de mulher, vale salientar. Admiro-a muito. Sexo antes, amor depois. Não é por que vem dos outros e vai embora que é ruim, leviano, ou coisa que o valha. É bom, e pronto. Pra mim, não precisa estar atrelado ao amor. Tem que estar atrelado ao tesão e ao desejo, simples. É por isso que é tão bom. Esses filmes que falam de amizades coloridas que viram amor, são tão patéticos. Não precisa ter laço pra fazer sexo. Precisa nem saber o nome. Por que sexo é escolha. Amizade colorida vira amor se você deixar. Pode ser só um momento de prazer mútuo. Amor é divino, sexo é animal. Você tem seus desejos. Supra-os. Não se deixe acanhar pelos pudores cotidianos. Sexo também é certo. Lembre-se que você é bonita e gostosa.

Não estou escrevendo isso por que acho que todo mundo deve dar pra todo mundo. Você deve dar, sim, pra quem você quiser. Acho meio ridículo movimentos de "escolher esperar". Esperar pelo cara certo, pode até ser (apesar de que eu não acredito no "cara certo", também. Sou muito descrente), mas esperar pelo casamento? Não funciona. Você vai se reprimir em prol de quê? De nada. Só dando minha opinião nessa sociedade onde tudo vira tabu, desde sexo até o filme de um urso de pelúcia desbocado. Acho que Carpe Diem. E se esse carpe envolver sexo, então vai nessa.

Do Teu Quarto, Da Cozinha, Da Sala De Estar

Sob inúteis pretextos, encontraram-se. De maneiras incontroláveis, e surgindo de instintos primitivos, o fizeram. E de novo. E mais algumas vezes. Até que tal prazer fosse satisfeito com o desejo ardente da carne. Unhas, cabelo, carne. Furtivos, sorrateiros, proibidos. Fugaz. Fuga. Escape. Cano. Vontade. Pra quê vontade, se há satisfação? Se há necessidade de partir, parte aqui, parte meu coração e leva consigo.Dentes. Pernas. Braços. Coxa. Vício que leva a rotina. Prazer. Toque. Leveza do tocar, o verbo sai da boca direto pra baixo. Desce, e desce. E a boca sobe, e encontra. De leve, despercebido. O tempo voa, passa, ninguém nota. De porta trancada, de janela fechada. Suor. Entremeio de corpos juvenis, suados, cansados, extasiados. Cansaço que vale a pena, cansaço que corrói o corpo e satisfaz a alma. Nas suas ancas, jaziam suas mãos. Mãos que a tocaram, que a deliciavam um momento atrás e estavam indo embora. Manda embora o que não há de embeber no prazer, manda embora o que não há de me fazer sentir. Que corpo que importa? Só pelo melhor da vida, isso e ócio.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Give Me Something To Remember

Hoje, assistindo ao E!News, tive uma epifania. Taí uma palavra que não se encaixa com nenhum dos programas do E!, já que é o canal mais fútil e vazio da televisão. Mas eu fiquei com a cabeça longe, longe. Estavam fofocando sobre um casal que já tinha se separado, após poucos meses de casamento. Minha epifania foi sobre a vida a dois, na verdade. Não sei se a culpa é de uma música recém apresentada da Lana Del Rey, se é da minha constante decepção amorosa, ou se só estou com humor pra esse sentimentalismo todo. Fiquei, que nem boba, pensando em como externar a minha (não tão) brilhante epifania sobre a vida a dois.

Estou passando por um auto conhecimento, experimentando, de novo, minha solidão. E não precisa ser necessariamente ruim, mas é excepcionalmente ruim se você tem um coração partido. Na verdade, não sei descrever bem a corrente de sentimentos que tá passando por mim agora. Nenhum deles é raiva. Seria muito mais fácil de superar se não existissem as malditas expectativas. Ou se o cara que acabou comigo tivesse sido um babaca, coisa que ele (felizmente ou infelizmente) não foi. Não estou pensando em voltar, não estou pensando em ligar, em saudades. Estou pensando em uma das grandes verdades: pra se ter um relacionamento de verdade, geralmente se precisa de uma amizade antes. Grandes coisas não surgem do nada.

E se tem uma coisa que eu precisei de tempo pra aprender, foi isso. Não dá pra simplesmente jogar seus sentimentos numa pessoa e esperar que ela corresponda assim, sem mais nem menos. Ninguém precisa estar aqui pra suprir suas inseguranças, carências e enfrentar, assim, de cara, todos os seus defeitos. Eles tem que ser apresentados no dia a dia, de formas sutis. Não dá pra esperar que a sua solidão seja preenchida com a solidão de outra pessoa, não é assim que funciona.

Cada um tem sua bagagem, sua vida, sua história. Impor-se assim, na vida alheia, não faz bem. Tem que ir devagar, entrar na rotina sem ser percebido, até que um dia, vocês se vejam na vida um do outro e gostem disso. Sentimentos não são brinquedo, não. Os meus vivem sempre na reta, mas isso é culpa minha. Me dou demais, me entrego demais. E me perco. Embebo-me no outro rápido demais. Mesmo com um relacionamento que não é sério, acabo me doando demais. E por mais que eu fuja das responsabilidades, dos deveres e das cobranças, um dia elas chegam, todas juntas, batendo na minha porta e pedindo indenização por maus tratos.

Acho que eu o que eu tô tentando dizer, sem sucesso, o texto inteiro, é que eu preciso ser menos intensa. Que não dá pra forçar nada. Que nem a mais irrestível das mulheres vai conquistar a todos. Se nem ela, quem dirá eu? As vezes as pessoas se desencontram por que chegam nos momentos errados da vida uma da outra. Quem sabe não se possam gerar encontros futuros? Enquanto espero, dou mais uma chance ao desconhecido e levanto da cama pra um dia novo.

Como disse a Robin, em HIMYM:

Timing it's a bitch

domingo, 23 de setembro de 2012

Milhões De Vasos Sem Nenhuma Flor

Me considero uma pessoa relativamente solitária. Vê, passou um domingo inteiro, e nenhuma mensagem no celular. Nenhuma ligação (só da minha mãe, mas não conta de maneira alguma). Umas conversas no facebook, mas grande parte delas começadas por mim. E eu quero colo. Quero muito colo. Quero alguém pra segurar minha mão e dizer que tá tudo bem. E não tô falando de namoradinho, não. Acho que esse é o tipo de carência que se desenvolve quando grande parte dos seus melhores amigos tiveram a ideia esdruxúla de se instalarem por um período de tempo (que parece uma eternidade) em outros países ao mesmo tempo. E aí eu fico carente. Tento suprir isso cozinhando, comendo, e dormindo, mas parece que tem um buraquinho no meu peito, que insiste em sugar tudo isso e pedir um pouco mais. Encho-o de literatura, de história, de estudos, de bebida. Mas sempre quer mais. Quero um abraço, um abraço que não me largue. Ao mesmo tempo, quero me arriscar mais. Quero conhecer gente. Quero ver pessoas, quero ver luzes. Não antes de ter uma boa tarde de sono, ver um filme romântico com alguém que eu gosto pra poder xingar a produção clichê, e me encher de brownie e brigadeiro (e que se fodam as calorias extras).

E aí eu fico cheia de saudades. Elas tem que sair por algum lugar, então choro. Não sou boa sozinha. Estou longe da mínima auto-suficiência sentimental. Quase que não suporto a solidão da alma. Se o meu sofrer é bonito, imagina quando estou feliz. Agora estou me sentindo exatamente como disseram Nando e Cássia, como milhões de vasos sem nenhuma flor. O vaso tá lá, cheio de terra, mas de quê adianta, se não tem nenhuma flor pra servir de atrativo? Tô cansada, tô exausta, tô sem vontade, tô triste, tô melancólica. Alguém quer me dar um abraço?

Já me disseram algumas vezes que eu preciso desapegar das pessoas. Que eu preciso me sustentar nos meus próprios pés, que eu tenho que sobreviver sozinha. Mas eu não sei. Eu preciso, mais do que nunca, dos meus amigos. Tá tudo dando certo, eu desconfio. Por que as coisas não dão simplesmente certo. Parafraseando uma frase de uma boa série, por que a porra do Armaggedon está sempre vindo pra cima de mim?

O Amor Viajou

Abriu a porta, e como disse Zeca, a rua tava ali. Sentou um tempo na soleira da porta. Não tinha quase nenhum carro na rua a essa hora, pouco antes do amanhecer. Não tinha muito o que ver ali fora, também. Fechou o casaco e apertou os dedos na alça da mochila gasta. Saiu. Andando, assim, a esmo. Caíam lágrimas, rolando sem pudor, já que não havia ninguém para recriminar tão primário sofrimento. Nem se incomodava em enxugá-las, deixava que descessem até sua camisa gasta, dentro do casaco semi fechado. Andou, andou. Chegou até a praia. Jogou a mochila na areia fofa, tirou os tênis, subiu a barra da calça e colocou os pés nas ondas. Enxuga o pranto, vai amanhecer. Sentiu a areia colando nos seus pés molhados. O sol tava surgindo, o dia tava amanhecendo e ninguém reparou. As lágrimas searam no seu rosto. Subiu a ladeira que separava a praia da cidade e já viu alguns carros circulando nas avenidas ainda pouco movimentadas. O celular vibrava no bolso, mas optou por fingir não sentir. Quem dera dosse só aquilo que conseguia fingir não sentir. Arrastou os pés pelas calçadas desprovidas de pedestres, esperando saber onde queria chegar. Há muito não sabia, e não sabê-lo angustiava-lhe a alma. Parou no ponto de ônibus mais próximo e sentou-se em uma das três cadeiras. Um ônibus apareceu ao longe. Não conseguia ler o que dizia o letreiro que indicava pra onde ele ia, mas prosseguiu sua jornada a lugar nenhum entrando no ônibus, tão desconhecido quanto vazio. Vazio era ele, vazio era ela. Vazio que consome, vazio que não preenche. Vazio que se abre, vazio que não enche. Vazio. O ônibus que levava só aquele sentimento, só aquela hora. Chegou onde não queria e desceu. A estação seguinte era a estação própria, mas até mesmo o amor cansou de sofrer. Viu-se sem saída, e optou por ficar. Mas ficar onde? Ficar em paz consigo. O dia estava amanhecendo e eu não vou beijar seus lábios quando você se for.

We Can Be Addicted To A Certain Kind Of Sadness

Ontem foi um dia estranho. Levantei da cama onze da manhã, cansada ao extremo. Eu sempre tô cansada ao extremo. Mas nessa ocasião eu tinha dormido doze horas seguidas. Mandei uma mensagem pra o meu então ficante, cobrando alguma irrelevância dele. Fui chamada de impaciente, e começamos a conversar, por mensagem. Foi quase que um relacionamento virtual. Mas pra mim, tava tudo indo bem. Assisti televisão, tive minha primeira atribulada aula de direção, fui ao cabeleireiro e voltei pra Natal, pra fora da casa dos meus pais. Durante o percurso, comecei a receber mensagens do ficante, colocando pra fora preocupações sobre o nosso relacionamente, e confidenciando-me que acreditava que eu gostava mais dele do que o contrário, que achava que o relacionamento não passava disso, que sentia que eu tava querendo e ele não. Fiquei arrasada, mas me segurando até sair do carro pra poder ligar, aos prantos, pra Victória me socorrer.

Ela me socorreu, e depois fui pra o telefone com o dito cujo. Falei o que eu estava sentindo, e sem querer, reforcei as teorias. Tudo que ele falou me deu a entender confusão da parte dele e um fim. Fim que a gente nunca sabe aceitar. Assim que decidimos (ele decidiu) por acabar, fui ler, ver televisão e ficar no computador. E foi completamente insuportável. Cinco pessoas me perguntaram dele, várias pessoas mudaram status de relacionamento no facebook, na televisão só passava comédia romântica, até no livro, que tratava sobre uma série de assasinatos encontrou-se um espaço pra o romance entre dois personagens. Acabada e derrotada, me entreguei pra um bombom e pra a internet. Abençoada internet. Acabei vendo Dexter, comendo chocolate e desencanando.

Eu tinha uma festa pra ir. E isso tinha matado o meu humor. Tava de cara inchada, olheiras acentuadas, cansada e querendo me juntar ao meu Dexter a noite inteira. Mas, como a festa era paga, tive que levantar o traseiro da cama, tomar banho, me maquiar, vestir, enfiar o pé no salto e partir pra lá. Parti, com o pressentimento que eu não ia me divertir nada. Chegou até um ponto da festa que eu me enfiei em uma cabine do (lindo) banheiro, liguei pra Victória e ficamos conversando sobre a vida, homens, e tudo mais. Trancada no banheiro, ao som de Alejandro Sanz (Tiritas pa ese corazón partío, tiritas pa ese corazón partío)tocando Corazón Partío, pra combinar com o meu coração partido, falando com Victória ao telefone. Minha mãe já tinha ido atrás de mim três vezes. Decidi-me por sair de lá, e ir aproveitar a festa. A banda era boa, já tinha tocado Legião Urbana, Titãs, Capital Inicial...

Tinham uns caras bonitinhos. Passei a noite olhando pra uns. Um dos músicos de uma das bandas era LINDO. Não sei o nome do cara. Não sei o nome da banda. Na verdade, a banda era só banda de apoio, a estrela mesmo era um dos caras, chamado Thiago Correa. Não era o tal Thiago o gato, mas tudo bem. Nas idas e vindas da noite, preenchi o vazio com whiskey, com caras, e com comida.

Agora cá estou, hoje, solteira, com um vazio meio grande no coração, sem saber se rio ou se choro, lembrando, amargamente, das provas que vou ser obrigada a fazer essa semana, meio desamparada. Com uma vontade louca de sair por aí com aquela plaquinha de "Aceito abraços", por que eu estou aceitando. Ando precisando ter com o que aquecer a alma. Ando precisando de alguém que se entregue com a mesma medida exagerada que eu me entrego. Como diz Victória, sou muito intensa. E a minha intensidade não é pra todo mundo. Não sei nem se é pra mim, também. Abro minha vida a público por que não tenho muito a esconder, e o que teria, já é domínio público. No fim das contas, tomo um chá e vou pra cama.








terça-feira, 11 de setembro de 2012

Uma Dose de Vodka, Outra de Insônia

Um drink. Dois drinks. Uma dose. Duas doses. Fui ficando tonta. Por que eu bebi tanto, meu Deus? As coisas estavam se movendo rápido demais. Correr? Claro, que ótima ideia. Na verdade, agora que estou correndo, não parece a melhor ideia de todas. Acho que vou vomitar. Não, mentira, não vou. Ah, que hippies legais. Maconha? Não, sinto muito, não fumo. Graças a Deus, um lugar pra sentar e esperar essa tontura de bebida passar. Pelo menos nós estamos todos bêbados. Ainda não de cair, porém, bêbados. Voltar pra o meio das pessoas. Uau, quantas pessoas. Achei meus amigos. E estão todos bêbados. Quanto eles podem ter bebido na minha ausência? Foram só cinco minutos. Não? Quase uma hora? Oh, merda. Hm, parece que esse menino está dando em cima de mim. Descer? Claro, deixe-me ligar pra papai. Espera, dois minutos. Ganhei vinte minutos, vamos a praia. Sexo. O quê? Não é esse o meu nome. Espera, qual o TEU nome? Quantos anos você tem? 28? Inverídico. 29? Também não. 42? Claro que não. Menino, você tá passando bem? Oh, não vomite. Meu celular não tem sinal, que merda. Me dá o teu celular. Qual a senha? 43245 não é. Me diga a senha, você precisa de ajuda. 56739 também não. Vou acabar bloqueando seu celular. Ah, o sinal voltou ao meu celular. Alô? Preciso de você na praia, ele desmaiou. Onde? Aqui perto daqueles restaurantes. Desça, por favor. Ela disse que já vem. Por favor, não desmaie. Vou vestir a blusa. Correndo ladeira acima, de novo. Encontrei-os, graças. Ele desmaiou, venham aqui, por favor. Correndo ladeira abaixo. Quem é você? Ah, obrigada por tomar conta dele. Não, eu não corri com raiva. Estava chamando ajuda. Obrigada, de novo. Água, por favor. Vai ficar tudo bem. Onde estão minhas coisas? E as coisas dele? Pronto, tudo comigo. Ajudem-o a andar. Vamos até o final. Pare de gritar. O que aconteceu? Sexo, foi isso que aconteceu. Mas ele vomitou. É, não deu certo. Esperem, minha mãe tá ligando. O que eu digo? Vamos com a verdade, apesar de ser bem hardcore. Oh, merda. Ela está vindo nos buscar. Cadê Ana e por que ela não atende o telefone? Espero que ele não morra. Olá, Ana. Mamãe está vindo, pra me decepar. Olá, mamãe. Se eu estou bêbada? Não, posso até fazer o quatro pra você. Compartilhar energias com um semi desconhecido? Sexo e amor? Vá catar coquinhos, isso não me diz respeito. Pois é, eu discordo. Sim, eu sei que mulheres também gozam. Pare com isso. Em casa, finalmente. Dormir e acordar.

Bom dia, mundo! Que dor de cabeça do caralho. Bom dia, Ana. Oba, café da manhã. Se eu me lembro de ontem? Sim. Acho que eu vou telefonar pra eles, saber se o menino morreu. Não morreu? Ótimo. Se eu quero falar com ele? Por favor, não! Estou morrendo de vergonha. Ah, er, olá. Está melhor? Sim? Que bom. Vão pegar o mesmo ônibus que a gente? Ótimo. Nos vemos lá. Passa pra outra pessoa, por favor. Obrigada. Alô? Não acredito que você fez isso! Argh. Tudo bem, nos falamos depois. Almoçar? Certo. Merda, vamos perder o ônibus. Não posso perder esse ônibus. Comeremos rápido, certo, Ana? Estamos no ponto. Sim, conseguimos pegar o ônibus. E lá estão eles. Olá. Sim, você estava bêbado. Muito bêbado. E todo o ônibus está ouvindo suas babaquices. Se eu desculpo? Claro. Não estou com raiva. Sou uma santa, eu sei, haha. Beijos. Mais beijos. Trocar de lugar? Claro, claro. Estamos quase chegando em Natal. Quando vamos nos ver de novo? Não sabe? Pois vamos ficar sabendo. Tchau. Beijos. Mensagens. Quereres. Essa maldita dor de cabeça estúpida de novo, não.





sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Sobre a anterior

Sinto-me na obrigação de constar que (infelizmente) o conto abaixo é FICTÍCIO. Só tem meu nome por que tive preguiça de pensar em outro. Obrigada e beijinhos,
Bee

Sexo Selvagem, Então

Não acredito que não peguei a estrada certa! Merda, vou ter que esperar alguma alma viva aparecer por aqui pra me salvar. Quase sem gasolina nessa merda desse acostamento. Tudo que eu precisava pra vida nesse momento. Não vou gastar essa gasolina procurando nada, vou andar por aí a procura de um posto. Acho que estou perto do aeroporto, com alguma sorte acho aquele posto que fica lá perto também. Legal mesmo seria se não estivesse tão escuro, e eu não estivesse com o cu na mão por temer um maníaco sexual ou coisa que o valha me perseguindo por aqui. Essa cidade poderia ser mais bem iluminada, Deus do céu. Estou vendo luzes. Luzes brilhantes. Acho que é o tal posto. Espero que seja o tal posto. Pois é, eu tava certa. É o posto. Só que não tem ninguém lá, ao menos ninguém que vá me vender gasolina. Tem um loirinho gostoso com duas malas, sentado em uma delas, aparentemente esperando alguma coisa, com os fones no ouvido e uma cara de total desorientação.
- Ei! Você sabe de algum lugar que venda gasolina? - Cutuquei-o de uma forma meio brusca, mas era só o desespero falando.
- Hmm. No hablo su idioma - Ele me respondeu em um espanhol obviamente argentino. Um argentino, gostoso, bonito, perdido aqui? Sorte que eu falo espanhol.
- Hola, me llamo Bianca. Cual és tu nombre? Que haces acá? - Com um sorriso angelical e uma cara surpresa dele, começamos a conversar. (obs: vou começar a traduzir o espanhol direto pra português pra melhor entendimento do leitor)
- Me chamo Guillermo. Estava esperando um táxi, mas aparentemente, não apareceu nenhum. Cheguei no aeroporto há umas duas horas, e vim pra cá. Mas nada de táxi. E você, o que faz aqui? - Ele sorriu pra mim de uma forma encantadora. Ai, esses argentinos e seus charmes.
- Peguei a entrada errada na estrada e estou quase sem gasolina. Aí vim a pé até encontrar um posto. - E se ele for o maníaco sexual que eu tanto temia? Será que nas malas dele só tem clorofórmio? Dane-se, bonito assim não precisa nem estuprar.
- Entendo. Eu sei que acabamos de nos conhecer, mas eu realmente gostaria de sair daqui antes do amanhecer. Será que você podia me dar uma carona? - Guillermo parecia cansado e desorientado, e eu também estava. Então, por que não? O pior que poderia acontecer seria sexo selvagem no banco detrás do carro em um lugar isolado. Eu disse pior? Meu erro, quis dizer melhor.
- Claro. Mas antes de tudo, quanto de clorofórmio tem na sua mala? - Perguntei, em um tom de brincadeira.
- Clorofórmio? Que es eso? - Sorri. Esqueci que não faço a menor ideia de como se fala clorofórmio em espanhol, então acabou saindo em português.
- Nada, nada. Só me confirme que você não é nenhum estuprador louco que a carona rola sem problemas. - Ele negou com a cabeça, e isso me foi suficiente pra guiar aquele projeto de deus grego até o meu carro quase sem gasolina.
- Precisa de ajuda com o carro? - Olhei pra trás e vi um argentino lindo empurrando meu carro na direção que guiava até a cidade. Quase tasquei um beijo nele por tal ato de abnegação. Ao invés disso, entrei no carro para poder guiá-lo sem que este caísse de um desfiladeiro inexistente. Ofereci-o lugar DENTRO do carro, mas por muito tempo, não foi aceito. Depois de vinte minutos disso, vencido pelo cansaço, ele aceitou entrar.
- Não precisava ter feito isso. - Sorri, verdadeiramente feliz e consciente de que havia um posto que estaria aberto realmente perto dali.
- O mínimo que eu podia fazer por uma chica guapa que está me dando carona pra qualquer lugar que não seja aquele posto, no meio da madrugada. - Ele sorriu, até que eu avistei o posto.
- OLHA O POSTO! FINALMENTE, GASOLINA! - Acho que quebrei um possível clima entre o gato e eu. Merda. Chegamos ao posto, e enquanto o carro abastecia, fui até a conveniência 24h pra comprar docinhos pra mim. Preciso de açúcar pra funcionar.
- Quem é aquele moço loiro que está te acompanhando? - Perguntou a caixa pra mim, enquanto eu pagava meus doces.
- Meu sex slave. Gosto de exibi-lo por aí. Bonitinho, né? - Levei minha sacola e deixei pra trás uma abismada caixa da loja de conveniência. Fui pagar pela gasolina, porém Guillermo me fez outra surpresa.
- Eu não acredito que você pagou a gasolina. - Ele sorriu e puxou meu saco de docinhos.
- Fiz isso pela comida, não se engane. - Puxei o saco de volta.
- Pena que você não vai ganhar nenhuma. - Sorri. Então Guillermo me beijou. E acontece que ele é bom pra caralho nisso. Larguei os docinhos.
- Onde é que você disse que morava, mesmo? - Parou de me beijar pra fazer a pergunta. Eu, imbecil e ainda atordoada com o beijo repentino, demorei pra processar a informação.
- Tá trocando gasolina por sexo, é? - Depois dessa, eu deveria ganhar o prêmio de mais imbecil do ano.
- Não. Tô trocando sexo por sexo, chica. - Ainda retardada com a beleza daquele homem tão perto da minha cara feia, fui incapaz de dar uma boa resposta.
- Ah, tá. - Respondi, meio sem saber o que falar.
- Se não quiser, tudo bem. Só me deixar na... Qual o nome da rua mesmo? Não lembro, mas fica num bairro chamado Ponta Negra. - Afastou o rosto do meu pra procurar uns papéis na mochila, provavelmente procurando o nome da rua. O que eu sou, idiota? Puxei o braço dele e voltei aos beijos.
- Não disse que morava em lugar nenhum, mas não tenho nenhum problema em te mostrar. - E movi o carro de lugar, depois dessa cena incrível na frente da caixa da conveniência. Dirigi até em casa, desejando a cada segundo não estar naquela porcaria de carro, e sim em outros lugares muito mais interessantes com aquele gato.
Ao chegarmos na minha casa, quem é que precisou de roupas? E de camas? Balcões, chão, tapete, sofás. Tudo não foi feito pra intensificar o sexo? Não? Dane-se. A real é que vou rondar o aeroporto todo final de semana, a partir de hoje. Quando acabamos, nos vimos deitados no chão da sala, sorrindo. Bom? Ótimo. O que esse homem viu nessa gorda antipática? Não sei e prefiro não saber.
- Chica? - Voltou-se pra mim.
- Hm? - Voltei-me pra ele.
- Tenho que ir. -
- Tem mesmo? -
- Tenho. -
- Então vai. -
Abracei-o por trás. Ambos ainda nus, cansados, suados. Como um. Se ele foi? De que importa? Eu fiquei. Ficamos.
- Chica... -
- Não. -
- Como não? -
- Não vai, ué. -
- Mas tenho que ir. -
Ele fez menção de soltar minhas pernas que abraçam a cintura dele, e os meus braços que seguravam o seu peito. Não soltou. Abraçou-me de volta. No tapete quente do sol que entrava da janela, ficamos. E ficamos. Até que adormecemos, e quando acordei, nada restava. Andei, ainda desnuda, até a cozinha. As pernas doendo de me agarrar àquela cintura, e os braços por terem dormido embaixo do corpo dele.
Esperei o dia passar devagar, e passou. Vesti uma blusa comprida e velha, e fui comer na cozinha. Na geladeira, um bilhete.

Chica guapa, llama-me.

Seguido de um número de telefone. Disquei, com o coração na mão.

- Hola, chica. -

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Entre O Fim e O Começo

Entre o prazer futuro e o desprezo prévio. Entre o fim próximo e o começo findo. O entrar ébrio e o sair sóbrio, engolido subita e derradeiramente pelo silêncio dentro de si, o vazio voraz que clama por mais para preenchê-lo. Merecia uma organização melhor das suas gavetas interiores, aquelas que a mantiam em pé e caminhando. Ossos, orgãos, e músculos, mas principalmente sentimento. Sempre tentando voltar ao racional, mas rindo-se quando ia pelo lógico e não pelo evidente, ao menos para si. Não tinha mais vontade de fugir, mas faltava desejo de ficar. Havia avidez por mudança, mas medo desta. Tanto medo que chegava a não levantar da cama. Sentia saudades dos apelidos carinhosos, e queria agora. Me dê seu coração e sua alma. Entre a espada enferrujada e a cruz antiquada. Sempre só, e cansada de procurar alguém.

Pra Qual Lado Vai A Pressa

Umas duas vezes por mês eu tenho uma vontade absurda de morrer. De simplesmente deixar de atender os telefones, de levantar da cama, de sorrir. Só vontade de dormir pra sempre, de deixar de existir. E tenho quase absoluta certeza que grande parte das pessoas que eu conheço tem desses tipos de dia. Nos quais a dor é tão imensamente insuportável que tudo que resta é dormir e não mais acordar. Mas em dias como hoje, eu vejo que não vale a pena. Fora as lágrimas que teimaram em sair pela partida de Florinha, foi um dia tão agradável. As aulas, geralmente insuportáveis, foram motivo de brincadeiras, de risos, de alegria. As pessoas foram fonte de aconchego e acalanto. Os professores, extremamente agradáveis. E não fechei os olhos nem por cinco minutos em nenhuma das aulas do dia (o que é um novo recorde pra mim).

Todos os motivos de aborrecimento foram deixados de lado por algumas horas, e eu me senti tão leve, mas tão leve. Como não me sentia a anos. Todos os pedaços cancerosos foram extirpados, e o sol tava tão brilhante. Tiramos a mais bela foto da turma desde o oitavo ano (todo mundo saiu bonito!). É tão bom se sentir assim. É nessas horas, de extrema felicidade, e talvez não extrema, mas natural, que eu sinto como seria ruim ter morrido antes de viver esse momento.

Sei que a vida é de altos e baixos, mas sempre parece que os baixos sobrepõe os altos sempre, de forma infinita, e a gente, de alguma forma, parece que tá sempre pra baixo. Como disse o eterno Vinícius de Morais, tristeza não tem fim, felicidade sim. Só quando você tá muito pra baixo, tem aqueles momentos que fazem tudo desaparecer e que a tristeza, tem sim, fim. Quando encontra a felicidade.

E vou caminhando, caindo e sorrindo, levantando e caindo. Se não fosse assim, eu não ia nem saber o que é o alívio da felicidade inundar a gente por dentro.

sábado, 1 de setembro de 2012

Carta Pra Você Ficar

Vou começar isso de uma forma bem simpática: eu nunca achei que ia gostar de você. Sinceramente, do fundo do meu coração. E quando você e João começaram a almoçar juntos, eu vi aí um jeito de "perder" uma pessoa querida pra outra não tão querida assim: ciúmes. Acho que você percebeu isso em algum ponto, já que você mesma disse que tinha um pouco de medo de mim. Sou meio ciumenta, só que guardo isso totalmente pra mim, então acho que João nunca chegou de fato a saber desse ciuminho babaca que eu tendo a ter pelas pessoas mais queridas, e que, ironicamente, isso agora se aplica a você mais do que a ele. O ciuminhos, digo.

Deixando minha habitual simpatia de lado, vou sentir saudades. Tipo, de verdade. É só olhar no meu blog pra ver quantas pessoas ganharam textos por aqui e você vai ver que eu não escrevo texto pra qualquer um. Acho que umas três pessoas já ganharam textos meus publicados aqui exclusivos pra elas, portanto, considere-se muito especial. Vocês todos estão fazendo questão de me deixar, não estou gostando disso. Pra quem eu vou mandar mensagem reclamando no meio da aula? E levar pra rolés no centro da cidade? Com a gata de quem eu vou fazer spider cat (tentando imitar Arthur, porém, falhando miseravelmente)? Quem vai entender exatamente o que eu tô passando? Resumindo, quem é que vai me amar quando eu preciso de amor e ninguém vai me dar? (colocaria uma carinha triste, mas não gosto de colocar carinhas em textos sérios, portanto imagine-a aí)

Me avise se eu estiver sendo guei ao extremo, por favor. Se bem que se envolve você, tem que ser guei. Aliás, não se engane pensando que esse é o texto definitivo pra você, vai ter outro (essa sou eu, estragando parte da sua surpresa, por que sou mole com a sua curiosidade). Nossa ida ao cinema foi engraçada demais. Eu tava precisando dessa fuga, deuses. Dessas internas, desse filme, sei lá, desse rolé. Conversar com você, e todas essas coisas. Não me faça dizer, não vou dizer. Direi: chorei até dormir quando cheguei em casa da sua despedida. E olha que isso nem é apelo pra você aparecer aqui em casa com os restos mortais da festa (mentira, é um pouco)

A gente acabou passando por todas essas coisas, e você acabou sendo muito importante pra mim, de formas que eu nem sem explicar. Uma das melhores coisas que eu fiz esse ano foi resolver reavaliar as pessoas que eu não gostava e ser sua amiga, sério. Vá embora não, fique aqui. Eu tenho espaço no armário, Ceci rejeitou o pobrezinho. É isso aí, o resto vai estar na sua in-flight letter. Je t'aime (por que em francês é mais legal) e apareça por aqui amanhã.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Carta Pra Você Voltar

Hoje, pela segunda vez no ano, fui ao aeroporto. Mas não fui com o intuito de viajar. Fui deixar uma das pessoas mais importantes pra mim (um grande pedaço do meu mundo, vale salientar) partir, por 10 meses. Dez meses de pura melancolia. Acho que desde que a gente se conhece não houve intervalo tão grande na nossa amizade. E eu sou covarde o suficiente pra ter que escrever sobre, ao invés de falar. Então, primeiro vou começar dizendo o óbvio (ao menos pra você, espero): Eu te amo, sua porcaria.

Tendo dito isso, vou contar como o meu coração ficou apertado quando você surgiu, do nada, com a ideia de um intercâmbio. Estava empolgada por ter tantas ideias sobre isso, e de acordo com você, só faltava convencer sua mãe. E uma pequena parte de mim torceu pra tia Cida ter o bom senso de te acorrentar na sua cama, pra você nunca sair. Me afligiu quando, depois de um tempo, a resposta dela foi assertiva. Digo, fiquei feliz por você estar podendo ter uma experiência tão boa, e poder estar fazendo algo que você queria. Mas me apertou o peito que o seu querer fosse tão longe, na Rússia.

O tempo foi passando, e o intercâmbio foi ficando mais próximo. Eu me recusei a aceitar que o dito cujo se aproximava. Como assim, dez meses sem te incomodar? Sem ir na sua casa, sem poder chorar no seu ombro, sem poder rir com você, sem poder partilhar cada acontecimento das nossas vidas, sem poder reclamar da vida, sem poder ir pra sua casa depois de uma prova particularmente babaca pra comer e xingar um professor particularmente babaca. Que seria de mim? Só Deus sabe. E só Deus tá sabendo, mesmo, por que acho que não caiu a ficha que você não tá em Natal. Não sei se é por que eu me acostumei com a sua ausência contínua na escola nesses tempos pré intercâmbio, mas ainda não caiu a ficha. Uma semana que você tá fora e não consigo acreditar que você foi. A Rússia tá sendo uma experiência incrível, e é bom que você traga muita vodka pra mim, se não, não vou poder te perdoar por essa lacuna tão grande nos meus dias.

Pra a sua despedida, fui a procura dos seus álbuns de criança. E quantas fotos nossas eu achei? Muitas. Tive que me segurar pra não desabar ali, na frente de todo mundo. E segurei. Nossa apresentação de sereias, altos carnavais e são joãos na Casa Escola. Festas de aniversário das duas, aquelas fotografias antigas que fazem sorrir quando a gente tá triste. E eu sorri, ao invés de chorar. Chorei depois, sozinha, no meu quarto. Algumas vezes trancada no banheiro da escola. Acho que a pior parte foi que eu não pude te mandar uma mensagem, te obrigando a sair da sala pra ir me abraçar, por que você estava em um avião, sobrevoando o Brasil.

As vezes lembro das nossas coisas. Dos filmes que eu fui aí ver, das noites que eu dormi aí, das vezes que você foi pra roça, da praia, dos vídeos, dos risos. Quando é que você volta, mesmo?

Com muito amor e saudades,
Abelha.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Verás Que Um Filho Teu Não Foge À Luta

Pela primeira vez, tive parte em uma manifestação. O comparecimento foi por acaso, e começou murcha. Mas em questão de minutos, a BR 101 foi ocupada, os protestantes (o que me inclui) estavam sentados e deitados na frente dos carros, o trânsito parado, gritos, apitos, cartazes, tudo combinado pra a maior eficácia. O objetivo era paralisar os ônibus e convencer os motoristas e cobradores a nos deixar entrar de graça, pra pesar no bolso dos culpados. Prosseguimos do Via Direta até o Midway (fiquei até o Portugal Center), firmes e fortes. Os gritos foram de formas agressivas, passivas, prudentes e imprudentes. Tudo pra receber nossas promessas! O aumento da passagem de ônibus é um roubo! Principalmente com o estado de sucateação dos ônibus e a falta de infra estrutura oferecida. Depois do último aumento, nos foi prometido que as passagens não seriam aumentadas até 2013. 2013 chegou cedo, não?

Não pretendo entrar em detalhes sobre o resto da administração desastrosa da prefeita Micarla, até por que todo natalense sabe o perrengue que a gente tá passando. O que eu queria mesmo falar era sobre a reprimenda policial. Bombas de gás lacrimogêneo, tiros de borracha. Polícia é pra ladrão, pra estudante não! O jeito que se encontrou de reclamar, de expressar foi ir pras ruas! Tá certo, esse aumento?

Claro que uma participação ativa na cidade, e, principalmente, nas urnas é muito negócio pra a gente não precisar recorrer ao protesto. A maior parte dos motoristas ficaram enraivecidos com o protesto, com a espera de uma hora ou mais pra poder chegar em casa. E eles tem razão de ficar enraivecidos. Outros motoristas largaram o carro e saíram pra protestar. Todo mundo devia protestar, quer tivesse carro, ou não. É um abuso com os cidadãos. O modo que se encontrou de ver todo mundo olhando pra a nossa causa foi parar todo mundo pelo tempo necessário.

O lance é que se não muda nada protestar, muda menos ainda ficar com a bunda sentada na cadeira, vendo o tempo passar e só reclamando. O perigo é partir pra anarquia e a destruição. No mais, achei a movimentação bonita, tanta gente gritando pelo direito, tanta gente reunida, tantos cartazes criativos. Olhava abismada pra tudo aquilo, enquanto andava com Iuri até em casa. É, é o poder que o povo tem.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

In Many Ways, I'll Miss The Good Old Days

Manhã desestimulante. Vontade de ficar na cama, sono terrível, levantei. Arrastei meu corpo pra escola, arrastei meu dia pela sala, cutucando Jean e me satisfazendo com as coisas pequenas. Recebi cartas. Recebi olhares estranhos e distância, e me machuquei um pouco mais, cutuquei a ferida. Tentei suturar, e apesar de não ter dado muito certo, estanquei o sangue e segui com o dia. Continuei sorrindo e oscilando o humor durante o resto da manhã. Me descobri e me escondi, só pra me mostrar pra mim. A tarde, prevendo um final de dia enfadonho, descobri o extremo oposto. Dois professores faltaram! Isso é quase inédito na história do CEI. Confesso que tinha pensado em fugir e não dar satisfações, e quae o fiz, mas depois dessa descoberta, não tinha pra quê fugir. Fugir de quem? Fugir do quê? Nada de fugir, ir sem a culpa de matar aula, sem a culpa de fugir. Mas mesmo assim, fugir da vida em algum ponto. E ir ao cinema, que jeito incrível de passar as horas, matar o tempo, fugir do que havia pra fugir.

Encontrei Flora na frente do cinema, como o planejado. E rimos, rimos muito. Compramos ingressos pra o filme mais fofo dos últimos meses. Com a linda da Meryl Streep e o fofo do Steve Carrell. Quase uma hora pra o filme começar. Descemos, e encontramos pessoas conhecidas. Juntamos-nos a elas, e rimos mais. Conheci algumas pessoas novas e estimulantes. E me entreguei, mais uma vez ao novo e desconhecido, ao frescor de novos conhecidos, de novas experiências, de novos dias. Difícil, essa entrega. E mais difícil nesses tempos. Eu sou difícil, mas sempre fui dada. De tanto sê-lo, cansei de levar coice e tomei uma atitude. Pena que tal atitude me fez me esconder dentro de mim. Estou nova. Abri-me de novo ao mundo, ao gosto, ao sabor, ao vento.

De coração aberto (e feridas estancadas, guardadas só pra mim), assim, subi pra o cinema. Na verdade, subimos. O filme foi estimulante. Ri, sorri, quase chorei. Passei por todas as minhas emoções. Entreguei-me aquilo que me faz sentir. Gostei. O dia teve um jeito diferente, depois. Voltamos pras nossas casas, conversando. E finalizamos tudo com um abraço, um abraço acolhedor, gostoso, do jeito que eu tava precisando.

Jeito bom de terminar o dia é com abraço de amigo. Com aquele apoio que vocês dois precisam. Desabafando, colocando seu coração pra fora. Mesmo colocando os meus sentimentos pra fora, ainda tem aquela ferida, esperando pra voltar. Volta não. Deixa-me em paz. Pra eu lembrar do dia como foi, feliz. Da vida como é, e daquelas coisas que fazem valer a pena.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Pra Não Levantar da Cama

Segunda de manhã, chuva. Terça de manhã, sol. Quarta de manhã, sol. Quinta de manhã, chuva. Sexta de manhã, nublado. Foda-se o tempo que faz lá fora, se o dia de matérias na escola é de exatas ou de humanas, se tá frio ou calor, se o dia promete ou não, você acordou de mau humor e não ficou na cama por que foi forçado a se arrastar pra fora dela. Nesses dias, o quão maravilhoso seria acordar e ter algum bilhete, alguma carta, alguém pra te dizer que o dia foi cancelado, e que você pode voltar pra cama? Seria o céu. Mas, uma vez sabendo que isso não vai acontecer, o que você faz com aquela vontade de desaparecer, de deixar de existir, de entrar embaixo das cobertas e não sair de lá até você se sentir melhor? Não faz. Coloca debaixo do braço e leva pra escola. Passa o dia inteiro carrancudo ou com cara de deprimido, suspirando e olhando pra o vazio.

Mas sabe de uma coisa? Não muda nada. O dia corresponde menos ainda as suas expectativas. Se sua expectativa era sexo, vai acabar em casa chupando o dedo e vendo Ele Não Está Tão Afim de Você. Se sua expectativa era bolo, vai acabar comendo salada verde na bancada da cozinha. Mas isso não é por que o dia tá ruim, é você que tá ruim. E a semana fica ruim. Fica tudo ruim, até o sorvete de flocos que você tava esperando o domingo pra comer. Parece que tudo dá errado. Seu namorado te dá o pé na bunda, você desiste da dieta, tira notas vermelhas, descobre que sua calcinha favorita tá furada, é assaltada, perde a identidade, e se pergunta por que levantou da cama.

Então, o que há de se fazer? Sair debaixo das cobertas, levantar da cama, lavar o rosto, praticar sua melhor cara de que está tudo bem, e encarar o dia. Não dá pra se esconder pra sempre do mundo, por que uma hora, ele pega você. Não dá pra se esconder atrás das músicas do Moptop que entoam que não há motivo pra acordar. Não dá pra deixar de lado sua vida lá fora. Não dá pra se esconder dos seus problemas. O melhor a fazer é encarar. Não há motivos pra levantar? Faça-os. Eu sei que eu estou fazendo. Se gosto do caos, é o que eu tenho. Gosto pelo caos. Estou me arranjando motivos pra levantar justamente por que não tenho nenhum nesse dado momento.

E a vida continua, o jantar está esfriando na mesa, o chuveiro pingando, e seu telefone não tocou.