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Solidão Não Cura Com Aspirina

Um dia desses, em um show cover interessante na Ribeira, eu vi um cara. Na verdade, depois de um show na Ribeira, do lado de fora do Dosol, ouvindo Metallica. Enquanto eu assistia esse cara, uma história engraçada se desenrolava ao meu lado. Mas o desenrolar dessa outra história não interfere na primeira, só serviu pra situar as pessoas que não estiveram lá. É importante frisar que a rua do Dosol é uma rua apertada, de paralelepípedos, com cheiro pungente de urina, lotada de pessoas semi bêbadas, com seus cigarros nas mãos e suas caras de indiferença, tentando parece legais a todo custo. Tem aqueles ambulantes que vendem cigarros de péssima qualidade a preços exorbitantes, bebidas sujas, e esqueiros. Lotada de bares e casas de shows, que apresentam peças e shows do interesse dessas pessoas, algumas fingindo gostar e outras suadas e nojentas, com sorrisos imensos, apesar das roupas pretas que não oferecem nenhum tipo de receptividade. Essa é a Rua Chile. Enquanto o show se desenrolava lá dentro, bebíamos uma vodka barata vendida ali ao lado, conversávamos e minha amiga se empenhava em se livrar de um bêbado insistente. Era um cara de calça de couro, jaqueta de couro, coturnos, blusa de alguma banda que eu sou incapaz de me lembrar, cabelo bagunçado de suado do show (ou do calor que provavelmente estava fazendo dentro das roupas que ele estava usando, já que a cidade é realmente quente), e uma cara de interesse em qualquer coisa. Estava em um grupo de amigos. E eu no meu grupo de amigos. Nunca tinha visto essa criatura na minha vida. Por que agora, Deus, por que agora? Estava solteira. E surpresa por nunca tê-lo visto, já que a cidade é relativamente pequena, apesar de ser a capital. Passei a observá-lo. E um dos meus amigos notou minha fascinação. Não fui discreta, na verdade. "Ó que cara gato" "Vai lá falar com ele." "Que tal assim, só que não?" "Vá falar com ele antes que ele vá embora" E ele estava indo embora. Lentamente caminhando com os amigos. "Mas eu nem o conheço" "E daí?" "Eu vou chegar lá e dizer "ei, tudo bem? te achei gatinho, quer ficar comigo?" "Não, seja mais sutil. Mas fale com ele" "Nãaaaaaao" "Quem perde é você, tsc" Meu amigo saiu e me deixou sozinha com meus pensamentos enquanto eu assistia o menino ir embora. Ele era, evidentemente, mais velho que eu. Não que eu me importasse. Não costumava namorar caras mais novos, e não ia começar agora. E ele foi se afastando. Acho que esse homem foi um dos meus maiores arrependimentos, principalmente por que depois não o vi nunca mais. Era de se esperar o contrário de uma cidade pequena, mas ele provavelmente não era daqui. Me arrependi amargamente do que poderia ter sido. Acho que o maior problema é esse: Nunca ter sido. Por que algo que nunca foi, é algo que incita nossa imaginação sobre como e se poderia ter sido. Imaginar o que poderia ter sido pode ser confundido com saudades, mas nesse caso, como pode ser saudades de uma coisa que nunca existiu. Talvez o problema seja solidão. Sei que parei pra pensar nisso enquanto pintava, e acabou saindo isso, esse rancor de mim, esse medo da solidão, essa vontade de sair pra o Dosol todo dia. Correndo o risco de parecer idiota, esse pode ser classificado como um dos meus maiores arrependimentos.

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