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Used To Being Alone

Hoje enquanto eu estava fazendo meu risoto pra um, debruçada sob o fogão com um taça de vinho, escutando um episódio de Gilmore Girls, estive pensando sobre minha vida.

Eu gosto do que eu faço, apesar do cansaço inerente que todos os professores passam durante a vida, eu gosto de interagir com os alunos. 

Fiquei me questionando, ainda sóbria, se sempre seria assim. Se as piadas auto depreciativas que faço em voz alta e também pra mim mesma seriam verdade: que eu iria acabar sozinha, indo com múltiplos encontros pra os casamentos dos meus amigos, sempre tomando uma taça de champagne a mais do que o necessário. A gente vai ficando calejado das coisas da vida, mas eu queria tanto não ser. Queria tanto a ingenuidade do meu ensino médio pra me levar pela vida, sempre acreditando no melhor. Engraçado que na minha playlist do mês, que não só é minha playlist do mês, mas também ao que estou ouvindo, meio bêbada, digitando esse texto num blog que tenho desde 2009 e que sempre foi o antro de todas as minhas frustrações. Ouvindo o famoso e querido David Bowie cantar Changes: é como ele disse, time can change me but I can't change time. 

Eu fico cansada de me perguntar se as coisas sempre vão ser assim. Eu queria ser somente aquela versão despreocupada que eu gosto de me fantasiar sendo: aquela mulher que todos gostariam de estar com, aquela pessoa engraçada e sem preocupações que eu gostaria tanto mas tanto mas tanto mas tanto de ser, ao invés dessa patética figura sentada sozinha com o ventilador no máximo digitando um monte de baboseiras num blog qualquer que ninguém lê.

Enquanto escrevo isso, o mood muda drasticamente para o famigerado CD de mcfly: eu sempre achei que a vida seria um conto de fadas. Mas que conto de fadas está realmente reservado para a menina gorda, negra e LGBT da história? Quem é o príncipe ou princesa que vai me resgatar e me levar pra uma viagem inesquecível, pra uma vida de felicidades e na qual eu não vou ter mais que me perguntar sobre nada por que a vida simplesmente flui.

Agora a voz de Paul McCartney ecoa nos meus ouvidos: suddenly, I'm not half the man I used to be. Yesterday came suddenly. Now I long for yesterday.

Ontem era tudo tão mais fácil que hoje. Sobreviver ao hoje é preciso, Paul, eu sei, mas é tão mais fácil acreditar no ontem que eu nem sei como te explicar os nós e as voltas que esse coração dolorido faz. Eu nem sei explicar os sentimentos e as lágrimas que correm meu rosto sem parar enquanto ouço sua voz aqui. Por que a coragem pra viver o hoje existe, mas dói tanto ser forte. Dói tanto seguir em frente que as vezes eu desejo que um ataque cardíaco fulminante e indolor me leve dessa existência pra outra. 

Margareth  Menezes agora canta sobre traição. Margareth sabe de várias coisas, inclusive de dores do coração: pode chorar, pode chorar. Vai, chora. Nessa hora, faço uma pausa estratégica pra bolar meu cigarro, que é uma das coisas nas quais eu falhei, mais uma vez. Parar de fumar.

De repente começa a tocar a última música, Used to Being Alone, de Azaelia Banks, e com ela o desejo de estar em uma festa mal iluminada fazendo escolhas ruins. Eu estou acostumada a estar sozinha. 

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