sábado, 26 de junho de 2010

Into Your Arms


O portão sinalizava para que adentrasse. Estava esperando. Não sabia se deveria esperar. Não tinha certeza do que sentia. Sempre fora completamente confuso, e demasiado complicado, mas parecia ter encontrado alguém que entendesse isso, e que fosse tão complicado quanto a si próprio. Às vezes sentia-se desconfortável com a sua presença, como se ela soubesse demais, mesmo que não tivessem contado nada. Incomodava. Mas supunha que isso fazia ele se sentir aceso por dentro, queimando como a chama recém acesa de uma vela, querendo mais de si e do mundo. O coração dançava em suas mãos, por que do peito havia saído a tempos. Um vulto encasacado entrou no recinto, mesmo com o calor infernal que impregnava a cidade. Ele sabia quem era. Perguntava-se por que ela perdia seu tempo com ele, não é como se ela não fosse a voz que está na cabeça dele. Ecoando, e repetindo coisas que ela já disse, como se ainda fossem verdade. Apesar de tudo, sentia vertigem. Um legítimo medo de cair. Cair de algo incerto. Ela não o seguiria até o escuro. Não sabia onde tinha errado, perdeu um amigo. Uma amiga, na verdade. Enquanto ela chegava mais perto, ele observava. Os cabelos dela voando, os peitos dela balançando na blusa preta decotada, os sapatos batendo no chão com um estalido falso, o casaco aberto farfalhando junto ao corpo dela, as unhas vermelho-escuro brilhando, os olhos tapados por um par de óculos de grau realmente grande, e o batom tão vermelho quanto às unhas cintilando. Conforme ela ia se aproximando, a nuca dele ia ficando suada. Ele deu um sorriso nervoso. Ela não estava encarando ele. Estava olhando para frente, com um olhar mecânico, como se tivesse que olhar pra frente. Ele sentia bichinhos no estômago. Borboletas. Que fosse. Ele queria se jogar nela e nunca mais soltar. Por mais gay que isso pudesse parecer. Ela continuava andando como se tivesse um prazo a cumprir, uma missão, algo realmente importante. Por alguns segundos, ele pensou ser essa missão importante. Ele não conseguia ver o que ninguém conseguia ver em ninguém além dela. Ela não parecia ver, nem sentir, nem nada do gênero. O telefone dele começou a vibrar no bolso, e ele o pegou gritando Rock You Like A Hurricane, do Scorpions. Ele o pegou com a mão trêmula de nervosismo. “Alô?” Ele disse, com a voz tão trêmula quanto as mãos. “Eu estou te vendo. Vem até aqui, por favor.” Ele assentiu com a cabeça, sabendo que ela estava vendo. Ele queria sair correndo, mas conteve-se. Conteve-se por medo do ridículo. Conteve-se por medo de errar. Conteve-se por medo do que ela ia pensar. Parou por alguns segundos na frente dela. “Bon Voyage” Ela disse. Passou o dedão na bochecha dele, a unha cintilando como sangue escorrendo por sua face. Ele assentiu. Ela tascou-lhe um beijo. Ou ele o fez. Nenhum dos dois tinha certeza. Pararam por alguns segundos, para ouvirem suas respirações. Respiravam longamente, com uma pitada de medo e insegurança. Continuaram ali, se beijando e apoiando um ao outro atrás do quiosque de café. “Última chamada para o vôo 37589 com destino á Praga.” Separaram-se. Ela lhe deu um olhar profundo e penetrante. E sem mais nenhuma palavra, saiu. Bateu seus saltos duramente no chão do aeroporto, e ele, como bobo, só pôde observar ela ir embora enquanto se atrasava para o vôo. Não suportava essa idéia. Não suportava a si mesmo. Não suportava nem a chuva que batia incessantemente no telhado, fazendo barulhos estrondosos e inoportunos.
TRIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIM
O despertador tocou. Lembranças assolavam-lhe os pensamentos. Lembrava do sonho. Parte dele fora real. Parte dele não. Jamais teria alguém assim esperando por ela. Talvez fosse só pessimismo. No fim das contas, quem andou para fora da vida dela fora ele, e não o contrário. Resolveu acordar, amarrar os cabelos, e fingir que não tinha chorado até pegar no sono. Decidiu ir para aquele lugar, agüentar aquelas pessoas, tudo para tê-lo por cinco segundos que fossem. Ou para ter mais alguém. Era só o que restava. Entorpeceu seus sentidos e se preparou para mais um dia. Tinha uma grande frase de impacto. Não ia usa-la. Tomou um longo gole de tequila. Bom dia, sol. Bom dia, mundo.
“When we were in Love, things were better than they are, let me back into your arms”

(Tem uma mensagem "escondida" na foto. Look for it ;)"

domingo, 6 de junho de 2010

Stop Telephoning Me

"Sorry I can't answer you, I'm kinda busy"

O telefone tocou pela vigésima vez nos últimos dez minutos. Ele apertou o botão de "ignore call". Estava se cansando aos poucos dela. Não é que ela fosse desinteressante, chata, incompatível, burra, gorda, irritante, ou qualquer coisa assim. Ela era perfeita. Pra outro cara. Ele conheceu outra garota. Na verdade, já a conhecia. Ja fora apaixonado por ela. Mas de repente, ela voltara a se tornar interessante, como se a luz tivesse e acendido com um clique abafado, e tivesse tomado conta de algo que ele não sabia que podia ser tomado. Ana era linda. Inteligente. Da sua idade. Talvez um pouquinho menos complicada que Ingrid. Sorridente. Com menos coisas pra fazer, mas mais tempo pra aproveitar. Menos compromissada. E assim, como um piscar de olhos ou um estalo de dedos, vai embora e não pretende voltar, deixando a chave da casa, um armário vazio, e um bilhete insólito, que mais tarde ficaria borrado de lágrimas sinceras de um amor verdadeiro. O bilhete dizia algo banal, mas tão banal que machucava. E dor penetrava nela exatamente como uma faca recentemente afiada, como um punhal que tem um ponto certo pra acertar. E sufoca seu coração de uma forma que o faz perder a confiança em si e nos outros. A mensagem, era algo normal, mas estranho pra ela "escutar" dele.

"Sinto muito. Eu te amo. E por isso, eu realmente sinto muito."