domingo, 14 de setembro de 2014

I'm Honest, Brutal

And afraid of you

Era metida a escritora. Sentia uma vontade extrema de externar seus sentimento batendo furiosamente nas teclas do computador, mas frequentemente seus dedos perdiam a inspiração. E temiam escrever algo que ninguém tivesse vontade alguma de ler. Medo. Era isso que ela tinha.
Queria se aventurar pelo mundo, mas quando fazia planos de sumir por dois dias que fossem, sentia medo de ser esquecida.
Gostaria de morar fora, conhecer outra cultura ou fazer um mergulho na sua própria, porém, sempre que se sentia impelida a dar o primeiro passo pra fora de casa, seu telefone tocava e alguém precisava da sua ajuda pra algo. Sentia medo de não ser querida.
Tinha vontade de escrever um livro, entretanto, quando começava a diagramar todos os seus contos favoritos, convicta de enviar para a editora dessa vez, via que seu blog teve 15 vizualizações nos últimos seis meses, e temia não ser comercial.
Lhe apeteceria um pedaço da torta que está no freezer, mas engordar a aterrorizava.
Pensava em desistir do seu curso, só que o pensamento de ter que fazer cursinho, encarar de novo o ENEM e perigar não passar a fazia voltar a ler o texto para a prova de sexta.
Entre tantos poréns, conheceu alguéns.
Esses alguéns também a assustavam.
Não sabia como reagir perto deles.
Um mundo de ausências, de vontades, de desejos reprimidos.
Ela se ia, se reprimia. Tinha medo do claro e do escuro, da verdade e da mentira, do sim e do não.
Quando tudo ficava claro, lhe doía tanto. O não saber é cheio de vantagens. Mas temia as desvantagens.
O risco, que antes era seu combustível, o apetite para a destruição dela mesma, para a desconstrução, ficou pra trás.
Queria se arriscar, mas se via presa dentro de um círculo vicioso.
Diziam que as drogas, sexo e roupas curtas eram o perigo. Não. O perigo, era, por exemplo, se entregar. Sexo, não necessariamente é entrega. Sexo é vontade, sexo é tesão. Amor é entrega, abnegação.
Tinha medo do amor.
Tinha medo da abnegação.
Fazia muito tempo desde que tinha se envolvido nesse jogo de paquera. De fingir se interessar por coisas que não interessam verdadeiramente pra você, mas sim pra a outra pessoa, só por que você se interessa pela pessoa em questão. De conhecer os pais, almoço de família, ignorar piadas babacas de familiares, sorrir quando queria socar, se maquiar pra sair de casa, paranóia pra emagrecer, sair, beber, e sempre se achar menos bonita do que você era 10 minutos atrás. Aquele jogo cansava.
Se lembrava muito bem que seu ex falou que teriam caras e mais caras aos seus pés. Coitado, ele a achava bonita e com poder de magnetismo sexual (ou seja lá que inferno for esse), porém, só ele. Magnetismo e beleza não eram bem o seu forte, e ele só sentia isso por que namoraram tempo o suficiente para que se apaixonasse por quem ela é, mesmo que ela não tivesse certeza de como alguém poderia fazê-lo. No fundo, era mais uma pessoa assustada, que saía da cama por que PRECISAVA sair da cama. Precisava dar continuidade nessa vida que ela tinha se metido. Afinal, era a vida dela. Se ela não segurasse as pontas, quem iria segurar?
Carta aberta na terceira pessoa sobre a escritora, dia 14 do nono mês do ano, aos 18 anos, sem saber que diabos eu quero da minha vida, querendo fugir pra longe, com medo de terminar o curso e de me envolver com alguém além de mim.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

There's Room For Two

Six feet under the stars

Encaixotada. Encapsulada. Trancada. Fechada.
Sentia como se dançasse um balé torto, ao som de uma música qualquer, em uma boate sem nome, no palco da vida. Sempre se sentia assim nas segundas feiras. Um lixo.
Porém, como era obrigada a se arrastar da cama para um dia razoavelmente ensolarado, e que não refletia em nada seu humor matinal, levantou-se. Trajava uma calcinha preta e uma blusa recortada para revelar apenas o necessário. A réstia de luz entrando pela janela semi aberta a perturbava, assim como o calor quase insuportável que fazia naquela manhã.
Lavou o rosto, e amaldiçoou o maldito período menstrual por deixá-la absolutamente intragável aos olhos. Deu um jeito de arrumar quase decentemente o rosto pipocado de espinhas e o cabelo lambido. Despejou comida na tigela do seu cachorro que balançava o rabo atrás dela, e voltou ao quarto para se vestir. Era um antro de coisas não identificadas e desejos reprimidos. Vestiu as roupas de qualquer jeito, colocou os óculos de sol grandes demais pra o seu rosto e saiu, rumo ao incessante e causticante sol daquela maldita cidade.
Apanhou um cigarro na bolsa enquanto andava vagarosamente para a faculdade. Fumou dois cigarros e tossiu o caminho inteiro, cantarolando uma música qualquer que estava presa na sua cabeça desde o final de semana.
O final de semana. Tinha vagas lembranças do que fez, de quem fez. Só sabia que tinha sido mais um na lista da infinidade de finais de semana que ainda ia ter na vida. Todos pareciam essencialmente os mesmos, sempre fazia as mesmas coisas, com as mesmas pessoas, e sempre acordava no outro dia com uma vaga noção do que a cercava e do que havia feito.
O celular vibrava freneticamente na bolsa.
Ela, por outro lado, não vibrava por dentro.
Chegou na sala de aula, fedendo a cigarro. Os outros ao seu redor pareciam imersos no estado catatônico habitual.
Merda, quem é aquele acenando pra ela do outro lado da sala?
Ah. O show. Aquele cara. Bonitinho, mas ordinário. Como podia ser tão burra? Justo com aquele cara bonitinho que estudava com ela. Por que não qualquer outro desconhecido?
Quando a aula acabou, ela levantou agradecendo aos deuses. E desejando sua cama.
Saiu com as amigas, e pediu pela sexta.
Sexta era dia de começar a ficar dormente. Dormente por um final de semana, dormente por uma vida mais interessante. Dormente da vida. Doente da vida. Suspirava. Algo incomodava seu coração, e ela sabia o que era. Desejou que fosse ataque cardíaco, mas, infelizmente, ela sabia o que era. Bem mais sério que arritmia e que seu coração parando de repente. Não importava que o coração parasse. Seria indolor, rápido e fácil. Como desligar um botão. Um botão que ela ansiava por desligar.
Apertada. Encaixada. Presa.
Quem é você no balé sinistro da vida?