Na classe, o professor colocou um vídeo. Vídeo pesado. Cheio de terror. Não havia sangue. Havia brutalidade. Algo nada incomum no mundo. Crueldade, exposta, nua e crua. Seus olhos lacrimejavam. Já tinha visto tal vídeo uma vez. Não estava gostando de vê-lo de novo. Esfregando na cara aqueles corpos putrefatos de milhares de judeus no holocausto. Era judia. Se sentia judia. Sentia dor mental e física vendo aquilo. As pessoas, negando envolvimento. Como podiam? Nunca protestaram. Nunca foram contra. Se não foram contra, apoiaram. Sentia nojo, sentia repulsa. No escuro, encontrou uma mão. Uma mão que afagou a sua, que apertou a sua, que partilhava da sua repulsa. Uma mão, que por mais que fosse quase tão fajuta judia quanto a dela, era uma mão amiga. Uma mão que sentia, involuntariamente, as agruras do vídeo. Sentia mais que os outros. Apertaram as mãos, em sentimento conjunto de cumplicidade. Eram amigos a mais tempo do que podiam contar. Aquela intimidade, de apenas segurarem as mãos, deu a ela forças pra não chorar, levantar a cabeça e encarar os dias. Se os sobreviventes tão sofridos dos campos de concentração conseguiram, ela conseguiria. Conseguiriam. Como estava sendo tão difícil sem ele. Sem aquela mão ossuda pra apertar, aquele corpo conhecido pra sentir junto ao seu quando as lágrimas rolavam, que nem no dia do vídeo. Volta. Aquele vídeo mostrou pra ela que enquanto tivesse aquela mão, nunca estaria sozinha. Super amigos pra sempre.
- PUTA MERDA, EU AINDA NÃO ACREDITO QUE VOCÊ ESTÁ ESTUDANDO AQUI! – Eu gritei no meio do corredor, fazendo com que todos olhassem pra mim. – É, eu estou, idiota. Agora pare de gritar e fazer todo mundo me encarar. Eu gosto de chamar atenção, mas eu sou novata, porra. – Ela me olhou tentando fazer um olhar de censura, mas a beira dos risos. – E eu sou veterana, e não estou nem aí, porra. Eu ainda não acredito que você está aqui, pirralha. – Eu ria da cara de desprezo dela pelo apelido. Sinceramente, eu amava com todas as minhas forças o fato de aquela criatura irritante e chata estar estudando na minha escola. – Eu não gosto de você, Wainberg. – Ela falou e me olhou com tanto desprezo quanto eu olharia uma aranha enorme subindo na minha mão. Ah, espere, eu não olharia a aranha com desprezo. Com medo, talvez. – Eu também te amo. – Eu sorri amigavelmente. Ela me desprezou – Eu não falei que te amava, porra – Eu olhei me fingindo de ofendida. – Eu quero um abraço. Me dá um abraço? – Ela so...
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