sexta-feira, 6 de julho de 2012

Hold On To Your Kite

Dia 17 de julho de 2011 foi um dia triste. Acordei ao som de risadas infantis, mas não tinha nada de feliz. Levantei da cama em choque, andei até o banheiro sem conseguir derramar nenhuma lágrima. Me olhei no espelho. Cabelo desarrumado, olhos pesados, maquiagem da noite anterior ainda borrada da discussão quase decisiva que tive com o agora ex namorado. Roí minhas unhas. Sentei no chão do banheiro, de costas pra a porta, ainda sem derramar nenhuma lágrima. Tirei a blusa grande dos Beatles que usava como pijama e me enfiei embaixo do chuveiro, sem ligar a música do celular. A única coisa que me vinha em mente era o hospital. Estive no hospital antes. E disse pra ele que ia dar tudo certo, embora ele não pudesse me ouvir. Depois de sair do banho pesarosa, e vestir a mesma blusa, saí do banheiro. A atmosfera lá fora era diferente. Uma mistura de alegria infantil e pesar adulto. Acho que foi nessa manhã que eu cresci. Minha tia e minha prima estavam sentadas no sofá, conversando. Minha outra prima, aquela que não sabia usar palavras de gente grande, brincava no tapete com suas princesas e carrinhos cor-de-rosa, sem saber o que se passava a sua volta. Minha tia decidiu que nos faria bem sair para o salão. Por que se não dava pra mudar por dentro, pelo menos dava pra mudar por fora. Fizemos unhas e cabelos, e eu ainda não tinha conseguido derramar nenhuma lágrima. Saímos de lá e fomos ao supermercado. Compramos todas as coisas necessárias pra muitas pessoas comerem juntas e em silêncio. Voltamos ao apartamento, e eu ainda não conseguia derramar nenhuma lágrima. E as pessoas chegaram. Minhas outras tias, meu tio, e minha avó. Só quando eu vi minha avó, parada, deslocada, e com tanta tristeza nos olhos é que eu tive o primeiro impulso de chorar. Me segurei. Almoçamos tarde, num silêncio distante e confortável. Ao menos, mais confortável do que as palavras. A noite, depois de mais uma refeição silenciosa, sentamos-nos no sofá, todos juntos, para fazer as fatídicas ligações e avisar aos parentes e amigos mais próximos que o fim, infelizmente, tinha chegado. E foi aí que eu derramei, pela primeira vez, minhas lágrimas. Daí em diante, foi difícil de parar. Faz um ano, e ainda é difícil de controlar. Nos abraçamos, no intuito de parar de chorar, mas acabamos derramando mais lágrimas. Pelo menos sabíamos que a família ia se apoiar pra sempre, e era isso que nos manteve lá, indo. Minha avó acabou-se em lágrimas, e fomos abraçá-la. Foi dormir no quarto da minha tia, e nós ficamos na sala, tentando tapar os vazios com uma peneira. No dia seguinte, todos nos vestimos em um frenesi. Não um frenesi alegre, só uma euforia triste e pesarosa, e a sensação de que algo precisava ser feito. Ninguém usou preto. Nos enterros judaicos, em homenagem ao morto, os irmãos e esposa tem um pedaço das suas blusas cortadas, portanto, meus tios e minha avó usaram blusas mais simples. Chegamos cedo, antes das pessoas chegarem. E eu não sabia o que fazer ali. Minha avó sentou no cômodo que estava o caixão, simples, preto, tendo como único adorno uma estrela de Davi dourada, como lembrete de que a morte iguala a todos. Sentei-me com ela, mas não consegui ficar por muito tempo. Sentei lá fora, em uma sala aberta, mas também não fiquei muito tempo. Os homens foram chegando com as suas kipás, as mulheres com suas roupas modestas, e tudo que eu conseguia pensar era em como eu queria que nenhuma daquelas pessoas estivesse ali. Contive minhas lágrimas. Algumas pessoas me reconheceram, mas a maior parte delas não me via desde que eu era uma criancinha barriguda que andava de vestidos floridos por aí. Com o tempo, fui reconhecida. Apesar de desejar estar sozinha, socializei com os amigos da minha tia, com os amigos do meu falecido avô, com o meu outro lado da família, que foi lá pra prestar condolências. O celular do meu tio por parte de pai ficou a minha disposição, e eu precisava usá-lo urgentemente. Tentei ligar do meu, mas a falta de créditos não me deixava completar a ligação. Eram oito da manhã de um dia de férias, mas ainda assim fiquei extasiada de tê-la acordado. Um dos meus portos seguros me atendeu, me acalmou e chorou junto comigo. Depois disso, pude levar as coisas com mais calma. Ainda de olhos marejados, seguimos ao cemitério. O cerimonial aconteceu, as blusas foram cortadas, lágrimas derramada. Quando chegamos ao local de descanso eterno do meu avô, cada um jogou uma pá de terra. Fomos almoçar em grupo, afim de despistar a morte de nossas casas. As lágrimas foram contidas continuamente, e comemos profiteroles. Dormimos todos juntos, lembrando da união que nos manteria ali. Ao pisar na casa do meu avô, procurar em todos os cômodos e perceber que ele não estava mais ali, derramei mais lágrimas. Parecia que tinha um pedaço faltando, uma cadeira vazia, uma rotina desfalcada. O amor que sentimos por ele é imenso, e só cresce. Os dias foram negros depois que ele se foi, mas continuamos segurando as pontas. Obrigada, vô, por ter sido esse avô incrível que você foi. Vou te guardar comigo pra sempre. Depois de quase um ano, estou conseguindo começar a me reconstruir. Descansa e não esquece que eu te amo. Essa data de cima é um palpite, contando da data que eu cheguei até o tempo que você se foi. Você se foi, mas eu ainda te amo.

Um comentário:

  1. Filha querida, me emocionei até... seu texto é lindo! E minha saudade grande... amo muito você e toda a minha familia. Sinto falta de meu velho.

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