quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

It All Feels Right

Cores. Cores piscavam, incessantemente, nos seus olhos fechados. Abriu-os, com a certeza de que isso faria com que as cores a deixassem em paz. Só se intensificaram. Sabia que não podia fugir daquela explosão de cor, amor e sentimento. Sentir era tão precário, tão primitivo, tão doloroso, não queria sentir, não queria abrir, queria trancar-se em si, encarcerar a possibilidade de um dia chegar a cogitar essa cilada que era o sentir.
Batiam na porta, com força. Quase arrombando a barreira precária que ela construíra entre seu coração brutalizado e a vida lá fora.
Mas a vida chama. E como chama! Grita no ouvido, a plenos pulmões.
Levanta dessa cama!
Veste uma roupa!
Saia de casa!
Muda tua vida, e depressa, depressa, que nada espera pra você ser feliz, e só quem constrói isso é você.
Eu sou feliz?
Eu sou feliz.
Eu sou feliz!
Repetiu a frase, com a palavra escorrendo da boca, timidamente, até que pudesse voar, encantada com sua própria existência, com seu próprio e inesperado esplendor, com o impulso da veracidade do ser.

domingo, 8 de novembro de 2015

Desanuviar

Peso no peito de fim. Peso no peito de medo. Porém feliz. Feliz. Incrivelmente, pela primeira vez no que parecia uma eternidade, tudo parecida no lugar, correto, fazendo sentido de um jeito simples e bizarramente real. Levemente sedada das coisas da vida, num universo paralelo particular-compartilhado no qual o esplendor do viver existia. Existia vida no viver. Realidade no real, nesse mundo dos bonecos de carne ambulantes. Por que findos os momentos? Por que finita a vida?
Se no peso dos ombros levava os anos, quem partilhava o peso? Caminhando na estrada com ela, aplacando a dor dos ombros cansados e da cabeça, pesada como seu coração.
Quando finita, me sinto infinita, desanuviada.
Sensação incrível de se ouvir saindo da boca do outro. Sensação de delícia inesperada, de espanto positvo. Um semi desconhecido sendo um pouco de você. Sentindo união, coisas inexplicáveis que não se coloca em palavras. Medo de não reciprocidades, porém tudo estava tão incrível que apaziguava sua alma, tranquilizava o coração. E seguia em frente, enfrente. Só, porém acompanhada.

De estrelas, de galáxias, de coisas infinitas como ela, e de bonecos de carne, seguindo no dito certo-errado. Sós. Não sozinhos. Na finitude do ser, do crer, do existir.

sábado, 8 de agosto de 2015

De Ausência e Saudade

I must be strong, to carry on, 'cause I know there'll be no more tears in heaven

Há muito não andava por lá. Dessa vez, diferente das outras vezes, estava acompanhada por um grupo de várias pessoas. Cada passo dado, mecânico, era dado em direção a uma lembrança, muitas as quais não recordava de ter guardado em recônditos escuros da memória. Quando criança caiu de bicicleta nos viveiros, se meteu na lama pra caçar bichinhos, tomou banho no açude perto dali. Quando adolescente, aprendeu a dirigir ali de forma mediana, nunca dando continuidade aos ensinamentos automobilísticos, apesar da frequente insistência do pai. Aquilo era seu pai. Aquela água toda, a lama, o mato. As vezes que a segurou pra não cair da bicicleta, que a levou pra ver a estação de bombeamento da fazenda, que, quando chovia, voltava pra casa, enlameado, e ambos tomavam banho de mangueira no quintal.
Agora, seu pai estava em um pote, segurado tremulamente pela sua mãe. As pessoas andavam juntas em direção ao primeiro viveiro da fazenda. Este desembocava, eventualmente, no oceano, para que seu pai se fundisse ao trabalho de sua vida, para que fosse livre, como sempre foi, habitando, junto de iemanjá, as águas do mar.
A cerimônia não teve palavras. Além do grupo de pessoas silenciosas, a cena tinha algumas vacas e caranguejos de espectadores, mudos, em luto. Enquanto a maré levava seu pai embora, só conseguia pensar que ele teria odiado o fato dela ter deixado o saco plástico que separavam suas cinzas da urna cair na água. Conseguia ouvir sua voz ralhando com ambas pelo descuido. Sentia, no peito apertado, na garganta fechada, na mão suada, que seu pai estava ali, acenando, reprovando, gritando e amando, passando a mão nos seus cabelos e dando bom dia. Conseguia sentir, no vento que batia no rosto, na lama sob seus pés, no mato que roçava sua perna, a presença do primeiro homem que a amou.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Status: Sendo Seguida Por Um Monte de Corvos

Estava sentada, exatamente as 2:14 da manhã, na frente do seu laptop, esperando um filme que, de forma geral, parecia pouco promissor no quesito crescimento intelectual. Estava se sentindo absolutamente impotente. Aquela mina que chamou pra tomar café ainda não respondera o convite, embora o tivesse feito a um tempo considerável. O filme se recusava a carregar de maneira que pudesse mergulhar no torpor de uma comédia que não requeria que ela se concentrasse e nem que colocasse muito esforço mental nela. O twitter não tinha atualizações, assim como o instagram, o facebook, o whatsapp, a vida. Tudo parecia estático, morto, vivo-morto. Se deu conta que há tempos não escrevia mais do que 140 caracteres. Nada de excepcional e digno de nota aconteceu nas últimas semanas. Alguns conhecidos embarcaram em relacionamentos, outros tantos viajaram, alguns se mudaram... Mas ela permanecia. Sentada na frente do computador, esperando que a máquina, de alguma maneira, cuspisse respostas sobre o estado de espírito de bosta no qual se encontrava. O nada era esmagador.
02:23. O tempo passava, e não se arrastando. Dali a não muito tempo, o sol nasceria, e tudo correria da forma como sempre correu. Não tinha certeza de querer conduzir uma vida de metades, como havia conduzido até ali. Meio estudante, meio militante, meio real. Três metades, e nenhuma se encaixa.
Precisava comprar o spotify premium. Ouvir The Smiths seguido de uma propaganda da Dell é uma espécie de pecado.
02:28. Tinha esquecido de como Wilco a fazia chorar.
02:31. O filme carregou, e por algum motivo não conseguia dar play. Ficava encarando as janelas abertas no google chrome, pensando que estava escrevendo um texto bem ruim.
02:31. Decidiu acabar o texto e lidar com o vazio da alma com anestesia da indústria do entretenimento.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Entre Nucas e Nuncas

Caminhava pela rua de óculos de sol. Parou por alguns instantes em uma banca de jornal, comprou um exemplar de uma revista que pudesse folhear no ônibus, e um mate. Espera o ônibus impacientemente, como se algo a estivesse incomodando profundamente. Entra no 102, e um calafrio percorre sua espinha. Lá está, como todos os dias, aquela moça. Sempre está lá. Com o nariz sardento enfiado em um livro, calça jeans, camisa de botão e cabelo curto. Sentou-se atrás da menina, que não sabia o nome. Nunca perguntou, e não achava que deveria perguntar. Só ficou ali, admirando a nuca branca, curto espaçamento entre a gola da blusa e o começo do cabelo. Via cada virar de páginas. Observava o vaivém do braço da moça. Dali a duas paradas, ela desceria. A moça sem nome. O ciclo só recomeçaria na manhã do outro dia, quando ela compraria uma revista, um mate e pegaria de novo o 102. Parecia torturante esperar tudo isso.
E assim começou, de novo. Comprou o mate, a revista, como sempre fazia, sempre igual. Ela era sempre igual. Esperou o 102. Entrou, e esperando a visão de sempre, levantou os olhos ao passar pela catraca. Mas ela não estava lá, ocupando seu lugar de praxe. O ônibus estava vazio, a não ser por ela e mais uns gatos pingados engravatados indo para o trabalho. Sentou-se no seu lugar de hábito. Muito estranho. A moça das sardas pegava aquele ônibus religiosamente, todos os dias.
Mas no dia seguinte, também não pegou. E nem no dia depois daquele.
Na verdade, nunca mais a encontrou no 102. Nem em qualquer ônibus que fosse.
Depois de duas semanas, já estava perdendo a esperança de voltar a encontrá-la, onde quer que seja.
Passou na banca, comprou a revista, o mate e subiu no 102. Desceu na parada do lado do prédio que trabalhava, subiu de elevador, e passou o dia inteiro lá. Na saída, quebrando a rotina, resolveu passar em uma livraria, por que fazia tempo que não lia um bom livro.
Lá, na fila do caixa, encontrou uma nuca familiar. Continuou sem perguntar o nome da nuca, e nunca chegou de fato a saber muito sobre ela. Só que não pegava mais o 102, frequentava aquela livraria, tomava um café sem açúcar na saída, e depois ia rumo ao desconhecido.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Tua Pele...

... é crua

Encontrei-a no banheiro. Beijou-me. Errado, tão errado. Eu estava cedendo, quase cedendo. Ela me acabou. Me destruiu por dentro, carcomeu a minha pele nua, como o verme que é, parasita. Desabotoou a minha blusa.
- Transa comigo. - Sim, mil vezes sim. Seu desejo é uma ordem. Toquei-a e a saudade me inundou. Tudo isso parecia muito errado. Quando estávamos nos quase finalmentes, num chão de banheiro frio, ela pecou.
- Viajei e só pensei em ti.
- Viajou? Com quem?
E a culpa inundou seus olhos. Rapidamente recolhi minha blusa e meu orgulho. Ela pensa que pode me fazer de boba? Que pode brincar comigo e voltar pros braços de outra? Não. Não. Não.
Mirou-me nos olhos, com aqueles olhos de gato, carregados de sentimento, e perguntou-me:
- Foi bom, isso que você andou fazendo?
- Foi ótimo. Melhor ainda sem você.
Encarei-a friamente, e vi as lágrimas rolarem pelo seu rosto, silenciosas. Bastava.
Num ato de cruel frialdade, a ignorei completamente pelo resto dos meus dias. E assim, só assim, pude ser feliz.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Se Acaso Me Quiseres

(...) E eu te farei as vontades, direi meias verdades, sempre a meia luz.

Estava só em casa. Só, por que sozinha ela. Bebericava uma cerveja, no limiar entre o quente e o intragável. Algo, inclusive, que poderia ser dito dela. Entre o quente e o intragável. Quente de emoções a flor da pele, quente de paixão, quase ardente dentro de seu corpo. Pulsante. Pulsava, também, seu coração. Coração de amor, de calor, de fervor.
"Um dia produtivo.", pensava ela.
Porém estava incomodada. Inquieta, calada, perturbada. Por dentro, estava sendo corroída pelas perguntas que se faz quando se gosta demasiado de alguém.
Na verdade, a principal pergunta que lhe inquietava era de saber por que gostava demasiado dessa pessoa. Tão sem motivo, tão de graça, tão sem saber se há correspondência. Sem eira nem beira.
Talvez fosse assim que a vida se manifesta. Cheia de coisas que não se sabe explicar, mas ela queria explicar. Queria saber traduzir o que pensava e sentia, e queria não achar ridículo sentir isso.
Não deixo em paz os passarinhos, não deixo em paz a ti. Não deixo em paz a mim, por que não consigo estar em paz.
Estar em paz significaria saber. Saber se sim, se não, se talvez. Se a tal outra mulher lhe significa algo, ou se é só passatempo. Talvez ela fosse perda de tempo. Talvez ela não fosse nada, não representasse nada, só um grãozinho de areia na vida. Talvez. Talvez era odioso.
Queria gritar do alto dos telhados, não aguentava mais esperar.
Explodiu, em milhões de folhetins que emanavam amor.
Amor de coração aflito, amor de não correspondência. Amor de fim. Amor de amar, amar tanto, que em seu corpo, morreu de amar mais do que pôde.

sábado, 28 de março de 2015

Acha Que A Sua Indiferença Vai Acabar Comigo?

Eu sobrevivo, eu sobrevivo!

Polônia. Tempos difíceis, todas as pessoas consideradas indesejadas estavam indo embora para terras quentes, infestadas com o odor da novidade, do fervor da fuga. A saída sorrateira do país desencontrava amores, despistava amantes. Numa casa, não muito longe do centro de Varsóvia, uma mulher suspirava. Lia e relia a única carta do amado, com o perfume quase se esvaindo do papel, letras borradas das lágrimas que ambos derramaram naquele frágil pedaço de papel, cheio de promessas e saudades.

Rosa, tão bela Rosa. Tive que partir, e você sabe minhas motivações. Deixo-lhe com um aperto no peito, beijos em tuas mãos e com dissabores na vida. Prometo-lhe notícias, em breve, da carta que precisas para deixar o país, e vir, finalmente, me encontrar. Ansiosamente, aguardo-te e sonho contigo todas as noites. Porém, a vida nos trópicos está me fazendo bem. Quase não se vê sinal das minhas tosses. Estou empregado, trabalhando na fábrica de alumínio. Moro com mais dois homens e um apartamento na periferia do Rio de Janeiro. Não é lugar para moças como você, e, francamente, para nenhum ser humano. Espero que quando estiver tudo certo para sua vinda, eu possa nos dar mais conforto em uma casa própria.
Cheio de amor e saudades,
Sempre seu
S.


Quase seis meses fazia que tinha recebido essa carta. Depois disso, não mais teve sinal da existência dele. Durante a noite, imaginava torturas terríveis, prisão perpétua, morte. Temia tanto por ele que seu coração doía vinte e quatro horas por dia. Há tempos havia resolvido resolver os seus problemas de imigração sozinha, e estava decidida: mês que vem, partiria para o Brasil. Conseguiu a carta, os documentos, tudo. E, apesar de não ter nenhuma certeza a esperando no Brasil, iria. Se jogaria no mundo. A cada dia, estava mais difícil ficar naquele país gélido e problemático. Ansiava, apesar de não admitir, encontrar-se com Sulick. Por mais que ele não mandasse nem sinal da sua existência, seu âmago tinha necessidade de vê-lo, tocá-lo, amá-lo.
O dia chegou. Agarrou seus parcos pertences, jogados em uma mala média, juntou os documentos e embarcou no barco pesqueiro (o que tinha dinheiro para pagar), rumo ao Brasil. Após mais algumas semanas de viagem, pisou em solo brasileiro. Sozinha, quase sem dinheiro, e com o suposto endereço de Sulick nas mãos, se jogou nas ruas do Rio. Caminhou por horas quase sem rumo, tentou trocar seus trocados por dinheiro brasileiro sem sucesso, e conseguiu carona para o distrito periférico industrial. Apesar dos pesares, seu coração batia freneticamente, empanturrado com a perspectiva de encontrar o cheiro conhecido do colo de seu amor. Ao chegar, só o que invadiu suas narinas foi o odor de esgoto e fumaça, que a deixou tonta. Perguntou por Sulick para várias pessoas, até, finalmente, encontrar alguém que o conhecia.
- Ele costumava morar ali, com mais dois rapazes. Se mudou faz um mês, pra uma casa mais perto da cidade. Diz-se que casou com moça rica. -
Casou? Como assim, casou? Com alguém que não fosse ela? Seu coração, antes abarrotado de esperança, quebrou e espremeu de si todo e qualquer sentimento bom. O moço que deu essa informação, deu também o tal endereço e ofereceu para levá-la. Ela aceitou, e foram. Várias imagens mentais perpassaram a cabeça dela. Uma moça de véu e grinalda, um moço de terno e gravata, casando. O moço era ele, mas a moça não era ela. Sem que percebesse, chegaram a uma casa modesta, não tão longe dali.
- É aqui. Pode descer. -
- Obrigada! -
Assim que desceu do carro, portando sua mala semi vazia e um semblante desconsolado, o veículo se distanciou e se viu parada na soleira da porta de um antes conhecido. Passou meia hora encarando a maçaneta, a porta, os degraus... E bateu. Poucos segundos depois, uma mulher sorridente abriu a porta e a encarou, levemente confusa. Óbvio que estava confusa. Estava olhando para uma moça quase cadavérica, com o cabelo escondido por um lenço, uma mala nas mãos, roupas maiores que seu tamanho e quentes demais para o clima da cidade que estavam, e com ar de tristeza.
- Pois não? -
- O Sulick se encontra? -
- Se encontra sim, quem deseja? -
- Rosa. -
- Gostaria de entrar? -
- Não, obrigada. Gostaria que ele viesse até aqui, se não for incomodar demais. Eu aguardo em pé. -
A moça desapareceu corredor adentro, visivelmente perturbada. Rosa não se via no espelho há muito, mas tentou ajeitar os cabelos, mesmo que cobertos pelo pano, e passaria um batom, se fosse possuidora de um. Tentou sorrir, mas sua boca só projetou um esgar cínico e cansado. Nos poucos instantes que passou plantada ali, pensou que, apesar de tudo, ainda queria sentir o corpo dele roçando no dela. Sentir a graça que era quando ele a abraçava. Ao aparecer na porta, ela não viu seu namorado. Viu um homem completamente mudado. Deixou a barba crescer, usava bermuda e parecia mais gordinho. Parecia feliz.
- Pois não? -
- Sulick? Sou eu! -
- Rosa?! -
- Sim. -
Os dois permaneceram em silêncios sepulcral, se encarando. Ambos mudaram muito. E se estranhavam.
- O que você está fazendo aqui? Como conseguiu sair da Polônia? -
- Vim procurar você. Senti tua falta -
- Bem, também senti a tua falta. Mas há de convir que é quase impossível se relacionar a distância. Foi aí que conheci Ana. O pai dela era meu vizinho, e nos demos muito bem. Aluguei essa casa com o dinheiro que juntei do trabalho da fábrica, e agora somos casados, como pode ver. -
Seus olhos se encheram de lágrimas. Tentou controlar a cólera e a dor que sentia emergindo da sua alma, mas foi inútil.
- Era isso que você estava fazendo quando eu estava juntando dinheiro pra conseguir vir pra cá? ERA ISSO, SEU ESCROTO? -
Não costumava falar palavrões, muito menos gritar. Ele se espantou.
- É dinheiro que você quer? -
- EU QUERO É QUE VOCÊ VOLTE PRA O QUINTO DOS INFERNOS, SEU FILHO DA PUTA! -
- Não sou obrigado a te escutar balbuciar impropérios na frente da minha casa. -
E bateu a porta na cara dela, que continuou gritando por alguns minutos. Desconsolada, sentou na soleira daquela porta. Não fazia a menor ideia de para onde ia, onde ia trabalhar, o que ia comer. Perto dali tinha uma pensão de moças, acabou descobrindo ao vagar pela região. Prometeu pagar assim que tivesse dinheiro, apesar de não saber onde obter algum. Deixou seu dinheiro não trocado como garantia. Algumas semanas depois, fatigada de uma rotina enfadonha e metódica, conseguiu pagar o quarto que estava dividindo com uma moça da vida. Sentia-se fraca, exaurida e quebrada. Trabalhava todos os dias por mais tempo do que gostaria, e depois se limitava a ler os mesmos livros que trouxera consigo da Polônia e a aprender a balbuciar português. Aos poucos, foi aprendendo. Não só a falar e escrever em um idioma completamente diferente, mas a viver a vida de um modo que não exigisse que ela se sentisse uma merda.
Indiferença nenhuma iria acabar com ela. Sobrevivente, era essa a palavra. As vezes, chegavam notícias da Polônia. Assim, descobriu que sua decisão de se mudar para longe fora acertada. Não estava nada boa a situação da sua terra pátria. Fazia um ano desde que havia se mudado, tinha sido promovida no trabalho, apesar de ainda ganhar muito mal. Ao menos, tinha um quarto privativo na pensão, e um colega a havia chamado pra sair. Era uma nova mulher. Ganhou alguns quilos, estava mais corada.
Mais dois anos se passaram, e estava casada com o dito cujo do encontro, a espera de um filho. Se mudara para a casa dele, e não podia estar mais feliz. Pensava, ainda, em Sulick. Seu marido também era polonês. Viviam bem, ele dirigia uma fábrica e tinha dinheiro de família. Quase não mais se lembrava das condições que chegou ao país, só de Sulick.
Criança nasceu. Uma linda menina. Joana.
Joana crescia a olhos vistos, e, aos 15 anos, veio com seu primeiro namorado para casa. Samuel, era seu nome. Também vinha da casa de uma boa família de judeus poloneses, e era colega de escola. Rosa o achava encantador, e tratou de convidar os pais do menino para um almoço em família. Marcou para dali uma semana, e Joana era só felicidade. Rosa, porém, guardava um segredo em seu coração: Sulick. Passou a semana se distraindo com os preparativos do almoço, que deixariam a filha feliz. Domingo chegou, e com ele, os pais de Samuel. Campainha toca.
- Eu abro! -
Joana grita, da sala. Sai correndo, cumprimenta os sogros, o namorado. A mãe sai da cozinha, com um sorriso no rosto, prestes a cumprimentar todos também. Engole em seco. Eis, que no corredor de sua casa, se encontrava seu maior terror.
- Olá, Rosa -
- Olá, Sulick. -
Se encararam longamente, e se afastaram. Cumprimentou Ana friamente, e teve o almoço mais insosso e horroroso da sua vida. Foi silencioso, rápido e traumatizante. Passou o almoço com uma cara amuada, e quando o marido perguntava se havia algo de errado, se limitava a murmurar que não. Quando foram embora, depois de uma sobremesa sublime (que para Rosa, não teve gosto de nada), ela se recolheu no quarto para confrontar suas emoções. Sua filha. Namorando. O filho. Da pessoa mais deplorável. Não estava conseguindo processar. Só esperava que fosse passageiro, por que não iria proibir nada, não ia negar amor para o único amor que ela tinha na vida, sua querida filha.
Não foi passageiro. Joana e Samuel se casaram. Rosa vive, até hoje, com um buraco no peito em todos os almoços de domingo. Tem netos, vários netos. Seu marido não suspeita, e ela se tornou profissional em fingir.

- Entendeu, minha filha? Essa é a história da minha vida. -
- Entendi, vó. -

Neta e vó guardaram o segredo dentro delas. Uma, com curiosidade, outra, com pesar.

domingo, 22 de março de 2015

Vamos Ser Carnaval



Bêbada, em uma festa. Avistou o ex, tomando uma cerveja no canto. Muita coisa havia mudado desde que o relacionamento se acabou, mas a principal delas foi a descoberta sexual da moça em questão. Estava infernalmente incomodada com a presença daquele corpo estranho ali. Não por ser seu ex(talvez um pouco por isso, sim), mas por que durante todo o namoro dos dois, ele se recusava a sair de casa por meses e ficava fazendo seja lá o que fosse naquele maldito computador. Gostava, inclusive, de frisar que sentia-se incomodado com os amigos dela, por não se sentir a vontade perto deles. Pois bem, lá estava o infeliz em uma festa com quase todos os amigos dela, bebendo, conversando e sendo sociável. Em um ano e nove meses de relacionamento, não fez isso a pedido dela nenhuma vez. Porém, não ia deixar-se irritar.
Estava determinada a abordá-lo e falar sobre algo que estava entalado na sua garganta: o fato de ela ser lésbica. "É, sabe todas aquelas vezes que eu não tive tesão? Que eu não quis mais transar, que eu preferi dormir a te chupar? Bem, acontece que isso tudo tem um motivo muito bom. Me sinto sexualmente atraída por mulheres. Mas só por mulheres."
Ela pensava nas maneiras mais sutis de se abrir. Afinal, ela mesma demorou pra perceber que o sexo estava mecânico, que a atração física era quase nula, e que o problema não era só que o amor estava arrefecido e o relacionamento desgastado: era sua sexualidade. Levou mais umas transas insignificantes com homens aleatórios, alguns considerados bons de cama, outros verdadeiros poços de incompetência aliadas. Além de atrações físicas incontroláveis e sexo com mulheres fantásticas para ela se tocar que homem não era a praia dela.
E lá estava, sem saber como chegou, parada na frente dele, segurando um copo de cerveja que ia cair a qualquer momento, apoiada na bancada da cozinha e encarando-o nos olhos.
- Então, precisava muito falar com você. - Estava se esforçando para não rir, por que não queria que parecesse que era puro deboche. Mas era debochada. E bêbada.
- Pode falar, querida -
- Então, nesses últimos tempos, reparei uma coisa nova em mim mesma. -
- O que? -
- Eu gosto de mulheres. Mas só de mulheres. Sou uma grande sapatão. - Fixou os olhos na expressão dele, esperando qualquer tipo de reação.
- Isso torna minha confissão bem mais fácil. Eu também gosto de homens. -
Fazia todo o sentido. Não deu certo por que não podia dar certo. Simples assim. Isso não só tirava o peso da culpa de um namoro frustrado e acabado com gosto de quero mais (digo, ela quereria mais se ele fosse mulher e ele quereria mais se ela fosse um homem), como a fazia se sentir muito melhor consigo mesma. Ele também era gay.
Com os olhos cheios de lágrimas, abraçaram-se. Ainda dividiam ternura, afeto e todas essas coisas que ficam depois que o fim se instala dentro da alma.


domingo, 15 de março de 2015

Shine

Luzes piscavam.
Pisca. Pisca. Pisca.
Seus sentidos piscavam com a intensidade de dois mil voltz.
Percorrendo seus corpos juvenis, cheios de vida e lotados de substâncias ilícitas.
Sabia que estava errada
Que estava sobrevivendo de luz, que vivia piscando.
Inconstante, cheia de vida.
Mas de coração partido, e na mão.
Batendo.

sábado, 14 de março de 2015

Sobre Amada, Amanda.

Uma vez, saí a noite, uns 4 anos atrás.
Conheci uma mina, interessante, inteligente, bonita.
Amada, Amanda.
Agora, quatro anos depois,
Continua sendo tudo isso,
Mas minha amiga, amante, amada.
Não é uma poesia, que não sei fazer
É só uma verdade, de saudade e felicidade
Por te conhecer, e você me gostar.
Parabéns.
Pela pessoa que você é, pelas coisas que você faz
Por ser.


Mas sério, você é incrível, miga. Queria fazer uma poesia, mas não sei fazer poesia. Sei escrever de maneira razoável, então acho que conta como homenagem, né? Feliz aniversário, feliz vida! Te desejo tudo de bom, hoje e sempre. Que nossa amizade viva por mais 4 anos, e que se recicle por infinitos múltiplos de quatro.

Mas Eu Nunca Sei Rodar

"E cada passo que eu ia dando nessa dança, ia perdendo a esperança..."

Encontrei-a no primeiro dia. "Que linda!", pensei comigo mesma.
No segundo dia, não a vi.
No terceiro dia, a noite, na praia, lá estava. De mãos dadas com outra mulher, que não eu.
Desencanei momentaneamente. Virei minha cabeça para outros lados, outras pessoas, e para a lata de cerveja que ocupava espaço na minha mão. Para a roda de samba que ocupava o centro da festa.
A avistei de novo, compenetrada em bater no bongô. Sorriu pra mim, e meu coração bateu mais forte.
Desceu pra praia. Desci também e sentei ao seu lado. Paraná. Ciências Sociais. Direito. Meu Deus, que mulher.
Definitivamente, que mulher.
Começamos a esculpir rostos na areia, o dela duas vezes melhor que o meu. Levantamos pra ir ao banheiro.
Lá, na beira da escada, nos beijamos.
Nos beijamos de novo depois do banheiro.
E de novo, e de novo.
Sete da manhã, hora de ir pra casa.

No dia seguinte, nos encontramos em frente ao prédio. Nos beijamos. Desejei boa sorte pra ela, e fui-me.

No último dia, nos encontramos no acampamento. Ela, dobrando suas roupas, eu saindo da plenária. Ajudei-a, e nos beijamos.
Parti para outras atividades, e antes que ela fosse, nos beijamos de novo.
Despedida gostosa, aos poucos, e com gosto de salgadinho.

Acabou-se, assim como começou. Pretendendo nada, esperando nada, mas de coração cheio.