Eu te avisei. Se meter comigo, para quê? Agora está pendurada, que nem as outras. Pobrezinha. Eu até tentei avisar, que estar comigo era jantar com o perigo. Numa cega segurança, guiada por um instinto cego como o gume da faca recém amolada que enfiei, inteira, no seu peito. Pobrezinha. Tudo tem que ter um fim, você diz. Interessante como você foi realmente brilhante na afirmação. Você teve um fim. Tentou até gritar. Estamos longe demais para isso, meu amor. Mas de você eu gostava. Gostava mesmo. Até cogitei procurar outra vítima. Arriscado demais. Para mim e para você, não é mesmo? Pena. Hoje vou sair, meu amor. Vou ver pessoas, te arranjar companhia, quem sabe? Você está aí, nesse gancho, imóvel, tão só. Tive que jogar as outras fora, estavam começando a me incomodar com aquele cheiro pungente de cadáver velho. Você entende, não é? Vou apagar as luzes agora, querida. Boa noite.
O ano de dois mil e vinte e dois começou com sabor de picolé caseiro de acerola. Ultimamente, começou a sentir como se fosse primeira vez e também replay os sabores que a existência lhe podia proporcionar. Tudo tinha cheiro e gosto e um brilho diferente de vida. Podia sentir a mudança circulando em si, e nunca jamais pensou que poderia estar ali. Se a Bianca que foi aos quinze anos pudesse saber, sentir, e prever que não ia precisar e nem querer mais se esconder dentro de si, em recôncavo profundo e escuro, talvez ela não tivesse que ter reaprendido tudo sobre si antes de entender quem ela realmente era. Nos últimos meses os pesos da existência estavam sendo retirados das suas costas cansadas e marcadas de dor. Nos últimos meses ela estava sendo apresentada a uma nova versão dela mesma. A uma versão que não sente gosto de sangue na boca quando se mostra pra alguém. Uma versão que não precisa forçar nada em lugar nenhum, que não precisa se mutilar pra caber, que não precisa s...
Que amor.
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