sexta-feira, 27 de julho de 2012

O Rio de Janeiro Continua Lindo

Hoje, só de curiosidade, fui procurar os preços de passagem pra o RJ e descobri que não são tão exorbitantes assim. Dá pra ir e voltar com uns 900 reais. Eu sei que é bastante dinheiro, mas eu esperava que fosse mais caro. Óbvio que eu não estava olhando os preços das passagens de hoje, até por que hoje eu não tenho esse dinheiro, e nem tenho essa liberdade de simplesmente jogar tudo pra o alto e me mandar pra o Rio. Olhei os preços de dezembro e janeiro, de ida e de volta. Dava pra passar quase um mês andando pelo meu amado Rio com algumas das minhas pessoas favoritas no mundo. Outro fato óbvio: meus pais não vão me comprar nenhuma passagem pro RJ, por uns quatro bons motivos

Um: Sem dinheiro;

Dois: A viagem da escola pra Salvador vai ser cara (isso é, se eu for, né);

Três: Minhas notas estão um lixo;

Quatro: Eu muito provavelmente vou ficar até Dezembro no colégio fazendo prova final.

Eles tem ótimos motivos pra não me comprar passagem alguma, e eu compreendo bastante bem tais razões. Mas que eu queria ter dinheiro pra ir pra o RJ, queria. Estou me mordendo de saudades dos museus, dos teatros, da Lagoa, do Jardim Botânico, das pessoas (meus tios, minha avó, minhas primas), do ar que faz meu cabelo ficar menos feio (sim, fato verídico), de viajar, de sair desse lugar (sim, lentamente, porém de maneira eficiente, Natal está me sufocando), saudade até de pegar ônibus lotado por lá. Saudades do cheiro que a cidade tem, dos crepes que ficam perto da casa da minha avó, de sair andando sem o menor compromisso por Botafogo, da casa da minha avó, do centro da cidade, da Urca, de ver o cristo pela janela do escritório, de sentir o calor infernal de lá no verão e o frio interessante no inverno (até o calor de lá me incomoda menos), das pessoas nas ruas, dos bares na gávea, das saídas com minha prima, de tudo.

Aperta o coração quando penso nesse tipo de coisas, não consigo nem pensar com a devida clareza. As pessoas aqui estão cada uma indo pra um canto, e eu queria achar o meu canto. Talvez seja o Rio, com a sua violência e seu burburinho de cidade grande, mas com mais certeza a cada dia, não é Natal. Um Burburinho de luz, de conversas, de gente, de tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo que não dá tempo nem de respirar, mas uma agonia gostosa, até o trânsito é gostoso. Tudo que eu sei dizer e tudo que sai da minha boca é que o Rio de Janeiro continua lindo.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

We Will Not Let You Go

Hoje foi um dia daqueles. Eu fiquei em dúvida se me animava pra festa ou me entristecia por causa da despedida. Escolhi fazer os dois. Me arrumei, Flora veio pra cá, Jean e Hulft também, fui de queixo erguido e coração na mão. E consegui aguentar o choro, incrivelmente, até a metade da festa. Mas foi totalmente impossível não chorar com Lola cantando Tears In Heaven e você tocando. Qual é, fala sério, é golpe baixo. Eu sempre choro com essa música normalmente, imagina se tem motivo pra chorar? Eu sei que você é uma criaturinha irritante, mas que vai fazer uma puta falta nos meus dias, ok? Vou morrer de saudades, infinitas saudades. E daí que são só seis meses? Ainda vou me acabar de saudades, sua coisa chata. Fico só lembrando, sabe? Eu te acordando na aula, a gente fazendo piadinhas escrotas tipo o "delta face", incentivando discussões esdrúxulas sobre nada, rindo a toa, implicando um com o outro, você me ouvindo quando eu tô #bolada e vice e versa, aqueles segredos, aquelas conversas a luz do luar (sim, já estou contando com hoje e com o party hard), todo o seu apoio sempre que preciso em qualquer besteira idiota (mesmo que muito idiota), seus abraços toda manhã, você comendo minha comida, sua chatice matinal, suas cantadas de pedreiro nos boes da sala, suas piadinhas sem a menor graça, suas piadinhas cheias de graça, seus foras monumentais, sua revolta de semana literária, ALFREEEEEEEEDO <3, enfim, todo o nosso amor que sobreviveu todos esses anos, apesar das suas insinuações frequentes sobre certas atividades supostamente ocorridas em uma pia. Isso tudo foi só pra te fazer chorar mais um pouquinho e levar com você um pouco da saudade que eu vou carregar no peito, tá? Muito boa viagem, ótima estadia, que os amerigordos não pratiquem bullying com você, e muito amor pra você levar até voltar, que por aqui você tem as fontes. Sim, no plural, acho que posso te chamar de um dos meus melhores amigos, mesmo que você aperte minha cara e me chame de guei. Apesar de todo o meu sono e cansaço, ainda vou ver weeds e precisava escrever todo esse texto guei pra você ler, por que eu sou chata a esse ponto <3
No final das contas, é tudo pra dizer que já tô com saudades, que te amo, e que se você arranjar uma chata mais chata que eu por aí e tentar me trocar, eu vou cortar a sua cara.

PS: Olha esse link: http://www.youtube.com/watch?v=xsWh4YaD3HE

E é bom você cantar quando voltar.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

I Think I'm Ready

Mudanças. Taí uma coisa que me assusta, de uma forma que eu nem sei explicar. Meu sonho de vida é cursar Comunicação Social na UFRJ, mas só de pensar em ir pra lá ano que vem, fico nervosa. Gostaria muito de passar um ano em um intercâmbio qualquer, ou em Israel, depois do vestibular, mas cogitar a possibilidade me enche de medo. Até cortar meu cabelo é uma mudança que me assusta, em alguns níveis. Esse vai ser um ano de mudanças, e daquelas que não dependem em nada de mim. Muitos intercâmbios (Ceci, Guz, Leo, Uchôa, Flora, Arthur, Will, os gêmeos, Vini, Isly e muitos outros), muitos namoros inusitados e completamente inesperados, muitos vestibulandos que pretendem partir, paixões recém adquiridas indo embora sem data pra voltar. E tudo isso independendo completamente de mim, que fique claro. Por que se dependesse mesmo da minha pessoa, todos iam morar no meu quarto, só sentindo o meu amor e vice-versa.

A verdade mesmo é que eu sempre fui medrosa, mas meu maior medo foi de mudanças. Medo de mudar pra pior. Não mudo nem o hidratante do cabelo, com medo de que o novo dê errado. Isso é uma característica engraçada, pra uma pessoa que vive em constante mutação, principalmente de quereres. Mudo de ideia com uma facilidade incrível, até eu me surpreendo. Em contraste, encontrei resistência dentro de mim em trocar o toque de mensagens do meu celular (apesar de que o mesmo sempre está no silencioso e raras são as vezes que o escuto tocar de fato).

Geralmente as coisas vão mudando lentamente, com a passagem do tempo, mas eu tenho esse problema de, além de ser muito contraditória, não gostar das coisas paradas. Sempre tendo a mexer no dia-a-dia pra não me sentir parada, só que as vezes eu sinto como se tudo isso não fizesse o menor sentido. Estou fugindo do foco de tudo. Mudar é bom, todo mundo muda, nem sempre pra melhor. Eu mudo de roupa todos os dias, mudo de esmalte toda semana, mudo de amores, mudo de vontade, mudo de saudades, mudo de vida. Mudar, ainda assim, é assustador. Tem sempre alguma coisa, algum porém, que por menor que seja, me faz repensar todo o meu movimento de mudança.

Ainda assim, não consigo não sentir um frio na barriga ao imaginar seis meses em um país estranho, me imaginar morando em outra casa no Rio de Janeiro, pensar em como eu ficaria diferente de cabelo joãozinho, mais magra, menos chata, menos rancorosa, mais aberta ao mundo, menos apaixonada pelas pessoas e mais pelo mundo. Algumas coisas não precisam necessariamente serem anuladas pra que outras possam mudar, mas outras, infelizmente não tem jeito. Boa viagem pra os intercambistas e boa sorte pra mim, que fico aqui, ainda com medo de mudanças.

No Escape From Reality

Depois de descobrir um dos únicos lugares nessa cidade que vende Skittles (se não o único) e ver um monte de pessoas bebendo vinho e comendo frutos do mar em uma degustação das ostras do meu pai, voltei pra o meu apartamento e finalmente consegui beliscar alguma coisa. Tomei um banho, me vesti e fui pra casa de Flora, onde encontrei uma Caty Perry agressiva debaixo do cobertor, uma Flora de pijamas (do Harry Potter, vale salientar), e muitas risadas após uma visita engraçada ao orkut. Comemos e nos arrumamos pra a festa de volta ao Brasil de Vitória, a Festa da Lhama.

Uma vez na festa, comemos mais (sim, eu sou uma baleia obesa) e rimos mais. Eu e Flora fomos em uma empreitada até o posto a procura de doces. Ficamos perto da piscina, rindo e discutindo maneiras interessantes de incomodar Gustavo, fantasias, paixões, comida, piadas e música ruim. Até conseguimos comprar uma briga estilo Guerra Fria com uma galera que insistia em colocar forró trash pra tocar. Depois de muitas conversas sobre o novo movimento encabeçado por Arthur (movimento anti-caralhista pró poder da florzinha), rumamos ao Jazzy, eu, ela e João.

Ao chegar no tal local, encontramos Halls e Beto, mas fomos barrados por sermos menores de idade. Pegamos um ônibus e fomos parar no Hells, onde fui interpelada por uma ligação de Victória, perguntando-me se eu ia fazer algo. Chamei-a pra o Hell's. Muita cana depois (só que não) e papos filosóficos sobre vidas futuras, eu cheguei a conclusão que eu tenho muito medo de mudanças. De mudar pra pior, de me metamorfosear em algo indesejável (mais do que eu já sou). Aproveito pra expressar meu amor por essas férias, que foram inesquecíveis. Fomos responsáveis por conversas chulas, engraçadas, idiotas, interessantes, difamatórias, e de caráter importante. Também fomos responsáveis por diversas empreitadas ao posto a procura de doces, isqueiros, comida, bebida, e outras coisas mais. O fato é que Mika estava certo nessa coisa toda: We are not what you think we are, we are golden, we are golden. E foda-se a polícia.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Blackbird Singing In The Dead Of Night

Deitado na cama. Não conseguia, de maneira alguma, encontrar uma posição confortável pra dormir. Já eram quase cinco da manhã. Suspirou. Os únicos barulhos eram do ar condicionado, da sua respiração, e do vizinho de cima, que aparentemente tinha insônia. Ficava refletindo sobre as comédias românticas que já fora obrigado a ver, e como elas sempre davam um jeito de dar certo com aquela mulher esquisita que o personagem conhecia em algum lugar inóspito e absurdamente clichê ao mesmo tempo. Quando se levantou, não muito tempo depois, pra se arrumar, lembrou do cheiro das coisas as quais ele não sentia mais o cheiro. Lembrou das coisas as quais ele não via mais. Saudade. Era essa a palavra. Conseguiu, por tempo o suficiente, manter as borboletas no estômago.

Depois de mais uma noite em claro, sentou-se na beira da cama, esperando que alguma coisa acontecesse. Bocejou, apesar da clara falta de sono. Estava com um pressentimento estranho, novo, de que tudo ia dar certo. Não gostava muito desse pressentimento. Geralmente significava que ela estava errada, e que ia cair escada a baixo, e ficar lá, de tapete, no chão, por algum tempo. O sol ainda não tinha surgido, e ela sentia que foi assim por tempo o suficiente para que esquecesse de como era interessante quando ele saía e deixava todo mundo com calor, as vezes insuportável, mas melhor que o frio.

Conseguiu passar o dia sem pensar em nada relevante, se é que isso era possível. Foi isso que a vida dele se tornou? Uma massa disforme e sem muito sentido? Quem dera algo acontecesse.

O otimismo a estava comendo por dentro. Era hora de parar, antes que fosse tarde demais. Online no chat, e ela deu pulinhos. Merda. Era tarde demais.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

With Or Without You

Fechou o zíper da mala, após tê-la aberto pela quinta vez. Não sabia para quê tanta cautela, eram só dois meses. Dois meses fora da sua zona de conforto. Enquanto arrastava as malas em direção a porta, pensava no que a fizera ir. Estava tudo constantemente nublado, sem nesgas de sol. E cansara de tentar, desesperadamente, que gostassem dela, de fazer as coisas darem certo. Quando alcançou o térreo, depois de quinze andares no elevador, colocou os óculos escuros. Arrastou as malas pra dentro de um táxi relativamente decrépito, que a levaria rumo ao seu novo destino. Tentou não pensar em nada enquanto a paisagem lá fora corria pelo seus olhos, mas era inevitável. Lá estava o café que ela não quis ir com o ex namorado. E por ali, o shopping de tantos almoços. Em uma esquina, um açaí, palco de confissões e encontros após as aulas de inglês que ela não frequentava mais. Muitos prédios e casas conhecidos, lugares de visitas agradáveis e desagradáveis. Passou pelo colégio que estudou a vida toda, e não conseguia decidir se dizia obrigada ou cuspia na calçada de lá. Alguns bares passageiros, algumas casas de show, todas muito presentes na sua adolescência. Mas estava cansada de ser a adolescente incompreendida, perdida, que pedia constantemente por perdão por algo que não havia feito, que caía e sempre precisava de uma mão para levantá-la. Não queria mais ser aquela pessoa que era encontrada chorando trancada em um reservado no banheiro da escola. Precisava arejar. Abriu a janela do banco de trás do táxi, o máximo que pôde. Parecia que antes de ir embora, ele a estava levando para ver tudo que ia perder, e tudo que já estava perdido, acabado, enterrado, bom ou ruim. Passou pelos lugares que beijou meninos. E que beijou meninas. Pelas casas de festas que conheceu pessoas, pelas ruas que andou ao longo dos anos, em busca de algum sentido, em busca dela mesma. Quem sabe novas ruas não precisassem ser percorridas no lugar que ela estava indo? Quem sabe novas batalhas em busca de si não precisassem ser travadas? Quando finalmente chegou no aeroporto, e fez o check-in, não havia dúvidas: era isso que queria, era assim que ia ser. E por que não fazer disso uma decisão permanente? O bom do permanente é que nunca é imutável. Ao entrar no avião, e ouvir as instruções de segurança pela milhonésima vez, sorriu consigo mesma ao ver uma nova perspectiva. Tudo que havia de ser esquecido, seria. E tudo que havia de ficar no coração, ficaria. Só ele, que nem te nota, que você não faz ideia de onde colocar. Enquanto o avião subia, uma conhecida música entoava na sua cabeça: "tristeza não tem fim, felicidade sim".

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Just Remember I'll Be By Your Side

Tão jovens. Corriam pra lugar nenhum, sorriam por motivo algum, e deitavam na areia branca da praia por que o sol já estava pra nascer. Depois de umas cervejas, tudo ficava mais interessante, até rir de nada. Rir sem motivo, rir sem por que. Se a vela apagou por dentro, ainda existe um semblante pra sustentar. Danças sociais aparentemente frenéticas, cobertas com um pano quente pra amparar suas lágrimas. Triste, triste. Ela estava triste. Vendo a chuva cair na janela, semi absorta nos seus problemas de relacionamentos amorosos (o problema principal é que eles eram inexistentes). Gostava de ver como caíam as gotas no chão, bem pequenininhas, do oitavo andar. Se imaginava caindo lá de cima, que nem as gotas. E, assim, de repente, a dor se tornava tolerável.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Agora Você Nem Me Nota

Depois de uma conturbada manhã no sofá, duas horas de aula nas férias, e muito resmungar, resolvi que estava na hora de ir pra casa de Flora. Antes do escurecer, consegui chegar. Depois de brincar com a Caty Perry (nome criativo pra uma gata mascarada), ficar no pottermore, comer mousse de maracujá (no caso eu, por que sou uma gorda e me orgulho), e atormentar a vida da Caty com o espirrador de água, fomos intimadas a nos arrumar com rapidez, por que a mãe de Flora estava chegando. Corremos, nos vestimos, e fomos capazes de nos arrumar em tempo. Ao chegar no bar (que por acaso se chamava Eletro Cana Rock), encontramos poucos conhecidos. A medida que as pessoas iam chegando, o barulho ia aumentando e mais gente conhecida aparecia (inclusive a banda que ia tocar). Margot e Flora estavam com fome, e eu, bem, eu estou sempre com fome. Fomos em um barzinho suspeito (depois de um interrogatório dirigido a Iuri sobre como ele conseguiu água), que tinha uma estante cheia de cachaça barata, coca-cola, guaraná, pastel de forno e enroladinhos. Eu e Flora optamos pelo enroladinho, mas Margot teve o azar de comer o pastel, que segundo ela, estava nojento. Voltamos a tempo de vê-los tocar, não sem antes sermos obrigadas a deixar nossas latinhas de coca gelada lá embaixo, por que no bar não eram permitidas latinhas. Adentramos, mais uma vez, o corredor escuro digno de filme de terror que levava ao bar, e nele encontramos um Lucas disposto a assustar uma já assustada Flora. Depois de ficar no corredor durante uns minutos, voltamos ao bar absurdamente abafado (que nem todos os da Ribeira). Começaram a tocar, e tocaram tão bem que em alguns minutos, eu me surpreendia em ouvir a voz de Lucas, e não do Eric Clapton. Apesar dos problemas com a bateria e o microfone, a banda foi fantástica. Quando tocaram Wonderful Tonight, Flora, que por ventura estava mais alta que eu, pois se encontrava em pé em um simpático sofá feito de madeira, tinta e pneus usados, me abraçou, e dançamos a música inteira, aquela dança calma, aquele gingado de um lado pra o outro que se faz em músicas lentas. Uma vibe totalmente amorosa, só amor. Muito amor pra ser verdade, a polícia chegou. E o problema era a hora e o som. Mesmo que o bar estivesse vendendo álcool pra menores, o problema era o barulho. Coisa estranha, já que na Ribeira (bairro previamente mencionado em alguns textos) sempre rolou som até tarde. O show foi cortado ao meio, e como as melhores músicas foram deixadas pra o final, nunca chegamos a ouvi-las de fato. A cortada abrupta da diversão, do amor, da música me deixou atordoada. Os policiais foram simpáticos, gentis, gente boa. Avisaram pra galera que tava bebendo e ia dirigir pra ir pra casa logo, por que lá vinha o bafômetro, se desculparam com as bandas que iam tocar depois, e nos expulsaram gentilmente (na verdade, só cortaram o som. Com isso, nos sentimos expulsos e descemos a escada irregular). Com todos os poréns, foi aquele tipo de energia que não dá pra tirar do corpo por muito tempo, que fica perpassando as veias, que nos faz sorrir e lembrar. Obrigada pelo show, obrigada pelo dia, e boa noite Natal.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Hold On To Your Kite

Dia 17 de julho de 2011 foi um dia triste. Acordei ao som de risadas infantis, mas não tinha nada de feliz. Levantei da cama em choque, andei até o banheiro sem conseguir derramar nenhuma lágrima. Me olhei no espelho. Cabelo desarrumado, olhos pesados, maquiagem da noite anterior ainda borrada da discussão quase decisiva que tive com o agora ex namorado. Roí minhas unhas. Sentei no chão do banheiro, de costas pra a porta, ainda sem derramar nenhuma lágrima. Tirei a blusa grande dos Beatles que usava como pijama e me enfiei embaixo do chuveiro, sem ligar a música do celular. A única coisa que me vinha em mente era o hospital. Estive no hospital antes. E disse pra ele que ia dar tudo certo, embora ele não pudesse me ouvir. Depois de sair do banho pesarosa, e vestir a mesma blusa, saí do banheiro. A atmosfera lá fora era diferente. Uma mistura de alegria infantil e pesar adulto. Acho que foi nessa manhã que eu cresci. Minha tia e minha prima estavam sentadas no sofá, conversando. Minha outra prima, aquela que não sabia usar palavras de gente grande, brincava no tapete com suas princesas e carrinhos cor-de-rosa, sem saber o que se passava a sua volta. Minha tia decidiu que nos faria bem sair para o salão. Por que se não dava pra mudar por dentro, pelo menos dava pra mudar por fora. Fizemos unhas e cabelos, e eu ainda não tinha conseguido derramar nenhuma lágrima. Saímos de lá e fomos ao supermercado. Compramos todas as coisas necessárias pra muitas pessoas comerem juntas e em silêncio. Voltamos ao apartamento, e eu ainda não conseguia derramar nenhuma lágrima. E as pessoas chegaram. Minhas outras tias, meu tio, e minha avó. Só quando eu vi minha avó, parada, deslocada, e com tanta tristeza nos olhos é que eu tive o primeiro impulso de chorar. Me segurei. Almoçamos tarde, num silêncio distante e confortável. Ao menos, mais confortável do que as palavras. A noite, depois de mais uma refeição silenciosa, sentamos-nos no sofá, todos juntos, para fazer as fatídicas ligações e avisar aos parentes e amigos mais próximos que o fim, infelizmente, tinha chegado. E foi aí que eu derramei, pela primeira vez, minhas lágrimas. Daí em diante, foi difícil de parar. Faz um ano, e ainda é difícil de controlar. Nos abraçamos, no intuito de parar de chorar, mas acabamos derramando mais lágrimas. Pelo menos sabíamos que a família ia se apoiar pra sempre, e era isso que nos manteve lá, indo. Minha avó acabou-se em lágrimas, e fomos abraçá-la. Foi dormir no quarto da minha tia, e nós ficamos na sala, tentando tapar os vazios com uma peneira. No dia seguinte, todos nos vestimos em um frenesi. Não um frenesi alegre, só uma euforia triste e pesarosa, e a sensação de que algo precisava ser feito. Ninguém usou preto. Nos enterros judaicos, em homenagem ao morto, os irmãos e esposa tem um pedaço das suas blusas cortadas, portanto, meus tios e minha avó usaram blusas mais simples. Chegamos cedo, antes das pessoas chegarem. E eu não sabia o que fazer ali. Minha avó sentou no cômodo que estava o caixão, simples, preto, tendo como único adorno uma estrela de Davi dourada, como lembrete de que a morte iguala a todos. Sentei-me com ela, mas não consegui ficar por muito tempo. Sentei lá fora, em uma sala aberta, mas também não fiquei muito tempo. Os homens foram chegando com as suas kipás, as mulheres com suas roupas modestas, e tudo que eu conseguia pensar era em como eu queria que nenhuma daquelas pessoas estivesse ali. Contive minhas lágrimas. Algumas pessoas me reconheceram, mas a maior parte delas não me via desde que eu era uma criancinha barriguda que andava de vestidos floridos por aí. Com o tempo, fui reconhecida. Apesar de desejar estar sozinha, socializei com os amigos da minha tia, com os amigos do meu falecido avô, com o meu outro lado da família, que foi lá pra prestar condolências. O celular do meu tio por parte de pai ficou a minha disposição, e eu precisava usá-lo urgentemente. Tentei ligar do meu, mas a falta de créditos não me deixava completar a ligação. Eram oito da manhã de um dia de férias, mas ainda assim fiquei extasiada de tê-la acordado. Um dos meus portos seguros me atendeu, me acalmou e chorou junto comigo. Depois disso, pude levar as coisas com mais calma. Ainda de olhos marejados, seguimos ao cemitério. O cerimonial aconteceu, as blusas foram cortadas, lágrimas derramada. Quando chegamos ao local de descanso eterno do meu avô, cada um jogou uma pá de terra. Fomos almoçar em grupo, afim de despistar a morte de nossas casas. As lágrimas foram contidas continuamente, e comemos profiteroles. Dormimos todos juntos, lembrando da união que nos manteria ali. Ao pisar na casa do meu avô, procurar em todos os cômodos e perceber que ele não estava mais ali, derramei mais lágrimas. Parecia que tinha um pedaço faltando, uma cadeira vazia, uma rotina desfalcada. O amor que sentimos por ele é imenso, e só cresce. Os dias foram negros depois que ele se foi, mas continuamos segurando as pontas. Obrigada, vô, por ter sido esse avô incrível que você foi. Vou te guardar comigo pra sempre. Depois de quase um ano, estou conseguindo começar a me reconstruir. Descansa e não esquece que eu te amo. Essa data de cima é um palpite, contando da data que eu cheguei até o tempo que você se foi. Você se foi, mas eu ainda te amo.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Le Chariot

Me permitir fugir do que é a realidade passada na cara, esfregada e cansada de me dizer que não. Que não fizesse, que não fugisse, que encarasse. Por demais inútil, continuei correndo atrás. Indo atrás do impossível, e me deixando embeber por algo incauto, inalcançável, incerto. Mas de que serve a vida se não há espaço para fantasia? Que serve esse corpo de alma e carne se não há lugar para o obscuro? Com um senso mais apurado do que gosto ou não, sinto-me mais difícil de apetecer pelo raso, pelo inculto, pelo pouco ou pelo menos. De tanto sentir e ser liberdade, acabou transformando-se em libertinagem. Queria voltar a conseguir manter tudo junto, manter a cabeça erguida. Mas mudou. Não por que quis, mas foi obrigada. Todas as suas crônicas foram resvalando pelo ralo, e sentiu-se impotente até para fazer o que fazia pra descarregar. Quando voltou a fazê-lo, tinha tanta coisa aprisionada, tanta coisa sua que precisava cuspir, que soltou, mas de uma forma verborrágica e confusa. E esse foi o tipo de pessoa que se tornou: do tipo verborrágica e confusa. Que foi forçada a desapegar, mas sente muita falta. Do amor que não jaz mais aqui, mas que foi pra algum outro lugar que pudesse fazê-lo feliz. E feliz era o que ela estava almejando ser. Foi pra outro lugar, e quem sabe, ser feliz.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Seu Chato

Óculos de grau avançado, bem colocados no rosto, diminuindo seus olhos amendoados. Sobrancelhas amenas. Olhar de compenetração no que estava fazendo, mas ao mesmo tempo, prestando atenção nos possíveis disparates que saíam das bocas ali presentes. Alto. Magro. Cabelos macios e escuros, pele morena e sorriso vitorioso, mas não irritante como os outros sorrisos. Cativante. Orgulhoso. Cabeça-dura. Seguia seu caminho ao som de Iron Maiden, com passadas largas demais para que ela pudesse acompanhá-lo. Gostava de conseguir o que queria. Era teimoso de um jeito que chegava a ser chato e irritante, apesar do grande amor que despendia quando achava que devia despender. Tirava notas boas em exatas, mas sempre foi uma negação em humanas. Romântico aparentemente incurável, não teve muitas namoradas. Duas meninas que o perderam por motivos distintos e imbecis. Lotado de sentimentos, que não deixa transparecer com facilidade. CORAJOSO (ele vai entender). Quando quer alguma coisa, faz por onde. Determinado. Incrivelmente chato sempre que possível, mas faz por amor. Tem como banda favorita Iron Maiden. Valoriza muito os amigos. Tem um caderno do piratas do caribe, que costumava usar pra Eucaristia. Gosta de cinema, futebol americano, música, do seu violão, de mim (me achando hehe. Mas nem gosta, risos), de animes, mangás, matemática. Não sabe usar propriamente todas as regras da gramática. Não bebe, e não é fã dos seus amigos bebendo. É super protetor, mas de um jeito fofo. Fofo, inteligente, interessante. Não é mestre em escrever cartas, mas me escreveu uma que eu ainda guardo na carteira. Atualmente está no último ano do ensino médio, e anda relativamente carente. Apesar de todo o amor que nutrimos por ele. Em suma, era discreto, simpático, bonito, e desejável. Um amor de pessoa. Quando queria, era um perfeito babaca. Mas eram raros momentos nos quais queria. Um enigma que se desenrolava na mesa, mas só pra quem prestava atenção. Uma constante, apesar de demasiado ausente. Curioso. Estressante. Conseguia incomodar como ninguém. Mas querido de formas que nem ele sabia imaginar. (É, Costa, eu escrevi o texto. Qualquer dúvida, pode me perguntar, coisa.)