Pular para o conteúdo principal

Blackbird Singing In The Dead Of Night

Deitado na cama. Não conseguia, de maneira alguma, encontrar uma posição confortável pra dormir. Já eram quase cinco da manhã. Suspirou. Os únicos barulhos eram do ar condicionado, da sua respiração, e do vizinho de cima, que aparentemente tinha insônia. Ficava refletindo sobre as comédias românticas que já fora obrigado a ver, e como elas sempre davam um jeito de dar certo com aquela mulher esquisita que o personagem conhecia em algum lugar inóspito e absurdamente clichê ao mesmo tempo. Quando se levantou, não muito tempo depois, pra se arrumar, lembrou do cheiro das coisas as quais ele não sentia mais o cheiro. Lembrou das coisas as quais ele não via mais. Saudade. Era essa a palavra. Conseguiu, por tempo o suficiente, manter as borboletas no estômago.

Depois de mais uma noite em claro, sentou-se na beira da cama, esperando que alguma coisa acontecesse. Bocejou, apesar da clara falta de sono. Estava com um pressentimento estranho, novo, de que tudo ia dar certo. Não gostava muito desse pressentimento. Geralmente significava que ela estava errada, e que ia cair escada a baixo, e ficar lá, de tapete, no chão, por algum tempo. O sol ainda não tinha surgido, e ela sentia que foi assim por tempo o suficiente para que esquecesse de como era interessante quando ele saía e deixava todo mundo com calor, as vezes insuportável, mas melhor que o frio.

Conseguiu passar o dia sem pensar em nada relevante, se é que isso era possível. Foi isso que a vida dele se tornou? Uma massa disforme e sem muito sentido? Quem dera algo acontecesse.

O otimismo a estava comendo por dentro. Era hora de parar, antes que fosse tarde demais. Online no chat, e ela deu pulinhos. Merda. Era tarde demais.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Eu Vejo Tudo Enquadrado

 agonia sem nome no peito. coisas que não sabia nome, sabia sentir o sentido dos sentimentos. jorrava sentimentos esparsos e cansados, temerosos. talvez ressentia ter que ficar enjaulada dentro de várias coisa e dentre elas a doença. a cabeça pesava. de peito aberto pra sentimentos que ela arreganhou porteira, pra aquela agonia inominável.  temia que agora que mostrara o pior de si, aquilo assustasse. que estivesse chacoalhando demais o peixe no saquinho, apertando demais o passarinho na mão, até que ele desse o suspiro final. tinha medo de sentir aquela dor outra vez. mesmo sabendo inevitável e que o pra sempre é fantasia de fábula que nos contam na infância.  se mostrava inteira, mas nem sempre o que tinha pra mostrar tinha o glamour do mistério. as vezes, e muitas vezes, era só ela, desnuda, confusa e cansada no fim de mais um dia cheio de pensamentos ansiosos e paranoicos brincando de pingue pongue na cabeça. o desnudar-se deixava ela insegura que estivesse entregando...

As Deep As The Pacific Ocean

O ano de dois mil e vinte e dois começou com sabor de picolé caseiro de acerola.  Ultimamente, começou a sentir como se fosse primeira vez e também replay os sabores que a existência lhe podia proporcionar. Tudo tinha cheiro e gosto e um brilho diferente de vida. Podia sentir a mudança circulando em si, e nunca jamais pensou que poderia estar ali. Se a Bianca que foi aos quinze anos pudesse saber, sentir, e prever que não ia precisar e nem querer mais se esconder dentro de si, em recôncavo profundo e escuro, talvez ela não tivesse que ter reaprendido tudo sobre si antes de entender quem ela realmente era.  Nos últimos meses os pesos da existência estavam sendo retirados das suas costas cansadas e marcadas de dor. Nos últimos meses ela estava sendo apresentada a uma nova versão dela mesma. A uma versão que não sente gosto de sangue na boca quando se mostra pra alguém. Uma versão que não precisa forçar nada em lugar nenhum, que não precisa se mutilar pra caber, que não precisa s...

Calada E Só

Depois de toda a euforia estresse preocupação, de repente uma onda de calmaria chega. Mas é daquelas calmarias avassaladoras, sabe? Que se instala no peito e rouba o fôlego. Calmaria ansiosa, sem saber o que esperar do futuro. Se perguntando onde estava o erro, se tudo caminhava tão tranquilamente? Por que ela esperava pela quebra da onda toda vez? Por que não conseguia encontrar descanso na calma, por que ficava a procura daquilo que poderia estar espreitando? Tentava veementemente não dar lugar pras paranóias, não dar espaço pra que o não dito por que não foi nem sequer cogitado mas abria caminhos pra infindáveis perguntas e questionamentos que vinham sem pedir licença. Domingo é sempre assim: a gente fica questionando a própria existência com lágrima escondida atrás das pálpebras: as vezes rola, as vezes a gente faz força pra cair, mas fica lá, teimando em te atormentar com a ideia de que se talvez meus sentimentos transbordarem pra fora de mim, talvez eles parem de me atazanar....