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Calada E Só

Depois de toda a euforia estresse preocupação, de repente uma onda de calmaria chega. Mas é daquelas calmarias avassaladoras, sabe? Que se instala no peito e rouba o fôlego. Calmaria ansiosa, sem saber o que esperar do futuro. Se perguntando onde estava o erro, se tudo caminhava tão tranquilamente? Por que ela esperava pela quebra da onda toda vez? Por que não conseguia encontrar descanso na calma, por que ficava a procura daquilo que poderia estar espreitando? Tentava veementemente não dar lugar pras paranóias, não dar espaço pra que o não dito por que não foi nem sequer cogitado mas abria caminhos pra infindáveis perguntas e questionamentos que vinham sem pedir licença. Domingo é sempre assim: a gente fica questionando a própria existência com lágrima escondida atrás das pálpebras: as vezes rola, as vezes a gente faz força pra cair, mas fica lá, teimando em te atormentar com a ideia de que se talvez meus sentimentos transbordarem pra fora de mim, talvez eles parem de me atazanar....

Lua

 As estrelas que tinham nos olhos dela eram infinitas.  O carinho, o gozo, a partida, a chegada. Todas as coisas eram infinitas, não tinham começo-meio-fim; eram infindas. A sensação de casa, de conforto, de abrir o baú empoeirado que guardou por tanto tempo os sentimentos. Era caixa de Pandora ao contrário.  Se aconchegava nos braços desnudos dela como se sempre estivera ali. O sangue que bombeava incessante, os arrepios na nuca, os contorcionismos da boca abrindo e arfando.  Sentia cada músculo contraindo, sentia cada toque com a intensidade de milhares de voltz, sentia suor escorrendo pela testa, sentia beijo no nariz, no rosto, na boca, no pescoço.  Nada no passado-futuro sente dessa forma do hoje. E da forma do ontem. E da forma do amanhã. O sono pesava nos olhos mas a vontade de comprimir o tempo, de descontar os beijos, de ficar ali com ela, lutava com as pálpebras pesadas.  A dificuldade de levantar da cama de manhã, a dificuldade de fazer coisas mu...

As Deep As The Pacific Ocean

O ano de dois mil e vinte e dois começou com sabor de picolé caseiro de acerola.  Ultimamente, começou a sentir como se fosse primeira vez e também replay os sabores que a existência lhe podia proporcionar. Tudo tinha cheiro e gosto e um brilho diferente de vida. Podia sentir a mudança circulando em si, e nunca jamais pensou que poderia estar ali. Se a Bianca que foi aos quinze anos pudesse saber, sentir, e prever que não ia precisar e nem querer mais se esconder dentro de si, em recôncavo profundo e escuro, talvez ela não tivesse que ter reaprendido tudo sobre si antes de entender quem ela realmente era.  Nos últimos meses os pesos da existência estavam sendo retirados das suas costas cansadas e marcadas de dor. Nos últimos meses ela estava sendo apresentada a uma nova versão dela mesma. A uma versão que não sente gosto de sangue na boca quando se mostra pra alguém. Uma versão que não precisa forçar nada em lugar nenhum, que não precisa se mutilar pra caber, que não precisa s...

Girassol

No peito: parecia champanhe, borbulhante na taça, logo depois de servir e antes de acariciar os lábios. Fazia comichão no pé da barriga que nem quando os pés descalços tocam a grama esmeralda orvalhada de manhã. Explodia em fogos de artifício sem som mas com brilho e promessa e delírio de noite de ano novo.  O calor, o suor, o gemido, o roçar de corpos, incessantes, frenéticos, explosivos: sim.  O sorriso de canto de boca. A boca no canto do sorriso. A carne que pulsava, todas as carnes pulsavam e tremiam. O entremear de pernas e bocas e pelos e braços e mãos puxando coxas, cabelos, apertando, suando. Passou o dia envolta em odores, sabores, memórias. A casa envolta na modorra pós química explosiva.  Tentando recuperar pra si todos os beijos que não deu, o destrinchar de corpos e lábios que parecia instintivo. Como naquele momento se abriu como nunca antes, se deixou abrir, se deixou desabrochar, ali, inebriada delas. Sentindo tudo e deixando e permitindo e aconchego que ...

Don't Hurt Yourself

Acordou de um salto como de costume. Atualmente eram raros os momentos que acordava em paz. À contragosto, levantou da cama já com o twitter aberto no celular pra ler as atrocidades cometidas mais um dia mais uma vez pelo governo genocida ao qual ela e mais milhões de pessoas eram subjugadas todos os dias.  Lavou o rosto, escovou os dentes e tomou um banho gelado sem lavar os cabelos, ouvindo podcast mas sem conseguir desligar totalmente a cabeça das inseguranças e das ansiedades, que gritavam no fundo da cabeça, como se pedindo pelo amor de deus pra se materializarem e saírem correndo por que nem elas se aguentam mais. Nem elas aguentam mais o loop constante dos mesmos pensamentos das mesmas inseguranças dos mesmos medos girando na cabeça infinitamente que nem uma máquina de lavar quebrada no modo turbo eterno. Todo dia era dia de nó. Nó no peito, nó no estômago, nó na garganta, nós infindos.  Enquanto passava o café, repassava e julgava na cabeça as coisas que ela tinha dito...

E Eu Carrego O Fardo...

 Essa semana não tive sessão de análise.  Concomitantemente, o Brasil me quebrou. A ansiedade me quebrou. A imagem de pessoas catando ossos no lixo pra sobreviver não sai da minha cabeça. O escândalo nazista da prevent sênior ecoa no meu juízo sempre que fecho os olhos.  Todas as coisas que me aconteceram e nos aconteceram e aconteceram com eles e elas e elus ecoam dentro de mim o tempo todo, não descanso, não durmo, não sonho. Existo em estado de ansiedade e com constante medo e tensão e desejo de fugir e uma voz que não se cala dentro de mim que diz que não tem nada que eu possa fazer, mas que eu preciso fazer alguma coisa, que eu preciso consertar o problema em mim e lá fora e destronar bolsonaro e trabalhar e fazer dinheiro e paquerar e ser saudável e emagrecer e ter saúde mental e ser um ser humano totalmente funcional equilibrado estabilizado mesmo quando o mundo lá fora tá se explodindo em caos, loucura e dor. Tudo isso com um sorriso no rosto, raiva no peito e gra...

Heaven Is A Place On Earth

O sentimento era velho, mas parecia novo.  Vou explicar-lhes: já tinha estado ali. Já tinha passado por tudo aquilo algumas vezes no tortuoso caminho da juventude até a idade adulta. Inúmeras vezes durante a puberdade se viu ali. Na idade adulta, menos vezes, mas ainda assim, ali.  Só que daquela vez, era diferente. As borboletas no estômago estavam ali. Os sorrisos de canto de boca. As provocações. O beijo. Absolutamente tudo estava do jeito que já esteve em outras milhares de vezes, mas a diferença era ela.  Desde a última vez que estivera naquele lugar, apesar do lugar não mudar, ela mudou. Passou por outras e poucas e boas e tudo e nada. Se resgatou do fundo das profundezas de si e se remontou aos poucos. Vocês sabem o que acontece quando a gente se remonta, né?  Tal qual como Heráclito falou sobre o rio Tigre e Eufrates, nunca nos remontamos do mesmo jeito. Eu explico: não existem duas, três, quatro de mim. Existe eu e eu só, que passou pelas fases da vida, pela...