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Quando Dei Por Mim, Tava Aqui

me afobei 
quando meu beijo 
retribuiu
não faz mal
no varal do deserto
estendo amor 
para dar

Eu fiquei meio ariada que a rede balançou. A minha rede sempre balança, e eu sempre balanço junto. Vivo balançada por alguém, eu vivo me entregando e me dando e me dando e sempre me privando de me aproveitar de mim mesma. Pareço fonte inesgotável de dor, e deus dará. Deus dará, mas por que ele não me dá? Por que sempre tenho que pedir a deus pra me dar, quando deus nada me provém? Quando tudo que tenho é dor, acumulada de anos. Anos nos quais me dei, anos nos quais não me respeitei, anos nos quais não fui capaz de me dizer que a minha saúde vale mais do que um beijo.
Quando te conheci, você não tinha cabeça raspada. Você tinha cabelinho curtinho, cortadinho do jeito que sempre me fazia sorrir. Na verdade, te conheci por foto.
Suas fotos me faziam sentir, e quando a possibilidade de algo tangível se aparece diante dos meus olhos eu agarro. Patética. Eu sempre me agarro a possibilidades, sempre me agarro ao menor sinal de possibilidade. Eu gostava do quanto você era misteriosa. 
Quando finalmente te conheci pessoalmente, você era uma ideia abstrata. Que nem todas as ideias imbecis que faço das pessoas, mas você estava lá. Abstrata e tangível. Eu quase podia pegá-la, senti-la, enebriar-me na sua presença forte. Mas você se foi. Foi um breve momento no qual pensei poder desfrutar de você pra mim.
Você estava com outra pessoa. Me retraí e resolvi ficar calada, na minha, desfrutando da minha solidão e quebrando a cara mais uma vez.
- Quem é a pessoa que você queria beijar? - 
Você perguntou de outra pessoa. E eu queria beijar você também. Eu queria ser absurda, eu queria saber responder com o mistério que achava que seria satisfatório o suficiente pra que você me quisesse. E eu lá sabia que mistério era esse. Eu só sabia que queria que você me quisesse, queria ser dessas mulheres, que se acaso me quiseres, eu só diria sim. Desconversei.

ninguém pergunta por você
mas eu te cito sempre mesmo assim
e aquele frango que tive com você?

Aquele dia eu queria ser um cavalo. Meu amor é seu cavalo. De tanto querer, no máximo de enebriez que podia conquistar, te enviei um pedido. Se eu soubesse o que esse pedido significava, talvez desligasse o celular e fosse dançar como se não houvesse amanhã. Mas havia, e como havia. O que não havia era eu, consciente. Só eu, só, dormente. 
Minha cabeça doía com o turbilhão de informações indesejáveis que me perpassava. Tudo me perpassava. Por favor, deixe-me conseguir o que eu quero dessa vez. Viajei em mim e viajei no ônibus. Me aventurei em outra cidade, e quando me perguntou se estaria em certo bar, desejei poder me teletransportar. 
Quando te vi, minhas palmas eram um clichê. Meu estômago era um clichê, minha garganta era um clichê, eu não podia comigo mesma, eu não podia com nada e virei uma cerveja de muitos mililitros pra conseguir fazer algo sobre isso.
Beijo de um milhão de fogos, e fugi.
Não soube lidar com o cavalo.


Esta mujer me he matado
Me ha espinado el corazón
Por más que trate de olvidarle
Mi alma
No da razon


Por que meu coração sangra todos os dias? Por que eu sinto dor dia sim, e outro dia também? Isso deveria ser simples, mas a dosagem foi grande demais. 
Eu me desgasto, eu me exausto, eu me gasto. Não basta, e não tem mais nada que eu possa fazer sobre isso.
Cavaste teu buraco, e quando não achou que bastava, cavou ainda mais, e talvez prossiga cavando. Não sei dizer ao certo.
Suas lágrimas rolam tanto que eu acho impossível que as minhas sequer existam fora de mim. A ideia delas, assim com a ideia que tenho de ti descansam no meu peito cansado. Meu peito sempre cansado e maltratado, que sempre faço questão de maltratar mais.
Quando vou aprender, quando vou esquecer, quando vai parar de doer.
Quando é que você vai parar de meter o dedo na minha ferida pútrida que sou incapaz de limpar. Quando é que eu vou parar de cutucar incessantemente esse bolo que insisto em chamar de amor, que insisto em cuidar e proteger, mas que na verdade é uma grande e gorda larva nojenta que se apodera de mim.
Quando eu vou poder ficar em paz.
Quando você vai me deixar em paz.
Quando eu vou me deixar em paz.
Tá doendo, mas vai passar?
Ou a minha vida é uma grande dor abstrata eterna que vou sempre alimentar com outras larvas gordas ou eu sou a larva gorda da minha própria larva gorda que não se satisfaz em me encher de pus fétido, mas que é o próprio pus fétido.
Será que eu sou só o pus traumatizado das minhas relações passadas, incapaz de encontrar amor, por que se encontrar, minha dor cessa e eu não posso que ela cesse, pois sou só dor.








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