É, morena, tá tudo bem. Está? Caramba, parece que esse ano tá se arrastando. Se arrastando... Bem devagar. Queria muito ver o fim desse dia, desse mês, desse ano. A começar pela minha reprovação. Que porcaria que é conviver diariamente com pessoas que praticamente nada tem a ver com você. Que porcaria é arrastar o ensino médio por mais um ano. Que porcaria que é se arrastar da cama, todos os dias, sem um propósito, sem uma vontade, sem um por quê. Sem. Só querendo passar por mais um dia, mais um dia pra morrer, mais um dia pra viver. Como disse Marcelo Camelo, é como se a alegria recolhesse a mão pra não me alcançar. E a cada dia, o dia consegue ser pior. Não importa o quanto eu diga pra mim mesma que vai ficar tudo bem, que vai tudo se resolver, que eu vou conseguir resolver tudo, parece que, por mais que eu tente resolver, tudo se embaralha mais. Nem lendo e vivendo na vida de outra pessoa eu consigo deixar isso de lado. Me consome de dentro pra fora. E de fora pra dentro. Parece que tudo que eu faço é chorar. Chorar até secar, secar por dentro a alma. Pesando a alma. Como se constantemente meu coração sangrasse, escorresse, mas ninguém mais vê. Já bati meu recorde de doenças esse ano. Umas sete, desde fevereiro. A escola tá me consumindo, a vida tá me consumindo. A maior vontade é de parar de existir, parar de respirar sem notar e sumir. Sumir. Mas como disse Bukowski, isso eles não deixam. Tem tristeza mais profunda do que quando a gente chora ouvindo Los Hermanos? E vê a nossa dor se fundir com a deles, devagar. É bom conversar com quem conserva dor dentro de si também. Você se compreende melhor e compreeende a dor do outro melhor. Se completa melhor, se sente melhor. A sua dor em mescla com a dor do outro é um bálsamo de compreensão. Doer sozinha é ruim. Doer sozinha é dor guardada, que não dá pra explicar, por que ninguém consegue entender, ninguém que não dói também entende por que uma menina de classe média, com comida na mesa, alguns bons amigos, um namorado, formação escolar boa, acesso a tudo no mundo, despeja lágrimas tão febrilmente.
agonia sem nome no peito. coisas que não sabia nome, sabia sentir o sentido dos sentimentos. jorrava sentimentos esparsos e cansados, temerosos. talvez ressentia ter que ficar enjaulada dentro de várias coisa e dentre elas a doença. a cabeça pesava. de peito aberto pra sentimentos que ela arreganhou porteira, pra aquela agonia inominável. temia que agora que mostrara o pior de si, aquilo assustasse. que estivesse chacoalhando demais o peixe no saquinho, apertando demais o passarinho na mão, até que ele desse o suspiro final. tinha medo de sentir aquela dor outra vez. mesmo sabendo inevitável e que o pra sempre é fantasia de fábula que nos contam na infância. se mostrava inteira, mas nem sempre o que tinha pra mostrar tinha o glamour do mistério. as vezes, e muitas vezes, era só ela, desnuda, confusa e cansada no fim de mais um dia cheio de pensamentos ansiosos e paranoicos brincando de pingue pongue na cabeça. o desnudar-se deixava ela insegura que estivesse entregando...
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