Estava atrasada para o trabalho, de novo. Vestiu-se com pressa. Correu contra o tempo ao comer uma torrada com manteiga e queijo. Entrou no carro só para perceber que deixou a pasta dentro da casa já trancada. Correu e pegou a pasta. Chegou ao trabalho suada, meio descabelada, e de maquiagem borrada. Trabalhou incansavelmente para reparar o atraso, até abriu mão da hora de almoço. Pelas três da tarde, o trabalho estava totalmente pronto, e podia ir para onde bem entendesse. Assim fez. Saiu de carro para um bar qualquer, desconhecido. Entrou e pediu uma dose de vodka. Bebericando lentamente a bebida amarga, avistou do outro lado do bar um cara sentado sozinho, bebendo. Andou confiante até ele e sentou-se silenciosamente ao seu lado. “Olá.” Ela encarou o copo e depois perscrutou cuidadosamente as feições estupefatas dele. “Oi.” Ele se limitou a dizer, não diminuindo o ar de surpresa. “Está aqui sozinho?” Ele balançou a cabeça positivamente, e como não acrescentou nada, ela resolveu continuar falando. “Cheguei atrasada ao trabalho hoje. O que é uma coisa realmente estúpida de se dizer a uma pessoa desconhecida.” Ele encarou a mesa. “Paulo.” “Como?” “Meu nome é Paulo.” Ela sorriu. “Victoire.” E ele sorriu. Dedicaram alguns minutos a uma conversa totalmente trivial e tomaram mais alguns copos de bebida. Riram. Beberam demais, e acabaram na casa dela, ainda bagunçada pela correria da manhã. Tomaram mais uma dose de vodka puro, cada um. No momento seguinte, estavam seminus. E não precisaram dizer nada mais. No dia seguinte, um sábado, ele foi embora pela manhã, após uma torrada com geléia. Ela voltou a dormir, e percebeu um sapato dele. Como ele saiu sem um sapato? Passou no bar, onde o encontrou pagando a conta do dia anterior. “Eu não tinha seu telefone” E ele sorriu, fazendo uma covinha minúscula na bochecha. Entregou o sapato a ele. “Obrigada.” Saiu do bar, e caminhou até a casa de uma amiga. Riram, passaram o dia conversando e bebericando copos de Martini. Voltou para casa, já sem lembrar do nome de quem dividiu a cama com ela. Transaram, e só.
O ano de dois mil e vinte e dois começou com sabor de picolé caseiro de acerola. Ultimamente, começou a sentir como se fosse primeira vez e também replay os sabores que a existência lhe podia proporcionar. Tudo tinha cheiro e gosto e um brilho diferente de vida. Podia sentir a mudança circulando em si, e nunca jamais pensou que poderia estar ali. Se a Bianca que foi aos quinze anos pudesse saber, sentir, e prever que não ia precisar e nem querer mais se esconder dentro de si, em recôncavo profundo e escuro, talvez ela não tivesse que ter reaprendido tudo sobre si antes de entender quem ela realmente era. Nos últimos meses os pesos da existência estavam sendo retirados das suas costas cansadas e marcadas de dor. Nos últimos meses ela estava sendo apresentada a uma nova versão dela mesma. A uma versão que não sente gosto de sangue na boca quando se mostra pra alguém. Uma versão que não precisa forçar nada em lugar nenhum, que não precisa se mutilar pra caber, que não precisa s...
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