Pular para o conteúdo principal

I just laid down and cried

Eu pude perceber que o desvencilhamento estava vindo a passos largos. Eu pude ver que a cada dia as coisas estavam mais difíceis, mais trabalhosas. Eu tive olhos pra enxergar, e de certa forma, sabia que estava vindo, que estava cavalgando até mim essa dor lancinante que me embebe no momento.
Eu queria muito conseguir fazer poesia hoje, mas a verdade é que qualquer mundo é mais suportável do que esse, qualquer lugar é melhor do que dentro de mim, e eu sou tão intensa que mal consigo me explicar em palavras desse mundo.
Todas as coisas ditas e não ditas e meio ditas queimam dentro de mim. Fazem fogo de tempestade e de dor.
E eu quero ficar bem, eu não quero que minha tristeza seja um fardo pra ninguém além de mim. Eu quero conseguir sorrir sem pensar no fim.
É difícil organizar minha cabeça sem aquela ajuda destrutiva das coisas que sei que me fazem mal depois, mas que na hora me fazem pensar em qualquer coisas que não diga respeito a um nó que não existe mais. Mas eu estou tentando, por não saber bem quando que eu vou conseguir processar as coisas direito e não existe droga suficiente no mundo pra me manter para todo o sempre em estado catatônico.
A verdade é que a última vez que me senti tão triste assim foi quando eu perdi meu pai. Nos últimos quatro anos desde que o perdi, não me permiti adentrar tão profundamente em alguém e nem que alguém adentrasse tão profundamente em mim. Não contei pra ninguém algumas das coisas que consegui verbalizar pra você. Eu obviamente tive muito mais simpatia quando papai morreu, mas sinto que a dor se parece, sinto que estou de luto, com medo de voltar pra vida normal e o sentimento de dor nunca me deixar de vez.
Eu sou assombrada todos os dias por um medo constante e que ironicamente nunca me abandona de ser abandonada, enquanto a vida me prova todos os dias que vou sê-lo.
Eu tive tanto medo de te perder, tanto medo de me perder, tanto medo de nunca ser amada e de nunca ser cuidada e de ter tantos fardos que eu encarcerei dentro de mim tudo e depois cuspi em ocasiões diversas tudo isso de dentro de mim em todo mundo que me cercava, inclusive em você.
Consigo entender perfeitamente o por que de tudo isso estar se passando. Consigo entender e compreender mais do que eu me dou o crédito, na realidade.
Mas é só que tudo me dói.
Me jogar de cabeça em piscina rasa é minha especialidade, mas você na verdade talvez fosse mar, oceano, que eu jamais conseguiria encostar a pontinha do meu pé no fundo, que eu sempre iria me sentir confortada, mas assustada.
Eu parei de tentar analisar diariamente todos os meus sentimentos, tentei parar de afastá-los, também. Não sei bem o que fazer com eles, e é um exercício pra todos os dias: descobrir o que fazer com meus sentimentos.
Toda essa história de término é um grande exercício horroroso, um jogo que eu não sei as regras, um constante aperto no peito, uma constante dor irritante que eu não sei refrear e me sinto cada dia mais perdida mais doída menos eu e mais mergulhada em uma piscina de angústias que eu nem sei quais são quando na verdade queria só conseguir não mais me sentir aflita e queria não sentir sua falta e queria que tudo ficasse bem e não me machucasse mais mas eu não consigo.
Nesse momento, queria não ser sofrimento mais, queria não ser mais queria conseguir me sentir bem e plena mas a agonia me preenche e eu queria só mais uma vez estar nos seus braços e ouvir que você me ama.
Hoje eu não tinha chorado ainda, mas agora chorei. Chorei por que todas as células do meu corpo querem desistir, e eu tenho teimado em não deixar, tentado ver as coisas boas, ver tudo que não é cinza, prestar atenção em filmes que não prestaria antes, desvencilhar meus pensamentos de tudo que é nosso que nem é mais nosso por que o coletivo da gente não existe mais.
O coletivo da gente não existe mais e eu espero que algum momento você me ligue pra eu saber que você está bem.
O coletivo da gente não existe mais mas eu espero que a gente ainda possa existir, eu espero que a dor passe, que as horas passem, que os dias passem, que o amor que eu sinto por você exista, mas me dê uma trégua pra eu poder respirar, me dê um momentinho de paz por que eu sinto falta de paz quase tanto quanto eu sinto sua falta.
O coletivo da gente não existe mais. Existe eu. Existe você. Existem suas dores. Existem minhas dores.
E existe, também, esse sentimento de inacabado, de tristeza, essa coisa escura que paira sob minha cabeça.
Será que algum dia vou me sentir normal vou ser normal vou ter uma vida normal sem tanto peso e sem tanta angústia ser finalmente feliz com você ou sem você ouvindo alguma coisa que não seja a discografia da Weyes Blood no repeat e chorando no ônibus será que vou ser algo além dos farrapos de mim que tenho sido não só essa semana mas a algum tempo será que vou conseguir não cair me reerguer e será que vou finalmente arrancar essa espada alojada dentro do meu coração e viver mais tranquila?
Será que vou conseguir afastar de mim todos os sentimentos de consternação que me assolam desde sempre, será que algum dia deixarei de morrer aos poucos por dentro todos os dias, será que algum dia vou deixar mais alguém entrar e viver um romance e viver um amor e ser verdadeiramente feliz e não me afogar nas ondas que eu mesma criei e não sentir como se arrancar a espada alojada no fundo do meu coração tivesse sido um grande erro?
Eu não sei responder nenhuma dessas questões, nunca soube, não sei se saberei. Me manda uma mensagem um dia desses pra gente conversar sobre isso e outras coisas mais.
Que saudades tuas, pensei comigo mesma, mas só deitei na cama e chorei até conseguir levantar pra fumar um cigarro e mergulhar no torpor de alguma série ruim da Netflix.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Eu Vejo Tudo Enquadrado

 agonia sem nome no peito. coisas que não sabia nome, sabia sentir o sentido dos sentimentos. jorrava sentimentos esparsos e cansados, temerosos. talvez ressentia ter que ficar enjaulada dentro de várias coisa e dentre elas a doença. a cabeça pesava. de peito aberto pra sentimentos que ela arreganhou porteira, pra aquela agonia inominável.  temia que agora que mostrara o pior de si, aquilo assustasse. que estivesse chacoalhando demais o peixe no saquinho, apertando demais o passarinho na mão, até que ele desse o suspiro final. tinha medo de sentir aquela dor outra vez. mesmo sabendo inevitável e que o pra sempre é fantasia de fábula que nos contam na infância.  se mostrava inteira, mas nem sempre o que tinha pra mostrar tinha o glamour do mistério. as vezes, e muitas vezes, era só ela, desnuda, confusa e cansada no fim de mais um dia cheio de pensamentos ansiosos e paranoicos brincando de pingue pongue na cabeça. o desnudar-se deixava ela insegura que estivesse entregando...

As Deep As The Pacific Ocean

O ano de dois mil e vinte e dois começou com sabor de picolé caseiro de acerola.  Ultimamente, começou a sentir como se fosse primeira vez e também replay os sabores que a existência lhe podia proporcionar. Tudo tinha cheiro e gosto e um brilho diferente de vida. Podia sentir a mudança circulando em si, e nunca jamais pensou que poderia estar ali. Se a Bianca que foi aos quinze anos pudesse saber, sentir, e prever que não ia precisar e nem querer mais se esconder dentro de si, em recôncavo profundo e escuro, talvez ela não tivesse que ter reaprendido tudo sobre si antes de entender quem ela realmente era.  Nos últimos meses os pesos da existência estavam sendo retirados das suas costas cansadas e marcadas de dor. Nos últimos meses ela estava sendo apresentada a uma nova versão dela mesma. A uma versão que não sente gosto de sangue na boca quando se mostra pra alguém. Uma versão que não precisa forçar nada em lugar nenhum, que não precisa se mutilar pra caber, que não precisa s...

Don't Hurt Yourself

Acordou de um salto como de costume. Atualmente eram raros os momentos que acordava em paz. À contragosto, levantou da cama já com o twitter aberto no celular pra ler as atrocidades cometidas mais um dia mais uma vez pelo governo genocida ao qual ela e mais milhões de pessoas eram subjugadas todos os dias.  Lavou o rosto, escovou os dentes e tomou um banho gelado sem lavar os cabelos, ouvindo podcast mas sem conseguir desligar totalmente a cabeça das inseguranças e das ansiedades, que gritavam no fundo da cabeça, como se pedindo pelo amor de deus pra se materializarem e saírem correndo por que nem elas se aguentam mais. Nem elas aguentam mais o loop constante dos mesmos pensamentos das mesmas inseguranças dos mesmos medos girando na cabeça infinitamente que nem uma máquina de lavar quebrada no modo turbo eterno. Todo dia era dia de nó. Nó no peito, nó no estômago, nó na garganta, nós infindos.  Enquanto passava o café, repassava e julgava na cabeça as coisas que ela tinha dito...