segunda-feira, 13 de julho de 2009

Para Sempre Seu


Tão breve quanto a vida, é a morte. Nada nos tira da infindável solidão que a morte nos proporciona. Admito que, de forma alguma, foi o que pensei quando a vi estendida no chão. Seu corpo imóvel parecia fazer uma espécie de desenho, como o curso de um rio. Eu parei na porta, embasbacado. Emily parecia mais tranqüila do que nunca. Usava seu vestido favorito, com o desenho de uma carpa multicolorida, que a meu ver, sorria de modo intrigante. Não que realmente sorrisse. Mas não me parecia sorrir agora. Adotara uma expressão solene, inclinei-me a pensar. Ao seu lado, um livro aberto na página de número duzentos e onze, e um bilhete. Com receio, aproximei-me do corpo inerte de Emily, evitando a todo custo encarar seu olhar vítreo e acusador. Apossei-me do bilhete, e abri cuidadosamente o papel quase desfeito por lágrimas. Dizia o seguinte:

Não faço idéia de quem será o primeiro a encontrar esse bilhete. Ficaria embaraçada se fosse mamãe, de modo que peço que, quem quer que abra esse bilhete, mantenha-o longe da vista da mesma. A menos que ela mesma encontre o bilhete, então o estrago já estará feito. Escrevi esse bilhete estritamente para Derrick, sendo assim, gostaria que fosse entregue a ele. Derrick sinto desaponta-lo. Sinto mesmo. Sendo eu uma jornalista inútil e indisposta, era de se esperar que você não fizesse considerações a minha pessoa em seu testamento, apesar de ser sua esposa. Imagine a minha surpresa quando encontrei o nome de minha ilustre irmã em seu testamento, no lugar do meu? Permaneci atônita o resto dos meus dias, precisamente duas semanas desde essa descoberta. No mesmo infeliz dia, descobri sua secretária despindo-se em sua sala, pouco depois de meu almoço. O que me fez expelir toda minha comida do dia. Na verdade, não foi essa visão que me privou de apetite, mas sim o fato de que você, objeto de minha devoção, estava me traindo. Com sua secretária. Entrei em pânico. Não queria perde-te. Por isso as roupas provocantes. E as velas. E a comida especial. E a súbita saída das crianças de casa por duas noites. Você, por sua vez, estava muito mais distante do que nunca, o que me causou certo desespero. Respondia-me de forma indiferente e fria, deixando-me cada vez mais amargurada. Não tive escolha, senão ama-lo até meu ultimo segundo, que, infeliz, deixei esse mundo para sempre. Foi meu ultimo sofrimento, e sei que definharia aos poucos se o visse com outra mulher, por isso, acabei com minha dor, em um ato extremamente egoísta, e espero que todos vocês me perdoem. Sempre te amarei, Derrick. Até o triste momento em que eu deixar o mundo que conheço, estará em meu coração. Peço que diga a Patrick e Linda a verdade, que eu acabei comigo mesma. Eles merecem saber. Espero que não guardem rancor da mãe que os abandonou. Gostaria de dizer que deixo todos os meus bens para a família Scott e para a família Daniels, sendo repartido de forma igualitária entre vocês e meus parentes. Exijo que coloque a disposição de nossos filhos meus bens pessoais, e que não comente sobre sua amante até que Patrick e Linda tenham dezoito anos, o que levará doze anos. Antes disso, não os confidencie o motivo que eu tive para querer tirar minha própria vida. Quero ser cremada e jogada sobre o Rio Sena, lugar que nunca tive a oportunidade de conhecer pessoalmente. Não quero cerimônias. Só você. E foi o que eu sempre quis desde o começo. Você.
Para sempre sua,

Emily Elizabeth Scott Daniels.

Eu não a trai. Não era meu escritório. Era Luke. Era Luke, não eu. Ela se matou por minha causa. Se matou por que eu fui insensível de mais para pensar primeiro no trabalho do que nela. Ela seria pra sempre minha. Sempre. Eu seria pra sempre dela. Seria pra sempre só dela. Pena que o pra sempre não dure eternamente. Nesse instante, reparei em um álbum jogado no chão. Ele estava aberto e ensangüentado. Limpei o sangue com um lenço que eu achei no bolso.Percebi que foto era. Éramos nós quatro, três anos antes. Eu estava com uma mascara de boneco de neve, e ela beijando minha mascara. Patrick e Linda faziam caras enojadas. Era a mãe de Emily tirando a foto, no nosso sétimo aniversario de casamento, o qual foi celebrado com uma viagem pra Nova York. Emily e eu iríamos completar dez anos de casados hoje. Eu tinha comprado flores, um par dos brincos mais caros que eu já vi, um anel de compromisso, e tinha feito uma reserva no restaurante de nosso primeiro encontro. Não agüentei, e irrompi em lágrimas. Emily era meu mundo. Minha vontade de viver. Literalmente. Desci as escadas, e cancelei a reserva, com a voz mais firme que consegui fazer. Coloquei as rosas vermelhas que tinha comprado em um vaso, e joguei o anel e os brincos fora. Eu não sabia o que fazer. Sentei no sofá, e alcancei uma foto dela que ficava na mesinha de canto perto do sofá. Essa foto era do dia em que nos casamos. Emily usava o cabelo muito preto em um coque preso, de modo que parecia uma gueixa. Sorria, iluminada. Eu abraçava forte a cintura dela. Como eu senti falta daquela cintura. Ela usava o vestido mais lindo que eu já vi, da Vera Wang, ela me disse uns dias antes do casamento. Seus lábios eram rubros e seu rosto, como sempre, muito branco. Lembro-me da incerteza desse dia. E lembro-me que a certeza de querê-la era a única que eu tinha. Eu ainda tenho essa certeza. Mais agora ela acabou. Espero não descolorir ao longo dos anos.
Para sempre de Emily,

Derrick Petroski Daniels.

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