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Viúvas negras.


(Texto inspirado no atentado que ocorreu recentemente, no metrô da capital russa)

Uma bomba. Duas bombas. Três bombas. Quatro, cinco bombas. Bum. Todas faziam o mesmo som. Umma estava desesperada. Sentia-se vulnerável. Ele morrera, e não a deixara nada mais que dois filhos crescidos e amor de sobra. Que faria? Vivia na Rússia faziam dois anos. Podia juntar-se as chamadas Viúvas Negras. Mas não queria se vender para matar gente. Mas um arroubo de vingança percorreu suas veias. Ela soube que precisava fazer. Não podia ter deixado seu marido ir em vão. Procurou-os por todas as partes. Enfim, encontrou-os. De volta a Chechênia, encontrou-os. Visitou os túmulos de seus pais e marido, e seguiu para onde sabia que os encontraria. Entrou em ruelas envergadas e suspeitas, e finalmente os encontrou. Prometeu explodir aquele lugar que a trazia tanto rancor, e finalmente aplacar sua dor. Era isso. Na gélida manhã de segunda feira, ela pegou o metrô. Com uma enorme e suspeita bolsa. Mas estavam todos muito ocupados indo para o trabalho ou o que quer que fosse. O ódio e o medo penetraram fundo em suas veias. Sua íris ficara vermelha de cólera. Mas uma ponta de medo a assolava. Entrou no metrô. Sete e cinqüenta e cinco. Quase lá. A ponta de medo que foi o estopim do vacilo ao entrar no metrô aumentou. Ela não estava tão confiante quanto estivera algumas semanas atrás. Na verdade, sua confiança foi lentamente se esvaindo com o passar das semanas, e ela podia sentir que era mais medrosa do que qualquer outra coisa. Sete e cinqüenta e seis. Um minuto. Quanto a vida dela poderia mudar em um minuto? Bastante. Por que no próximo minuto, não haveria mais vida. Nem dela nem de muitos outros. A culpa a corroeu, mas era tarde demais. Talvez esse não fosse o jeito certo de ser lembrada. Mas era tarde demais para ponderar sobre isso. Ela não tinha o poder de desistir. Não cabia mais a ela escolher o destino de tantas pessoas. Sete e cinqüenta e sete. Bum. Pedaços voaram. Pessoas se foram. Mas Umma não tinha perdido uma coisa, que era a que mais lhe importava, acima da integridade, da coragem, do medo, da justiça, do sangue, dos costumes, da vida. Não tinha perdido ele. Ele sempre iria estar em seu dilacerado coração. E agora, eles iam se encontrar. Mesmo que isso significasse que ela tivera que morrer por ele. Ela morreu pelos dois. Pela sua pátria. Por todas as crianças chechenas mortas. Morte por morte, olho por olho, dente por dente. Talvez esse não fosse o modo certo de resolver as coisas, afinal. Mas de que adiantaria esperar? Não estava ficando mais jovem, isso era fato. Acabou-se por uma justa causa. E ainda iria encontrar seu amor. Não sabia se ele tinha subido ou descido, mas tinha a leve impressão de que ela iria descer. Não achou ruim. Sua vida era fadada a terminar, como a de todos. Ficara famosa. E agora, podia dormir em paz, junto dele, junto do silêncio que abatera a estação.

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