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Procurando o amor.


- Emily, traga seu dever de casa – Minha mãe gritou do andar de baixo para que eu descesse com minhas tarefas. Odeio minhas tarefas. Obedeci e levei o maldito dever. Ela olhou minuciosamente cada linha, cada pontuação, cada parágrafo do meu texto. Concluiu que estava bom e devolveu-me. Subi ao meu quarto, finalmente poderia ficar a sós com meu computador. Uma janelinha do MSN subiu na tela. John Andersen acaba de entrar. Certo, o que era aquilo? Meu coração palpitava em um ritmo acelerado, minhas mãos suavam, fazendo com que meus dedos escorregassem das teclas. Resolvi que não conversaria com John. Mesmo assim não consegui fazer as minhas malditas glândulas sudoríparas pararem de produzir todo aquele suor. Em cinco minutos, John pareceu ter se dado conta de que eu estava on-line, por que veio falar comigo.

John A. diz:
Em, você tem a matéria dos últimos dias de aula?

Ótimo saber que era só pra isso que eu servia. Dizer os deveres de casa que ele perdeu.

Emily Fichter diz:
Tenho sim, qual você está precisando?

John A. diz:
Sinceramente? De nenhuma. Eu só precisava de um motivo pra falar com você.

Emily Fichter diz:
Ah, é? Por quê?

John A diz:
Por que as minhas férias têm sido muito chatas sem você. Sabe, acho que eu nunca vi uma hora mais propicia pra falar que eu te amo, Em. Sempre amei. Acho que um fora virtual vai doer menos que um fora normal, não?

Emily Fichter diz:
Fora? Que fora? Sabe, eu acho que você está falando com a Emily errada.

John A. diz:
Não existem duas Emily Fichter no meu coração

Emily Fichter diz:
Encontre-me no parque em vinte minutos. No parque que a gente se conheceu. Você sabe qual.

John A diz:
Certo. Até lá.

Emily Fichter logged off
John A. logged off

Certo, eu preciso urgentemente de um calmante. Minhas mãos estão tremendo descontroladamente, meu cérebro está a mil, meu coração está dando saltos de alegria, e a minha barriga está revirando toda a comida que eu comi o dia inteiro. Bem, eu vou calçar meu All Star, pentear o cabelo, passar lápis e vou. Deixa pra lá, só vou calçar o tênis e pentear o cabelo. Por que eu não o penteio desde ontem, quando eu acordei. Calcei meu All Star amarelo e fui em direção à porta do banheiro, ajeitar os fios rebeldes. Estava com uma roupa comum, um pouco desleixada, mas ela não se importava de verdade. Vestia uma bermuda quadriculada em tons de preto e vermelho, e uma blusa vermelha como sangue. Meu All Star não combinava muito com a roupa, mas eu não estava ligando. Era meu tênis da sorte, e eu ia ficar com ele. Saí de casa batendo a porta com mais força do que eu desejava, mas não importava. Minha mãe abriu-a e gritou comigo. – AONDE VOCÊ PENSA QUE VAI? – Eu não respondi. Não me importava a bronca que eu ia levar, eu não ia ficar esperando a boa vontade dela pra sair. Eu tenho dezoito, porra. Eu saí correndo o mais rápido que as minhas pernas permitiram. Até que eu cheguei, com o cabelo castanho totalmente desgrenhado e com o coração bombeando mais sangue que de costume. Minhas bochechas ficaram totalmente coradas e John chegou repentinamente no parque. Usava um jeans desbotado e uma blusa que dizia “Elvis Is Not Dead”. Eu o encarei por alguns minutos, até que ele resolveu se pronunciar. – Em, eu precisava dizer isso pra você o mais rápido possível. Eu te amo. Desde sempre. Desde a quarta série, quando você chegou a mim e me disse que se eu colocasse a blusa pra fora da calça ficaria mais legal. Não te disse antes por que você estava com o babaca do Adam, e eu não queria estragar sua vida, sabe? Com um amor de amigo não correspondido. Então guardei pra mim. Mas, desde o dia em que você ligou pra mim, duas semanas atrás, aos prantos, pra confirmar minhas suspeitas de que o Adam era um babaca, eu penso em você o dia todo. Desculpe-me se eu estraguei nossa amizade, tá? – Ele finalmente parou pra respirar, e me encarou como se esperasse uma resposta. Simplesmente o beijei. Foi um selinho. Mas ele quis mais. E eu também. Tantos anos com o babaca do Adam, perdendo isso aqui. Então eu o beijei mais. E ele também. Ficamos nos beijando por longos minutos. Até que paramos e eu o encarei, séria. Meu deus, como aquele cabelo loiro rebelde me levava à loucura. – John, eu te amo. Desde muito antes de eu conhecer o Adam. – Foi nesse dia que eu arranjei um motivo pra ir à escola todo dia Foi também o dia em que eu arranjei um namorado que realmente valesse a pena. E foi o dia no qual eu consegui alguem pra dividir a minha vida sem sentido. Com muito sentido agora que ele chegou e não tinha previsão pra sair. Agora eu até poderia encarar a fúria da minha mãe. Por que eu sei que ele estaria do meu lado pra sempre.

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