terça-feira, 26 de julho de 2016

Chuva

A imagem clichê da boemia juvenil de uma semi mulher sentada na frente do laptop, com um cigarro na mão, uma blusa larga digitando asneiras num microblog online. Queria ser josé saramago. Compartia com ele o coração de carne que sangrava todo dia, o vício no cigarro e o desgosto por parágrafos e letras maiúsculas.
Que difícil que é digitar segurando um cigarro. Apagou o que segurava pra melhor vomitar palavras sem nexo e sem conexão, de maneira furiosa, no teclado à sua frente.
Sem nexo, furiosa e sem conexão, na verdade, eram palavras chave do poço de sentimentos adversos e cruéis que assolavam sua alma, meio mazelada, pendendo pra a reclusão. Sempre disse a si mesma que seu sofrimento era belo quando colocado em palavras, e esse texto era uma desesperada tentativa de ver beleza na dor. Não aguentava mais encher o feed de textos sobre si, por que tinha a leve (e correta) impressão que todos cansaram de lhe dar ibope por coisas vazias, mas cheias de coisas que ela tirava do profundo do âmago.
O que enche a vida de significância pra você?
O que te mantém funcionando, são e acordado? (seja lá o que todas essas palavras queiram dizer)
Acendeu outro cigarro, apesar da dificuldade que isso imprimia no ato de datilografar. Era um pequeno ato de morte pelo cotidiano, de morte pela boca e pela rotina.
Fumava tão rápido que a fumaça preenchia seu cérebro de tontura, aumentada pela falta de comida no corpo desde ontem.
'um fracasso de ser humano', pensava de si.
Cantarolou a música que falava dela, tão dela e tanto da dor que a preenchia do começo ao fim.
Dor que não sabia espremer em palavras, comprimir em si, que queria gritar, mas não sabia gritar.
Era quase incapaz de se manter fiel às suas decisões. Desde que decidiu parar de fumar, apertou um botão de auto destruição dentro de si.
As palavras voavam de dentro dela com uma velocidade incontrolável, tão incontrolável que se perguntava se faziam algum sentido pra alguém além dela.
Não estava escorrendo de si. Não suava, não chorava, não vomitava nada além dela mesma, de sentimentos abjetos e sem sentido, tal qual sua existência pequena num mundo vasto.
Caiu cinza de cigarro no computador.
Sentia que as coisas todas da vida estavam escoando de maneira bizarra pelos seus dedos e fugindo do seu controle a cada segundo que passava.
Tinha pouca pretensão de ser poeta, derrubou esse sonho em algum bueiro enquanto se preparava pra enfrentar o desconhecido da vida adulta, como derrubou tantos outros.
Desistência e fraqueza corriam por suas veias. Não queria terminar o curso superior. Não queria mais ser palhaça, ser drag, ser gente, ser algo, queria sentar numa pedra na esquina do mundo, fumar um maço de cigarros inteiro, cair e nunca mais voltar.
Existir pesa.
Seu peso não era especial. Sua dor não era especial pra o cosmos, pras energias superiores, só se mesclava ao infinito como todas as outras dores.
Preferia quando era dormente ao sentir, apesar de saber do quão edificante e magnânimo isso era.
Tudo se misturava, saía em lufadas de fumaça quente do cigarro, e voltava pra dentro dela em formato de doença.
Por que amar a ela mesma era tão difícil? Por que amá-la era tão complexo e cheio de poréns?
Encarava seu eu vestido, de carne, de verdade no espelho. Como amar uma criatura tão bizarra? Tão pretensiosa, sem sobrancelhas, e terrivelmente humana.
Queria ser sobre-humana. Ser de outra forma, ser outra, em outro plano, em outra vida, em outro cosmos.
Como nada conseguia terminar, não terminava a vida.
Começou a se conhecer, mas foi tão fundo em si, que se perdeu.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

De Se Sentir Só, Pequena E Cansada

You don't have to act like you're alone

Solidão era um peso. Sentir é um peso. 
E se sentia só, dois pesos enormes que só faziam crescer e encurvar-lhe a coluna, cada dia mais. Sentia tédio o ojeriza de rotina, mas dormia mal a noite, pensava no fracasso e almoçava correndo pra ir ao trabalho.
Levantava, religiosamente, todos os dias. Comia a mesma comida por preguiça de fazer algo novo. Saía quase rastejando pra faculdade. Voltava e se enfiava num banho gelado. Do banho gelado, arrastava o corpo ainda úmido pra cima do lençol da cama. Assistia alguma porcaria no netflix até adormecer. Nos tempos livres, reclamava e existia.
Como se levanta a modorra da vida cotidiana? Como se sai do estupor da existência? Como se vive experiências novas quando se está sempre presa na mesma vida, que corre e perpassa os dedos semiabertos, escorre de si e desce pelo ralo? 
Aí no final de semana, bebia umas doses de qualquer coisa pra apaziguar a alma confusa, cheirava uns tecos de felicidade instantânea, e ia dormir tranquila depois que chegava, suada, cansada, com a cabeça vazia, na sua cama. 
Nesse turbilhão de coisas, tudo ia acontecendo, fugindo do alcance, correndo com o tempo, matando, aos poucos, tudo que havia de inovador, original e interessante no ato de viver.
O ato de viver, essa coisa incessante, cansativa, e sem propósito fazia seu coração ficar pequeno. Pequeno por que nem ela cabia nele, e passava tanto tempo pensando em como passar pela vida sem ser fracasso e derrota, apesar de ter a sensação de que isso estava estampado num outdoor iluminado na sua testa.
Estava naqueles dias que não se sentia especial e nos quais se perguntava o que havia de errado com os receptores de serotonina do seu cérebro.
Esses dias eram mais frequentes do que ela gostaria. Esses dias conseguiam fazer com que ela se sentisse pequena, quase um grãozinho de areia. E nesses dias ela não queria ver nada nem ninguém que a tirasse desse humor sombrio. Gostava de se fazer perguntas impossíveis de se responder e de se afundar no fracasso de ser humano que ela se sentia. Pensava que se estivesse ébria, as coisas poderiam ser melhores, mas se mantinha sóbria, sentindo cada farpinha da sua rejeição por si mesma perfurar a pele, a derme dormente que cobria seu corpo com existência sofrida. Uma dor tão sem motivo, mas tão intensa, tão real. Mergulhava na dor, e algum dia voltava, mas não era mais ela. O medo de não ser ela mesma, de viver meia vida, de ser esquecida, de não ser amada, de ser só.

De repente, era ela sozinha rolando as pessoas pra esquerda no tinder, sentada, sozinha, com 35 anos e esperando as coisas acontecerem.
Só, sozinha, pequena, e tão cansada...