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Love.


- Eu não posso deixa-lo ir sem contar o que eu sinto. – Sentia os pés batendo com força no asfalto duro. Estava de tênis, mas o solado gasto não agüentava os passos pesado contra o chão. Ela tinha que chegar a tempo, tinha que ter valido a pena. Vinte minutos. Ela acelerou o passo, se é que possível. Os pés doíam mais, e a exaustão corroia cada centímetro do seu corpo, mas ela não ia ceder. Não ia ceder, em hipótese alguma. Já ia partir, precisava chegar a tempo, nem que chegasse suada, chegaria a tempo. Dezenove minutos. O coração dela descompassava. Não deveria ter deixado o hospital, os rins iam falhar. Mas tinha que conseguir. Chegava mais perto. Dezoito minutos. A bata verde do hospital farfalhava perto do cós do seu Jeans. Não tinha tido tempo pra trocá-la, e provavelmente não teria. Só tinha tempo de chegar lá e falar. Dezessete minutos. A porta. Conseguia ver a enorme porta de vidro que abria um universo que nunca havia adentrado antes de hoje. Não respirava direito, mas em grandes e desregradas doses cavalares de ar. Resfolegava, e se sentia menos humana a cada passo esforçado dado. Precisava seguir em frente. Dezesseis minutos. Os seus pés praticamente se recusaram a continuar andando, mas não restava tempo, era tarde. Quinze minutos. Queria chegar a tempo, ia chegar. Forçou os pés um pouco mais, nada ia para-la. Estava tão perto, tão perto. Catorze minutos. As grandes portas de vidro abriam-se lentamente. Ela podia ver o enorme portão de amarelo, indicando pra onde ela deveria ir. Apoiou-se por alguns segundos na pilastra mais próxima, precisava de ar. Treze minutos. Ela olhou para o grande relógio metálico que apontava a sua escassez de tempo. Continuou a andar em direção ao portão amarelo. Sentia dores abdominais. Sentia falta de ar. Mas ia conseguir. Doze minutos. Andava com dificuldade. Caiu no chão. Não conseguiu se levantar. Não respirava mais do que pequenas doses de ar. A multidão se virou. Pessoas pararam seus carrinhos para observar. Mas a atenção de uma pessoa bastava. Ela mal conseguia abrir os olhos. Ele percebeu que algo errado acontecia. Correu pra ver. Encontrou-a rodeada de estranhos, com uma bata verde de hospital, e respirando com dificuldades. Seus cabelos castanhos estavam sujos, e esparramados pelo chão frio do aeroporto. Ele abaixou-se cuidadosamente para sentir o pulso dela. Onze minutos. Ele olhou para o porão de embarque, que sinalizava ostentosamente para que ele embarcasse em um vôo direto pra Portugal. Olhou de volta pra ela, a qual estava com os olhos semi-abertos, e semi-viva sem os aparelhos. Precisava saber o que ela estava fazendo aqui, e ouviu uma voz, áspera e firme vindo de onde ela estava deitada. Abaixou-se mais. – e-eu t-e a-a-amo. – Ele ouviu-a balbuciar com o último fiapo de voz que restava-lhe. Parou de súbito. Ela estava com cada vez menos pulso, dava pra ver. E ao longo dos dias, os gélidos dias que sondavam sua partida, ele percebeu que seu pulso diminuiu. Na verdade, algo estacou nele. E agora isso esbarrou de novo, com uma força absurdamente sobrenatural, que o fez cair de sua posição agachada ao chão. Caiu perto dela, e sentiu seu adocicado perfume. Lembrou-se de quando deu-lhe esse perfume, em uma tarde longínqua de verão. Estavam no verão de novo. Essa sensação o trouxe de volta a vida. Portugal podia esperar.

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