segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Mas Nem Toda História É Nossa Obrigação

Várias pontas soltas. Parar pra pensar nas coisas inacabadas, no "e se...". Tantas coisas que ficaram pelo meio do caminho, atordoadas, sem ar.

Foco no casal, discutindo. Ela pede perdão. Pede pra voltar. Ele recusa, e a deixa chorando, ali, parada, sofrendo. Ela errou. Ele estava certo. A partir daí, as coisas nunca mais foram as mesmas. Desfoque.

Foco na menina, chorando. Devendo explicações. Pra ela e pro mundo. Por que, Deus, por que teve que fazer aquilo? Por que tinha que ser sempre tão obtusa? E causava sua própria desgraça, se enche de dor e se esconde debaixo das cobertas. Desfoque.

Foco no novo casal, que a irritava. Por que não ter o que queria tinha que ser tão doloroso? Desfoque.

Foco na escola, tão borrada. Tão distante da lousa, da aula incrivelmente soporífera de química, e da vida. Estava tudo indo embora tão depressa. Desfoque.

Foco no copo de vodka, na garrafa de cerveja, na menina vomitando, em tudo indo bem e indo mal. Foco na praia, no homem seminu que lá estava deitado. O que ela ia fazer? Desfoque.

Foco na viagem, viagem mais dolorosa da sua vida. No caixão, boiando na sua memória. Lágrimas. Desfoque.

Foco na boca grande, quando se declarou, sem pensar duas vezes. E deveria ter pensado, Deus, como deveria ter pensado. Desfoque.

Foco nas coisas ruins e boas da vida. Memórias e saudades, corroídas pelo tempo e pelo cansaço. Desfoque.

Foco nela, sozinha, pulando e caindo em direção ao desconhecido, aquele que a lhe bendizia e abençoava. Abraçava o desconhecido, como abraçava a si mesma. Tchau. Desfoque final.