quarta-feira, 14 de julho de 2010

Whistle For The Choir

"And I must confess, my heart's broken pieces and my head's a mess"

Estava completamente cheio dessas pessoas irritantes de nova york. Naquela porcaria de boate não tocava nenhuma porcaria de música decente nessa porcaria de noite idiota. Essa droga de música eletrônica só serve pra dar dor de cabeça, e estragar o que mestres como Hendrix levaram uma vida pra criar: música de verdade. E essas porcarias de pessoas que frequentam essas boates só se preocupam com coisas realmente irrelevantes pra todo o resto da humanidade, como as suas mini-saias e seus malditos carros de merda que tocam coisas como 50 Cent. Por que eu venho a esses lugares, então? Por dois motivos: O primeiro motivo é realmente muito simples: Eu não tenho vida social. Eu ando nessas boates por que eu não tenho praticamente nenhuma vida social, e ir lá com pessoas normais pra variaar deixa meus pais mais que felizes, já que eu estou fazendo algo normal. E o segundo motivo é realmente mais smples ainda: Não tendo vida social, eu não tenho nada pra fazer as sextas a noite, quando todo mundo sai. Portanto, eu me submeto a essa tortura quase que diária, por que, sejamos sinceros e nada modestos: Eu sou um aluno brilhante. E ser um aluno brilhante significa conseguir absolutamente tudo que eu quiser com meus pais. Portanto eu venho a esses lugares sempre que eu quiser. Não que eu goste de estar aqui, nem nada. Eu só não tenho nada melhor pra fazer. E antes que você me ache o maior bossal, deixa eu dizer uma coisa: Como eu não tenho vida social, eu estudo. Estudando, eu me transformo em um aluno brilhante. Portanto, isso é matemática básica. CARA, ESTÁ TOCANDO MUSE. PORRA, ESTÁ TOCANDO MUSE. FINALMENTE ALGO QUE NÃO SEJA UMA MERDINHA TOTALMENTE FABRICADA QUE NEM A PORRA DA BRITNEY SPEARS. Metade da boate fez cara de nojo, e saiu. AAAAAH, ELES SAÍRAM DA MINHA VIDA. FINALMENTE. Está tocando Supermassive Black Hole. Eu amo essa música. E parece que a garota que está em alguns metros de distância de mim e está gritando em plenos pulmões a letra da música também gosta de Muse. Mas isso é só um palpite. Não é como se eu fosse chegar nela e falar alguma coisa realmente idiota, do tipo "Hey, eu vi você praticamente estourando meus tímpanos cantando Muse. Será que você gosta dessa banda?" É tão ridiculamente óbvio que ela gosta de Muse que só um retardado cego e surdo não percebeu. E sabe do que mais? Eu não vou ser o retardado imbecil que vai chegar com aquelas cantadas de pedreiro nela. Não mesmo. E daí que ela é linda pra caralho, não está de mini saia, não é loira, não tem esses olhos azuis que, hoje em dia, qualquer um tem, não tem essas unhas obviamente falsas, gosta de Muse, parece ser realmente legal, e usa essas roupas muito legais? Tá, não existem muitas dessas pessoas por aí. Mas quem liga? Eu provavelmente só iria levar um fora de proporções endêmicas e iria pra casa, sozinho, deprimido pra caralho. Que porra, nem falei com ela e já estou deprimido.Eu devo ter algum problema crônico, sério. E claro, eu sou realmente um idiota pragmático, mas foda-se, o que eu posso fazer? Tá, talvez eu fosse simplesmente levar a porcaria de um fora, mas sinceramente? Who gives a shit? Eu fui até o bar, onde, graças a deus, eu podia beber um pouco. Eu estava realmente precisando de uma bebida. E cara, sabe qual a melhor parte? Eu posso beber. Não preciso ficar dando uma de boiola pra ver se o barman gosta da minha bunda ou coisa assim e finge que eu tenho vinte e um. Eu fiz vinte e um anos semana passada. Se foderam, otários. Será que tem tequila? Tem. Acho que alguém ouviu minhas preces. Porra, sete dólares um copinho do tamanho de nada? Foda-se, o dinheiro nem é meu, mesmo. Enquanto eu estava bebendo a minha tequila vagarosamente, por que essa porra custou sete dólares, ela se encostou no balcão e pediu alguma coisa na qual eu não prestei a mínima atenção. Provavelmente me fazer de difícil ou qualquer que seja a merda do tipo que as mulheres fazem não vai dar certo, já que ela parece ser o tipo de pessoa que está pouco se fodendo pra metade do mundo. E quer que a outra metade vá se danar. Portanto, eu me virei pra ela, e fingi que ia começar uma conversa. Eu não tinha absolutamente nada pra comentar sobre porra nenhuma. Eu não tenho vida, não tenho assunto, não tenho praticamente nenhum amigo. Tudo que eu tenho é uma porra de uma guitarra, umas partituras, e um carro. Digo, tudo que eu tenho de interessante. Também tem a minha coleção de CD’s, e minha biblioteca particular. Eu não sou a pessoa mais interessante do mundo, na verdade. Ela foi se afastando do balcão com um drink, e eu quis segurar tanto a mão dela, que o fiz, inconscientemente. E eu acho que foi a coisa mais estúpida que eu fiz a minha vida toda. Ou talvez não. Ela virou pra mim com uma cara meio enfurecida. Porra, ela era linda pra caralho. – Será que você se importaria em soltar a porcaria da minha mão pra eu poder voltar e ver as únicas músicas decentes que estão tocando a porcaria da noite toda? – CARALHO, ELA CONCORDA COMIGO, não acredito. – Então você gosta de Muse? – Coisa idiota pra se dizer, eu sei, mas eu não sou exatamente um expert nisso. Os olhos dela brilharam com uma intensidade do caralho, provavelmente admirada que eu não fosse um playboyzinho de merda que só estivesse querendo conquistá-la com o meu sorriso sedutor ou coisa assim. – É, eu gosto de Muse. E amo essa música. Minha mão, por favor. – Eu não sei o que deu em mim, sério. Eu puxei a mão dela para a pista de dança, a qual estava quase completamente vazia, e, sem mais nem menos, a puxei para uma valsa. Eu sou uma daquelas pessoas que deveriam sofrer uma lobotomia, ou ser tratado com tratamento de choque, por que eu vou te contar, eu tenho algum distúrbio BEM sério. Ela sorriu. Eu achei que ela ia me achar um retardado pombão que nem eu estou achando que eu sou, mas acho que ela achou fofo. Por algum motivo realmente escroto, Resistance parou de tocar, e começou a tocar Lil Wayne. Porra. Ela fez uma careta digna do momento – Caralho, boy, puta que pariu, VÃO SE FODER. – Ela gritou alto o suficiente pra a boate toda escutar, e depois ELA me puxou pra fora da boate, em meio a risos nossos. – Então, você agora supostamente vai me abandonar aqui fora e ir procurar um cara gostoso e interessante ou vai ir a pé comigo até algum lugar randômico que toque música boa? – Ela deu um muxoxo. – Você não tem um carro? Andar a pé é tão cansativo. AAAAAAAAh, mas eu gosto de andar a pé, posso dizer ao meu pai que fiz exercício, por que ir pra academia é igual ser embebida em óleo e jogada na frigideira, vou te contar. Sedentarismo é o que há. – Eu concordei com a cabeça – Eu tenho um carro, na verdade. Mas eu vim a pé, estava com uma preguiça quase mórbida de ir até um posto de gasolina, fora o fato de que eu sou pobre. – Ela gargalhou. Aposto que já tinha bebido umas. – Eu sou pobre, também. Digo, estou. Mamãe tirou meu carro depois que eu o bati a terceira vez. – Acho que estamos mais ou menos no mesmo barco, então.- Outra coisa idiota pra se dizer – Ah, é? Pra onde vamos, então, capitão? Haha, rimou. – Ela sorriu com a rima quase forçada que fez, e me fez sorrir também. – Não sei, é uma cidade grande pra caramba. Estamos em NY, poxa. Aliás, me diz seu nome? – Ela fez uma mesura demasiadamente exagerada, e sorriu. Tomara que ela não seja do tipo de pessoas que só sorri o tempo todo, essas pessoas me assustam pra caralho. – Meu nome? Rosemary. Odeio meu nome com todas as minhas forças, na verdade. Só consigo apelidos toscos com um nome como Rosemary Beatrice Winder. Winder, cara. Parece vento. E o seu nome, sweetie? – Ela sorriu de novo. – Meu nome é Andrew Leonard Graff Rabbit. Sim, meu último nome é coelho. Um tanto ridículo. Mas eu gosto de Graff, é um sobrenome legal. – Só parei pra reparar que ela estava sem os sapatos agora. Estava com eles nas mãos, um vestido esquisito pra uma boate, todo branco, e comprido. Uma maquiagem suave. Uma bolsinha pequena, com uma abotoadura dourada. – Cara, de onde você veio? – Ela não sorriu dessa vez. – Do maior quase erro da minha vida. – Ela segurou a ponta do vestido, que a estava incomodando. E puxou o corpete do vestido. – O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO? – Berrei pra os parcos bêbados que circundavam o local escutarem. Não exatamente pra eles escutarem, mas foda-se, berrei tão alto que até eles escutaram –Tirando isso. Será que dá pra me ajudar? – Ela era, definivamente, absurda. Absurda de um jeito esquisito, do tipo loucamente absurda. – Pronto, assim está melhor. Aquele treco estava me apertando. – Ela estava com uma blusa rosa bebê, um jeans e descalça. – Você é LOUCA? Que tipo de noiva vai para o altar com uma blusa e um jeans? – Ela jogou os sapatos de salto na lixeira mais próxima e ficou parada a encarando, decidindo se jogava o vestido lá também. – O tipo de noiva que definitivamente não quer se casar com um idiota metido a gente que os pais escolheram, e que decide que vai abandoná-lo no altar. Esse tipo de noiva. Eu jogo essa porcaria de vestido fora ou o dôo pra alguém? – Espere. Ela tinha acabado de fugir do altar? Quantos anos ela tem? – Depende. Você ama esse cara ou não? Se não, joga fora e dane-se quanto dinheiro dele ele colocou nisso. – Ela deu um sorriso de canto dos lábios e tacou o vestido na lixeira. – Eu não sou tão velha. Casar, veja só. Vinte e três anos, acabei de sair da porcaria da escravidão que é a faculdade e minha mãe vem com essa? O cacete que eu ia casar com ele. Pouco me importa se ele é rico. Depender de homens é pra as fracas. – Ela andava com fúria. Era engraçado, até. E a voz dela ficava rouca quando ela ficava com raiva. – Eu percebi que você usa bastante a palavra “porcaria”. – Ela riu. – É, eu uso. Não sou a maior fã de palavrões. Tá, mentira. Eu gosto da ênfase que “porcaria” dá. Tipo, porcaria é tão poético. Ou não. Mas que seja. – Ela pegou algo no chão – OLHA, UMA MOEDA. Que lindo – Eu estou me perguntando se eu escolhi a única pessoa psicótica esquisita e com medo de relacionamentos do bar, ou se eram todos assim – Cara, você é completamente maluca. Completamente. – Ela estacou no chão e gritou – PORRA, MERDA, CARALHO, UM VIDRO NO MEU PÉ – Que gentil. Eu me sentei do lado dela para ver o vidro. A faculdade de medicina tem que servir pra alguma coisa, por que médico é que eu não vou ser. O vidro tinha entrado bastante, e eu via a vermelhidão da planta do pé dela aparecer, era o sangue contido pelo caco. Delicadamente, eu tirei o caco, tirei meu tênis, e fiz um curativo com a minha meia pra ela. – Veja se você sente agora. – Apertei um pouco a meia/curativo, e ela gemeu. Em segundos, ela estava se debulhando em lágrimas. – O que foi? – Será que a culpa tinha sido minha? – É que eu não consigo me lembrar da última vez que alguém foi legal assim comigo, e agora eu sou uma fracassada qualquer que está chorando feito uma imbecil no colo de um quase completo estranho, foragida da própria casa e da porcaria de vida comum que as pessoas costumam ter. – Ela enxugou as lágrimas com as costas da mão, a qual eu peguei. Enxuguei as lágrimas que restaram com a minha própria mão, e encarei a maquiagem borrada dela. – Calma. Tudo vai dar certo, Mary. – Ela sorriu como antes, e levantou. Puxou meu braço e disse, baixinho, como um segredo, como algo meu e dela, o que me arrepiou. – Mon coeur s’ouvre a ta voix – E continuamos andando. Mon coeur s’ouvre a ta voix. Eu já escutei isso em algum lugar. MUSE. I BELONG TO YOU + MON COEUR S’OUVRE A TA VOIX. Meu coração se abre ao som da tua voz. Sim. Eu peguei o significado. Ela começou a correr por entre os becos de NY, e eu corri atrás dela, com um gosto diferente da vida. Uma vontade diferente de viver, um tipo de gosto amargo, agridoce, e faiscante percorrendo meu corpo, transcorrendo pelas minhas veias. Uma sensação de vida, de alcance. De poder. De conseguir. Talvez eu seja um pedinte imundo e você seja a rainha, talvez eu seja um valete qualquer e você seja a dama. Sinceramente, uma garota que nem você é simplesmente irresistível. Cara, praticamente todas as luzes dos prédios estão apagadas, deve ser realmente muito tarde. Foda-se, como se eu me importasse. – Então, pra onde você quer ir? – Ela se vira subitamente pra mim, que dou de ombros. Desde que eu esteja com ela, vou até a porra do inferno.