segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Mas Nem Toda História É Nossa Obrigação

Várias pontas soltas. Parar pra pensar nas coisas inacabadas, no "e se...". Tantas coisas que ficaram pelo meio do caminho, atordoadas, sem ar.

Foco no casal, discutindo. Ela pede perdão. Pede pra voltar. Ele recusa, e a deixa chorando, ali, parada, sofrendo. Ela errou. Ele estava certo. A partir daí, as coisas nunca mais foram as mesmas. Desfoque.

Foco na menina, chorando. Devendo explicações. Pra ela e pro mundo. Por que, Deus, por que teve que fazer aquilo? Por que tinha que ser sempre tão obtusa? E causava sua própria desgraça, se enche de dor e se esconde debaixo das cobertas. Desfoque.

Foco no novo casal, que a irritava. Por que não ter o que queria tinha que ser tão doloroso? Desfoque.

Foco na escola, tão borrada. Tão distante da lousa, da aula incrivelmente soporífera de química, e da vida. Estava tudo indo embora tão depressa. Desfoque.

Foco no copo de vodka, na garrafa de cerveja, na menina vomitando, em tudo indo bem e indo mal. Foco na praia, no homem seminu que lá estava deitado. O que ela ia fazer? Desfoque.

Foco na viagem, viagem mais dolorosa da sua vida. No caixão, boiando na sua memória. Lágrimas. Desfoque.

Foco na boca grande, quando se declarou, sem pensar duas vezes. E deveria ter pensado, Deus, como deveria ter pensado. Desfoque.

Foco nas coisas ruins e boas da vida. Memórias e saudades, corroídas pelo tempo e pelo cansaço. Desfoque.

Foco nela, sozinha, pulando e caindo em direção ao desconhecido, aquele que a lhe bendizia e abençoava. Abraçava o desconhecido, como abraçava a si mesma. Tchau. Desfoque final.

sábado, 9 de novembro de 2013

Baby, We Both Know

... That nights are made for saying things that you can't say tomorrow day

Acordou, com a face iluminada pelo sol do meio dia. Já acordou irritada. Magoada por que o sol tinha que nascer, aquele sol causticante, que lhe beijava os cabelos quando andava na rua, aquele sol irritante que lhe lambia os olhos quando corria na praça. A noite era tão mais bela. Carregava coisas que o sol não podia levar. Levava pra longe, bem longe, a vergonha da luz do dia. A noite era tão linda, pena que finda. Descobriu, posteriormente, que dormiu pouco menos de vinte minutos. A noite, dessa vez, lhe pareceu borrada. Borrada de mal entendidos. Por que, Deus, tinha que ter uma boca tão grande quando bêbada? Por que sempre bebia como se não houvesse amanhã? O problema, como sempre, é o que o amanhã sempre chega.
E quando chega, inunda a burra que não mais está bêbada, de sentimentos adversos e diversos sobre si mesma. Ah, como seria fácil se pudesse apenas passar uma borracha na cabeça dos outros também.
Desenhou pra si uma imagem mental tão trabalhada, tão irreal, que mergulhou e não percebeu. Se tivesse percebido, teria mergulhado mais fundo. A realidade é feia e machuca. O sonho, tão lindo e repleto de sono, ajuda a respirar aliviada.
E agora, José? Agora o não dito virou dito, mas, como sabia, não era o propriamente dito, mas sim o mal dito que lhe assolava.
Assombrava de modo tão intenso que lhe deixava sem ar. E as cavidades do seu pulmão murchavam.
O problema do mal dito, e do não dito são semelhantes. Ambos não deveriam ser ditos. Ambos deveriam manter-se dentro da boca, dentro das paredes, que de noite ouviam todo mundo chorar. Ambos, por fim, causavam mais problemas do que deveriam.
Precisava desmentir de um jeito indireto. Precisava preservar-se. Precisava estancar aquele sentimento frequente de solidão insistente e pertinente, que vaga dentro dela sem que ela possa evitar.

A partir de agora, dependia da sorte. Sorte de que a noite passou, e deixou nada mais do que um silêncio incômodo, um vazio na boca, e um copo de desilusão.

sábado, 10 de agosto de 2013

Descritivo, Pouco Argumentativo, Aumentativo, Porém, Com Amor

Branca, com grandes janelas de vidro e pé direito alto. Janelas que eram quase do tamanho de portas. Jardim frontal, com grandes margaridas e vasos enormes com rosas vermelhas. Havia um portão igualmente branco, que separava a casa de pé direito alto da rua. Porta adentro, um grande hall de entrada, com alguns quadros pintados por ele e emoldurados belamente, e um par de poltronas de chemise vermelho sangue. Ao entrar na sala, não havia televisão. Havia um armário, que pelos moradores da casa, era conhecido por ser um armário de jogos de tabuleiro. Desde banco imobiliário, até baralhos. Era onde a família se reunia pra jogar, todas as noites. Haviam duas poltronas e um sofá igualmente vermelhos, e uma mesinha de centro de madeira escura. No canto da sala, havia uma janela muito grande, e uma estante, lotada de livros. Uma das muitas que ocupavam os cômodos da casa. Na janela, um parapeito estofado para sentar e ler. A filha mais nova do casal sentava lá por horas e folheava livros lotados de ilustrações e histórias infantis fantásticas. O cômodo era largamente iluminado, por janelões que adornavam a sala. De adorno, vasinhos de plantas e mais quadros pintados pelo marido. Havia uma porta, que ligava a sala ao pequeno lavabo, para visitas. Ao lado da sala, uma sala de jantar. Com uma mesa com espaço para dez pessoas, feita de madeira escura. Dez cadeiras estofadas de marrom. Paredes cor de creme. Atrás da cabeceira, um aparador de pratos e um pequeno armário para louças especiais. Do lado do aparador, uma porta que levava até a cozinha. Na cozinha, uma pequena mesa para as refeições diárias. Uma mesa de vidro, com cinco cadeiras de acrílico preto. Os habituais fogão (alumínio), geladeira (alumínio), pia (bancada de mármore negro), filtro e armários (pretos, com puxadores metálicos). De volta pra sala, há um corredor, atrás do sofá de três lugares, com quatro outras portas. Duas do lado direito, uma do lado esquerdo e uma no final do corredor, porta dupla, de vidro, que levava até a varanda. Na primeira porta, ao abrir-se, dava direto pra um quarto de criança. Havia um baú grande de madeira crua, uma mesa de desenho feita da mesma madeira, uma cadeira baixa, para crianças. Acima da mesa, uma janela grande, que dava para o jardim. Do lado da mesa, encostada na parede, havia uma cama de solteiro, com um lençol da Bela (de A Bela e A Fera). Na outra parede, vários desenhos dela, todos emoldurados. Também havia uma estante, cheia de livros, e uma poltrona azul marinho (pra combinar com a parede e com os inúmeros lençóis temáticos de seus filmes favoritos). Havia, ainda, um armário branco, lotado de roupas e fantasias de criança. Também dispunha de um banheiro, com uma bancada que quase explodia de produtos com variadas formas, brinquedos, e desenhos no espelho. Era o quarto da caçula. Na outra porta, ao lado da primeira, havia uma cama de solteiro, uma estante, uma poltrona (porém preta), uma escrivaninha de mogno, com uma cadeira preta e um laptop preto. Havia uma porta que levava a um banheiro simples, lotado de cuecas largadas no chão. A parede era preta, e tinha uma janela que também dava pra o jardim. Na cama, alguns cadernos e livros jogados, provavelmente do estudo enfadonho que o filho mais velho estava fazendo para sua prova de biologia. O armário, tão preto quanto o resto. Estava naquela fase rebelde. Na terceira porta, que se opunha às duas outras, estava o quarto dos pais. Neste, tinha a única parede colorida da casa (verde clara, em homenagem à cor favorita do pai). No centro do quarto, uma cama de casal. Em um dos cantos, perto da janela, uma escrivaninha de madeira clara, com uma cadeira giratória de madeira estofada marrom clara. Tinha, como todos os outros quartos, uma estante cheia de livros, dos mais variados temas. Também tinha uma poltrona marrom, ao lado da estante. De cada lado da cama, havia uma pequena mesa de canto com luminárias. Acima da cama, um desenho feito pelo pai, quando era adolescente. Um desenho da mãe, proveniente do tempo em que ainda eram namorados. Perto da escrivaninha, uma porta, que levava ao closet. E do outro lado da escrivaninha, outra porta, que levava ao banheiro. Dos muitos atributos do banheiro, este possuía uma janela (daquele tipo que só dá pra ver o exterior, mas nunca o interior do banheiro), uma grande bancada de mármore lotados de produtos de beleza da esposa, uma banheira grande o suficiente para os amantes (pais também são amantes), e um espelho que tomava uma parede quase inteira, acima da bancada de mármore. No closet, nada demais, além de roupas e sapatos. Na última porta, que dava pra o jardim, dava pra ver uma piscina enorme e cercada (pra evitar acidentes), uma churrasqueira de tijolos, uma mesa pra os churrascos, e grama. No fundo do quintal, uma pequena horta cultivada pelo marido, que gostava de ter vegetais e temperos frescos pra cozinhar. Fora isso, havia um lindo golden retriever deitado perto da churrasqueira, de barriga pra cima. Além do Golden (de nome Lady), havia um Pug (Hipster) e um Labrador (recém adquirido, nome ainda por decidir), é, vivia-se a vida dos sonhos.
Vivia-se a vida que eles sonharam, desde sempre. Sonhos tornam-se realidade, eles sempre diziam. E tornam-se mesmo. Amo descrever pra você todas as nossas conquistas. Muitas saudades e pra sempre seu,
J.

sábado, 3 de agosto de 2013

Jantar Pra Um, Por Favor

Todas as luzes apagaram. O silêncio quase reinava, se não fosse pelas buzinas na rua e os sussurros em seu ouvido. Belos sussurros, aliás. Há muito não paravam apenas pra os dois, paravam o mundo, paravam a vida. Só existiam os dois. Então, como o planejado, Elvis começa a tocar. Remete-a a tempos simples, tempos que eles eram só amigos e ele cantando aquela música, despreocupadamente no carro, enquanto dava carona pra que ela fosse pra o cursinho, cativou-a. E como disse, sabiamente, o tal do Pequeno Príncipe, nos tornamos eternamente responsáveis por aquilo que cativamos. Não que ela esperasse que ele levasse a sério, até por que ele não fazia ideia de que a havia cativado.

Mas aquela música, naquele momento, pareceu-lhe perfeita. Tudo se enquadrou tão perfeitamente, os braços se encaixaram, e dançaram, lentamente. Ao som da voz encantadora daquele homem encantador, e ao som dos sussurros de amor. São os melhores sussurros, sempre. Sentaram-se pra comer, como se fosse a última vez. Talvez fosse, mas não era como se realmente importasse. Comeram, e riram como há muito não faziam. Tudo cronometrado, como se não fosse acabar. Doce, doce engano. Tudo sempre acaba. A gente é feito pra acabar. E justo quando tudo chegou ao ápice, quando estavam sentindo tudo curado por dentro, arrombaram a porta bruscamente. E arrancaram seu coração. Pisaram, como sempre, pisotearam. E desfizeram o laço do abraço. Não sabiam se pra sempre, mas por enquanto, seus abraços iam ser pelo telefone, tão distante. Aqui, um jantar pra um e um cigarro, por favor.

domingo, 2 de junho de 2013

Estupro

Foi estuprada. E estava tão perdida, tão sozinha. Não sabia como seguir. Correu pra o hospital mais próximo, mas este quis violentá-la mais uma vez. Quis abrir suas pernas e coletar amostras. Não queria mais ninguém entre suas pernas. Não queria conversar, queria se esconder, queria ficar dentro de si pra sempre. Sentia dor, mas esta ia além da física. Sentia a força com que ele segurara seus braços. Sentia a força com que ele penetrara, sem amor, com vontade. Lembrava da mão sob sua boca, tapando-a. Lembrava de cada gesto detalhadamente, com horror. Horror de continuar vivendo, disso poder estar acontecendo de novo. Sentia nojo de si, nojo dele, nojo. Ojeriza. Sentia até o sangue sendo bombeado freneticamente pra fora do seu coração, como se quisesse ficar vazia e cheia ao mesmo tempo. Como se corresse contra o tempo. Não havia mais lugar seguro, agora. Sentia medo. De voltar pra casa, e encarar a todos, fingindo estar tudo bem. Não estava tudo bem. Não podia guardar esse segredo, mas fora ensinada que a culpa foi dela. Que usar decote, blusa curta e mini-saia automaticamente eximia o estuprador de tudo. Afinal, ela provocou. Ela, no auge dos seus 13 anos, provocou um homem? Ela, sem seios proeminentes, bunda quase reta, puberdade atrasada, tivera a capacidade de provocar um adulto? Um adulto que sabia o que estava fazendo. Não só sabia o que estava fazendo, mas era legitimado pela sociedade. Que tenta encobrir, que tenta esconder. Ela, coitada, aflita por dentro e por fora, não tinha muito o que fazer. Resolveu dirigir-se até a delegacia mais próxima, reportar esse caso para as autoridades, na esperança de que, algum dia, pudesse ter mais esperança de novo. Lá chegando, por ter 13 anos, ser mulher, criança e não ter provas, não foi levada a sério. Era isso. Não tinha mais aonde ir, a não ser se retirar daquela delegacia onde todos riam dela. Voltou, pé ante pé, para casa. Voltou, e como esperado, a porta lhe foi aberta. Sua mãe lhe acolheu, mas não lhe acreditou quando denunciou o homem que a estava violentando. E ali, sentado perto da lareira, com um sorriso surpreendentemente malicioso, estava ele. Seu algoz. Seu padrasto.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Só De Passagem

Há muito, parecia estar só de passagem no mundo. Fazia, todo dia, sempre igual. Estudava, cozinhava, lavava a louça, e estudava. Não lhe agradava o ritual, mas mandavam-no. Mandavam-no ser máquina e homem, sempre atarefado e insatisfeito, sempre do jeito que era obrigado a ser, com vontade de ser o que era de fato. Sua válvula de escape era o desenho. Por muitos anos, faltaram-lhe as ferramentas mais básicas para fazê-lo. E perdia-se no lápis e no papel. Em seus últimos anos na escola, sempre assombrava-lhe a pergunta do que queria ser quando crescer. Não sabia dizer, por que era gente, mas ninguém o havia ensinado a querer. Ao longo da vida, cresceu-lhe uma crosta de coisas não ditas, pudores vencidos, medos profundos, viagens não feitas, e obrigações. Crosta dura, essa. Dura demais pra um homem menino que não havia nem alcançado a maioridade penal. Se transformou em uma pessoa fechada e levemente mau humorada, que não partilhava do seu íntimo com ninguém, nem com o desfile de namoradas firmes (levemente burras, duramente desinteressadas na vida dele). Se encurvava sob a mesa com seu lápis com mais frequência. As aulas na escola o entediavam. Prestava atenção, mas não sentia tesão pela vida. E a rotina se repetia. Se sentia preso em Cotidiano, do Chico. Mas sem ter quem esperar no portão.

Quanto a ela, se apaixonava depressa. Sentia ciúmes. Porém, pouco gosto pela vida. Cada vez mais festas, cada vez mais alcool. Mas isso não alimentava o monstro dentro de si. Não fazia a vida, tão sem sal, ter o gosto de um bife. Escapava pra a escrita. Mais uma vez, debruçada sob o papel ou sob o laptop. Escrevia de amor, escrevia de saudade.

Eles se encontraram. E se desencontraram. Algumas vezes. Mantiveram-se amigos e amores secretos. Descobriram-se, e sem saber, salvaram-se. Um ao outro, como um.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Sobre Quem Eu Sou

Esses anos todos, nunca soube muito bem sobre quem eu sou. Escritora? Cidadã? Alguém? Até então, não sei. E não sei se um dia saberei. Mas se tem algo que sei sobre mim mesma é que não sou feliz. Não é por escolha, veja bem. Só não sou. Eu tento. Tento, pode demais, socializar. Tento não encher a alma de angústia e sofrimento, e consigo, algumas vezes, por alguns instantes. Só que não sou. É triste pra os outros verem quando alguém é infeliz. A grande coisa da vida é que ela se repete. Detesto rotina. As mesmas coisas maçantes que me incomodam se repetem todos os dias, todos os dias. Não é questão de resistir à elas, eu só tento subir na maré e ir levando. E tem dias que isso é tão insuportável que cansa. Cansa existir. Cansa viver. Recentemente, fui praticamente privada do meu namorado. Uma das únicas coisas de feliz que eu tenho pra esperar. Uma das poucas pessoas que a vida me deixou, nesse vaivém de aviões e abraços quebrados. E agora a vida me tirou, aos pouquinhos. Me disseram pra não viver esperando o final de semana, que são dois dias. E a semana são cinco, inteiros, e que a vida fica insuportável se você ignorá-los. E agora, meu amor, que só posso te ver no final de semana? Espero o quê? Espero as provas, a escola e a rotina do dia a dia, ou ardo por dentro como sempre ardi, trancada em mim, ansiando com cada fibra do ser que agora fosse sábado e eu estivesse com você. Se é drama, não sei. Sei que é saudade, que queima. Sei que sou eu, que queimo, que quero, que teimo. Acho que por teimar tanto, teimo e não sou feliz. Queria ser feliz. Mas os cacos da janela quebrada ainda estão no chão, a luz está apagada e ninguém chegou pra me abraçar. Dito isso, durmo só, por que só sou.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Eu, Aflito E Só

É, morena, tá tudo bem. Está? Caramba, parece que esse ano tá se arrastando. Se arrastando... Bem devagar. Queria muito ver o fim desse dia, desse mês, desse ano. A começar pela minha reprovação. Que porcaria que é conviver diariamente com pessoas que praticamente nada tem a ver com você. Que porcaria é arrastar o ensino médio por mais um ano. Que porcaria que é se arrastar da cama, todos os dias, sem um propósito, sem uma vontade, sem um por quê. Sem. Só querendo passar por mais um dia, mais um dia pra morrer, mais um dia pra viver. Como disse Marcelo Camelo, é como se a alegria recolhesse a mão pra não me alcançar. E a cada dia, o dia consegue ser pior. Não importa o quanto eu diga pra mim mesma que vai ficar tudo bem, que vai tudo se resolver, que eu vou conseguir resolver tudo, parece que, por mais que eu tente resolver, tudo se embaralha mais. Nem lendo e vivendo na vida de outra pessoa eu consigo deixar isso de lado. Me consome de dentro pra fora. E de fora pra dentro. Parece que tudo que eu faço é chorar. Chorar até secar, secar por dentro a alma. Pesando a alma. Como se constantemente meu coração sangrasse, escorresse, mas ninguém mais vê. Já bati meu recorde de doenças esse ano. Umas sete, desde fevereiro. A escola tá me consumindo, a vida tá me consumindo. A maior vontade é de parar de existir, parar de respirar sem notar e sumir. Sumir. Mas como disse Bukowski, isso eles não deixam. Tem tristeza mais profunda do que quando a gente chora ouvindo Los Hermanos? E vê a nossa dor se fundir com a deles, devagar. É bom conversar com quem conserva dor dentro de si também. Você se compreende melhor e compreeende a dor do outro melhor. Se completa melhor, se sente melhor. A sua dor em mescla com a dor do outro é um bálsamo de compreensão. Doer sozinha é ruim. Doer sozinha é dor guardada, que não dá pra explicar, por que ninguém consegue entender, ninguém que não dói também entende por que uma menina de classe média, com comida na mesa, alguns bons amigos, um namorado, formação escolar boa, acesso a tudo no mundo, despeja lágrimas tão febrilmente.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

When I Put My Finger On Your Trigger

“Happiness is a warm gun”

Puxou o gatilho. Rompantes de alegria esborratavam pelas suas têmporas. A arma quente, o corpo no chão. Jorrando sangue. Jorrando, jorrando, jorrando. Deixou-o esvaziar. E saiu dali, satisfeito consigo. Sabia que esse sentimento de realização seria tão passageiro quanto sempre fora. Umas duas horas, no máximo, e depois estaria pronto pra encontrar mais alguém a quem perseguir. Não era um perseguidor. Não se via como um assassino. Não se via como nada. Gostava de ver o sangue jorrar, sempre certo de pra onde ia, mas deveras incerto de pra que servia. Mantivera pessoas vivas por dias, só para assisti-las sangrar aos pouquinhos, cada dia mais, cada dia mais. Era razoavelmente bonito, sedutor. Mulheres eram presas fáceis. Sua orgia de sangue era sempre completa, mas sempre necessitava de mais. Sentia-se mal, por vezes. Medo de ser pego. Mas nunca era. E sabe como dizem, happiness is a warm gun.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Sem Propósito

Alguém aí? Alguém pra ler? Alguém que não esteja dormindo, esteja interessado e entediado?
Pois bem, a quem interessar:
Alguém já se sentiu entediado com a vida? Como se ela parasse e estagnasse, visse o tempo passar, e só as mesmas coisas se repetissem, continuamente, em um círculo sem fim e sem começo de tédio e falta de propósito. Não? Nunca se sentiu assim? Então me deixa explicar: é como se você fizesse tudo igual todo dia, sem parar, sem pausa, sem intervalo. Mesmo que esses existam, compridos ou não, sempre parece que você não tem pausa, que recomeça de onde parou, e que nunca vai parar de verdade. Dormir não é recarregar as baterias, por que você está sempre na massacrante atividade de ser e respirar, respirar e expirar. Expirar a validade, o prazo, a noite, o tempo, a vida. Tudo expira, menos o labor diário (e com a sensação de prolongada inutilidade, você também não). Suspiro. Cansada sem ter com o que cansar, cansada de pensar, cansada de viver. Por que não pode ser um pouco mais fácil? Se cobrir de vergonha e com um saco de papel, pra que ninguém veja. Só você. Ninguém sabe. Ninguém deveria saber. O ciclo do tédio se expande e estende, que nem um tapete vermelho encardido que ninguém quer pisar. O enfado te consome, engole e cospe. Cospe essa massa cinzenta, menino, que ninguém te pediu pra pensar. Ninguém te pediu pra escutar, processar, intrigar, perguntar. Só trabalhar, trabalhar, trabalhar. Trabalhar pra ganhar, trabalhar pra viver. E morrer pra trabalhar. Sem pensar. Quem precisa de pensar?

The Only One That's Really Judging You Is Yourself

“The only one that’s really judging you is yourself, nobody else, nobody else”

Fechou as portas com um baque absurdamente forte. Pegou a mala de cima da cômoda ridiculamente alta, e atirou-a com força na cama, provocando um outro estrondo de proporções semelhantes ao primeiro. Uma semana. Uma longa semana em um hotel distante de tudo e de todos, sem recepção de celular, sem internet, sem outras pessoas com quem pudesse conversar além da família. Família. Não gostava de como soava. Quando foi que passou a ter uma família? Um tempo atrás família era só seu pai, sua mãe e sua irmã mais nova. Agora tinha uma esposa particularmente bonita, porém mais vazia que um saco plástico. E duas crianças, que berravam o dia inteiro. O dia inteiro, todo dia, vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. Saía do maldito escritório, esperando cinco minutos de silêncio, e quando menos esperava, era pego pela batalha diária de fazer os pirralhos deglutirem os vegetais, pelos telefonemas histéricos de sua mãe, ou pela tagarelice incansável de sua mulher. E agora, uma semana naquele lugar. Ideia da esposa, obviamente. Ia ficar trancada em um SPA, e ele ia fazer “atividades externas” com as crianças. Por que o fizera? Pra que pudesse escapar na outra semana pra Boston e encontrar a amante número cinco. Viajava muito a negócios. Menos do que contava à esposa. Não acreditava que ela se importasse genuinamente, desde que sua conta bancária continuasse gorda e seus inúmeros cartões de crédito fossem pagos. Telefonou pra amante dois. Caiu na caixa postal. Ligou mais duas vezes. Atendeu.
- Alô? –
- Richard? –
- Hm, não. Andrew. –
- Ah, olá, Andrew. Mesma hora semana que vem? –
- Não, é por isso que estou ligando. Pra desmarcar. A maldita me coagiu em uma viagem de família. Era isso ou ela ia chamar minha mãe pra passar umas semaninhas aqui. Tem horário vago depois de sexta? –
- Sexta 17? –
- Sexta 24. –
- Sim, às nove horas. –
- Nos vemos às nove. –
Desligou o aparelho. Jogou furiosamente as coisas na mala. Muitas vezes sentia como se em algum lugar, alguma hora, tivesse desandado sua vida. Talvez fora quando se casou com Eve em Vegas, ou quando arranjou tantas amantes que passara a enumerá-las, ao invés de denomina-las. Nunca quisera filhos, e não sentia genuíno afeto pelos seus, só em raros rompantes de emoções, cada vez mais escassos. Depois destes, sentava e sentia raiva de si por ser tão fraco. E costumeiramente, entoava uma música na cabeça depois de sair de bordéis ou casa de outras mulheres. “The only one that’s judging you is yourself.”