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Sertão D'alma (finalmente) Vira Mar

Caminhando lentamente para a praia com cabeça inquieta. O sol surgia nela, com um calor ameno que esquentava as bochechas. A garganta doía dos vários maços de cigarro fumados durante a noite sem fim, mas ela prosseguia baforando a fumaça fedorenta de um cigarro vagabundo. Chegaram no mar-encontro-do-rio. Vestida, testou a água rasa. As ondas pareciam um desenho impressionista impresso num folhetim que ela tinha certeza que já tinha visto. Foi entrando mais fundo. Água até o joelho, voltou para areia. Tirou o short, deixou a canga e o celular juntos e voltou pro mar. O frio da água não mais fazia diferença, o vento meio gelado cheio de areia ressoava no ouvido dela, fazendo com que fosse impossível de se escutar a música da caixinha de som que seus amigos trouxeram. Meio na água, meio no ar, parou. Tirou os óculos escuros e apoiou no topo da cabeça, e com esse gesto, como quem não quer nada, seu corpo se preencheu de sofrimento. Lágrimas grossas rolaram e soluços escaparam de si. Sem...

filme francês de hollywood

minha vida passou de um marasmo imbecil overachiever de filme hollywoodiano pra um filme francês mal divulgado. enquanto eu ouço piaf e devaneio sobre os poemas, belos, que a menina que sofro de paixonite aguda me enviou, penso no futuro. penso em uma tarde ensolarada na qual eu estou de folga. penso em um cigarro aceso e dois corpos nus, deitados na cama, sob a sombra e sob a luz do sol. uma se aproxima por cima da outra, provocando encontro sutil de corpos. alcança a carteira de cigarro na mesa de cabeceira. pega um e o acende. a fumaça parece poesia. ambos os corpos permanecem em silêncio. a boca apenas abre para a introdução do cigarro e para expelir a fumaça provocada por ele. uma onda de nostalgia invade uma das duas. dá um riso de canto de boca. o que foi? nada. acendem um beck pré bolado. sabe o que eu gosto de fazer quando estou chapada? recitar poesia. ambas riem. e recitou poesia. ocasionalmente, me olhando no olhos, só desviando para furtivamente olhar para a pa...

Chuva

A imagem clichê da boemia juvenil de uma semi mulher sentada na frente do laptop, com um cigarro na mão, uma blusa larga digitando asneiras num microblog online. Queria ser josé saramago. Compartia com ele o coração de carne que sangrava todo dia, o vício no cigarro e o desgosto por parágrafos e letras maiúsculas. Que difícil que é digitar segurando um cigarro. Apagou o que segurava pra melhor vomitar palavras sem nexo e sem conexão, de maneira furiosa, no teclado à sua frente. Sem nexo, furiosa e sem conexão, na verdade, eram palavras chave do poço de sentimentos adversos e cruéis que assolavam sua alma, meio mazelada, pendendo pra a reclusão. Sempre disse a si mesma que seu sofrimento era belo quando colocado em palavras, e esse texto era uma desesperada tentativa de ver beleza na dor. Não aguentava mais encher o feed de textos sobre si, por que tinha a leve (e correta) impressão que todos cansaram de lhe dar ibope por coisas vazias, mas cheias de coisas que ela tirava do profundo ...

De Se Sentir Só, Pequena E Cansada

You don't have to act like you're alone Solidão era um peso. Sentir é um peso.  E se sentia só, dois pesos enormes que só faziam crescer e encurvar-lhe a coluna, cada dia mais. Sentia tédio o ojeriza de rotina, mas dormia mal a noite, pensava no fracasso e almoçava correndo pra ir ao trabalho. Levantava, religiosamente, todos os dias. Comia a mesma comida por preguiça de fazer algo novo. Saía quase rastejando pra faculdade. Voltava e se enfiava num banho gelado. Do banho gelado, arrastava o corpo ainda úmido pra cima do lençol da cama. Assistia alguma porcaria no netflix até adormecer. Nos tempos livres, reclamava e existia. Como se levanta a modorra da vida cotidiana? Como se sai do estupor da existência? Como se vive experiências novas quando se está sempre presa na mesma vida, que corre e perpassa os dedos semiabertos, escorre de si e desce pelo ralo?  Aí no final de semana, bebia umas doses de qualquer coisa pra apaziguar a alma confusa, cheirava uns tecos de f...

It All Feels Right

Cores. Cores piscavam, incessantemente, nos seus olhos fechados. Abriu-os, com a certeza de que isso faria com que as cores a deixassem em paz. Só se intensificaram. Sabia que não podia fugir daquela explosão de cor, amor e sentimento. Sentir era tão precário, tão primitivo, tão doloroso, não queria sentir, não queria abrir, queria trancar-se em si, encarcerar a possibilidade de um dia chegar a cogitar essa cilada que era o sentir. Batiam na porta, com força. Quase arrombando a barreira precária que ela construíra entre seu coração brutalizado e a vida lá fora. Mas a vida chama. E como chama! Grita no ouvido, a plenos pulmões. Levanta dessa cama! Veste uma roupa! Saia de casa! Muda tua vida, e depressa, depressa, que nada espera pra você ser feliz, e só quem constrói isso é você. Eu sou feliz? Eu sou feliz. Eu sou feliz! Repetiu a frase, com a palavra escorrendo da boca, timidamente, até que pudesse voar, encantada com sua própria existência, com seu próprio e inesperado espl...

Desanuviar

Peso no peito de fim. Peso no peito de medo. Porém feliz. Feliz. Incrivelmente, pela primeira vez no que parecia uma eternidade, tudo parecida no lugar, correto, fazendo sentido de um jeito simples e bizarramente real. Levemente sedada das coisas da vida, num universo paralelo particular-compartilhado no qual o esplendor do viver existia. Existia vida no viver. Realidade no real, nesse mundo dos bonecos de carne ambulantes. Por que findos os momentos? Por que finita a vida? Se no peso dos ombros levava os anos, quem partilhava o peso? Caminhando na estrada com ela, aplacando a dor dos ombros cansados e da cabeça, pesada como seu coração. Quando finita, me sinto infinita, desanuviada. Sensação incrível de se ouvir saindo da boca do outro. Sensação de delícia inesperada, de espanto positvo. Um semi desconhecido sendo um pouco de você. Sentindo união, coisas inexplicáveis que não se coloca em palavras. Medo de não reciprocidades, porém tudo estava tão incrível que apaziguava sua alma, ...

De Ausência e Saudade

I must be strong, to carry on, 'cause I know there'll be no more tears in heaven Há muito não andava por lá. Dessa vez, diferente das outras vezes, estava acompanhada por um grupo de várias pessoas. Cada passo dado, mecânico, era dado em direção a uma lembrança, muitas as quais não recordava de ter guardado em recônditos escuros da memória. Quando criança caiu de bicicleta nos viveiros, se meteu na lama pra caçar bichinhos, tomou banho no açude perto dali. Quando adolescente, aprendeu a dirigir ali de forma mediana, nunca dando continuidade aos ensinamentos automobilísticos, apesar da frequente insistência do pai. Aquilo era seu pai. Aquela água toda, a lama, o mato. As vezes que a segurou pra não cair da bicicleta, que a levou pra ver a estação de bombeamento da fazenda, que, quando chovia, voltava pra casa, enlameado, e ambos tomavam banho de mangueira no quintal. Agora, seu pai estava em um pote, segurado tremulamente pela sua mãe. As pessoas andavam juntas em direção ao ...