Pular para o conteúdo principal

Desprogramar.

Girou para o lado contrário dessa vez. Bateu de encontro com a porta aberta. Gemeu de dor em uma sintonia diferente. Gritou. Caiu no chão, em pedaços. Desespero.As últimas notas da música ainda retumbavam nas paredes brancas. E ainda ressoavam insistentemente nos seus ouvidos. Tampava-os. Respiração descompassada. Tremeu. Batia a cabeça no piano, tentando arrancar mais notas ou talvez alguma significância. Foi em vão. Tudo foi em vão. Ela era em vão. Estava girando, girando, girando, girando, girando. O coração lutava pra sair do peito. Batia com uma força impressionante, machucando ela por dentro. Ultimamente tudo a machucava. As pessoas apontavam dedos acusatórios, ela apontava pra si mesma no espelho, a sua imagem fazia com que quisesse vomitar. Enquanto girava, caiu. Caiu em cima do tornozelo, quebrou. E um grito de dor lancinante percorreu todo o caminho até a sua boca, mas voltou. Voltou de teimoso. Ela não era de desistir, mas dessa vez estava cansada demais pra continuar. Deixou-se levar pela dor, prazerosa dor. Quando conseguiu levantar, caiu de novo, e deixou-se tomar pela dor de novo. E de novo, e de novo, e de novo, e de novo, e de novo. Deixou-se tomar pela dor de dentro e de fora, deixou-se perder e enlouquecer dentro e fora. E de novo, e de novo, e de novo, e de novo. Caiu pela terceira e última vez.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Eu Vejo Tudo Enquadrado

 agonia sem nome no peito. coisas que não sabia nome, sabia sentir o sentido dos sentimentos. jorrava sentimentos esparsos e cansados, temerosos. talvez ressentia ter que ficar enjaulada dentro de várias coisa e dentre elas a doença. a cabeça pesava. de peito aberto pra sentimentos que ela arreganhou porteira, pra aquela agonia inominável.  temia que agora que mostrara o pior de si, aquilo assustasse. que estivesse chacoalhando demais o peixe no saquinho, apertando demais o passarinho na mão, até que ele desse o suspiro final. tinha medo de sentir aquela dor outra vez. mesmo sabendo inevitável e que o pra sempre é fantasia de fábula que nos contam na infância.  se mostrava inteira, mas nem sempre o que tinha pra mostrar tinha o glamour do mistério. as vezes, e muitas vezes, era só ela, desnuda, confusa e cansada no fim de mais um dia cheio de pensamentos ansiosos e paranoicos brincando de pingue pongue na cabeça. o desnudar-se deixava ela insegura que estivesse entregando...

As Deep As The Pacific Ocean

O ano de dois mil e vinte e dois começou com sabor de picolé caseiro de acerola.  Ultimamente, começou a sentir como se fosse primeira vez e também replay os sabores que a existência lhe podia proporcionar. Tudo tinha cheiro e gosto e um brilho diferente de vida. Podia sentir a mudança circulando em si, e nunca jamais pensou que poderia estar ali. Se a Bianca que foi aos quinze anos pudesse saber, sentir, e prever que não ia precisar e nem querer mais se esconder dentro de si, em recôncavo profundo e escuro, talvez ela não tivesse que ter reaprendido tudo sobre si antes de entender quem ela realmente era.  Nos últimos meses os pesos da existência estavam sendo retirados das suas costas cansadas e marcadas de dor. Nos últimos meses ela estava sendo apresentada a uma nova versão dela mesma. A uma versão que não sente gosto de sangue na boca quando se mostra pra alguém. Uma versão que não precisa forçar nada em lugar nenhum, que não precisa se mutilar pra caber, que não precisa s...

Calada E Só

Depois de toda a euforia estresse preocupação, de repente uma onda de calmaria chega. Mas é daquelas calmarias avassaladoras, sabe? Que se instala no peito e rouba o fôlego. Calmaria ansiosa, sem saber o que esperar do futuro. Se perguntando onde estava o erro, se tudo caminhava tão tranquilamente? Por que ela esperava pela quebra da onda toda vez? Por que não conseguia encontrar descanso na calma, por que ficava a procura daquilo que poderia estar espreitando? Tentava veementemente não dar lugar pras paranóias, não dar espaço pra que o não dito por que não foi nem sequer cogitado mas abria caminhos pra infindáveis perguntas e questionamentos que vinham sem pedir licença. Domingo é sempre assim: a gente fica questionando a própria existência com lágrima escondida atrás das pálpebras: as vezes rola, as vezes a gente faz força pra cair, mas fica lá, teimando em te atormentar com a ideia de que se talvez meus sentimentos transbordarem pra fora de mim, talvez eles parem de me atazanar....