terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Sertão D'alma (finalmente) Vira Mar

Caminhando lentamente para a praia com cabeça inquieta. O sol surgia nela, com um calor ameno que esquentava as bochechas. A garganta doía dos vários maços de cigarro fumados durante a noite sem fim, mas ela prosseguia baforando a fumaça fedorenta de um cigarro vagabundo.
Chegaram no mar-encontro-do-rio. Vestida, testou a água rasa. As ondas pareciam um desenho impressionista impresso num folhetim que ela tinha certeza que já tinha visto. Foi entrando mais fundo. Água até o joelho, voltou para areia.
Tirou o short, deixou a canga e o celular juntos e voltou pro mar. O frio da água não mais fazia diferença, o vento meio gelado cheio de areia ressoava no ouvido dela, fazendo com que fosse impossível de se escutar a música da caixinha de som que seus amigos trouxeram. Meio na água, meio no ar, parou. Tirou os óculos escuros e apoiou no topo da cabeça, e com esse gesto, como quem não quer nada, seu corpo se preencheu de sofrimento. Lágrimas grossas rolaram e soluços escaparam de si.
Sem perceber, estava se dissolvendo em mar.
Seu choro era salgado e era onda.
Sua onda era choro e seu choro era onda de mar.
O mar levava tristeza. O mar levava-a, levitava, misturava, sentia mar.
Era, por fim, água completa.
Era água gelada infinda.
Atravessou o mar-rio-mar em direção ao desconhecido. Caminhou-se na areia fofa com suas recém adquiridas pernas-água, pingando pingos-rastros de si.
Encontrou o mar revolto, quente, pulsante.
Desafiou-se a adentrar. Largou as argolas pesadas e o óculos na areia.
Voltou ao mar. O mar era ela e dentro dela. As ondas batiam e levavam o resto dela: transmutou-se totalmente, Se sentia parte de uma ilustração de Brett Helquist num livro de Lemony Snicket, mas sem as desventuras.
Aquele momento não tinha nada de mal, só de mar.
Ondas quentes de mar e sangue pulsavam nas suas veias e entranhas estranhas e bagunçadas. O mar lambia a terra que era ela.
O primeiro banho de mar levou-a. O primeiro e último e ao mesmo tempo primeiro. Conseguia ouvir apenas vento e iemanjá entoando canções desconhecidas chamando para mais um banho.
Nunca mais deixaria de ser mar.
Uma felicidade intensa se misturava com água e com terra e por um instante nada era errado nada era ruim tudo era mar infindo profundo desconhecido.
Estava pronta para deixar a todos e rumar no mar para o fundo de si.
Ao voltar, já não era mais ela mesma. Era mar e o mar era uma confusão deliciosa dela mesma.


sexta-feira, 25 de novembro de 2016

filme francês de hollywood

minha vida passou de um marasmo imbecil overachiever de filme hollywoodiano pra um filme francês mal divulgado. enquanto eu ouço piaf e devaneio sobre os poemas, belos, que a menina que sofro de paixonite aguda me enviou, penso no futuro.
penso em uma tarde ensolarada na qual eu estou de folga.
penso em um cigarro aceso e dois corpos nus, deitados na cama, sob a sombra e sob a luz do sol.
uma se aproxima por cima da outra, provocando encontro sutil de corpos. alcança a carteira de cigarro na mesa de cabeceira. pega um e o acende. a fumaça parece poesia.
ambos os corpos permanecem em silêncio. a boca apenas abre para a introdução do cigarro e para expelir a fumaça provocada por ele.
uma onda de nostalgia invade uma das duas. dá um riso de canto de boca.
o que foi?
nada.
acendem um beck pré bolado.
sabe o que eu gosto de fazer quando estou chapada?
recitar poesia.
ambas riem.
e recitou poesia. ocasionalmente, me olhando no olhos, só desviando para furtivamente olhar para a parede branca.
eu fumava e encarava, encantada. não conseguia desviar olhar. não conseguia pensar em nada além da cena que estava se desenrolando.
a fumaça espessa do cigarro se dissolvia e mesclava com a fumaça da maconha.
o quarto se tornara uma sauna. o ventilador fazia com que a fumaça rodasse no quarto fechado.
em breve, tenho que me arrumar para o trabalho.
mas o breve é só amanhã.
o hoje é uma cena absurda, esfumaçada e que parece sonho.
sonho dentro de sonho, e ainda nem sei se acordei.
sonho de poema, de recife, de paixão.
ela prossegue recitando o poema, cada vez mais baixo e mais perto da minha orelha.
levanto, nua e sigo até a cozinha a procura de água.
quando trago a água para o quarto, abro a porta, deparo-me com o corpo nu e sincero da mulher que deixei a minutos atrás.
não pode ser melhor que isso.
e foda-se o trabalho proleta que eu vivo todos os dias. foda-se a rotina esmagadora.
não fica melhor que isso.

terça-feira, 26 de julho de 2016

Chuva

A imagem clichê da boemia juvenil de uma semi mulher sentada na frente do laptop, com um cigarro na mão, uma blusa larga digitando asneiras num microblog online. Queria ser josé saramago. Compartia com ele o coração de carne que sangrava todo dia, o vício no cigarro e o desgosto por parágrafos e letras maiúsculas.
Que difícil que é digitar segurando um cigarro. Apagou o que segurava pra melhor vomitar palavras sem nexo e sem conexão, de maneira furiosa, no teclado à sua frente.
Sem nexo, furiosa e sem conexão, na verdade, eram palavras chave do poço de sentimentos adversos e cruéis que assolavam sua alma, meio mazelada, pendendo pra a reclusão. Sempre disse a si mesma que seu sofrimento era belo quando colocado em palavras, e esse texto era uma desesperada tentativa de ver beleza na dor. Não aguentava mais encher o feed de textos sobre si, por que tinha a leve (e correta) impressão que todos cansaram de lhe dar ibope por coisas vazias, mas cheias de coisas que ela tirava do profundo do âmago.
O que enche a vida de significância pra você?
O que te mantém funcionando, são e acordado? (seja lá o que todas essas palavras queiram dizer)
Acendeu outro cigarro, apesar da dificuldade que isso imprimia no ato de datilografar. Era um pequeno ato de morte pelo cotidiano, de morte pela boca e pela rotina.
Fumava tão rápido que a fumaça preenchia seu cérebro de tontura, aumentada pela falta de comida no corpo desde ontem.
'um fracasso de ser humano', pensava de si.
Cantarolou a música que falava dela, tão dela e tanto da dor que a preenchia do começo ao fim.
Dor que não sabia espremer em palavras, comprimir em si, que queria gritar, mas não sabia gritar.
Era quase incapaz de se manter fiel às suas decisões. Desde que decidiu parar de fumar, apertou um botão de auto destruição dentro de si.
As palavras voavam de dentro dela com uma velocidade incontrolável, tão incontrolável que se perguntava se faziam algum sentido pra alguém além dela.
Não estava escorrendo de si. Não suava, não chorava, não vomitava nada além dela mesma, de sentimentos abjetos e sem sentido, tal qual sua existência pequena num mundo vasto.
Caiu cinza de cigarro no computador.
Sentia que as coisas todas da vida estavam escoando de maneira bizarra pelos seus dedos e fugindo do seu controle a cada segundo que passava.
Tinha pouca pretensão de ser poeta, derrubou esse sonho em algum bueiro enquanto se preparava pra enfrentar o desconhecido da vida adulta, como derrubou tantos outros.
Desistência e fraqueza corriam por suas veias. Não queria terminar o curso superior. Não queria mais ser palhaça, ser drag, ser gente, ser algo, queria sentar numa pedra na esquina do mundo, fumar um maço de cigarros inteiro, cair e nunca mais voltar.
Existir pesa.
Seu peso não era especial. Sua dor não era especial pra o cosmos, pras energias superiores, só se mesclava ao infinito como todas as outras dores.
Preferia quando era dormente ao sentir, apesar de saber do quão edificante e magnânimo isso era.
Tudo se misturava, saía em lufadas de fumaça quente do cigarro, e voltava pra dentro dela em formato de doença.
Por que amar a ela mesma era tão difícil? Por que amá-la era tão complexo e cheio de poréns?
Encarava seu eu vestido, de carne, de verdade no espelho. Como amar uma criatura tão bizarra? Tão pretensiosa, sem sobrancelhas, e terrivelmente humana.
Queria ser sobre-humana. Ser de outra forma, ser outra, em outro plano, em outra vida, em outro cosmos.
Como nada conseguia terminar, não terminava a vida.
Começou a se conhecer, mas foi tão fundo em si, que se perdeu.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

De Se Sentir Só, Pequena E Cansada

You don't have to act like you're alone

Solidão era um peso. Sentir é um peso. 
E se sentia só, dois pesos enormes que só faziam crescer e encurvar-lhe a coluna, cada dia mais. Sentia tédio o ojeriza de rotina, mas dormia mal a noite, pensava no fracasso e almoçava correndo pra ir ao trabalho.
Levantava, religiosamente, todos os dias. Comia a mesma comida por preguiça de fazer algo novo. Saía quase rastejando pra faculdade. Voltava e se enfiava num banho gelado. Do banho gelado, arrastava o corpo ainda úmido pra cima do lençol da cama. Assistia alguma porcaria no netflix até adormecer. Nos tempos livres, reclamava e existia.
Como se levanta a modorra da vida cotidiana? Como se sai do estupor da existência? Como se vive experiências novas quando se está sempre presa na mesma vida, que corre e perpassa os dedos semiabertos, escorre de si e desce pelo ralo? 
Aí no final de semana, bebia umas doses de qualquer coisa pra apaziguar a alma confusa, cheirava uns tecos de felicidade instantânea, e ia dormir tranquila depois que chegava, suada, cansada, com a cabeça vazia, na sua cama. 
Nesse turbilhão de coisas, tudo ia acontecendo, fugindo do alcance, correndo com o tempo, matando, aos poucos, tudo que havia de inovador, original e interessante no ato de viver.
O ato de viver, essa coisa incessante, cansativa, e sem propósito fazia seu coração ficar pequeno. Pequeno por que nem ela cabia nele, e passava tanto tempo pensando em como passar pela vida sem ser fracasso e derrota, apesar de ter a sensação de que isso estava estampado num outdoor iluminado na sua testa.
Estava naqueles dias que não se sentia especial e nos quais se perguntava o que havia de errado com os receptores de serotonina do seu cérebro.
Esses dias eram mais frequentes do que ela gostaria. Esses dias conseguiam fazer com que ela se sentisse pequena, quase um grãozinho de areia. E nesses dias ela não queria ver nada nem ninguém que a tirasse desse humor sombrio. Gostava de se fazer perguntas impossíveis de se responder e de se afundar no fracasso de ser humano que ela se sentia. Pensava que se estivesse ébria, as coisas poderiam ser melhores, mas se mantinha sóbria, sentindo cada farpinha da sua rejeição por si mesma perfurar a pele, a derme dormente que cobria seu corpo com existência sofrida. Uma dor tão sem motivo, mas tão intensa, tão real. Mergulhava na dor, e algum dia voltava, mas não era mais ela. O medo de não ser ela mesma, de viver meia vida, de ser esquecida, de não ser amada, de ser só.

De repente, era ela sozinha rolando as pessoas pra esquerda no tinder, sentada, sozinha, com 35 anos e esperando as coisas acontecerem.
Só, sozinha, pequena, e tão cansada...

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

It All Feels Right

Cores. Cores piscavam, incessantemente, nos seus olhos fechados. Abriu-os, com a certeza de que isso faria com que as cores a deixassem em paz. Só se intensificaram. Sabia que não podia fugir daquela explosão de cor, amor e sentimento. Sentir era tão precário, tão primitivo, tão doloroso, não queria sentir, não queria abrir, queria trancar-se em si, encarcerar a possibilidade de um dia chegar a cogitar essa cilada que era o sentir.
Batiam na porta, com força. Quase arrombando a barreira precária que ela construíra entre seu coração brutalizado e a vida lá fora.
Mas a vida chama. E como chama! Grita no ouvido, a plenos pulmões.
Levanta dessa cama!
Veste uma roupa!
Saia de casa!
Muda tua vida, e depressa, depressa, que nada espera pra você ser feliz, e só quem constrói isso é você.
Eu sou feliz?
Eu sou feliz.
Eu sou feliz!
Repetiu a frase, com a palavra escorrendo da boca, timidamente, até que pudesse voar, encantada com sua própria existência, com seu próprio e inesperado esplendor, com o impulso da veracidade do ser.

domingo, 8 de novembro de 2015

Desanuviar

Peso no peito de fim. Peso no peito de medo. Porém feliz. Feliz. Incrivelmente, pela primeira vez no que parecia uma eternidade, tudo parecida no lugar, correto, fazendo sentido de um jeito simples e bizarramente real. Levemente sedada das coisas da vida, num universo paralelo particular-compartilhado no qual o esplendor do viver existia. Existia vida no viver. Realidade no real, nesse mundo dos bonecos de carne ambulantes. Por que findos os momentos? Por que finita a vida?
Se no peso dos ombros levava os anos, quem partilhava o peso? Caminhando na estrada com ela, aplacando a dor dos ombros cansados e da cabeça, pesada como seu coração.
Quando finita, me sinto infinita, desanuviada.
Sensação incrível de se ouvir saindo da boca do outro. Sensação de delícia inesperada, de espanto positvo. Um semi desconhecido sendo um pouco de você. Sentindo união, coisas inexplicáveis que não se coloca em palavras. Medo de não reciprocidades, porém tudo estava tão incrível que apaziguava sua alma, tranquilizava o coração. E seguia em frente, enfrente. Só, porém acompanhada.

De estrelas, de galáxias, de coisas infinitas como ela, e de bonecos de carne, seguindo no dito certo-errado. Sós. Não sozinhos. Na finitude do ser, do crer, do existir.

sábado, 8 de agosto de 2015

De Ausência e Saudade

I must be strong, to carry on, 'cause I know there'll be no more tears in heaven

Há muito não andava por lá. Dessa vez, diferente das outras vezes, estava acompanhada por um grupo de várias pessoas. Cada passo dado, mecânico, era dado em direção a uma lembrança, muitas as quais não recordava de ter guardado em recônditos escuros da memória. Quando criança caiu de bicicleta nos viveiros, se meteu na lama pra caçar bichinhos, tomou banho no açude perto dali. Quando adolescente, aprendeu a dirigir ali de forma mediana, nunca dando continuidade aos ensinamentos automobilísticos, apesar da frequente insistência do pai. Aquilo era seu pai. Aquela água toda, a lama, o mato. As vezes que a segurou pra não cair da bicicleta, que a levou pra ver a estação de bombeamento da fazenda, que, quando chovia, voltava pra casa, enlameado, e ambos tomavam banho de mangueira no quintal.
Agora, seu pai estava em um pote, segurado tremulamente pela sua mãe. As pessoas andavam juntas em direção ao primeiro viveiro da fazenda. Este desembocava, eventualmente, no oceano, para que seu pai se fundisse ao trabalho de sua vida, para que fosse livre, como sempre foi, habitando, junto de iemanjá, as águas do mar.
A cerimônia não teve palavras. Além do grupo de pessoas silenciosas, a cena tinha algumas vacas e caranguejos de espectadores, mudos, em luto. Enquanto a maré levava seu pai embora, só conseguia pensar que ele teria odiado o fato dela ter deixado o saco plástico que separavam suas cinzas da urna cair na água. Conseguia ouvir sua voz ralhando com ambas pelo descuido. Sentia, no peito apertado, na garganta fechada, na mão suada, que seu pai estava ali, acenando, reprovando, gritando e amando, passando a mão nos seus cabelos e dando bom dia. Conseguia sentir, no vento que batia no rosto, na lama sob seus pés, no mato que roçava sua perna, a presença do primeiro homem que a amou.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Status: Sendo Seguida Por Um Monte de Corvos

Estava sentada, exatamente as 2:14 da manhã, na frente do seu laptop, esperando um filme que, de forma geral, parecia pouco promissor no quesito crescimento intelectual. Estava se sentindo absolutamente impotente. Aquela mina que chamou pra tomar café ainda não respondera o convite, embora o tivesse feito a um tempo considerável. O filme se recusava a carregar de maneira que pudesse mergulhar no torpor de uma comédia que não requeria que ela se concentrasse e nem que colocasse muito esforço mental nela. O twitter não tinha atualizações, assim como o instagram, o facebook, o whatsapp, a vida. Tudo parecia estático, morto, vivo-morto. Se deu conta que há tempos não escrevia mais do que 140 caracteres. Nada de excepcional e digno de nota aconteceu nas últimas semanas. Alguns conhecidos embarcaram em relacionamentos, outros tantos viajaram, alguns se mudaram... Mas ela permanecia. Sentada na frente do computador, esperando que a máquina, de alguma maneira, cuspisse respostas sobre o estado de espírito de bosta no qual se encontrava. O nada era esmagador.
02:23. O tempo passava, e não se arrastando. Dali a não muito tempo, o sol nasceria, e tudo correria da forma como sempre correu. Não tinha certeza de querer conduzir uma vida de metades, como havia conduzido até ali. Meio estudante, meio militante, meio real. Três metades, e nenhuma se encaixa.
Precisava comprar o spotify premium. Ouvir The Smiths seguido de uma propaganda da Dell é uma espécie de pecado.
02:28. Tinha esquecido de como Wilco a fazia chorar.
02:31. O filme carregou, e por algum motivo não conseguia dar play. Ficava encarando as janelas abertas no google chrome, pensando que estava escrevendo um texto bem ruim.
02:31. Decidiu acabar o texto e lidar com o vazio da alma com anestesia da indústria do entretenimento.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Entre Nucas e Nuncas

Caminhava pela rua de óculos de sol. Parou por alguns instantes em uma banca de jornal, comprou um exemplar de uma revista que pudesse folhear no ônibus, e um mate. Espera o ônibus impacientemente, como se algo a estivesse incomodando profundamente. Entra no 102, e um calafrio percorre sua espinha. Lá está, como todos os dias, aquela moça. Sempre está lá. Com o nariz sardento enfiado em um livro, calça jeans, camisa de botão e cabelo curto. Sentou-se atrás da menina, que não sabia o nome. Nunca perguntou, e não achava que deveria perguntar. Só ficou ali, admirando a nuca branca, curto espaçamento entre a gola da blusa e o começo do cabelo. Via cada virar de páginas. Observava o vaivém do braço da moça. Dali a duas paradas, ela desceria. A moça sem nome. O ciclo só recomeçaria na manhã do outro dia, quando ela compraria uma revista, um mate e pegaria de novo o 102. Parecia torturante esperar tudo isso.
E assim começou, de novo. Comprou o mate, a revista, como sempre fazia, sempre igual. Ela era sempre igual. Esperou o 102. Entrou, e esperando a visão de sempre, levantou os olhos ao passar pela catraca. Mas ela não estava lá, ocupando seu lugar de praxe. O ônibus estava vazio, a não ser por ela e mais uns gatos pingados engravatados indo para o trabalho. Sentou-se no seu lugar de hábito. Muito estranho. A moça das sardas pegava aquele ônibus religiosamente, todos os dias.
Mas no dia seguinte, também não pegou. E nem no dia depois daquele.
Na verdade, nunca mais a encontrou no 102. Nem em qualquer ônibus que fosse.
Depois de duas semanas, já estava perdendo a esperança de voltar a encontrá-la, onde quer que seja.
Passou na banca, comprou a revista, o mate e subiu no 102. Desceu na parada do lado do prédio que trabalhava, subiu de elevador, e passou o dia inteiro lá. Na saída, quebrando a rotina, resolveu passar em uma livraria, por que fazia tempo que não lia um bom livro.
Lá, na fila do caixa, encontrou uma nuca familiar. Continuou sem perguntar o nome da nuca, e nunca chegou de fato a saber muito sobre ela. Só que não pegava mais o 102, frequentava aquela livraria, tomava um café sem açúcar na saída, e depois ia rumo ao desconhecido.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Tua Pele...

... é crua

Encontrei-a no banheiro. Beijou-me. Errado, tão errado. Eu estava cedendo, quase cedendo. Ela me acabou. Me destruiu por dentro, carcomeu a minha pele nua, como o verme que é, parasita. Desabotoou a minha blusa.
- Transa comigo. - Sim, mil vezes sim. Seu desejo é uma ordem. Toquei-a e a saudade me inundou. Tudo isso parecia muito errado. Quando estávamos nos quase finalmentes, num chão de banheiro frio, ela pecou.
- Viajei e só pensei em ti.
- Viajou? Com quem?
E a culpa inundou seus olhos. Rapidamente recolhi minha blusa e meu orgulho. Ela pensa que pode me fazer de boba? Que pode brincar comigo e voltar pros braços de outra? Não. Não. Não.
Mirou-me nos olhos, com aqueles olhos de gato, carregados de sentimento, e perguntou-me:
- Foi bom, isso que você andou fazendo?
- Foi ótimo. Melhor ainda sem você.
Encarei-a friamente, e vi as lágrimas rolarem pelo seu rosto, silenciosas. Bastava.
Num ato de cruel frialdade, a ignorei completamente pelo resto dos meus dias. E assim, só assim, pude ser feliz.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Se Acaso Me Quiseres

(...) E eu te farei as vontades, direi meias verdades, sempre a meia luz.

Estava só em casa. Só, por que sozinha ela. Bebericava uma cerveja, no limiar entre o quente e o intragável. Algo, inclusive, que poderia ser dito dela. Entre o quente e o intragável. Quente de emoções a flor da pele, quente de paixão, quase ardente dentro de seu corpo. Pulsante. Pulsava, também, seu coração. Coração de amor, de calor, de fervor.
"Um dia produtivo.", pensava ela.
Porém estava incomodada. Inquieta, calada, perturbada. Por dentro, estava sendo corroída pelas perguntas que se faz quando se gosta demasiado de alguém.
Na verdade, a principal pergunta que lhe inquietava era de saber por que gostava demasiado dessa pessoa. Tão sem motivo, tão de graça, tão sem saber se há correspondência. Sem eira nem beira.
Talvez fosse assim que a vida se manifesta. Cheia de coisas que não se sabe explicar, mas ela queria explicar. Queria saber traduzir o que pensava e sentia, e queria não achar ridículo sentir isso.
Não deixo em paz os passarinhos, não deixo em paz a ti. Não deixo em paz a mim, por que não consigo estar em paz.
Estar em paz significaria saber. Saber se sim, se não, se talvez. Se a tal outra mulher lhe significa algo, ou se é só passatempo. Talvez ela fosse perda de tempo. Talvez ela não fosse nada, não representasse nada, só um grãozinho de areia na vida. Talvez. Talvez era odioso.
Queria gritar do alto dos telhados, não aguentava mais esperar.
Explodiu, em milhões de folhetins que emanavam amor.
Amor de coração aflito, amor de não correspondência. Amor de fim. Amor de amar, amar tanto, que em seu corpo, morreu de amar mais do que pôde.

sábado, 28 de março de 2015

Acha Que A Sua Indiferença Vai Acabar Comigo?

Eu sobrevivo, eu sobrevivo!

Polônia. Tempos difíceis, todas as pessoas consideradas indesejadas estavam indo embora para terras quentes, infestadas com o odor da novidade, do fervor da fuga. A saída sorrateira do país desencontrava amores, despistava amantes. Numa casa, não muito longe do centro de Varsóvia, uma mulher suspirava. Lia e relia a única carta do amado, com o perfume quase se esvaindo do papel, letras borradas das lágrimas que ambos derramaram naquele frágil pedaço de papel, cheio de promessas e saudades.

Rosa, tão bela Rosa. Tive que partir, e você sabe minhas motivações. Deixo-lhe com um aperto no peito, beijos em tuas mãos e com dissabores na vida. Prometo-lhe notícias, em breve, da carta que precisas para deixar o país, e vir, finalmente, me encontrar. Ansiosamente, aguardo-te e sonho contigo todas as noites. Porém, a vida nos trópicos está me fazendo bem. Quase não se vê sinal das minhas tosses. Estou empregado, trabalhando na fábrica de alumínio. Moro com mais dois homens e um apartamento na periferia do Rio de Janeiro. Não é lugar para moças como você, e, francamente, para nenhum ser humano. Espero que quando estiver tudo certo para sua vinda, eu possa nos dar mais conforto em uma casa própria.
Cheio de amor e saudades,
Sempre seu
S.


Quase seis meses fazia que tinha recebido essa carta. Depois disso, não mais teve sinal da existência dele. Durante a noite, imaginava torturas terríveis, prisão perpétua, morte. Temia tanto por ele que seu coração doía vinte e quatro horas por dia. Há tempos havia resolvido resolver os seus problemas de imigração sozinha, e estava decidida: mês que vem, partiria para o Brasil. Conseguiu a carta, os documentos, tudo. E, apesar de não ter nenhuma certeza a esperando no Brasil, iria. Se jogaria no mundo. A cada dia, estava mais difícil ficar naquele país gélido e problemático. Ansiava, apesar de não admitir, encontrar-se com Sulick. Por mais que ele não mandasse nem sinal da sua existência, seu âmago tinha necessidade de vê-lo, tocá-lo, amá-lo.
O dia chegou. Agarrou seus parcos pertences, jogados em uma mala média, juntou os documentos e embarcou no barco pesqueiro (o que tinha dinheiro para pagar), rumo ao Brasil. Após mais algumas semanas de viagem, pisou em solo brasileiro. Sozinha, quase sem dinheiro, e com o suposto endereço de Sulick nas mãos, se jogou nas ruas do Rio. Caminhou por horas quase sem rumo, tentou trocar seus trocados por dinheiro brasileiro sem sucesso, e conseguiu carona para o distrito periférico industrial. Apesar dos pesares, seu coração batia freneticamente, empanturrado com a perspectiva de encontrar o cheiro conhecido do colo de seu amor. Ao chegar, só o que invadiu suas narinas foi o odor de esgoto e fumaça, que a deixou tonta. Perguntou por Sulick para várias pessoas, até, finalmente, encontrar alguém que o conhecia.
- Ele costumava morar ali, com mais dois rapazes. Se mudou faz um mês, pra uma casa mais perto da cidade. Diz-se que casou com moça rica. -
Casou? Como assim, casou? Com alguém que não fosse ela? Seu coração, antes abarrotado de esperança, quebrou e espremeu de si todo e qualquer sentimento bom. O moço que deu essa informação, deu também o tal endereço e ofereceu para levá-la. Ela aceitou, e foram. Várias imagens mentais perpassaram a cabeça dela. Uma moça de véu e grinalda, um moço de terno e gravata, casando. O moço era ele, mas a moça não era ela. Sem que percebesse, chegaram a uma casa modesta, não tão longe dali.
- É aqui. Pode descer. -
- Obrigada! -
Assim que desceu do carro, portando sua mala semi vazia e um semblante desconsolado, o veículo se distanciou e se viu parada na soleira da porta de um antes conhecido. Passou meia hora encarando a maçaneta, a porta, os degraus... E bateu. Poucos segundos depois, uma mulher sorridente abriu a porta e a encarou, levemente confusa. Óbvio que estava confusa. Estava olhando para uma moça quase cadavérica, com o cabelo escondido por um lenço, uma mala nas mãos, roupas maiores que seu tamanho e quentes demais para o clima da cidade que estavam, e com ar de tristeza.
- Pois não? -
- O Sulick se encontra? -
- Se encontra sim, quem deseja? -
- Rosa. -
- Gostaria de entrar? -
- Não, obrigada. Gostaria que ele viesse até aqui, se não for incomodar demais. Eu aguardo em pé. -
A moça desapareceu corredor adentro, visivelmente perturbada. Rosa não se via no espelho há muito, mas tentou ajeitar os cabelos, mesmo que cobertos pelo pano, e passaria um batom, se fosse possuidora de um. Tentou sorrir, mas sua boca só projetou um esgar cínico e cansado. Nos poucos instantes que passou plantada ali, pensou que, apesar de tudo, ainda queria sentir o corpo dele roçando no dela. Sentir a graça que era quando ele a abraçava. Ao aparecer na porta, ela não viu seu namorado. Viu um homem completamente mudado. Deixou a barba crescer, usava bermuda e parecia mais gordinho. Parecia feliz.
- Pois não? -
- Sulick? Sou eu! -
- Rosa?! -
- Sim. -
Os dois permaneceram em silêncios sepulcral, se encarando. Ambos mudaram muito. E se estranhavam.
- O que você está fazendo aqui? Como conseguiu sair da Polônia? -
- Vim procurar você. Senti tua falta -
- Bem, também senti a tua falta. Mas há de convir que é quase impossível se relacionar a distância. Foi aí que conheci Ana. O pai dela era meu vizinho, e nos demos muito bem. Aluguei essa casa com o dinheiro que juntei do trabalho da fábrica, e agora somos casados, como pode ver. -
Seus olhos se encheram de lágrimas. Tentou controlar a cólera e a dor que sentia emergindo da sua alma, mas foi inútil.
- Era isso que você estava fazendo quando eu estava juntando dinheiro pra conseguir vir pra cá? ERA ISSO, SEU ESCROTO? -
Não costumava falar palavrões, muito menos gritar. Ele se espantou.
- É dinheiro que você quer? -
- EU QUERO É QUE VOCÊ VOLTE PRA O QUINTO DOS INFERNOS, SEU FILHO DA PUTA! -
- Não sou obrigado a te escutar balbuciar impropérios na frente da minha casa. -
E bateu a porta na cara dela, que continuou gritando por alguns minutos. Desconsolada, sentou na soleira daquela porta. Não fazia a menor ideia de para onde ia, onde ia trabalhar, o que ia comer. Perto dali tinha uma pensão de moças, acabou descobrindo ao vagar pela região. Prometeu pagar assim que tivesse dinheiro, apesar de não saber onde obter algum. Deixou seu dinheiro não trocado como garantia. Algumas semanas depois, fatigada de uma rotina enfadonha e metódica, conseguiu pagar o quarto que estava dividindo com uma moça da vida. Sentia-se fraca, exaurida e quebrada. Trabalhava todos os dias por mais tempo do que gostaria, e depois se limitava a ler os mesmos livros que trouxera consigo da Polônia e a aprender a balbuciar português. Aos poucos, foi aprendendo. Não só a falar e escrever em um idioma completamente diferente, mas a viver a vida de um modo que não exigisse que ela se sentisse uma merda.
Indiferença nenhuma iria acabar com ela. Sobrevivente, era essa a palavra. As vezes, chegavam notícias da Polônia. Assim, descobriu que sua decisão de se mudar para longe fora acertada. Não estava nada boa a situação da sua terra pátria. Fazia um ano desde que havia se mudado, tinha sido promovida no trabalho, apesar de ainda ganhar muito mal. Ao menos, tinha um quarto privativo na pensão, e um colega a havia chamado pra sair. Era uma nova mulher. Ganhou alguns quilos, estava mais corada.
Mais dois anos se passaram, e estava casada com o dito cujo do encontro, a espera de um filho. Se mudara para a casa dele, e não podia estar mais feliz. Pensava, ainda, em Sulick. Seu marido também era polonês. Viviam bem, ele dirigia uma fábrica e tinha dinheiro de família. Quase não mais se lembrava das condições que chegou ao país, só de Sulick.
Criança nasceu. Uma linda menina. Joana.
Joana crescia a olhos vistos, e, aos 15 anos, veio com seu primeiro namorado para casa. Samuel, era seu nome. Também vinha da casa de uma boa família de judeus poloneses, e era colega de escola. Rosa o achava encantador, e tratou de convidar os pais do menino para um almoço em família. Marcou para dali uma semana, e Joana era só felicidade. Rosa, porém, guardava um segredo em seu coração: Sulick. Passou a semana se distraindo com os preparativos do almoço, que deixariam a filha feliz. Domingo chegou, e com ele, os pais de Samuel. Campainha toca.
- Eu abro! -
Joana grita, da sala. Sai correndo, cumprimenta os sogros, o namorado. A mãe sai da cozinha, com um sorriso no rosto, prestes a cumprimentar todos também. Engole em seco. Eis, que no corredor de sua casa, se encontrava seu maior terror.
- Olá, Rosa -
- Olá, Sulick. -
Se encararam longamente, e se afastaram. Cumprimentou Ana friamente, e teve o almoço mais insosso e horroroso da sua vida. Foi silencioso, rápido e traumatizante. Passou o almoço com uma cara amuada, e quando o marido perguntava se havia algo de errado, se limitava a murmurar que não. Quando foram embora, depois de uma sobremesa sublime (que para Rosa, não teve gosto de nada), ela se recolheu no quarto para confrontar suas emoções. Sua filha. Namorando. O filho. Da pessoa mais deplorável. Não estava conseguindo processar. Só esperava que fosse passageiro, por que não iria proibir nada, não ia negar amor para o único amor que ela tinha na vida, sua querida filha.
Não foi passageiro. Joana e Samuel se casaram. Rosa vive, até hoje, com um buraco no peito em todos os almoços de domingo. Tem netos, vários netos. Seu marido não suspeita, e ela se tornou profissional em fingir.

- Entendeu, minha filha? Essa é a história da minha vida. -
- Entendi, vó. -

Neta e vó guardaram o segredo dentro delas. Uma, com curiosidade, outra, com pesar.

domingo, 22 de março de 2015

Vamos Ser Carnaval



Bêbada, em uma festa. Avistou o ex, tomando uma cerveja no canto. Muita coisa havia mudado desde que o relacionamento se acabou, mas a principal delas foi a descoberta sexual da moça em questão. Estava infernalmente incomodada com a presença daquele corpo estranho ali. Não por ser seu ex(talvez um pouco por isso, sim), mas por que durante todo o namoro dos dois, ele se recusava a sair de casa por meses e ficava fazendo seja lá o que fosse naquele maldito computador. Gostava, inclusive, de frisar que sentia-se incomodado com os amigos dela, por não se sentir a vontade perto deles. Pois bem, lá estava o infeliz em uma festa com quase todos os amigos dela, bebendo, conversando e sendo sociável. Em um ano e nove meses de relacionamento, não fez isso a pedido dela nenhuma vez. Porém, não ia deixar-se irritar.
Estava determinada a abordá-lo e falar sobre algo que estava entalado na sua garganta: o fato de ela ser lésbica. "É, sabe todas aquelas vezes que eu não tive tesão? Que eu não quis mais transar, que eu preferi dormir a te chupar? Bem, acontece que isso tudo tem um motivo muito bom. Me sinto sexualmente atraída por mulheres. Mas só por mulheres."
Ela pensava nas maneiras mais sutis de se abrir. Afinal, ela mesma demorou pra perceber que o sexo estava mecânico, que a atração física era quase nula, e que o problema não era só que o amor estava arrefecido e o relacionamento desgastado: era sua sexualidade. Levou mais umas transas insignificantes com homens aleatórios, alguns considerados bons de cama, outros verdadeiros poços de incompetência aliadas. Além de atrações físicas incontroláveis e sexo com mulheres fantásticas para ela se tocar que homem não era a praia dela.
E lá estava, sem saber como chegou, parada na frente dele, segurando um copo de cerveja que ia cair a qualquer momento, apoiada na bancada da cozinha e encarando-o nos olhos.
- Então, precisava muito falar com você. - Estava se esforçando para não rir, por que não queria que parecesse que era puro deboche. Mas era debochada. E bêbada.
- Pode falar, querida -
- Então, nesses últimos tempos, reparei uma coisa nova em mim mesma. -
- O que? -
- Eu gosto de mulheres. Mas só de mulheres. Sou uma grande sapatão. - Fixou os olhos na expressão dele, esperando qualquer tipo de reação.
- Isso torna minha confissão bem mais fácil. Eu também gosto de homens. -
Fazia todo o sentido. Não deu certo por que não podia dar certo. Simples assim. Isso não só tirava o peso da culpa de um namoro frustrado e acabado com gosto de quero mais (digo, ela quereria mais se ele fosse mulher e ele quereria mais se ela fosse um homem), como a fazia se sentir muito melhor consigo mesma. Ele também era gay.
Com os olhos cheios de lágrimas, abraçaram-se. Ainda dividiam ternura, afeto e todas essas coisas que ficam depois que o fim se instala dentro da alma.


domingo, 15 de março de 2015

Shine

Luzes piscavam.
Pisca. Pisca. Pisca.
Seus sentidos piscavam com a intensidade de dois mil voltz.
Percorrendo seus corpos juvenis, cheios de vida e lotados de substâncias ilícitas.
Sabia que estava errada
Que estava sobrevivendo de luz, que vivia piscando.
Inconstante, cheia de vida.
Mas de coração partido, e na mão.
Batendo.

sábado, 14 de março de 2015

Sobre Amada, Amanda.

Uma vez, saí a noite, uns 4 anos atrás.
Conheci uma mina, interessante, inteligente, bonita.
Amada, Amanda.
Agora, quatro anos depois,
Continua sendo tudo isso,
Mas minha amiga, amante, amada.
Não é uma poesia, que não sei fazer
É só uma verdade, de saudade e felicidade
Por te conhecer, e você me gostar.
Parabéns.
Pela pessoa que você é, pelas coisas que você faz
Por ser.


Mas sério, você é incrível, miga. Queria fazer uma poesia, mas não sei fazer poesia. Sei escrever de maneira razoável, então acho que conta como homenagem, né? Feliz aniversário, feliz vida! Te desejo tudo de bom, hoje e sempre. Que nossa amizade viva por mais 4 anos, e que se recicle por infinitos múltiplos de quatro.

Mas Eu Nunca Sei Rodar

"E cada passo que eu ia dando nessa dança, ia perdendo a esperança..."

Encontrei-a no primeiro dia. "Que linda!", pensei comigo mesma.
No segundo dia, não a vi.
No terceiro dia, a noite, na praia, lá estava. De mãos dadas com outra mulher, que não eu.
Desencanei momentaneamente. Virei minha cabeça para outros lados, outras pessoas, e para a lata de cerveja que ocupava espaço na minha mão. Para a roda de samba que ocupava o centro da festa.
A avistei de novo, compenetrada em bater no bongô. Sorriu pra mim, e meu coração bateu mais forte.
Desceu pra praia. Desci também e sentei ao seu lado. Paraná. Ciências Sociais. Direito. Meu Deus, que mulher.
Definitivamente, que mulher.
Começamos a esculpir rostos na areia, o dela duas vezes melhor que o meu. Levantamos pra ir ao banheiro.
Lá, na beira da escada, nos beijamos.
Nos beijamos de novo depois do banheiro.
E de novo, e de novo.
Sete da manhã, hora de ir pra casa.

No dia seguinte, nos encontramos em frente ao prédio. Nos beijamos. Desejei boa sorte pra ela, e fui-me.

No último dia, nos encontramos no acampamento. Ela, dobrando suas roupas, eu saindo da plenária. Ajudei-a, e nos beijamos.
Parti para outras atividades, e antes que ela fosse, nos beijamos de novo.
Despedida gostosa, aos poucos, e com gosto de salgadinho.

Acabou-se, assim como começou. Pretendendo nada, esperando nada, mas de coração cheio.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Final De Ano, Sentimentalismo, E Outros Delírios

Por que, no meio de novembro, eu entrei na onda de fazer vídeos do facebook pras 3 pessoas mais especiais do meu ano:
Por que eu acho que a gente não agradece o suficiente. E não tô falando de agradecer entre quatro paredes, nem de agradecer baixinho pra ninguém ouvir. Tô falando de agradecer pra todo mundo ouvir, todo mundo ver. O fato de 2014 ter sido o ano mais incrível da minha vida, o meu primeiro ano de graduação, um ano de primeiras vezes, um ano que me reconciliei com D'us, que veio cheio de mudanças, dependeu, em muito, das várias pessoas lindas que continuaram me acompanhando, ou que se juntaram para fazer parte da minha trajetória.

Sendo assim, as agradeço, primariamente, por existirem. Obviamente, é o agradecimento mais importante.
Agradeço pelos socorros prestados quando minha casa alagou, quando precisei de colo, de amor, carinho, e atenção.
Obrigadas em particular, pra vocês se encontrarem nessa bagunça que é meu raciocínio lógico (ou falta dele).

Obrigada pra essa pessoa especial, que durante um bandeiraço de Dilma, me acolheu em casa, me alimentou (de feijão, vale salientar) e me deu um cantinho pra dormir depois da ressaca.
Obrigada por me reaproximar da minha espiritualidade, e, por consequência, de D'us. Ah, e pelas infinitas caronas para lugares totalmente distantes, pelos rolés aleatórios, e por ouvir minhas inseguranças. Basicamente, por ser essa pessoa quase totalmente diferente (e, de várias formas, tão parecido comigo) de mim, mas que me entende tão bem.

Obrigada pra segunda pessoa da minha lista, que entrou na minha vida de verdade esse ano, mas que eu já conhecia antes. Obrigada por ser especial, não me deixar me perder na euforia da universidade e deixar as coisas pra lá, obrigada por me ajudar com os trabalhos, aguentar minha irresponsabilidade frequente, por me fazer rir nas segundas de eterno mau humor, pelos segredos confidenciados, por me ouvir (mesmo quando eu tô sendo incrivelmente irritante, tipo quando falo sobre minhas desventuras amorosas ou sobre a SOI), e por estar lá em todos os momentos da vida, sempre, quase gêmea.

Para a terceira pessoa, obrigada por estar comigo a 16 anos, and counting. Por ouvir Katy Perry e músicas pop que você odeia só por que eu amo, por me consolar quando chorei copiosamente, e por me fazer rir logo em seguida. Por aguentar todas as minhas particularidades (e não são poucas), por me aceitar desarrumando sua cama, por tolerar minha gata, e por amar minha casa. Por ser quem você é, por que isso já é maravilhoso.

Pessoa número quatro: você é maravilhosa, e gostaria de agradecer por ter me deixado acampar na sua casa mais do que eu deveria ao longo do ano. Por ter me acolhido inúmeras vezes, e ter me ouvido reclamar do universo, sem nunca abrir a boca para reclamar das minhas lamúrias (que são eternas, confesso). Por ter me feito estourar a conta telefônica no sétimo ano te ouvindo falar de Selena Gomez, e por ter crescido comigo em vários aspectos maravilhosos.

Obrigada, pessoa número cinco, por ter sido extremamente companheira comigo quando preciso. Por me entender sem que eu diga uma palavra, e por mandar inúmeros snaps com fotos da Pipa.

Pras outras pessoas mais que maravilhosas que permeiam meu dia a dia: um obrigada. O mais sincero, do fundo do meu coração, obrigada.
Obrigada ao Taglit, a SOI, a turma de CS de 2014.1, a Kizomba, aos gogatos, ao juju, e as lulus. Aos quase desconhecidos que acabei de conhecer, e aos desconhecidos que ainda estão por vir, porém, sempre com amor.

Um abraço de ternura, saudade do que não ficou, e de amor pra 2015. Obrigada por que não acho que agradeço o suficiente pelo crescimento pessoal e pelas experiências, pela experiência de 2014. Que 2014 vá, como tem que ser, mas que não tire de mim todas as pessoas demasiado únicas que colocou na minha vida.
(esse rompante de amor acaba quando a nostalgia de final de ano acabar, não se apeguem muito ao meu eu fofo e carinhoso)

domingo, 16 de novembro de 2014

Em Busca Do Que É Belo E Vulgar

No carro, já iam se preparando para mais tarde. Conversavam, todos, e cantavam Katy Perry. Ao escurecer, já tinham chegado. Bem a tempo do próximo shot. Noite finda, com as estrelas como teto, e a lua como luminária. Todos riam em volta da churrasqueira, comendo e bebendo. Bebendo uma. Duas. Sete. Dez. Peraí, quantas foram mesmo? Um brinde. Ao tempo de pipa, ao reencontro!
No quarto, sentados, riam.
- Acho que deveríamos jogar alguma coisa!
- E eu acho que não temos condições mentais de jogar nada.
- Que tal poker?
- Que tal porco?
- Devíamos deixar tudo mais interessante...
- Como?
- Quem perder bebe e tira uma peça de roupa.
Assim, sem mais nem menos, começaram. O alter ego bêbado entrou no quarto, e semi desmaiou na cama atulhada de roupas, atrás da interlocutora lírica que vos fala.
Após tal entrada triunfal, começaram a despir os preconceitos, um a um. Despiram o ódio, a raiva, o pudor, e as roupas. Muniram-se de amor, confiança e reencontro. Foram perdendo as peças de roupa vagarosamente, e a garrafa foi esvaziando com uma velocidade impressionante.
- CARALHO, ME DEIXA ENTRAR NO QUARTO!!!!
- Não!
- Por que???
- Por que todos estão pelados.
- E NEM PRA CHAMAR?????
Apesar da insistência, ninguém entrou e ninguém saiu. Beberam e riram como se estivessem em 2012 e todos ainda estivessem se descobrindo adolescentes.
Pós jogo, beijos, loucos, cansaço. Fuga, inesperada pra ambos. Casual, até por que ninguém precisava de um namoro. Prazer bastava. Como um rato entrou no quarto?
Quando amanheceu, aos poucos, se recolheram nas camas compartilhadas, nos colchões no chão, e nas almofadas jogadas no canto do quarto. Fugiam da luz como quem foge do cão, mas lhes alcançou. Nove da manhã estavam de pé, porém dividiram-se: Alguns foram a praia, outros ficaram.
Na praia, curtiram a ressaca, o sol, a areia, a companhia e a conversa.
Na casa, agora em (quase) plenas faculdades mentais, jogavam poker, porém, tristemente, todos vestidos.
Durante a tarde, alguns voltaram para a triste realidade fora da bolha de felicidade e calma que eles construíram. Para a cidade, para o mundo.
Os que ficaram, foram acompanhados por cerveja, estrelas, violão e amor.
Tudo tinha mudado tanto, mas, inesperadamente, tudo era tão parecido.
Assim que tem que ser.

domingo, 14 de setembro de 2014

I'm Honest, Brutal

And afraid of you

Era metida a escritora. Sentia uma vontade extrema de externar seus sentimento batendo furiosamente nas teclas do computador, mas frequentemente seus dedos perdiam a inspiração. E temiam escrever algo que ninguém tivesse vontade alguma de ler. Medo. Era isso que ela tinha.
Queria se aventurar pelo mundo, mas quando fazia planos de sumir por dois dias que fossem, sentia medo de ser esquecida.
Gostaria de morar fora, conhecer outra cultura ou fazer um mergulho na sua própria, porém, sempre que se sentia impelida a dar o primeiro passo pra fora de casa, seu telefone tocava e alguém precisava da sua ajuda pra algo. Sentia medo de não ser querida.
Tinha vontade de escrever um livro, entretanto, quando começava a diagramar todos os seus contos favoritos, convicta de enviar para a editora dessa vez, via que seu blog teve 15 vizualizações nos últimos seis meses, e temia não ser comercial.
Lhe apeteceria um pedaço da torta que está no freezer, mas engordar a aterrorizava.
Pensava em desistir do seu curso, só que o pensamento de ter que fazer cursinho, encarar de novo o ENEM e perigar não passar a fazia voltar a ler o texto para a prova de sexta.
Entre tantos poréns, conheceu alguéns.
Esses alguéns também a assustavam.
Não sabia como reagir perto deles.
Um mundo de ausências, de vontades, de desejos reprimidos.
Ela se ia, se reprimia. Tinha medo do claro e do escuro, da verdade e da mentira, do sim e do não.
Quando tudo ficava claro, lhe doía tanto. O não saber é cheio de vantagens. Mas temia as desvantagens.
O risco, que antes era seu combustível, o apetite para a destruição dela mesma, para a desconstrução, ficou pra trás.
Queria se arriscar, mas se via presa dentro de um círculo vicioso.
Diziam que as drogas, sexo e roupas curtas eram o perigo. Não. O perigo, era, por exemplo, se entregar. Sexo, não necessariamente é entrega. Sexo é vontade, sexo é tesão. Amor é entrega, abnegação.
Tinha medo do amor.
Tinha medo da abnegação.
Fazia muito tempo desde que tinha se envolvido nesse jogo de paquera. De fingir se interessar por coisas que não interessam verdadeiramente pra você, mas sim pra a outra pessoa, só por que você se interessa pela pessoa em questão. De conhecer os pais, almoço de família, ignorar piadas babacas de familiares, sorrir quando queria socar, se maquiar pra sair de casa, paranóia pra emagrecer, sair, beber, e sempre se achar menos bonita do que você era 10 minutos atrás. Aquele jogo cansava.
Se lembrava muito bem que seu ex falou que teriam caras e mais caras aos seus pés. Coitado, ele a achava bonita e com poder de magnetismo sexual (ou seja lá que inferno for esse), porém, só ele. Magnetismo e beleza não eram bem o seu forte, e ele só sentia isso por que namoraram tempo o suficiente para que se apaixonasse por quem ela é, mesmo que ela não tivesse certeza de como alguém poderia fazê-lo. No fundo, era mais uma pessoa assustada, que saía da cama por que PRECISAVA sair da cama. Precisava dar continuidade nessa vida que ela tinha se metido. Afinal, era a vida dela. Se ela não segurasse as pontas, quem iria segurar?
Carta aberta na terceira pessoa sobre a escritora, dia 14 do nono mês do ano, aos 18 anos, sem saber que diabos eu quero da minha vida, querendo fugir pra longe, com medo de terminar o curso e de me envolver com alguém além de mim.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

There's Room For Two

Six feet under the stars

Encaixotada. Encapsulada. Trancada. Fechada.
Sentia como se dançasse um balé torto, ao som de uma música qualquer, em uma boate sem nome, no palco da vida. Sempre se sentia assim nas segundas feiras. Um lixo.
Porém, como era obrigada a se arrastar da cama para um dia razoavelmente ensolarado, e que não refletia em nada seu humor matinal, levantou-se. Trajava uma calcinha preta e uma blusa recortada para revelar apenas o necessário. A réstia de luz entrando pela janela semi aberta a perturbava, assim como o calor quase insuportável que fazia naquela manhã.
Lavou o rosto, e amaldiçoou o maldito período menstrual por deixá-la absolutamente intragável aos olhos. Deu um jeito de arrumar quase decentemente o rosto pipocado de espinhas e o cabelo lambido. Despejou comida na tigela do seu cachorro que balançava o rabo atrás dela, e voltou ao quarto para se vestir. Era um antro de coisas não identificadas e desejos reprimidos. Vestiu as roupas de qualquer jeito, colocou os óculos de sol grandes demais pra o seu rosto e saiu, rumo ao incessante e causticante sol daquela maldita cidade.
Apanhou um cigarro na bolsa enquanto andava vagarosamente para a faculdade. Fumou dois cigarros e tossiu o caminho inteiro, cantarolando uma música qualquer que estava presa na sua cabeça desde o final de semana.
O final de semana. Tinha vagas lembranças do que fez, de quem fez. Só sabia que tinha sido mais um na lista da infinidade de finais de semana que ainda ia ter na vida. Todos pareciam essencialmente os mesmos, sempre fazia as mesmas coisas, com as mesmas pessoas, e sempre acordava no outro dia com uma vaga noção do que a cercava e do que havia feito.
O celular vibrava freneticamente na bolsa.
Ela, por outro lado, não vibrava por dentro.
Chegou na sala de aula, fedendo a cigarro. Os outros ao seu redor pareciam imersos no estado catatônico habitual.
Merda, quem é aquele acenando pra ela do outro lado da sala?
Ah. O show. Aquele cara. Bonitinho, mas ordinário. Como podia ser tão burra? Justo com aquele cara bonitinho que estudava com ela. Por que não qualquer outro desconhecido?
Quando a aula acabou, ela levantou agradecendo aos deuses. E desejando sua cama.
Saiu com as amigas, e pediu pela sexta.
Sexta era dia de começar a ficar dormente. Dormente por um final de semana, dormente por uma vida mais interessante. Dormente da vida. Doente da vida. Suspirava. Algo incomodava seu coração, e ela sabia o que era. Desejou que fosse ataque cardíaco, mas, infelizmente, ela sabia o que era. Bem mais sério que arritmia e que seu coração parando de repente. Não importava que o coração parasse. Seria indolor, rápido e fácil. Como desligar um botão. Um botão que ela ansiava por desligar.
Apertada. Encaixada. Presa.
Quem é você no balé sinistro da vida?

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

I Cheated Myself

Like I knew I would.

Vagas lembranças assolavam o interior do seu quarto, enquanto ela dormia. Como se tudo estivesse bem. Como se uma outra mulher não tivesse sido machucada na noite anterior. Como se ela, com um organismo mecânico, movido a cervejas, coca e sexo, não estivesse alquebrada por dentro. Como se seu lento coração não estivesse prestes a parar, e só se movesse, lentamente, por que está preso na sua caixa torácica, esperando um ataque cardíaco. Esperando não mais ter que se dar ao trabalho de bater. Infelizmente, esse dia nunca chegava. Dormia, mas dormia profundamente. Só conseguia dormir depois de um quase coma, ou depois de uma dose, uma última dose, que saciava seus desejos mais obscuros. Uma fileira de caras passavam por sua vida, vazia. Vazia. Tão vazia, mas tão vazia, que fazia eco dentro de si e voltava.
Cada um, a marcava de uma maneira diferente. Alguns, deixavam marcas de cigarro na sua mesa de cabeceira.
Outros, deixavam marcas de copo na mesa da cozinha.
Ela, sempre alheia, deixava marcas de lâminas nas pernas.
Mas todos tinham algo em comum: Nunca voltavam. Nem ela mesma. Se imergia, e por lá ficava, contemplando a vaga existência a qual era fadada.
Fado. Era isso. Enfadada.
Bocejava. Isso significava que estava desperta. Até quando?

domingo, 5 de janeiro de 2014

O Esforço Pra Lembrar

é a vontade de esquecer…

- Oi, tudo bem?
- Tudo, tudo. E com você?
- Também…
- Escuta
- Posso ir aí?
- Era isso que eu ia pedir
- Tô te esperando
Desligaram o telefone de maneira seca. Mas dentro do seco, havia um oco. Um oco de saudade, uma pressa cheia de sentimentalismo. Abriu a porta, com receio. Receio de ter uma cara cansada, de ter um corpo fatigado. Não era. Um sorriso inundava sua face. Estava tudo bem. Abraçaram-se, enquanto ela pensava e cantarolava a letra de Tempo Perdido.
- Quase sufoquei sem você.
- Meu peito parecia sempre pesado.
- O meu também.
- Que saudade, meu amor.
- Você não imagina o quanto eu senti tua falta.
- Eu faço uma ideia.
Riram. E passaram o dia grudados, como um dia haviam de passar a vida.

~

- Vocês vão ter que aceitar.
- Não consigo acreditar que vocês estão juntos.
- Isso é problema meu, e não de vocês. Informei pra cargo de informação. Estamos juntos e vamos ficar juntos, quer vocês gostem ou não.
- Se é de sua escolha…
- Sim. De minha escolha. E só minha.

~

- Você o aceita como teu legítimo esposo?
- Sim, o aceito.
- E você, a aceita comò tua legítima esposa?
- Sim, a aceito.
- Pode beijar a noiva.

~

- Empurre, querida! Você consegue!
- Está quase lá!
- Uma menina!

~

- Não, filha, você não pode sair.
- Você é tão injusta!
- Isso é problema seu pra lidar. Agora já pra o teu quarto, mocinha
- ARGH

~

Imaginou pra eles uma vida inteira. Uma vida que poderia muito bem ser deles, dos dois, de mãos entrelaçadas na praia. Um futuro que eles podiam desenhar, e estavam desenhando. Dentro deles, algo crescia. E crescia pra o bem. Crescia e nutria felicidade. Felicidade boba e grande, que enche a cara de sorriso e amor. Amor, felicidade e afeto. Era esse o futuro. E parecia bom.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Mas Nem Toda História É Nossa Obrigação

Várias pontas soltas. Parar pra pensar nas coisas inacabadas, no "e se...". Tantas coisas que ficaram pelo meio do caminho, atordoadas, sem ar.

Foco no casal, discutindo. Ela pede perdão. Pede pra voltar. Ele recusa, e a deixa chorando, ali, parada, sofrendo. Ela errou. Ele estava certo. A partir daí, as coisas nunca mais foram as mesmas. Desfoque.

Foco na menina, chorando. Devendo explicações. Pra ela e pro mundo. Por que, Deus, por que teve que fazer aquilo? Por que tinha que ser sempre tão obtusa? E causava sua própria desgraça, se enche de dor e se esconde debaixo das cobertas. Desfoque.

Foco no novo casal, que a irritava. Por que não ter o que queria tinha que ser tão doloroso? Desfoque.

Foco na escola, tão borrada. Tão distante da lousa, da aula incrivelmente soporífera de química, e da vida. Estava tudo indo embora tão depressa. Desfoque.

Foco no copo de vodka, na garrafa de cerveja, na menina vomitando, em tudo indo bem e indo mal. Foco na praia, no homem seminu que lá estava deitado. O que ela ia fazer? Desfoque.

Foco na viagem, viagem mais dolorosa da sua vida. No caixão, boiando na sua memória. Lágrimas. Desfoque.

Foco na boca grande, quando se declarou, sem pensar duas vezes. E deveria ter pensado, Deus, como deveria ter pensado. Desfoque.

Foco nas coisas ruins e boas da vida. Memórias e saudades, corroídas pelo tempo e pelo cansaço. Desfoque.

Foco nela, sozinha, pulando e caindo em direção ao desconhecido, aquele que a lhe bendizia e abençoava. Abraçava o desconhecido, como abraçava a si mesma. Tchau. Desfoque final.

sábado, 9 de novembro de 2013

Baby, We Both Know

... That nights are made for saying things that you can't say tomorrow day

Acordou, com a face iluminada pelo sol do meio dia. Já acordou irritada. Magoada por que o sol tinha que nascer, aquele sol causticante, que lhe beijava os cabelos quando andava na rua, aquele sol irritante que lhe lambia os olhos quando corria na praça. A noite era tão mais bela. Carregava coisas que o sol não podia levar. Levava pra longe, bem longe, a vergonha da luz do dia. A noite era tão linda, pena que finda. Descobriu, posteriormente, que dormiu pouco menos de vinte minutos. A noite, dessa vez, lhe pareceu borrada. Borrada de mal entendidos. Por que, Deus, tinha que ter uma boca tão grande quando bêbada? Por que sempre bebia como se não houvesse amanhã? O problema, como sempre, é o que o amanhã sempre chega.
E quando chega, inunda a burra que não mais está bêbada, de sentimentos adversos e diversos sobre si mesma. Ah, como seria fácil se pudesse apenas passar uma borracha na cabeça dos outros também.
Desenhou pra si uma imagem mental tão trabalhada, tão irreal, que mergulhou e não percebeu. Se tivesse percebido, teria mergulhado mais fundo. A realidade é feia e machuca. O sonho, tão lindo e repleto de sono, ajuda a respirar aliviada.
E agora, José? Agora o não dito virou dito, mas, como sabia, não era o propriamente dito, mas sim o mal dito que lhe assolava.
Assombrava de modo tão intenso que lhe deixava sem ar. E as cavidades do seu pulmão murchavam.
O problema do mal dito, e do não dito são semelhantes. Ambos não deveriam ser ditos. Ambos deveriam manter-se dentro da boca, dentro das paredes, que de noite ouviam todo mundo chorar. Ambos, por fim, causavam mais problemas do que deveriam.
Precisava desmentir de um jeito indireto. Precisava preservar-se. Precisava estancar aquele sentimento frequente de solidão insistente e pertinente, que vaga dentro dela sem que ela possa evitar.

A partir de agora, dependia da sorte. Sorte de que a noite passou, e deixou nada mais do que um silêncio incômodo, um vazio na boca, e um copo de desilusão.

sábado, 10 de agosto de 2013

Descritivo, Pouco Argumentativo, Aumentativo, Porém, Com Amor

Branca, com grandes janelas de vidro e pé direito alto. Janelas que eram quase do tamanho de portas. Jardim frontal, com grandes margaridas e vasos enormes com rosas vermelhas. Havia um portão igualmente branco, que separava a casa de pé direito alto da rua. Porta adentro, um grande hall de entrada, com alguns quadros pintados por ele e emoldurados belamente, e um par de poltronas de chemise vermelho sangue. Ao entrar na sala, não havia televisão. Havia um armário, que pelos moradores da casa, era conhecido por ser um armário de jogos de tabuleiro. Desde banco imobiliário, até baralhos. Era onde a família se reunia pra jogar, todas as noites. Haviam duas poltronas e um sofá igualmente vermelhos, e uma mesinha de centro de madeira escura. No canto da sala, havia uma janela muito grande, e uma estante, lotada de livros. Uma das muitas que ocupavam os cômodos da casa. Na janela, um parapeito estofado para sentar e ler. A filha mais nova do casal sentava lá por horas e folheava livros lotados de ilustrações e histórias infantis fantásticas. O cômodo era largamente iluminado, por janelões que adornavam a sala. De adorno, vasinhos de plantas e mais quadros pintados pelo marido. Havia uma porta, que ligava a sala ao pequeno lavabo, para visitas. Ao lado da sala, uma sala de jantar. Com uma mesa com espaço para dez pessoas, feita de madeira escura. Dez cadeiras estofadas de marrom. Paredes cor de creme. Atrás da cabeceira, um aparador de pratos e um pequeno armário para louças especiais. Do lado do aparador, uma porta que levava até a cozinha. Na cozinha, uma pequena mesa para as refeições diárias. Uma mesa de vidro, com cinco cadeiras de acrílico preto. Os habituais fogão (alumínio), geladeira (alumínio), pia (bancada de mármore negro), filtro e armários (pretos, com puxadores metálicos). De volta pra sala, há um corredor, atrás do sofá de três lugares, com quatro outras portas. Duas do lado direito, uma do lado esquerdo e uma no final do corredor, porta dupla, de vidro, que levava até a varanda. Na primeira porta, ao abrir-se, dava direto pra um quarto de criança. Havia um baú grande de madeira crua, uma mesa de desenho feita da mesma madeira, uma cadeira baixa, para crianças. Acima da mesa, uma janela grande, que dava para o jardim. Do lado da mesa, encostada na parede, havia uma cama de solteiro, com um lençol da Bela (de A Bela e A Fera). Na outra parede, vários desenhos dela, todos emoldurados. Também havia uma estante, cheia de livros, e uma poltrona azul marinho (pra combinar com a parede e com os inúmeros lençóis temáticos de seus filmes favoritos). Havia, ainda, um armário branco, lotado de roupas e fantasias de criança. Também dispunha de um banheiro, com uma bancada que quase explodia de produtos com variadas formas, brinquedos, e desenhos no espelho. Era o quarto da caçula. Na outra porta, ao lado da primeira, havia uma cama de solteiro, uma estante, uma poltrona (porém preta), uma escrivaninha de mogno, com uma cadeira preta e um laptop preto. Havia uma porta que levava a um banheiro simples, lotado de cuecas largadas no chão. A parede era preta, e tinha uma janela que também dava pra o jardim. Na cama, alguns cadernos e livros jogados, provavelmente do estudo enfadonho que o filho mais velho estava fazendo para sua prova de biologia. O armário, tão preto quanto o resto. Estava naquela fase rebelde. Na terceira porta, que se opunha às duas outras, estava o quarto dos pais. Neste, tinha a única parede colorida da casa (verde clara, em homenagem à cor favorita do pai). No centro do quarto, uma cama de casal. Em um dos cantos, perto da janela, uma escrivaninha de madeira clara, com uma cadeira giratória de madeira estofada marrom clara. Tinha, como todos os outros quartos, uma estante cheia de livros, dos mais variados temas. Também tinha uma poltrona marrom, ao lado da estante. De cada lado da cama, havia uma pequena mesa de canto com luminárias. Acima da cama, um desenho feito pelo pai, quando era adolescente. Um desenho da mãe, proveniente do tempo em que ainda eram namorados. Perto da escrivaninha, uma porta, que levava ao closet. E do outro lado da escrivaninha, outra porta, que levava ao banheiro. Dos muitos atributos do banheiro, este possuía uma janela (daquele tipo que só dá pra ver o exterior, mas nunca o interior do banheiro), uma grande bancada de mármore lotados de produtos de beleza da esposa, uma banheira grande o suficiente para os amantes (pais também são amantes), e um espelho que tomava uma parede quase inteira, acima da bancada de mármore. No closet, nada demais, além de roupas e sapatos. Na última porta, que dava pra o jardim, dava pra ver uma piscina enorme e cercada (pra evitar acidentes), uma churrasqueira de tijolos, uma mesa pra os churrascos, e grama. No fundo do quintal, uma pequena horta cultivada pelo marido, que gostava de ter vegetais e temperos frescos pra cozinhar. Fora isso, havia um lindo golden retriever deitado perto da churrasqueira, de barriga pra cima. Além do Golden (de nome Lady), havia um Pug (Hipster) e um Labrador (recém adquirido, nome ainda por decidir), é, vivia-se a vida dos sonhos.
Vivia-se a vida que eles sonharam, desde sempre. Sonhos tornam-se realidade, eles sempre diziam. E tornam-se mesmo. Amo descrever pra você todas as nossas conquistas. Muitas saudades e pra sempre seu,
J.

sábado, 3 de agosto de 2013

Jantar Pra Um, Por Favor

Todas as luzes apagaram. O silêncio quase reinava, se não fosse pelas buzinas na rua e os sussurros em seu ouvido. Belos sussurros, aliás. Há muito não paravam apenas pra os dois, paravam o mundo, paravam a vida. Só existiam os dois. Então, como o planejado, Elvis começa a tocar. Remete-a a tempos simples, tempos que eles eram só amigos e ele cantando aquela música, despreocupadamente no carro, enquanto dava carona pra que ela fosse pra o cursinho, cativou-a. E como disse, sabiamente, o tal do Pequeno Príncipe, nos tornamos eternamente responsáveis por aquilo que cativamos. Não que ela esperasse que ele levasse a sério, até por que ele não fazia ideia de que a havia cativado.

Mas aquela música, naquele momento, pareceu-lhe perfeita. Tudo se enquadrou tão perfeitamente, os braços se encaixaram, e dançaram, lentamente. Ao som da voz encantadora daquele homem encantador, e ao som dos sussurros de amor. São os melhores sussurros, sempre. Sentaram-se pra comer, como se fosse a última vez. Talvez fosse, mas não era como se realmente importasse. Comeram, e riram como há muito não faziam. Tudo cronometrado, como se não fosse acabar. Doce, doce engano. Tudo sempre acaba. A gente é feito pra acabar. E justo quando tudo chegou ao ápice, quando estavam sentindo tudo curado por dentro, arrombaram a porta bruscamente. E arrancaram seu coração. Pisaram, como sempre, pisotearam. E desfizeram o laço do abraço. Não sabiam se pra sempre, mas por enquanto, seus abraços iam ser pelo telefone, tão distante. Aqui, um jantar pra um e um cigarro, por favor.

domingo, 2 de junho de 2013

Estupro

Foi estuprada. E estava tão perdida, tão sozinha. Não sabia como seguir. Correu pra o hospital mais próximo, mas este quis violentá-la mais uma vez. Quis abrir suas pernas e coletar amostras. Não queria mais ninguém entre suas pernas. Não queria conversar, queria se esconder, queria ficar dentro de si pra sempre. Sentia dor, mas esta ia além da física. Sentia a força com que ele segurara seus braços. Sentia a força com que ele penetrara, sem amor, com vontade. Lembrava da mão sob sua boca, tapando-a. Lembrava de cada gesto detalhadamente, com horror. Horror de continuar vivendo, disso poder estar acontecendo de novo. Sentia nojo de si, nojo dele, nojo. Ojeriza. Sentia até o sangue sendo bombeado freneticamente pra fora do seu coração, como se quisesse ficar vazia e cheia ao mesmo tempo. Como se corresse contra o tempo. Não havia mais lugar seguro, agora. Sentia medo. De voltar pra casa, e encarar a todos, fingindo estar tudo bem. Não estava tudo bem. Não podia guardar esse segredo, mas fora ensinada que a culpa foi dela. Que usar decote, blusa curta e mini-saia automaticamente eximia o estuprador de tudo. Afinal, ela provocou. Ela, no auge dos seus 13 anos, provocou um homem? Ela, sem seios proeminentes, bunda quase reta, puberdade atrasada, tivera a capacidade de provocar um adulto? Um adulto que sabia o que estava fazendo. Não só sabia o que estava fazendo, mas era legitimado pela sociedade. Que tenta encobrir, que tenta esconder. Ela, coitada, aflita por dentro e por fora, não tinha muito o que fazer. Resolveu dirigir-se até a delegacia mais próxima, reportar esse caso para as autoridades, na esperança de que, algum dia, pudesse ter mais esperança de novo. Lá chegando, por ter 13 anos, ser mulher, criança e não ter provas, não foi levada a sério. Era isso. Não tinha mais aonde ir, a não ser se retirar daquela delegacia onde todos riam dela. Voltou, pé ante pé, para casa. Voltou, e como esperado, a porta lhe foi aberta. Sua mãe lhe acolheu, mas não lhe acreditou quando denunciou o homem que a estava violentando. E ali, sentado perto da lareira, com um sorriso surpreendentemente malicioso, estava ele. Seu algoz. Seu padrasto.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Só De Passagem

Há muito, parecia estar só de passagem no mundo. Fazia, todo dia, sempre igual. Estudava, cozinhava, lavava a louça, e estudava. Não lhe agradava o ritual, mas mandavam-no. Mandavam-no ser máquina e homem, sempre atarefado e insatisfeito, sempre do jeito que era obrigado a ser, com vontade de ser o que era de fato. Sua válvula de escape era o desenho. Por muitos anos, faltaram-lhe as ferramentas mais básicas para fazê-lo. E perdia-se no lápis e no papel. Em seus últimos anos na escola, sempre assombrava-lhe a pergunta do que queria ser quando crescer. Não sabia dizer, por que era gente, mas ninguém o havia ensinado a querer. Ao longo da vida, cresceu-lhe uma crosta de coisas não ditas, pudores vencidos, medos profundos, viagens não feitas, e obrigações. Crosta dura, essa. Dura demais pra um homem menino que não havia nem alcançado a maioridade penal. Se transformou em uma pessoa fechada e levemente mau humorada, que não partilhava do seu íntimo com ninguém, nem com o desfile de namoradas firmes (levemente burras, duramente desinteressadas na vida dele). Se encurvava sob a mesa com seu lápis com mais frequência. As aulas na escola o entediavam. Prestava atenção, mas não sentia tesão pela vida. E a rotina se repetia. Se sentia preso em Cotidiano, do Chico. Mas sem ter quem esperar no portão.

Quanto a ela, se apaixonava depressa. Sentia ciúmes. Porém, pouco gosto pela vida. Cada vez mais festas, cada vez mais alcool. Mas isso não alimentava o monstro dentro de si. Não fazia a vida, tão sem sal, ter o gosto de um bife. Escapava pra a escrita. Mais uma vez, debruçada sob o papel ou sob o laptop. Escrevia de amor, escrevia de saudade.

Eles se encontraram. E se desencontraram. Algumas vezes. Mantiveram-se amigos e amores secretos. Descobriram-se, e sem saber, salvaram-se. Um ao outro, como um.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Sobre Quem Eu Sou

Esses anos todos, nunca soube muito bem sobre quem eu sou. Escritora? Cidadã? Alguém? Até então, não sei. E não sei se um dia saberei. Mas se tem algo que sei sobre mim mesma é que não sou feliz. Não é por escolha, veja bem. Só não sou. Eu tento. Tento, pode demais, socializar. Tento não encher a alma de angústia e sofrimento, e consigo, algumas vezes, por alguns instantes. Só que não sou. É triste pra os outros verem quando alguém é infeliz. A grande coisa da vida é que ela se repete. Detesto rotina. As mesmas coisas maçantes que me incomodam se repetem todos os dias, todos os dias. Não é questão de resistir à elas, eu só tento subir na maré e ir levando. E tem dias que isso é tão insuportável que cansa. Cansa existir. Cansa viver. Recentemente, fui praticamente privada do meu namorado. Uma das únicas coisas de feliz que eu tenho pra esperar. Uma das poucas pessoas que a vida me deixou, nesse vaivém de aviões e abraços quebrados. E agora a vida me tirou, aos pouquinhos. Me disseram pra não viver esperando o final de semana, que são dois dias. E a semana são cinco, inteiros, e que a vida fica insuportável se você ignorá-los. E agora, meu amor, que só posso te ver no final de semana? Espero o quê? Espero as provas, a escola e a rotina do dia a dia, ou ardo por dentro como sempre ardi, trancada em mim, ansiando com cada fibra do ser que agora fosse sábado e eu estivesse com você. Se é drama, não sei. Sei que é saudade, que queima. Sei que sou eu, que queimo, que quero, que teimo. Acho que por teimar tanto, teimo e não sou feliz. Queria ser feliz. Mas os cacos da janela quebrada ainda estão no chão, a luz está apagada e ninguém chegou pra me abraçar. Dito isso, durmo só, por que só sou.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Eu, Aflito E Só

É, morena, tá tudo bem. Está? Caramba, parece que esse ano tá se arrastando. Se arrastando... Bem devagar. Queria muito ver o fim desse dia, desse mês, desse ano. A começar pela minha reprovação. Que porcaria que é conviver diariamente com pessoas que praticamente nada tem a ver com você. Que porcaria é arrastar o ensino médio por mais um ano. Que porcaria que é se arrastar da cama, todos os dias, sem um propósito, sem uma vontade, sem um por quê. Sem. Só querendo passar por mais um dia, mais um dia pra morrer, mais um dia pra viver. Como disse Marcelo Camelo, é como se a alegria recolhesse a mão pra não me alcançar. E a cada dia, o dia consegue ser pior. Não importa o quanto eu diga pra mim mesma que vai ficar tudo bem, que vai tudo se resolver, que eu vou conseguir resolver tudo, parece que, por mais que eu tente resolver, tudo se embaralha mais. Nem lendo e vivendo na vida de outra pessoa eu consigo deixar isso de lado. Me consome de dentro pra fora. E de fora pra dentro. Parece que tudo que eu faço é chorar. Chorar até secar, secar por dentro a alma. Pesando a alma. Como se constantemente meu coração sangrasse, escorresse, mas ninguém mais vê. Já bati meu recorde de doenças esse ano. Umas sete, desde fevereiro. A escola tá me consumindo, a vida tá me consumindo. A maior vontade é de parar de existir, parar de respirar sem notar e sumir. Sumir. Mas como disse Bukowski, isso eles não deixam. Tem tristeza mais profunda do que quando a gente chora ouvindo Los Hermanos? E vê a nossa dor se fundir com a deles, devagar. É bom conversar com quem conserva dor dentro de si também. Você se compreende melhor e compreeende a dor do outro melhor. Se completa melhor, se sente melhor. A sua dor em mescla com a dor do outro é um bálsamo de compreensão. Doer sozinha é ruim. Doer sozinha é dor guardada, que não dá pra explicar, por que ninguém consegue entender, ninguém que não dói também entende por que uma menina de classe média, com comida na mesa, alguns bons amigos, um namorado, formação escolar boa, acesso a tudo no mundo, despeja lágrimas tão febrilmente.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

When I Put My Finger On Your Trigger

“Happiness is a warm gun”

Puxou o gatilho. Rompantes de alegria esborratavam pelas suas têmporas. A arma quente, o corpo no chão. Jorrando sangue. Jorrando, jorrando, jorrando. Deixou-o esvaziar. E saiu dali, satisfeito consigo. Sabia que esse sentimento de realização seria tão passageiro quanto sempre fora. Umas duas horas, no máximo, e depois estaria pronto pra encontrar mais alguém a quem perseguir. Não era um perseguidor. Não se via como um assassino. Não se via como nada. Gostava de ver o sangue jorrar, sempre certo de pra onde ia, mas deveras incerto de pra que servia. Mantivera pessoas vivas por dias, só para assisti-las sangrar aos pouquinhos, cada dia mais, cada dia mais. Era razoavelmente bonito, sedutor. Mulheres eram presas fáceis. Sua orgia de sangue era sempre completa, mas sempre necessitava de mais. Sentia-se mal, por vezes. Medo de ser pego. Mas nunca era. E sabe como dizem, happiness is a warm gun.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Sem Propósito

Alguém aí? Alguém pra ler? Alguém que não esteja dormindo, esteja interessado e entediado?
Pois bem, a quem interessar:
Alguém já se sentiu entediado com a vida? Como se ela parasse e estagnasse, visse o tempo passar, e só as mesmas coisas se repetissem, continuamente, em um círculo sem fim e sem começo de tédio e falta de propósito. Não? Nunca se sentiu assim? Então me deixa explicar: é como se você fizesse tudo igual todo dia, sem parar, sem pausa, sem intervalo. Mesmo que esses existam, compridos ou não, sempre parece que você não tem pausa, que recomeça de onde parou, e que nunca vai parar de verdade. Dormir não é recarregar as baterias, por que você está sempre na massacrante atividade de ser e respirar, respirar e expirar. Expirar a validade, o prazo, a noite, o tempo, a vida. Tudo expira, menos o labor diário (e com a sensação de prolongada inutilidade, você também não). Suspiro. Cansada sem ter com o que cansar, cansada de pensar, cansada de viver. Por que não pode ser um pouco mais fácil? Se cobrir de vergonha e com um saco de papel, pra que ninguém veja. Só você. Ninguém sabe. Ninguém deveria saber. O ciclo do tédio se expande e estende, que nem um tapete vermelho encardido que ninguém quer pisar. O enfado te consome, engole e cospe. Cospe essa massa cinzenta, menino, que ninguém te pediu pra pensar. Ninguém te pediu pra escutar, processar, intrigar, perguntar. Só trabalhar, trabalhar, trabalhar. Trabalhar pra ganhar, trabalhar pra viver. E morrer pra trabalhar. Sem pensar. Quem precisa de pensar?

The Only One That's Really Judging You Is Yourself

“The only one that’s really judging you is yourself, nobody else, nobody else”

Fechou as portas com um baque absurdamente forte. Pegou a mala de cima da cômoda ridiculamente alta, e atirou-a com força na cama, provocando um outro estrondo de proporções semelhantes ao primeiro. Uma semana. Uma longa semana em um hotel distante de tudo e de todos, sem recepção de celular, sem internet, sem outras pessoas com quem pudesse conversar além da família. Família. Não gostava de como soava. Quando foi que passou a ter uma família? Um tempo atrás família era só seu pai, sua mãe e sua irmã mais nova. Agora tinha uma esposa particularmente bonita, porém mais vazia que um saco plástico. E duas crianças, que berravam o dia inteiro. O dia inteiro, todo dia, vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. Saía do maldito escritório, esperando cinco minutos de silêncio, e quando menos esperava, era pego pela batalha diária de fazer os pirralhos deglutirem os vegetais, pelos telefonemas histéricos de sua mãe, ou pela tagarelice incansável de sua mulher. E agora, uma semana naquele lugar. Ideia da esposa, obviamente. Ia ficar trancada em um SPA, e ele ia fazer “atividades externas” com as crianças. Por que o fizera? Pra que pudesse escapar na outra semana pra Boston e encontrar a amante número cinco. Viajava muito a negócios. Menos do que contava à esposa. Não acreditava que ela se importasse genuinamente, desde que sua conta bancária continuasse gorda e seus inúmeros cartões de crédito fossem pagos. Telefonou pra amante dois. Caiu na caixa postal. Ligou mais duas vezes. Atendeu.
- Alô? –
- Richard? –
- Hm, não. Andrew. –
- Ah, olá, Andrew. Mesma hora semana que vem? –
- Não, é por isso que estou ligando. Pra desmarcar. A maldita me coagiu em uma viagem de família. Era isso ou ela ia chamar minha mãe pra passar umas semaninhas aqui. Tem horário vago depois de sexta? –
- Sexta 17? –
- Sexta 24. –
- Sim, às nove horas. –
- Nos vemos às nove. –
Desligou o aparelho. Jogou furiosamente as coisas na mala. Muitas vezes sentia como se em algum lugar, alguma hora, tivesse desandado sua vida. Talvez fora quando se casou com Eve em Vegas, ou quando arranjou tantas amantes que passara a enumerá-las, ao invés de denomina-las. Nunca quisera filhos, e não sentia genuíno afeto pelos seus, só em raros rompantes de emoções, cada vez mais escassos. Depois destes, sentava e sentia raiva de si por ser tão fraco. E costumeiramente, entoava uma música na cabeça depois de sair de bordéis ou casa de outras mulheres. “The only one that’s judging you is yourself.”

sábado, 1 de dezembro de 2012

Home Is Where The Heart Is



















Olhando minhas fotos ao som de Memory Lane, do Mcfly, descobri relíquias. Fotos que eu nem lembrava existirem. Eventos que eu nem lembrava ter comparecido. Pessoas que faziam parte do meu dia, do cotidiano, que eu sabia de quase tudo, e que agora não sei de absolutamente nada. Tudo muda tanto. Suas escolhas influenciam mais que diretamente em quem você se torna ou se tornou, e algumas pessoas simplesmente não cabem mais na sua presente ou passada situação. Não é culpa sua. Não é culpa delas. Só não cabe mais. Me dei conta de quantas pessoas passaram pela minha vida. Não foram poucas. Já participei de vários grupos de amigos, várias tribos, de muitas pessoas diferentes. Ofendi e fui ofendida. Mudei e mudaram. Todos mudam. E acontece que agora não sei a que grupo pertenço. Tenho, ao meu lado, as pessoas que eu sempre tive ao meu lado, e as quais eu tenho a certeza que não me deixarão jamais. Algumas pessoas, por mais que efêmeras na minha vida, deixaram marcas eternas. Marcas de como me comporto, de como me comportarei, de mim. Fizeram de mim o que eu sou hoje, e sou eternamente grata. Algumas, consegui ofender e afastar da minha vida, apesar de que, no geral, essa nunca foi minha intenção. De algumas, sinto enorme falta. De outras, não sinto e provavelmente jamais sentirei (apesar de "jamais" ser uma palavra de enorme significância, e que não deve ser usada em vão). Às vezes, só às vezes, sinto aquele aperto gostoso e dolorido no peito, quase sempre de saudade, e vejo as fotos. Pra algumas pessoas, que a vida separou, a gente diz que sente saudade, que devemos marcar encontro, e nunca liga. Pra outras, a gente liga do nada e resolve que o tempo que passou separado foi o suficiente. Mais do que o suficiente. Teme que quando encontrá-la, não saberá o que dizer, como se portar, mas assim que a encontra, parece que nunca estiveram separados. E é assim a vida, cheia de reviravoltas, curvas, becos sem saída. Pessoas que não há mais chance de reconquistar. Pessoas que não foram totalmente perdidas, mas que precisam que você reconheça o erro, ao invés de persistir nele. Pessoas que você não sabe que farão falta até que saiam, aos poucos ou abruptamente, da sua vida. Aos que ofendi ao longo do ano e dos anos, minhas mais sinceras desculpas. Planejo começar o ano de 2013 de consciência limpa, ao menos. Desculpas vindas do coração. Meus erros foram maiores que meus acertos? Espero que não. Espero que ainda possamos telefonar uns pros outros e marcar de ir à praia, à roça, ao açaí. Espero que possamos começar 2013 de forma limpa. Com menos problemas, menos inimizades, menos coração cheio de problemas. Àqueles que planejam ir pra longe, meu até logo. Adeus, nunca. Nunca, adeus. Sei que sou eternamente responsável por aquilo que cativo, e espero conseguir semear um pouco do bem que me foi semeado. E que isso não seja um adeus, nunca. Sempre até logo, sempre vírgulas. Pontos finais são muito difíceis de aceitar. Bem. Não consegui chegar até o final do texto sem lágrimas, como havia me prometido fazer. Até logo e obrigada por cada dia bem vivido da minha vida.









quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Me Enamora

Andando pela rua, pensando no que ia fazer quando chegasse em casa. Deleitava-se com a possibilidade de só deitar na cama e ligar pra alguém, passar horas lá, deitada, conversando e rindo. Muito tempo que não se sentia assim. Leve, leve. Apesar de parecer que quase tudo ao seu redor explodia levemente ao som de uma sinfonia de beethoven, ela se sentia como se pudesse flutuar a qualquer momento. Sim, andara tendo crises inexplicáveis de choro. Mas, de uma forma ou de outra, não se sentia sozinha ou desamparada. Sentia como se tivesse sempre alguém ali. Alguém pra ela ir conhecendo e se apaixonando pelas coisas mais bobas, pelo jeito mais simples. Alguém pra quem ela não teria vergonha de dedicar os escritos mais bregas e cheios de significância. Alguém pra me ver chorar, no meio de uma crise totalmente sem sentido. Alguém que não a fosse julgar pelas besteiras que ela já fez. E quando julgou que nunca mais ia sentir-se assim, que nunca mais ninguém seria capaz de sentir alguma coisa por ela, ele apareceu. Não foi em um cavalo branco, nem com uma rosa na mão (ainda bem, detestava rosas), mas foi com o coração só pra ela. E o coração dela era só pra ele. A fez chorar, muito. Preocupou-a diversas vezes. Mas as lágrimas, sempre pelas coisas lindas que dizia ou fazia. A preocupação, eram outros quinhentos. Como é que havia de não se preocupar, com alguém que sempre foi tão importante, e agora, mais ainda? Como? Sentia que estava em um romance diferente. Eram diferentes. Falavam espanhol, entre si. Tratavam um ao outro como amigos e como amantes, assim como disse Vinícius de Moraes. Era isso. Algo de melhor que aconteceu em 2012. Algo de bom que esse ano tinha que trazer. Se sentia tão intrínseca à ele, ao modo de viver, particular aos dois. Estavam tão perto do aniversário, do primeiro aniversário. Estava apreensiva, sem saber se ele ia gostar do tal texto que mandou. Esperava que sim. Destrancou a porta de casa, e entrou. Tirou o telefone do gancho. Discou os números.
"Alô?"
"Hola, mi amor."
E assim, só assim, pôde ser feliz.

sábado, 24 de novembro de 2012

Quando Eu Estiver Triste, Simplesmente Me Abrace

Quase todos os meus relacionamentos afundaram. E afundaram feio. Não sei lidar com o amor das pessoas, sempre penso que este é efêmero demais, e se acabar dependendo dele, vou afundar quando acabar. Por isso sempre fiz questão de acabar. A gente é feito pra acabar. Sempre acreditei na efemeridade da coisa. Dos sentimentos. Do amor. Do coração batendo forte, das pernas bambas, das borboletas do estômago. Sempre achei muito incerto quem não demonstra afeto, quem não diz que ama. Também achava grudento quem dizia isso em demasia, e me punha em um enfado que era difícil de tirar. Ninguém nunca achou um equilíbrio. Eu sou meio desequilibrada, então achar alguém que aguente tamanha mudança de humor de forma constante, e que aceite isso numa boa, foi difícil. Eu sou difícil. Reconheço isso. Difícil, chata, insuportável, irritante, meio egoísta, abusada. E nem é charminho. Percebi o quanto é fácil cair na rotina, desaparecer quando você namora. Se infiltrar no outro ao ponto de saber quais os problemas, soluções e palavras que vão vir dele. Não se infiltrar, mas entrar aos poucos. E com permissão. Essa é essencial. Não gosto de relacionamentos mornos. Sou intensa. Mas enjoo de viver em filme live action com o armaggedon me perseguindo por aí. Gosto de ficar em casa, dormir, ver filme, ir ao cinema, caminhar. Uma pessoa que faz parecer que estão juntos a tempos. Que tem a capacidade de fazer você virar as costas pra o Murilo Rosa enquanto ele canta uma balada famosa do Skank. Uma pessoa que é totalmente diferente de você em quase todos os aspectos da vida, de uma forma quase que só pra fazer birra. O lance é o seguinte: obrigada.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Daqui A Alguns Anos

Acordou em uma cama, que não era a sua. Olhou pra um teto, que não era o seu. Passou a mão pelas cobertas quentes, que não eram as suas. Olhou pra o marido, de olhos fechados e barriga pra cima, que não era o seu. Tentou se situar numa vida que não parecia sua. Levantou e colocou os pés no chão gelado. Aquele chão gelado não era do seu Brasil. Pela janela, uma paisagem gélida de inverno. Reparou que estava com frio, em meio a confusão. Buscou um casaco no closet daquela casa. Pegou botas de neve, calças de frio, meias, casacos, luvas e um gorro. Vestiu-se, e com o homem dormindo na cama, saiu. Sentou-se em um banco lotado de neve, depois de espaná-la pra longe. Parou pra pensar. Aquela era a vida que ela tinha vivido nos últimos seis anos. Daqui meia hora, Jackie, sua filha, teria acordado, e estaria faminta por algo além de ficar dentro de casa. E Matthew, seu filho, estaria sendo provocado por Jackie. Quando foi que as coisas mudaram tanto? Lembrava dos namoros da adolescência, das bebedeiras, das novas experiências, das notas baixas, dos bares, dos shows. E isso ficou pra trás? Quando? Quando é que tudo ficou sério? Quando ela saiu da faculdade com noivado engatado? Ou quando nasceu seu primeiro filho? Quando ela saiu do Brasil já casada? Ou quando se viu na cozinha, revezando as tarefas diárias, desejando uma taça de vinho, e conversando com o marido? Foi quando ela deixou a boneca de lado? Quando acabou o ensino fundamental? Ou o médio? Foi quando arrumou um emprego meia boca em um jornal que demorou a lhe reconhecer como talento? Não sabia. Que manhã normal, pra acabar cheia de perguntas. Isso era o que ela queria? Não tinha mais tempo pra pensar no que ela queria. Daqui a pouco, estaria em uma casa em plena atividade matinal, cheia dos berros das crianças e da correria do marido. Os amava, e não os trocaria por nada. Mas tanta coisa que não havia feito... Pular de bungee jump, saltar de asa delta, escalar o Everest, ménage a trois, relacionamento aberto, experimentar LSD, correr o país inteiro, cozinhar jantar pra três, repintar a sala sozinha, dormir sozinha só consigo mesma, cantar sozinha sem medo de ouvirem-na. Tanto que não tinha feito. Casou-se com um inteligente, teve filhos comportados, comprou uma casa bonita. Seguiu vivendo a sua vida que não parecia sua, ouvindo as músicas que pareciam ter perdido o sentido. Não havia do que reclamar, em teoria. Pra quê crescer? Não sabia. Mas seguia. Sempre em frente. Um vulto empacotado em roupas invernais saiu de casa, acompanhado de outro vulto consideravelmente menor. Jackie e seu marido.
- Mamãaaaaaaaaaaaaae - Seus olhinhos brilharam ao escalar os joelhos da mãe.
- Olá, querida. - Abraçou-a. Dylan, seu esposo, sorriu. E juntou-se ao abraço. Não sabia se estava onde deveria estar, mas sabia que estava onde queria estar. Mesmo com o tempo ruim, com a neve, e com a adolescência distante.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Ando Em Frente Por Sentir Saudade

Na classe, o professor colocou um vídeo. Vídeo pesado. Cheio de terror. Não havia sangue. Havia brutalidade. Algo nada incomum no mundo. Crueldade, exposta, nua e crua. Seus olhos lacrimejavam. Já tinha visto tal vídeo uma vez. Não estava gostando de vê-lo de novo. Esfregando na cara aqueles corpos putrefatos de milhares de judeus no holocausto. Era judia. Se sentia judia. Sentia dor mental e física vendo aquilo. As pessoas, negando envolvimento. Como podiam? Nunca protestaram. Nunca foram contra. Se não foram contra, apoiaram. Sentia nojo, sentia repulsa. No escuro, encontrou uma mão. Uma mão que afagou a sua, que apertou a sua, que partilhava da sua repulsa. Uma mão, que por mais que fosse quase tão fajuta judia quanto a dela, era uma mão amiga. Uma mão que sentia, involuntariamente, as agruras do vídeo. Sentia mais que os outros. Apertaram as mãos, em sentimento conjunto de cumplicidade. Eram amigos a mais tempo do que podiam contar. Aquela intimidade, de apenas segurarem as mãos, deu a ela forças pra não chorar, levantar a cabeça e encarar os dias. Se os sobreviventes tão sofridos dos campos de concentração conseguiram, ela conseguiria. Conseguiriam. Como estava sendo tão difícil sem ele. Sem aquela mão ossuda pra apertar, aquele corpo conhecido pra sentir junto ao seu quando as lágrimas rolavam, que nem no dia do vídeo. Volta. Aquele vídeo mostrou pra ela que enquanto tivesse aquela mão, nunca estaria sozinha. Super amigos pra sempre.

domingo, 11 de novembro de 2012

I Want You To Be Crazy, 'Cause You're Stupid, Baby, When You're Sane

Câmera foca em um grupo de jovens descendo de um carro por volta do meio dia, na frente de uma fonte que está sendo restaurada. O grupo conversa animadamente. Pegam as malas na mala do carro, e se dirigem até a pousada do amigo, na qual irão se instalar. Corta para eles chegando no caminho tortuoso até a casa que vão ficar. Andam os quatro, rindo e conversando. Chegam na casa, e entram sem bater. Se deparam com uma casa meio escura. Quarto lotado de pessoas semi acordadas. Acendem a luz e se juntam a eles, rindo. Conversam, até sentirem fome. AUG reclama até que cedem aos seus apelos, e vão ao restaurante. Câmera corta para fila do restaurante self service, onde todos conversam animadamente enquanto comem avidamente. Corta para o quarto do jovem dono da casa, onde alguns estão jogando poker em duplas. Riem. Câmera foca na janela, que mostra o dia apagando aos poucos. PH entra no quarto, e informa que vai até a casa de BR, se arrumar lá. B levanta e vai também.
PH: Vou me arrumar lá em BR, falou.
B: É? Vou também. Tchau, galera.
Câmera corta para os dois andando nas ruas tortuosas de Pipa, até a casa de BR. Conversando sobre a vida. Câmera corta pra os dois entrando na casa de BR. PH e B deitam na cama com BR, que se mostra aflita. Confessa não saber como que vai ser quando chegar na casa de RR. PH e B mostram suas opiniões e oferecem ombros amigos. Os três tomam banho e se arrumam. Corta para a festa de RR. BR, B e PH chegam. Foco nas mãos entrelaçadas de B e BR, como sinal de apreensão. Encontram com LS, RR, ROD no caminho. RR e Brisa se abraçam. BR continua andando pra casa, enquanto RR e os meninos vão atrás das bebidas. Close na mesa posta, comida, e pessoas sentadas rindo. Conversas giram em torno de sexo, platelmintos, comida, experiências e sexo. Corta para ROD rindo e bebendo. Corta pra RIC bebendo. MA bebendo. BEC bebendo. PH e B sóbrios, assistindo. Fotos. Muitas fotos. Corta pra o rosto vermelho de MA. Choro. Gritos. Câmera gira, confusa. Intermitentemente, pessoas conversam. BR e RR voltam a namorar. MAR grita, esperneia. Está triste. Tentativas de consolo, de ajeitar as coisas. Câmera corta pra momentos mais tarde, pra o Quarto dos Sóbrios. Conversa sobre sexo. Vibradores. Hentai. PV entra, pálido. Câmera foca no rosto dele. PV entra em um quase coma alcoolico. Tentativas afoitas de salvá-lo. PV se recupera, e dorme. Enquanto isso, a câmera passeia pelos vários ambientes da casa. Encontra bêbados, foca em garrafas semi vazias de bebidas. Foca em um beijo lésbico entre BF e B. Foca em REB e MA se maquiando pra sair. Volta pra um dos quartos, onde PH, AM, B, MAC e BR dançam ao som de S&M da Rihanna. AM vai pra casa, e as pessoas se movimentam pra sair. Foca no grupo na praça. Arriba, Abajo, Al Cientro, Adentro! Sal, tequila e limão. Felicidade está entre o sal e o limão. Marijuana. Câmera foca em vários jovens. Cigarros. Corta pra a descida da praia. Praia. B e PH sobem pra casa. Dormem várias pessoas juntas. EMO dorme no chão. RR acorda B para um pedido de ménage. Câmera apaga. De manhã, a luz inunda o cômodo. Descem pra o café. Comem. Riem. Juventude perdida é o caralho.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Nem Santa, Nem Puta. Mulher.

Aproveitando o gancho do meu projeto da CIARTE, quero falar sobre uma coisa que me enfurece MUITO. Andar na rua e ser cantada a cada dois passos que se dá. É a coisa mais irritante, constrangedora, babaca e exasperante do mundo. Até por que eu ando muito sozinha, quando essas "cantadas" rolam depois das cinco da tarde, já ando assustada e com passos largos, com medo do que pode me acontecer se eu me demorar.

Mas a pergunta é: Quem é que te deu o direito de violar meu direito desse jeito? Quem é que te autorizou a entrar assim na minha vida, olhar pra mim desse jeito e falar essas coisas pra mim? Meu short? Meu decote? Sinto muito, amigo, mas o meu decote NÃO é convite. O comprimento do meu short só interessa a mim. Em uma cidade quente que nem a que eu moro, impossível andar sempre de jeans, casaco, camisa, e tênis. E mesmo se andar, ainda tem nego cara de pau que passa cantada.

O negócio é o seguinte: o corpo é meu, e eu ando vestida como eu quiser, por que isso é problema meu. Não tem esse lance de "roupa de vadia". Se a guria quiser andar de short beira cu, salto 234832842 e top, ela anda, e tu não tem nada com isso. É essa a questão. Nossos pais sempre nos ensinam a fechar as pernas, a sermos recatadas, usarmos roupas compridas. Mas por que a gente que tem que se fechar? Quem viola o direito da vítima é o estuprador, não é a roupa que eu uso ou deixo de usar.

Acho que falo por todas as garotas, que o sentimento de aflição ao ouvir coisas como "Ei, gostosa", "Vem cá, linda" e assobios por aí é grande. É irritante, é babaca.
Portanto, antes de meter a mão na buzina e assobiar do banco do seu carro, pensa que aquela pessoa a qual você está tratando como um mero pedaço de carne, tem sentimentos, corpo, alma, respira e pensa. Não é um brinquedinho sexual, não é algo pra você tirar proveito. É uma mulher, que, apesar de estar usando um short curto ou uma blusa que mostra a barriga, NÃO está lhe convidando a introduzir seu pênis troglodita nela. Grata se for respeitada na rua.

sábado, 3 de novembro de 2012

Ela É Linda Linda

Eu devo mais a ti do que eu posso pagar. Devo mais a ti do que a qualquer um. Devo quem eu sou, devo quem eu fui, e devo quem eu vou ser, e gosto de devê-lo. Eu te amo. E a distância me mata, vó. Sempre tive muita inveja de todas as minhas amigas que tem avós que moram do lado. Você escolheu morar do outro lado do mundo e me matar de saudades. Você escolheu sempre ser feliz, e ser sempre minha avó, não importando a besteira que eu tivesse feito daquela vez. Nos meus piores momentos, eu tenho certeza que você estava lá. E que sempre vai estar. Agora, aí em Israel, são quase duas da manhã. Mas eu aposto que se eu precisasse de você nesse instante, e ligasse pra aí, você ainda ia me atender. Com uma puta raiva. Mas ia me atender e ia procurar me entender. Você sempre procurou entender minhas babaquices. Sempre me amou, por mais que eu gritasse, esperneasse e disesse que não queria ir pra sua casa. Encaremos a verdade: eu adorava a sua casa. Aquelas porcelanas, aqueles panos coloridos, os degraus que rangiam, o armário gigante, a cozinha minúscula com aqueles mesmo azulejos quebrados desde sempre, aquele banheiro no final do corredor, a sala que dava pra a rua, a tv que não era a cabo, o armário das suas miniaturas. Todas aquelas vezes que eu acordava cedo e brincava com o fogãozinho e as panelinhas de porcelana, todas as vezes que eu fazia inúmeros espetáculos de dança e teatro pra você e pra o tio Paulo, todas as vezes que eu cozinhava comida de mentirinha, as vezes que você me levava pra o teu atelier, as vezes que você bronqueava comigo, que você me escutava, que contava histórias do seu falecido gato Leo, aquela vez que você me comprou um gato de pelúcia igual ao teu gato, aquelas vezes que você veio aqui pra casa pra me trazer um pouco de você e ir embora logo depois. Queria ter tido mais tempo pra ficar com você, pra que você me conhecesse, pra poder te abraçar, conversar, colocar meus problemas, ouvir os seus. Queria que desse pra gente se conhecer melhor, vó, que a saudade aperta nos piores momentos. Esse vazio que fica, essa vontade de ficar duas horas te abraçando, te dizendo o quanto eu senti sua falta e o quanto eu queria você perto de mim. Eu queria poder te apresentar meus amigos, te mostrar a minha escola, te mostrar os lugares que eu gosto de ir, te levar pra o shopping comigo, ir com você comprar tecidos, inventar roupas, vestir bonecas, escutar mpb, tomar café. E como essa saudade aperta, vó. Eu me lembro de todos os livros que você me deu, de todos os abraços que você achou que eu merecia, mesmo quando eu não merecia, de todas as vezes que eu estava errada, você sabia que eu estava errada, mas mesmo assim me abraçou, e disse que ia ficar bem. Da sua comida. Da sua presença. No meu mural tem uma foto sua, vó. Eu devia ter uns cinco anos, e estava chorando. E você estava dando um beijo na minha bochecha. Acho que essa é a foto mais linda da face da terra. Você me apresentou Harry Potter. Você fazia brincadeiras comigo, e eu dizia que “minha avó é doida”. Minha vó não é mesmo normal. Mas eu acho que se ela fosse, não seria a minha avó. A avó que eu tanto amo, e que eu tanto quero por perto. É uma pena que eu não possa te abraçar e que você não possa dizer “eu estou aqui”. Você é uma das pessoas pelas quais eu me atiraria na frente de uma bala, se eu precisasse fazê-lo. E eu sei que você vai sempre estar aí pra me apoiar e me dar broncas quando eu precisar. Chorar escrevendo esse texto foi a coisa mais egoísta que eu já fiz na minha vida inteira, por que você está feliz, e se você está feliz, eu estou feliz. Quando você puder me dar colo, eu vou querer. Acho que isso é ainda pior do que quando eu pegava o avião de volta pra cá, e assim que eu dava o braço pra a aeromoça e entrava na sala de espera pra voltar pra casa, meu coração apertava, e eu queria chorar. Mas eu nunca chorava. E agora, depois de grande, eu estou chorando que nem uma boba na frente do computador. Eu te amo, Vó.