terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Happy Ending?


"And I will be, all that you want, 'cause you keep me from falling apart"

Nada. Era tudo o que Coral via. Nada. O vazio comprimia seu estômago, acentuando a dor crônica que a incomodava faziam alguns dias. Nada de novo, pra falar a verdade. Coral prosseguiu com sua dor descomunal, no branco dos olhos. Nada a podia impedir, e finalmente podia fazer o que sempre quis, desapaixonar. Coral preferia a abstinência, disso podíamos todos ter certeza, mas apaixonou-se. Louca e profundamente, sem um caminho de volta. Nada que ela queria pra si, somente a infame desgraça de um novo amor, como um novo caderno, virgem, pronto pra ser escrito e pintado da forma que ela queria. Podia-se deixar mergulhar de cabeça, mas não queria. O mergulho imbossibilitaria a si de andar livremente, como algemas, as quais nunca gostou. Ao pé do trampolim, escolhia se ia ou ficava. Trajando sua roupa de banho, e tremendo devido ao frio gélido e a grande escolha que estava prestes a fazer. Nunca favoreceu o amor. Deixou-se cair. Na queda rumo ao nada, descobriu-se e descobriu o tal. Nada de que ele fez expressava que ela deveria atirar-se. Algumas promessas inalvansaveis, alguns beijos trocados. Ambos não são compromissos. E ela continuava caindo na mesmice, deixando o quanto conhecia do mundo pra trás. Não que o conhecesse o suficiente, apenas o quanto uma menina de quinze anos podia conhecer. Conheceu um amor, o qual a fez sofrer. Nada que a pudesse preocupar. Nada que a pudesse afetar. Como se enganara. Coral agora está em cinzas. Coral agora não quer mais nada, Coral quer descansar. Nada que um descanso eterno não a providencie, e na queda, Coral pensa nisso. Era realmente uma grande queda. Ela lembrou-se da cor dos olhos dele, e comprimiu os seus em busca de consolo. Achou a fragrância de seu perfume, a qual impregnava a blusa que ela usava. Foi mais funde dentro de si, e achou algumas lembranças. Não as melhores delas, mas ainda sim lembranças. Ele arranjou uma namorada, ele deu coisas pra ela, ele encontrou um amor que não era ela. Aprofundou-se pra antes disso. Ele sempre estivera ali. Por que só fora notar quando já era tarde de mais? Ou será que nunca tinha sido cedo, no fim das contas? O vento gélido enchia suas narinas. O chão estava próximo. Via nitidamente pontinhos de luz se moverem rapidamente em direções opostas, levando consigo formiguinhas no seu interior. Coral estava cansada de esperar o impacto. Lembrou-se de quando brigara com sua amiga. Ele estivera lá. Lembrou-se de quando caiu no asfalto. Ele estava lá. Ele sempre esteve lá. Até nos momentos mais irrelevantes da existência monótona dela, ele sempre esteve lá. Duas da manhã, de cuecas de coraçõezinhos, ele atendia a campanhinha, e ela entrava aos prantos. Até que ele fazia chocolate quente e eles riam de tudo aquilo. Dezoito, tinha ele. As coisas mudaram quando ele começou a namorar, e ela a achar a namorada um incomodo e vice-versa. Ambos cegos de amor, separam-se. Separações quebram corações. O de Coral quebrou. E agora sua espinha dorsal também. Junto com seu crânio. Talvez apareça no jornal. Mas o mais importante é que ele nunca saberá que a queda foi por ele, e só por ele. O prédio de quarenta andares. Tudo por ele. E ele nunca saberá. Talvez nunca nem saiba que Coral morreu. Mas de uma coisa Coral teve certeza antes de seus ossos cederem e o cérebro finalmente parar de funcionar: O seu coração já tinha parado de bater muito antes.

Is love all I need?


"There's nothing you can't do that can't be done (...) All you need is love"

Um abraço. Um beijo. Nada que dois amantes achassem incomum. Nada que um romance proibido não provasse no sempre, na rotina. Na falta de rotina que um amor proporciona. Um romance perdido, dois corações partidos. Na falta de um par, vai-se um, solitário, a andar pela alameda, aos pedaços, com seus farrapos. Aos tropeços, vê-se um semblante à vagar assim como si, aos farrapos, despedaçado. Mas este é diferente. Está aos farrapos, mas as lágrimas não escorrem mais. Os pedaços se juntam, e ficam, aos poucos, inteiriços de novo. Algumas profundas cicatrizes aparecem, e o primeiro coração se espanta. Embebe-se no espanto, e uma pontada de dor envolve-o mais fortemente. Alcool. O pobre coração está cansando de andar por aí sem um destino certo. Drogas. O pequeno coração tenta se regenerar, mas não é bem sucedido, a dor que o embebe supera os sentimentos externos, é extremada. Nada se condiz, está fechado, acabado. Com suas suspeitas, deita-se no sujo chão empedrado da selva de pedra. E aos poucos, o limo toma conta do frágil coração, o qual endurece e fica amargo com cada segundo que passa. Amargura. Dor. Farrapos. Nada o consola, nada o ocorre. Tudo que lhe resta é ter um digno enterro, ao lado dos singelos outros corações, os quais tão partidos quanto ele, descansam em um sono breve e conturbado, ao cálido som noturno.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Love.


- Eu não posso deixa-lo ir sem contar o que eu sinto. – Sentia os pés batendo com força no asfalto duro. Estava de tênis, mas o solado gasto não agüentava os passos pesado contra o chão. Ela tinha que chegar a tempo, tinha que ter valido a pena. Vinte minutos. Ela acelerou o passo, se é que possível. Os pés doíam mais, e a exaustão corroia cada centímetro do seu corpo, mas ela não ia ceder. Não ia ceder, em hipótese alguma. Já ia partir, precisava chegar a tempo, nem que chegasse suada, chegaria a tempo. Dezenove minutos. O coração dela descompassava. Não deveria ter deixado o hospital, os rins iam falhar. Mas tinha que conseguir. Chegava mais perto. Dezoito minutos. A bata verde do hospital farfalhava perto do cós do seu Jeans. Não tinha tido tempo pra trocá-la, e provavelmente não teria. Só tinha tempo de chegar lá e falar. Dezessete minutos. A porta. Conseguia ver a enorme porta de vidro que abria um universo que nunca havia adentrado antes de hoje. Não respirava direito, mas em grandes e desregradas doses cavalares de ar. Resfolegava, e se sentia menos humana a cada passo esforçado dado. Precisava seguir em frente. Dezesseis minutos. Os seus pés praticamente se recusaram a continuar andando, mas não restava tempo, era tarde. Quinze minutos. Queria chegar a tempo, ia chegar. Forçou os pés um pouco mais, nada ia para-la. Estava tão perto, tão perto. Catorze minutos. As grandes portas de vidro abriam-se lentamente. Ela podia ver o enorme portão de amarelo, indicando pra onde ela deveria ir. Apoiou-se por alguns segundos na pilastra mais próxima, precisava de ar. Treze minutos. Ela olhou para o grande relógio metálico que apontava a sua escassez de tempo. Continuou a andar em direção ao portão amarelo. Sentia dores abdominais. Sentia falta de ar. Mas ia conseguir. Doze minutos. Andava com dificuldade. Caiu no chão. Não conseguiu se levantar. Não respirava mais do que pequenas doses de ar. A multidão se virou. Pessoas pararam seus carrinhos para observar. Mas a atenção de uma pessoa bastava. Ela mal conseguia abrir os olhos. Ele percebeu que algo errado acontecia. Correu pra ver. Encontrou-a rodeada de estranhos, com uma bata verde de hospital, e respirando com dificuldades. Seus cabelos castanhos estavam sujos, e esparramados pelo chão frio do aeroporto. Ele abaixou-se cuidadosamente para sentir o pulso dela. Onze minutos. Ele olhou para o porão de embarque, que sinalizava ostentosamente para que ele embarcasse em um vôo direto pra Portugal. Olhou de volta pra ela, a qual estava com os olhos semi-abertos, e semi-viva sem os aparelhos. Precisava saber o que ela estava fazendo aqui, e ouviu uma voz, áspera e firme vindo de onde ela estava deitada. Abaixou-se mais. – e-eu t-e a-a-amo. – Ele ouviu-a balbuciar com o último fiapo de voz que restava-lhe. Parou de súbito. Ela estava com cada vez menos pulso, dava pra ver. E ao longo dos dias, os gélidos dias que sondavam sua partida, ele percebeu que seu pulso diminuiu. Na verdade, algo estacou nele. E agora isso esbarrou de novo, com uma força absurdamente sobrenatural, que o fez cair de sua posição agachada ao chão. Caiu perto dela, e sentiu seu adocicado perfume. Lembrou-se de quando deu-lhe esse perfume, em uma tarde longínqua de verão. Estavam no verão de novo. Essa sensação o trouxe de volta a vida. Portugal podia esperar.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Heart Pain


- Doutor, está doendo. Eu preciso que pare de doer.
- Mas os exames não apontaram nada de errado, não entendo o que está acontecendo.
- Está sangrando, como não detectaram?
- Não tem nenhuma hemorragia interna ou externa, minha jovem.
- Tem sim, um enorme ferimento na altura do peito, no lugar do coração.
- Não, não tem.
- Bem aqui, onde deveria estar o coração. Eu o removi, não vê?
- O seu coração continua a bater regularmente
- Não, ele não continua. Eu o guardei em uma caixa, e nunca mais vou solta-lo. É simplesmente muita informação pra minha cabeça, um sobrepeso inútil. Também gostaria de saber se não pode colocar um fígado ali.
- Não, claro que não! Nunca ouvi tamanho disparate.
- Mas se eu tiver mais um fígado, logicamente vou poder beber mais, e com menos um coração, logicamente eu vou sofrer menos. É uma perfeita equação.
- Não, não é. Meu deus, o mundo está perdido, esses jovens de hoje em dia. Por favor, retire-se. Eu tenho clientes de verdade pra atender, caso sinta algo de verdade, volte aqui.

O que o médico não sabia é que as dores do amor deixam cicatrizes profundas, e que aquela foi a última tentativa da jovem de permanecer viva.