segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Piña Coladas

Eu estava na janela, olhando pra o mar, bebendo uma piña colada e aproveitando a nesga de sol que entrava naquele bar a beira do mar. E minha namorada estava sentada naqueles banquinhos altos, conversando com o bartender. Eu não me importo. Ela resolveu ir pra casa, de táxi, e eu fiquei. Depois de umas outras duas taças de champagne e uma piña colada, eu voltei pra casa. Foda-se se eu não estava no estado de dirigir.
O sol tinha se posto, e eu estava no sofá, lendo um livro incrivelmente chato. Larguei-o na poltrona e fui ver o quarto. Ela estava dormindo um sono pesado. Levantei as sobrancelhas. O relacionamento estava tão desgastado que eu preferi deixar pra lá o convite pra ir jantar no restaurante japônes. Ela provavelmente só ia resmungar e virar pra o outro lado. Voltei pra o sofá. Achei um jornal, do dia que estávamos.
Curioso. Sempre achei aqueles anúncios pessoais engraçados e interessantes. E, de fato, achei um que me encantou.
"Se você gosta de Piña Coladas,
Se você gosta de ser pego pela chuva,
se você não gosta de yoga,
se você tem metade do cérebro.
Se você gosta de fazer amor a meia noite nas dunas do cabo,
Eu sou o amor que você está procurando,
Escreva pra mim e nós escaparemos."
Encantei-me indescritivelmente e resolvi responder o anúncio, apesar de não ser nenhum poeta.
"Sim, eu gosto de piña colada,
E de ser pego pela chuva,
Eu não gosto muito de comida saudável,
Mas eu gosto de Champagne.
Eu vou me encontrar com você ao meio dia,
Em um bar chamado O'Malley,
Onde a gente pode planejar nossa fuga."
Não pensei muito na minha namorada, a mesma que estava deitada na nossa cama e estava comigo por sete anos inteiros. Dane-se. Eu estava começando a ficar fatigado dela.Mandei a carta. Comi um jantar rápido, qualquer coisa que encontrei na geladeira. Dormi no sofá, por não estar com vontade de partilhar a cama de outra pessoa que não fosse a interessante pessoa do anúncio do jornal. Acordei depressa, ainda as oito e meia da manhã. Tomei banho, vesti-me, comi, e fui pra o O'malley, cedo. Onze e meia, eu já estava apreensivo. E que surpresa que eu tive: Era ela. Minha namorada. Entrou no bar confiante, sorrindo, interessada e maquiada, de um modo que eu não a via há tanto. Ela sentou na mesa que o garçom indicou. E, que surpresa: Era a minha. Eu marquei um encontro as cegas com a minha namorada. Enquanto ela podia ter achado totalmente traiçoeiro da minha parte, achou engraçado. E eu também. Então, finalmente, planejamos nossa fuga e fizemos amor a meia noite nas dunas do cabo.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Beijo de Filme

Seis da manhã. Despertador toca. Levanta da cama. Abre as cortinas e dá de cara com um tempo nublado. Balança o marido. Sai do quarto. Vai no outro quarto. Balança Amy. Balança Jamie. Anda até a sala. Senta no sofá cinza escuro. Respira fundo. Levanta. Vai até o banheiro. Penteia o cabelo. Veste um sutiã, uma calcinha, aplica base, lápis, e um batom vermelho. Vai até o quarto só de lingerie e maquiagem. Balança de novo o marido. Entra no closet. Fica em dúvida entre a saia preta e a roxa. Opta pela roxa. Coloca uma blusa branca de manga comprida, com botões. Vai até o quarto de Amy e Jamie. Faz cócegas nas duas para que acordem. Elas acordam e vão para o banheiro. Ela entra no próprio quarto, e ainda sim, dá de cara com o marido dormindo. Coloca o despertador para dali a vinte minutos, e calça suas botas. Vai para a cozinha e prepara duas vasilhas de cereal com leite. Amy e Jamie sentam na mesa, comem, e calçam os sapatos. Ela come uma torrada com manteiga e toma chá de erva cidreira. Leva as meninas para a escola, bem a tempo de escutar o despertador tocando e a irritação matinal do marido. Coloca o cinto dela. Amy tem sete anos, e Jamie tem nove. Amy está com sua Barbie nova, enquanto Jamie alega ser velha demais para bonecas. Deixa as meninas na escola, as sete e meia da manhã, como sempre. Cedo para a aula começar, mas não cedo demais. Hoje era seu dia de folga, não precisaria trabalhar. Era o dia que, religiosamente, ia ao mercado. Estacionou o carro no mercado, bem perto da porta, para poder evitar ter que passar muito tempo no frio que estava lá fora. Pegou seu trent coat preto e saiu. No corredor quatro, o corredor de legumes, notou uma pessoa que nunca tinha notado antes. E que, mesmo assim, lhe parecia extremamente familiar. Tinha cabelos desleixadamente despenteados. Olhos pretos. Cabelos pretos. Um carrinho lotado de coisas necessárias para quem quer que fosse, tivesse família ou não. Pele pálida. Estava escolhendo tomates. Não podia ser quem ela pensava que podia ser. Aproximou-se dele, abandonando o carrinho com sua bolsa, seu casaco e suas compras do outro lado do corredor. “Com licença”, ela disse, e tocou levemente no ombro protegido por uma jaqueta de couro dele. Automaticamente, virou-se para vê-la, o que a fez corar. “Acho que te conheço de algum lugar. Por acaso você freqüentou o colégio no Rio de Janeiro, Brasil?” Ele parecia meio inseguro em responder, e apenas acenou positivamente com a cabeça. “Eu estudei no Bahiense.” Ela arregalou os olhos e arriscou “Keith?” Ele acenou com a cabeça. “Haley?” Ela, por sua vez, acenou a cabeça também. “Eu não acredito que nos encontramos por aqui. Podemos falar português? Esse alemão me irrita, um pouco.” Ela sorriu, o que ele entendeu como uma afirmativa. “O que te trouxe aqui?” Ela apontou para o carrinho lotado de compras do outro lado do corredor e eles riram. “Vejo que você não mudou muita coisa.” Ele sorriu. Ela corou. “Vamos fazer que nem a gente fazia com quinze anos? Responder tudo que a gente acha que o outro vai perguntar?” Ela assentiu. “Eu tenho duas filhas, moro a três quarteirões daqui, casei com um cara alemão, moro aqui fazem quatro anos e detesto quando neva demais e eu não posso ir ao trabalho nem a lugar algum” Ele, por sua vez, começou. “Eu tenho um filho, moro nessa rua, trabalho como engenheiro, tenho minha banda nas horas vagas, minha esposa é alemã, mas viveu a vida quase toda no Brasil, então voltamos para cá mês passado. Também detesto quando neva demais.” Eles sorriram. “Posso te dar um abraço?” Ele não respondeu, e ela apenas o abraçou pelo que pareceram horas. “Quer sair pra tomar um café? Eu estou de carro, deixa só terminar as compras.” Ele sorriu. “Por mim, tudo em cima. A gente pode passar lá em casa, antes? Pra poder deixar as compras por lá e tal.” Ela acenou negativamente com a cabeça, e depois fez que sim. “Sempre o mesmo folgado babaca, não é mesmo?” Ele fez um sinal positivo com a mão. “Sempre.” Encontraram-se no caixa, e rumaram para a casa dele. “Essa é a minha casa, a verde.” Foram escutando The Strokes no volume máximo, e rindo descontroladamente de coisas que aconteceram quando eles tinham, respectivamente, quinze e 16 anos. Eles abriram a porta com violência, ainda rindo alto. Deram de cara com a esposa dele, com um jeito meio infeliz. “Ah, Haley, essa é minha esposa, Jackie.” A esposa dele forçou um sorriso. Elas não tiveram contato ocular por muito tempo: “Quem é essa, Keith, querido? É aquela Haley que você tanto fala?” Ela corou. A esposa não se importou. “Ela mesma. Acredita que Haley e o marido dela estão morando a três quarteirões daqui?” A esposa torceu o rosto um pouco. Era bonita. Tinha um cabelo muito loiro, olhos muito azuis, pele muito branca, corpo muito magro, sorriso muito aberto, dentes muito brancos. Era a mulher alemã perfeita. Haley levantou a sobrancelha para ela. “Então, vocês vão ficar pra um café ou pretendem fazer algo mais?” A esposa parecia meio exasperada. “O que você acha, Hay?” Ele olhou esperançoso para ela. “O que você achar melhor.” A esposa piscou os olhos meio nervosamente. “Eu vou sair para a farmácia. Fiquem a vontade.” E saiu batendo a porta. “Meio nervosa, ela?” Ela encarou a porta. “Nem sempre. Só quando brasileiras bonitas aparecem aqui em casa.” Os dois sorriram. “Pare com isso.” Ele foi até a cozinha, e de lá trouxe uma lata de leite condensado. “PUTA QUE PARIU, NÃO ACREDITO NISSO. EU NÃO COMO ESSE LANCE DESDE QUE EU CHEGUEI AQUI.” Abriram a lata, comeram de colher, e viram perfis antigos no Orkut de pessoas antes conhecidas, mas há muito esquecidas. Lembraram de coisas antigas, de bobagem hoje sem sentido, de coisas perdidas no tempo, de amor, de tristeza, dela, dele. E riram. Passaram a tarde imersos em nostalgia, falando português e lembrando da vida como ela deveria ser, de como ela poderia ser. “Sabe que eu nunca te esqueci direito? Só, bem, quando eu casei com o meu marido.” Ela virou o rosto. “Eu nem quando me casei com a minha esposa” E ela, de repente, levantou-se abruptamente do sofá. “Me diz, se não me esqueceu, por que você terminou?” Ele ficou sem palavras. “Eu... Não sei.” Ela encheu-se de cólera. “Qual o seu problema, afinal? Eu não acredito que, depois de trinta anos, nos quais eu busquei em outros braços seus abraços, sem querer abusar de Caetano Veloso, a milhares de quilômetros da vida que eu levava, agora, você vem me dizer isso.” E ela saiu porta afora. Nesses minutos, a esposa voltou e ele não relatou nada do que aconteceu, só disse que ela tivera que ir embora. Ela foi. Foi na escola. Pegou Jamie e Amy na escola. Levou-as para casa. Deitou na cama. Levantou. Ligou a TV para as meninas na sala. Subiu para o quarto. Tomou um banho demorado. Deitou na cama. Ligou sua TV em um noticiário qualquer. Apagou completamente. “Querida? Tem um moço na sala, alegando conhecer você. Um tal de Keith.” Era o marido dela. Tinha dormido quatro horas. Ela levantou-se. Estava de blusão largo, sem sutiã, calça de moletom, meias e um cabelo totalmente bagunçado. Desceu assim. Encontrou Keith sentado no sofá, com uma cara meio indiferente. “Como você descobriu onde eu moro?” Ela estava meio desconcertada, e bastante surpresa de o encontrar em sua sala de estar, com suas filhas e seu marido. “Eu fui batendo de porta em porta dessa rua, até achar a sua casa. Não foi tão difícil, sua casa é a terceira casa da rua. E se quer saber, tem a sua cara.” Ela piscou. Ele estivera falando em português, e ela também. “Será que eu posso morar com você? Não tenho mais casa pra morar.” Ela arregalou os olhos. “Aqui? Com a minha família? Você tá usando crack?” E mesmo assim, ele sorriu. “Não. Sem seu marido, para ser mais exato. E aí, topa?” E assim, sem mais nem menos, ela sorriu. “E o que eu faço com meu marido? Jogo ele pela janela?” Ambos riam. “Não. Pode ser gentil e contar a notícia a ele. Que acha de morarmos em Londres?” E ela parecia uma criança recebendo presentes no natal. “E por que diabos você não falou antes. E você ainda me deve desculpas.” Ele piscou. “Pelo quê?” Ela sorriu. “Por ser o único que eu amei de verdade. Por nunca ter existido ninguém igual” E ele deu aquela olhadela que era só dele. “Me desculpa?” “Nunca precisei das suas desculpas, babaca.”

domingo, 8 de maio de 2011

Moi


Afastou a franja azul dos olhos. Estava rindo de uma piada realmente imbecil. E assim era ela: espontânea. Fazia o que dava na telha, e se não desse, não fazia. O batom vermelho vivo contrastava com a blusa branca e a saia de cintura alta florida. Quem dera tivesse aprendido a amar outro que não ele. Tinha seus surtos. Não eram raros, ela era cheia de defeitos. Comia demais no almoço, e depois não jantava, ou não comia no geral. Jurava ser a dona da razão, contracenava consigo mesma em uma peça só dela, e irritava-se quando seu script não era seguido a risca. Tomava sorvete só depois que ele derretia, sempre roía as unhas quando prometia a ela mesma não fazê-lo, tinha vontade de ir embora, sumir dali, mas faltava coragem. Achava defeito em tudo, mas via como o mundo podia ser belo; sonhava acordada mas não custava a levantar; queria ser e fazer, mas lhe faltava vontade; por vezes sentia-se infeliz e sozinha. Todos diziam que ela era amarga, mas a verdade é que as pessoas a fizeram assim. Carecia de amor, e este não faltava, mas sentia-se como um quebra-cabeça incompleto, uma peça sem final, um ônibus sem passageiros além dela. Gostava de suas roupas pretas e brancas, longas e curtas, de couro ou de pano. Inconstante. Dada a opostos. Queria desesperadamente ser outra, mas sê-lo era impensável, impossível, inviável. Pensava em ser de tudo, mas só se via encenando. Gostava de Beatles e Rolling Stones. Jamais agradava a ela mesma com nada, e tinha a impressão que desgostavam-lhe. Reclamava, e como. Tinha a necessidade de ser, e o fazia sem amarras. Jogava tudo para o alto, mas obrigava-se a recolher os pedaços depois. Passava noites insones, imersa em problemas triviais, imersa nos monstros que viviam dentro dela. Acordava cansada, de saco cheio, com medo da vida, mas apaixonada por ela. Quis acabar com ela mesma milhares de vezes, mas nunca chegou as vias de fato. Bebia. Fumava. Frequentava shows, boates, bares, teatros e botequins. Frequentava a escola, por mais que esta a enfadasse. Queria revolucionar. Era poeta, mas não aprendera a amar. Por vezes machucava a ela e aos outros. Se prendia na frase de quem escreve, sente mais, e esperava ser tão normal quanto possível para uma garota tão cheia de defeitos e peculiaridades. Seus cabelos curtos e completamente azuis reluziam ao sol. Os óculos escuros sempre no rosto e os olhos sempre cobertos de maquiagem, mesmo pela manhã. Nem gorda nem magra, nem chata nem suportável, nem feia nem bonita. Conseguia o que queria, quando queria. Seus olhos azuis piscavam duas vezes, mordia seus lábios tingidos do habitual vermelho intenso, e franzia levemente a testa. Tinha mania de roer tampas de caneta, lápis e lapiseira. Sorria quando não devia, chorava quando não aguentava. Não gostava de se ver fraquejar. Detestava quando prometiam-lhe ligar e não ligavam, e quase tanto quando não atendiam o telefone. Chorava sozinha. Ficava sozinha. Se ao menos tivesse um desejo, talvez pudesse mudar. Não tinha um desejo. Tinha, ao invés disso, amigos incríveis, um relacionamento difícil com seus pais, e um amor imenso pelos seus avós. Sabe-se lá quem era, e ela ainda estava por descobrir. Diferente. Mentia facilmente quando lhe convinha. Omitia algumas coisas até de si. Por que tudo tem que ter um fim? Eu não sei nem por onde começar. Nunca sabia começar. Nem terminar. Terminar acabava em lágrimas meio amargas, base, colírio e um sorriso falso. Tantos finais. E mesmo com tantos finais, com tanto amargor, nunca estava tudo bem. E quando estava, tudo findava, e ela voltava a ser sozinha, com fones de ouvido, casaco de couro, na chuva de final de ano.

sábado, 23 de abril de 2011

Caixa vazia


.Ninguém está rindo. O baile se fechou, trancaram-se as portas. Nada do que costumava fazer sentido faz sentido agora, parece que nos trancafiaram na nossa própria cela, sem saída, por que de nossas mentes nunca somos libertados. Está ruindo de livre e espontânea vontade, deixando os farrapos e destroços pra que eu tome conta. Os pequenos destroços da minha caixa vazia. Aquela caixa que um dia me pertenceu, que um dia protegi, agora feneceu na sua infindável amargura, na seu infindável amor. Amor? Temor, talvez. Temia ser esquecida, e de tanto temer, acabou remoendo e esmorecendo, caindo de si mesma e chovendo. Chovendo por dentro e por fora, chovendo e chorando, chorando pra ela e pra todos. E caía tanto, gemia, e prendia-se outra vez. Tal caixa era tão versátil, tão interessante, mas nos últimos tempos murchou. Sempre era uma pena quando essas caixas murchavam. Sempre era uma pena quando não se resistia mais, quando a caixa não mais residia em ti, quando você não mais residia na caixa. Quando tal coisa acontecia, a caixa se contraía em agonia, desespero pelo que havia a vir. Quando não acontecia, desprendia aliviada. Quase nunca estava aliviada. E sofrer era tão ruim, tão obsceno pra uma pessoa que tinha tudo. Tudo, menos a si mesma. Tudo, todos, tanta coisa, mas nada do que ela quis. Talvez o que quisesse realmente era não ter, não ser, não estar. A caixa parou de reboar, e o peito dela parou.

sábado, 16 de abril de 2011

P1

Positivo. Sim. Não. Azar. Por que com ele? Por que com ela? Quinze anos. Quase uma criança. O que fazer? Como se portar? A quem contar? Eu não acredito. Por quê? E nem dá pra mandar um foda-se dessa vez. "E o que a gente vai fazer?" Não sei, não sei, não me exija respostas, não agora. "Dá pra ser feliz assim? Ou você acha que a nossa vida vai ser só um poço fundo de tristeza, quem nem a dos seus pais?" Ele abanou a cabeça.
Eu não soube dizer se era um sinal positivo ou negativo. Coloquei-me a chorar, sabendo bem porquê, mas sem querer pensar. Olhei para baixo, para a barriga ainda não proeminente. Nossos olhares se chocaram. Olhares de profundo medo. Aquele medo que acomete quando não sabes o que fazer, aqueles espinhos que lhe impossibilitaram decidir. Futuro incerto. Quer ficassem com ela, quer não, será que algum dia seriam felizes?

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Embora.

"Pra me danar, mundo afora ir embora."

Vontade de sair. Beber. Fumar. Ser totalmente irresponsável. Mandar todo mundo tomar no cu. Só saiam da minha vida. Saiam. Saiam. Abri a porta da rua. Corri. Corri. Corri. Nem pensei em olhar pra trás. Fui-me sem lenço e sem documento. Corri. Corri. Choveu. Choveu mais forte. Minha blusa branca ficou transparente, e meu corpo apareceu por baixo dela. E, devagarzinho, fui ficando transparente também. Sumindo. Sumindo. Sumindo. Primeiro meus dedinhos do pé, minhas unhas das mãos, as pontas dos dedos, a mão, as duas mãos, os dois pés. Fui me libertando, quebrando as correntes, saindo da caverna. E quanto mais eu sentia que ia desaparecendo, mais feliz eu ficava, e meu sorriso, estampado de orelha a orelha, crescia. E eu girei, girei, girei. Esqueci de me preocupar, esqueci de sofrer, esqueci de todos vocês. Esqueci de reclamar, esqueci de te amar. E, por uns segundos, me preocupei só comigo. Em como eu estava sumindo, e não ia mais voltar. Agora meu tórax estava ficando mais claro, meu peito, meus braços. Meu cabelo estava branco, e tudo que eu consegui pensar foi em como meu cabelo devia ficar engraçado branco. E eu fui desaparecendo da vida dos outros nas fotos, da minha vida aos poucos, aos trancos e barrancos, devagar.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Como se comportar

Afrouxou a gravata borboleta. Faltavam dois minutes para que fosse obrigado a subir naquele palco demasiadamente iluminado. Tudo estava pronto. Suava de suave que era. Pegou no cabo da arma que estava discretamente acoplada ao seu cinto. Era agora ou nunca. Subiu os degraus que levavam para o palco. Prendeu o cabelo e escondeu debaixo de um chapéu coco. Com um sorriso teatral, passou pelas cortinas cor de carmim. Iniciou seu discurso com a precisão do gume de uma faca amolada. Nem por um segundo tirou o sorriso de escárnio do rosto. Contou em seu relógio. Dois minutos que estava no palco. Hora de ir. “E é por isso, meus caros, que o jogo acabou.” Tirou o chapéu, revelando um cabelo preto comprido e ondulado. Do bolso, tirou um batom vermelho sangue, da mesma cor que iria salpicar suas vítimas, e usou para pintar sua boca voluptuosa. E ainda sem tirar o sorriso do rosto, despiu a calça de linho branco, a blusa igualmente branca, o fraque, e o smoking, revelando, debaixo de todas as roupas masculinas, uma calça preta colada, e uma blusa vermelha. Vermelho de sangue. Sangue que pulsava quente nas suas veias, sangue que pretendia espalhar, sangue que nunca ia estancar. A forma curvilínea do seu corpo ficava melhor adequada áquelas roupas. A calça era preta, preta que nem ela era por dentro, preta que nem a programaram pra ser. E era ela, que estranho não ser ele nunca mais. As roupas moldavam-na, e os olhares aterrorizados, suas gravatas muito apertadas, seus pensamentos e pendores patéticos antes de morrer a faziam rir. Não o fazia para ser um mártir. Nem por um segundo parou de debochar. Beijou o diamante que enfeitava seu anelar da mão esquerda. “Sinto muito. Certo, na verdade não sinto nada.” E com um último olhar de satisfação, atirou. Os tiros não fizeram muito barulho, os gritos foram abafados, o fim foi rápido. E quando o último feneceu, lá se foi. Desceu a escada de incêndio. Não o fez pra não ser esquecida, não o fez pra marcar, fez por que não os aguentava mais. Fez por que ela quis, e fez por que não ligava. Desceu as escadas de incêndio com uma facilidade inesperada. Esse azedume amargo, essas lágrimas sofridas. Que lágrimas? Estava mais que satisfeita, e não se arrependia. Fez o que quis. Entrou no carro depressa. Eu vou estar fora daqui antes do que vocês pensam, pensou. Fechou a porta e entrou na auto estrada pra nunca mais voltar. Bebeu um gole demorado de vodka pra matar as doenças que viviam dentro dela, vodka forte e amargo que nem ela, e só então afrouxou a gravata borboleta.

Outros.

Algumas pessoas me fazem falta.
Outras, tanto fazem
E outras, nem fazem tanto.
As que me fazem, tanto são e sempre serão,
Tão malcriadas, impertinentes, impacientes, delinquentes, inconsequentes.
As qua não fazem, já vão tarde
Pra fora daqui.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Coisas random.

Tuas faces rubras
Rubras como as rosas,
Rubras como as flores que brotam pela manhã,
Mas que murcham a noite,
Tenras flores,
Doces como tua juventude,
E sempre rubras,
Tua face, teu amor.

Cílios.
Piscam.
Pra cima.
Pra baixo.
Teus olhos,
Dotados de persuasão.
Tua alma, teus olhos.

Noite crua,
Crua como deve ser,
Crua como só ela sabe,
Densa e eterna,
Noite.

Aquele lado,
Lado brilhante,
Lado bom,
Lado que não mostro a ti,
Lado virado pra lá,
E com um piscar dos olhos,
Some.

Terra de ninguém
Preso
Preso pra sempre
Em si mesmo
E na sua prisão
Preso. (não sei se eu postei esse, já.)

Se me quiser,
por favor,
me queira bem devagarinho.
Não de uma vez, meu bem,
me queira pra dentro,
mas pra fora também.

Num bar, duas da tarde
Três amigos conversam
E o telefone dele toca
“Não me incomode, estou com meus amigos.”
Desliga o telefone,
Toma mais um gole de cerveja e vai embora.
Chegando em casa,
Ela está sentada,
Inexpressiva.
“Sabe como é, eu mando na relação.
Na frente dos meus amigos.”
Ela abana a cabeça,
E com um esgar sarcástico responde:
“Nem na frente dos meus amigos, meu bem,
Por que seus amigos,
São meus amigos também.”

Por menor que seja sua vontade,
Por maior que seja seu desejo,
Por menor que seja seu amor,
Por maior que seja seu orgulho,
Ame-me.
Com um ponto final, assim,
Pra nunca acabar.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Desprogramar.

Girou para o lado contrário dessa vez. Bateu de encontro com a porta aberta. Gemeu de dor em uma sintonia diferente. Gritou. Caiu no chão, em pedaços. Desespero.As últimas notas da música ainda retumbavam nas paredes brancas. E ainda ressoavam insistentemente nos seus ouvidos. Tampava-os. Respiração descompassada. Tremeu. Batia a cabeça no piano, tentando arrancar mais notas ou talvez alguma significância. Foi em vão. Tudo foi em vão. Ela era em vão. Estava girando, girando, girando, girando, girando. O coração lutava pra sair do peito. Batia com uma força impressionante, machucando ela por dentro. Ultimamente tudo a machucava. As pessoas apontavam dedos acusatórios, ela apontava pra si mesma no espelho, a sua imagem fazia com que quisesse vomitar. Enquanto girava, caiu. Caiu em cima do tornozelo, quebrou. E um grito de dor lancinante percorreu todo o caminho até a sua boca, mas voltou. Voltou de teimoso. Ela não era de desistir, mas dessa vez estava cansada demais pra continuar. Deixou-se levar pela dor, prazerosa dor. Quando conseguiu levantar, caiu de novo, e deixou-se tomar pela dor de novo. E de novo, e de novo, e de novo, e de novo, e de novo. Deixou-se tomar pela dor de dentro e de fora, deixou-se perder e enlouquecer dentro e fora. E de novo, e de novo, e de novo, e de novo. Caiu pela terceira e última vez.

Desespero.

Contava os segundos. Um, dois, três, quatro. Passavam e escorriam de seu relógio de pulso para seu pulso nu. Escorriam para o chão, sem direção e sem ter pra onde ir, de qualquer forma. Olhava com um rosto controverso para o rio lá embaixo. Algumas gotas pingavam incessantemente na água, tornando-a inquieta. Inquieta de uma forma que ele entendia, que todos entendiam. Revolta, pronta pra uma rebelião de proporções endemicas, mas no segundo seguinte, conformada com seu destino certo e previsível, e voltando ao comodismo enervante que era sua vida diária. Essa superfície límpida que era a água funcionava do mesmo modo que seu emocional. Sempre estava irrequieto por dentro, contrariado e contradito, impactante e estável, morto e vivo, por dentro e por fora, por fora e por dentro. Sempre sendo ele e nunca sendo quem ele queria ser. Pomposo, e estava enlouquecendo. Queria se livrar dessas sombras, desse passado hediondo que ele levava nas memórias e carregava dentro do peito, em um desespero quase mudo na maior parte do tempo. Mudo. Era o que ele tinha se tornado. Do expressionismo jovial que sempre tinha seguido, a esse conformista mudo, cego e surdo. E em tal hedonismo ardoroso, e narcisismo estrondoso, se perdeu. E se perdeu pra nunca mais voltar. Entristecia com tal perspectiva. Enegrecia por dentro, e nada bom podia vir de tão vil cor, não é mesmo? Sua combinação interna era preta e cinza, cinza e preta. De maneira implacável a dor e o desespero inundavam-no. Estava tudo tão perdido, tudo tão embaçado, um futuro tão triste, uma vontade tão estúpida, uma vilania tão perversa. Jogou-se e juntou-se as gotas.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Poemas random.

Cansada
Respirar
Pra dentro
Pra fora
Quanto trabalho.
Não é mais fácil
Dormir
E ficar por lá?

Terra de ninguém
Preso
Preso pra sempre
Em si mesmo
E na sua prisão
Preso.

Gotas que caem no chão
Gotas que molham o pão
Gotas que nunca se esgotam
Gotas que chovem dentro
Gotas que chovem fora
Gotas que nunca mais choverão
Gotas que caem da face
Em direção ao duro
Chão.

Morte.
Tenra.
DOCE.
IMPERCEPTÍVEL
FINALMENTE,
Fim.

Fecha e não abre,
Descansa e não volta jamais.
Me deixa em paz.

A porta aberta,
A porta fechada.
Longe de mim,
Me separando de ti.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Falling away with you.

I'll feel my soul crumbling away
and falling away
falling away with you


Algo escapando pelos meus dedos frouxos e pego no último segundo. Era uma foto. Uma foto de dias mais felizes. Dias em que eu era mais feliz. Dias menos propensos a uma tempestade de emoções. A foto consistia em uma eu de uns meses atrás, com um sorriso nada ensaiado, cercada de pessoas queridas, vestida com um vestido rendado e branco. Joguei a foto no chão. Me arrastei de péssima vontade para a cozinha e enchi uma tijela funda o suficiente pra que eu me afogasse de sorvete. Voltei pra o divã da minha janela e observei o orvalho pontuar as folhas da madrugada. Não conseguia lembrar de quando fora bom. Sentia gotículas de suor escorrendo pelas palmas da sua mão. Enxougou-as delicadamente no seu lençol. Caminhou pela grama, esmagando levemente as folhas orvalhadas e intocadas da manhã. Caminhou sozinha até os balanços de um parquinho infantil que tinha por perto e sentou-se nele, quase sem forças, quase ficando tão orvalhada quanto aquelas folhas da manhã. Estava de pijamas. Seu pijama era uma camisola um pouco abaixo do joelho e meias, que agora se encontravam molhadas e meio sujas. Não importava o quanto achava que tinha crescido, continuava fazendo os mesmos erros de novo, e de novo, e de novo. E magoando as mesmas pessoas, e sendo a mesma pessoa totalmente deságradavel de sempre. As lágrimas começaram a escorrer lentamente. O frio começou a enregelar seus ossos, mas ela não pareceu se importar. Continuou caminhando lentamente até a banca de frutas mais próxima. Tinha dinheiro no soutien que colocou antes de sair de casa. Comprou cerejas frescas, mas não antes de enxugar o rosto com uma das pontas da camisola, pra que a vermelhidão dos seus olhos fosse atribuída ao sono. Andou a esmo, mas não de verdade. Só andou de um modo a parecer que não tinha um rumo, quando na verdade, tinha um. Não morava longe. Só continuou caminhando, com frio, cansada. Andava fazendo isso com maior frequência desde que começara a tomar os remédios. Dilacerou as cerejas com golpes rápidos dos cisos, sem mesmo tirar os caroços. Não tinha ninguém na rua a essa hora, antes das seis da manhã. Só alguns retardatários de festas, e uns bêbados e mendigos que dormiam um sono tranquilo nas calçadas forradas com papelão. Chegou ao bosque que antecedia seu banquinho favorito. Um sorriso em forma de esgar iluminou seu rosto pontilhado pelas lágrimas. Lá estava, no chão, o que ela andava todas as manhãs pra ver. Estava como sempre esteve. As lágrimas pontuaram de novo a sua face, de modo a que parecesse que ela estava chorando exclusivamente de alegria, mas a tristeza ainda estava pontuando seu interior de forma significativa. Ao invés de sentar-se no banco, sentou-se no chão, perto do grande monumento e do pequeno monumento pessoal. A torre eiffel parecia ainda mais bonita longe de todas essas pessoas que sempre a cercam e iluminada exclusivamente pelo sol da manhã ainda recente. E o seu pequeno monumento parecia mais sereno, mais imponente, mesmo ao lado de uma das suas coisas favoritas em todo o mundo. Riscado no chão, estava ele. "Je t'aime.". Ela sabia que era pra ela, sabia que era dela, e sempre seria só dela. Sentiu um cobertor abraça-la. Sua saída foi percebida pela primeira vez. E andaram juntos pra casa de novo, apesar das novas lágrimas pontilhando-lhe o rosto, estava mais feliz. Ou pelo menos, menos triste.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Citações

ME CITARAM, OMG.
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