quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

When I Put My Finger On Your Trigger

“Happiness is a warm gun”

Puxou o gatilho. Rompantes de alegria esborratavam pelas suas têmporas. A arma quente, o corpo no chão. Jorrando sangue. Jorrando, jorrando, jorrando. Deixou-o esvaziar. E saiu dali, satisfeito consigo. Sabia que esse sentimento de realização seria tão passageiro quanto sempre fora. Umas duas horas, no máximo, e depois estaria pronto pra encontrar mais alguém a quem perseguir. Não era um perseguidor. Não se via como um assassino. Não se via como nada. Gostava de ver o sangue jorrar, sempre certo de pra onde ia, mas deveras incerto de pra que servia. Mantivera pessoas vivas por dias, só para assisti-las sangrar aos pouquinhos, cada dia mais, cada dia mais. Era razoavelmente bonito, sedutor. Mulheres eram presas fáceis. Sua orgia de sangue era sempre completa, mas sempre necessitava de mais. Sentia-se mal, por vezes. Medo de ser pego. Mas nunca era. E sabe como dizem, happiness is a warm gun.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Sem Propósito

Alguém aí? Alguém pra ler? Alguém que não esteja dormindo, esteja interessado e entediado?
Pois bem, a quem interessar:
Alguém já se sentiu entediado com a vida? Como se ela parasse e estagnasse, visse o tempo passar, e só as mesmas coisas se repetissem, continuamente, em um círculo sem fim e sem começo de tédio e falta de propósito. Não? Nunca se sentiu assim? Então me deixa explicar: é como se você fizesse tudo igual todo dia, sem parar, sem pausa, sem intervalo. Mesmo que esses existam, compridos ou não, sempre parece que você não tem pausa, que recomeça de onde parou, e que nunca vai parar de verdade. Dormir não é recarregar as baterias, por que você está sempre na massacrante atividade de ser e respirar, respirar e expirar. Expirar a validade, o prazo, a noite, o tempo, a vida. Tudo expira, menos o labor diário (e com a sensação de prolongada inutilidade, você também não). Suspiro. Cansada sem ter com o que cansar, cansada de pensar, cansada de viver. Por que não pode ser um pouco mais fácil? Se cobrir de vergonha e com um saco de papel, pra que ninguém veja. Só você. Ninguém sabe. Ninguém deveria saber. O ciclo do tédio se expande e estende, que nem um tapete vermelho encardido que ninguém quer pisar. O enfado te consome, engole e cospe. Cospe essa massa cinzenta, menino, que ninguém te pediu pra pensar. Ninguém te pediu pra escutar, processar, intrigar, perguntar. Só trabalhar, trabalhar, trabalhar. Trabalhar pra ganhar, trabalhar pra viver. E morrer pra trabalhar. Sem pensar. Quem precisa de pensar?

The Only One That's Really Judging You Is Yourself

“The only one that’s really judging you is yourself, nobody else, nobody else”

Fechou as portas com um baque absurdamente forte. Pegou a mala de cima da cômoda ridiculamente alta, e atirou-a com força na cama, provocando um outro estrondo de proporções semelhantes ao primeiro. Uma semana. Uma longa semana em um hotel distante de tudo e de todos, sem recepção de celular, sem internet, sem outras pessoas com quem pudesse conversar além da família. Família. Não gostava de como soava. Quando foi que passou a ter uma família? Um tempo atrás família era só seu pai, sua mãe e sua irmã mais nova. Agora tinha uma esposa particularmente bonita, porém mais vazia que um saco plástico. E duas crianças, que berravam o dia inteiro. O dia inteiro, todo dia, vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. Saía do maldito escritório, esperando cinco minutos de silêncio, e quando menos esperava, era pego pela batalha diária de fazer os pirralhos deglutirem os vegetais, pelos telefonemas histéricos de sua mãe, ou pela tagarelice incansável de sua mulher. E agora, uma semana naquele lugar. Ideia da esposa, obviamente. Ia ficar trancada em um SPA, e ele ia fazer “atividades externas” com as crianças. Por que o fizera? Pra que pudesse escapar na outra semana pra Boston e encontrar a amante número cinco. Viajava muito a negócios. Menos do que contava à esposa. Não acreditava que ela se importasse genuinamente, desde que sua conta bancária continuasse gorda e seus inúmeros cartões de crédito fossem pagos. Telefonou pra amante dois. Caiu na caixa postal. Ligou mais duas vezes. Atendeu.
- Alô? –
- Richard? –
- Hm, não. Andrew. –
- Ah, olá, Andrew. Mesma hora semana que vem? –
- Não, é por isso que estou ligando. Pra desmarcar. A maldita me coagiu em uma viagem de família. Era isso ou ela ia chamar minha mãe pra passar umas semaninhas aqui. Tem horário vago depois de sexta? –
- Sexta 17? –
- Sexta 24. –
- Sim, às nove horas. –
- Nos vemos às nove. –
Desligou o aparelho. Jogou furiosamente as coisas na mala. Muitas vezes sentia como se em algum lugar, alguma hora, tivesse desandado sua vida. Talvez fora quando se casou com Eve em Vegas, ou quando arranjou tantas amantes que passara a enumerá-las, ao invés de denomina-las. Nunca quisera filhos, e não sentia genuíno afeto pelos seus, só em raros rompantes de emoções, cada vez mais escassos. Depois destes, sentava e sentia raiva de si por ser tão fraco. E costumeiramente, entoava uma música na cabeça depois de sair de bordéis ou casa de outras mulheres. “The only one that’s judging you is yourself.”