segunda-feira, 9 de maio de 2011

Beijo de Filme

Seis da manhã. Despertador toca. Levanta da cama. Abre as cortinas e dá de cara com um tempo nublado. Balança o marido. Sai do quarto. Vai no outro quarto. Balança Amy. Balança Jamie. Anda até a sala. Senta no sofá cinza escuro. Respira fundo. Levanta. Vai até o banheiro. Penteia o cabelo. Veste um sutiã, uma calcinha, aplica base, lápis, e um batom vermelho. Vai até o quarto só de lingerie e maquiagem. Balança de novo o marido. Entra no closet. Fica em dúvida entre a saia preta e a roxa. Opta pela roxa. Coloca uma blusa branca de manga comprida, com botões. Vai até o quarto de Amy e Jamie. Faz cócegas nas duas para que acordem. Elas acordam e vão para o banheiro. Ela entra no próprio quarto, e ainda sim, dá de cara com o marido dormindo. Coloca o despertador para dali a vinte minutos, e calça suas botas. Vai para a cozinha e prepara duas vasilhas de cereal com leite. Amy e Jamie sentam na mesa, comem, e calçam os sapatos. Ela come uma torrada com manteiga e toma chá de erva cidreira. Leva as meninas para a escola, bem a tempo de escutar o despertador tocando e a irritação matinal do marido. Coloca o cinto dela. Amy tem sete anos, e Jamie tem nove. Amy está com sua Barbie nova, enquanto Jamie alega ser velha demais para bonecas. Deixa as meninas na escola, as sete e meia da manhã, como sempre. Cedo para a aula começar, mas não cedo demais. Hoje era seu dia de folga, não precisaria trabalhar. Era o dia que, religiosamente, ia ao mercado. Estacionou o carro no mercado, bem perto da porta, para poder evitar ter que passar muito tempo no frio que estava lá fora. Pegou seu trent coat preto e saiu. No corredor quatro, o corredor de legumes, notou uma pessoa que nunca tinha notado antes. E que, mesmo assim, lhe parecia extremamente familiar. Tinha cabelos desleixadamente despenteados. Olhos pretos. Cabelos pretos. Um carrinho lotado de coisas necessárias para quem quer que fosse, tivesse família ou não. Pele pálida. Estava escolhendo tomates. Não podia ser quem ela pensava que podia ser. Aproximou-se dele, abandonando o carrinho com sua bolsa, seu casaco e suas compras do outro lado do corredor. “Com licença”, ela disse, e tocou levemente no ombro protegido por uma jaqueta de couro dele. Automaticamente, virou-se para vê-la, o que a fez corar. “Acho que te conheço de algum lugar. Por acaso você freqüentou o colégio no Rio de Janeiro, Brasil?” Ele parecia meio inseguro em responder, e apenas acenou positivamente com a cabeça. “Eu estudei no Bahiense.” Ela arregalou os olhos e arriscou “Keith?” Ele acenou com a cabeça. “Haley?” Ela, por sua vez, acenou a cabeça também. “Eu não acredito que nos encontramos por aqui. Podemos falar português? Esse alemão me irrita, um pouco.” Ela sorriu, o que ele entendeu como uma afirmativa. “O que te trouxe aqui?” Ela apontou para o carrinho lotado de compras do outro lado do corredor e eles riram. “Vejo que você não mudou muita coisa.” Ele sorriu. Ela corou. “Vamos fazer que nem a gente fazia com quinze anos? Responder tudo que a gente acha que o outro vai perguntar?” Ela assentiu. “Eu tenho duas filhas, moro a três quarteirões daqui, casei com um cara alemão, moro aqui fazem quatro anos e detesto quando neva demais e eu não posso ir ao trabalho nem a lugar algum” Ele, por sua vez, começou. “Eu tenho um filho, moro nessa rua, trabalho como engenheiro, tenho minha banda nas horas vagas, minha esposa é alemã, mas viveu a vida quase toda no Brasil, então voltamos para cá mês passado. Também detesto quando neva demais.” Eles sorriram. “Posso te dar um abraço?” Ele não respondeu, e ela apenas o abraçou pelo que pareceram horas. “Quer sair pra tomar um café? Eu estou de carro, deixa só terminar as compras.” Ele sorriu. “Por mim, tudo em cima. A gente pode passar lá em casa, antes? Pra poder deixar as compras por lá e tal.” Ela acenou negativamente com a cabeça, e depois fez que sim. “Sempre o mesmo folgado babaca, não é mesmo?” Ele fez um sinal positivo com a mão. “Sempre.” Encontraram-se no caixa, e rumaram para a casa dele. “Essa é a minha casa, a verde.” Foram escutando The Strokes no volume máximo, e rindo descontroladamente de coisas que aconteceram quando eles tinham, respectivamente, quinze e 16 anos. Eles abriram a porta com violência, ainda rindo alto. Deram de cara com a esposa dele, com um jeito meio infeliz. “Ah, Haley, essa é minha esposa, Jackie.” A esposa dele forçou um sorriso. Elas não tiveram contato ocular por muito tempo: “Quem é essa, Keith, querido? É aquela Haley que você tanto fala?” Ela corou. A esposa não se importou. “Ela mesma. Acredita que Haley e o marido dela estão morando a três quarteirões daqui?” A esposa torceu o rosto um pouco. Era bonita. Tinha um cabelo muito loiro, olhos muito azuis, pele muito branca, corpo muito magro, sorriso muito aberto, dentes muito brancos. Era a mulher alemã perfeita. Haley levantou a sobrancelha para ela. “Então, vocês vão ficar pra um café ou pretendem fazer algo mais?” A esposa parecia meio exasperada. “O que você acha, Hay?” Ele olhou esperançoso para ela. “O que você achar melhor.” A esposa piscou os olhos meio nervosamente. “Eu vou sair para a farmácia. Fiquem a vontade.” E saiu batendo a porta. “Meio nervosa, ela?” Ela encarou a porta. “Nem sempre. Só quando brasileiras bonitas aparecem aqui em casa.” Os dois sorriram. “Pare com isso.” Ele foi até a cozinha, e de lá trouxe uma lata de leite condensado. “PUTA QUE PARIU, NÃO ACREDITO NISSO. EU NÃO COMO ESSE LANCE DESDE QUE EU CHEGUEI AQUI.” Abriram a lata, comeram de colher, e viram perfis antigos no Orkut de pessoas antes conhecidas, mas há muito esquecidas. Lembraram de coisas antigas, de bobagem hoje sem sentido, de coisas perdidas no tempo, de amor, de tristeza, dela, dele. E riram. Passaram a tarde imersos em nostalgia, falando português e lembrando da vida como ela deveria ser, de como ela poderia ser. “Sabe que eu nunca te esqueci direito? Só, bem, quando eu casei com o meu marido.” Ela virou o rosto. “Eu nem quando me casei com a minha esposa” E ela, de repente, levantou-se abruptamente do sofá. “Me diz, se não me esqueceu, por que você terminou?” Ele ficou sem palavras. “Eu... Não sei.” Ela encheu-se de cólera. “Qual o seu problema, afinal? Eu não acredito que, depois de trinta anos, nos quais eu busquei em outros braços seus abraços, sem querer abusar de Caetano Veloso, a milhares de quilômetros da vida que eu levava, agora, você vem me dizer isso.” E ela saiu porta afora. Nesses minutos, a esposa voltou e ele não relatou nada do que aconteceu, só disse que ela tivera que ir embora. Ela foi. Foi na escola. Pegou Jamie e Amy na escola. Levou-as para casa. Deitou na cama. Levantou. Ligou a TV para as meninas na sala. Subiu para o quarto. Tomou um banho demorado. Deitou na cama. Ligou sua TV em um noticiário qualquer. Apagou completamente. “Querida? Tem um moço na sala, alegando conhecer você. Um tal de Keith.” Era o marido dela. Tinha dormido quatro horas. Ela levantou-se. Estava de blusão largo, sem sutiã, calça de moletom, meias e um cabelo totalmente bagunçado. Desceu assim. Encontrou Keith sentado no sofá, com uma cara meio indiferente. “Como você descobriu onde eu moro?” Ela estava meio desconcertada, e bastante surpresa de o encontrar em sua sala de estar, com suas filhas e seu marido. “Eu fui batendo de porta em porta dessa rua, até achar a sua casa. Não foi tão difícil, sua casa é a terceira casa da rua. E se quer saber, tem a sua cara.” Ela piscou. Ele estivera falando em português, e ela também. “Será que eu posso morar com você? Não tenho mais casa pra morar.” Ela arregalou os olhos. “Aqui? Com a minha família? Você tá usando crack?” E mesmo assim, ele sorriu. “Não. Sem seu marido, para ser mais exato. E aí, topa?” E assim, sem mais nem menos, ela sorriu. “E o que eu faço com meu marido? Jogo ele pela janela?” Ambos riam. “Não. Pode ser gentil e contar a notícia a ele. Que acha de morarmos em Londres?” E ela parecia uma criança recebendo presentes no natal. “E por que diabos você não falou antes. E você ainda me deve desculpas.” Ele piscou. “Pelo quê?” Ela sorriu. “Por ser o único que eu amei de verdade. Por nunca ter existido ninguém igual” E ele deu aquela olhadela que era só dele. “Me desculpa?” “Nunca precisei das suas desculpas, babaca.”

domingo, 8 de maio de 2011

Moi


Afastou a franja azul dos olhos. Estava rindo de uma piada realmente imbecil. E assim era ela: espontânea. Fazia o que dava na telha, e se não desse, não fazia. O batom vermelho vivo contrastava com a blusa branca e a saia de cintura alta florida. Quem dera tivesse aprendido a amar outro que não ele. Tinha seus surtos. Não eram raros, ela era cheia de defeitos. Comia demais no almoço, e depois não jantava, ou não comia no geral. Jurava ser a dona da razão, contracenava consigo mesma em uma peça só dela, e irritava-se quando seu script não era seguido a risca. Tomava sorvete só depois que ele derretia, sempre roía as unhas quando prometia a ela mesma não fazê-lo, tinha vontade de ir embora, sumir dali, mas faltava coragem. Achava defeito em tudo, mas via como o mundo podia ser belo; sonhava acordada mas não custava a levantar; queria ser e fazer, mas lhe faltava vontade; por vezes sentia-se infeliz e sozinha. Todos diziam que ela era amarga, mas a verdade é que as pessoas a fizeram assim. Carecia de amor, e este não faltava, mas sentia-se como um quebra-cabeça incompleto, uma peça sem final, um ônibus sem passageiros além dela. Gostava de suas roupas pretas e brancas, longas e curtas, de couro ou de pano. Inconstante. Dada a opostos. Queria desesperadamente ser outra, mas sê-lo era impensável, impossível, inviável. Pensava em ser de tudo, mas só se via encenando. Gostava de Beatles e Rolling Stones. Jamais agradava a ela mesma com nada, e tinha a impressão que desgostavam-lhe. Reclamava, e como. Tinha a necessidade de ser, e o fazia sem amarras. Jogava tudo para o alto, mas obrigava-se a recolher os pedaços depois. Passava noites insones, imersa em problemas triviais, imersa nos monstros que viviam dentro dela. Acordava cansada, de saco cheio, com medo da vida, mas apaixonada por ela. Quis acabar com ela mesma milhares de vezes, mas nunca chegou as vias de fato. Bebia. Fumava. Frequentava shows, boates, bares, teatros e botequins. Frequentava a escola, por mais que esta a enfadasse. Queria revolucionar. Era poeta, mas não aprendera a amar. Por vezes machucava a ela e aos outros. Se prendia na frase de quem escreve, sente mais, e esperava ser tão normal quanto possível para uma garota tão cheia de defeitos e peculiaridades. Seus cabelos curtos e completamente azuis reluziam ao sol. Os óculos escuros sempre no rosto e os olhos sempre cobertos de maquiagem, mesmo pela manhã. Nem gorda nem magra, nem chata nem suportável, nem feia nem bonita. Conseguia o que queria, quando queria. Seus olhos azuis piscavam duas vezes, mordia seus lábios tingidos do habitual vermelho intenso, e franzia levemente a testa. Tinha mania de roer tampas de caneta, lápis e lapiseira. Sorria quando não devia, chorava quando não aguentava. Não gostava de se ver fraquejar. Detestava quando prometiam-lhe ligar e não ligavam, e quase tanto quando não atendiam o telefone. Chorava sozinha. Ficava sozinha. Se ao menos tivesse um desejo, talvez pudesse mudar. Não tinha um desejo. Tinha, ao invés disso, amigos incríveis, um relacionamento difícil com seus pais, e um amor imenso pelos seus avós. Sabe-se lá quem era, e ela ainda estava por descobrir. Diferente. Mentia facilmente quando lhe convinha. Omitia algumas coisas até de si. Por que tudo tem que ter um fim? Eu não sei nem por onde começar. Nunca sabia começar. Nem terminar. Terminar acabava em lágrimas meio amargas, base, colírio e um sorriso falso. Tantos finais. E mesmo com tantos finais, com tanto amargor, nunca estava tudo bem. E quando estava, tudo findava, e ela voltava a ser sozinha, com fones de ouvido, casaco de couro, na chuva de final de ano.