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Só De Passagem

Há muito, parecia estar só de passagem no mundo. Fazia, todo dia, sempre igual. Estudava, cozinhava, lavava a louça, e estudava. Não lhe agradava o ritual, mas mandavam-no. Mandavam-no ser máquina e homem, sempre atarefado e insatisfeito, sempre do jeito que era obrigado a ser, com vontade de ser o que era de fato. Sua válvula de escape era o desenho. Por muitos anos, faltaram-lhe as ferramentas mais básicas para fazê-lo. E perdia-se no lápis e no papel. Em seus últimos anos na escola, sempre assombrava-lhe a pergunta do que queria ser quando crescer. Não sabia dizer, por que era gente, mas ninguém o havia ensinado a querer. Ao longo da vida, cresceu-lhe uma crosta de coisas não ditas, pudores vencidos, medos profundos, viagens não feitas, e obrigações. Crosta dura, essa. Dura demais pra um homem menino que não havia nem alcançado a maioridade penal. Se transformou em uma pessoa fechada e levemente mau humorada, que não partilhava do seu íntimo com ninguém, nem com o desfile de namorad...

Sobre Quem Eu Sou

Esses anos todos, nunca soube muito bem sobre quem eu sou. Escritora? Cidadã? Alguém? Até então, não sei. E não sei se um dia saberei. Mas se tem algo que sei sobre mim mesma é que não sou feliz. Não é por escolha, veja bem. Só não sou. Eu tento. Tento, pode demais, socializar. Tento não encher a alma de angústia e sofrimento, e consigo, algumas vezes, por alguns instantes. Só que não sou. É triste pra os outros verem quando alguém é infeliz. A grande coisa da vida é que ela se repete. Detesto rotina. As mesmas coisas maçantes que me incomodam se repetem todos os dias, todos os dias. Não é questão de resistir à elas, eu só tento subir na maré e ir levando. E tem dias que isso é tão insuportável que cansa. Cansa existir. Cansa viver. Recentemente, fui praticamente privada do meu namorado. Uma das únicas coisas de feliz que eu tenho pra esperar. Uma das poucas pessoas que a vida me deixou, nesse vaivém de aviões e abraços quebrados. E agora a vida me tirou, aos pouquinhos. Me disseram pr...

Eu, Aflito E Só

É, morena, tá tudo bem. Está? Caramba, parece que esse ano tá se arrastando. Se arrastando... Bem devagar. Queria muito ver o fim desse dia, desse mês, desse ano. A começar pela minha reprovação. Que porcaria que é conviver diariamente com pessoas que praticamente nada tem a ver com você. Que porcaria é arrastar o ensino médio por mais um ano. Que porcaria que é se arrastar da cama, todos os dias, sem um propósito, sem uma vontade, sem um por quê. Sem. Só querendo passar por mais um dia, mais um dia pra morrer, mais um dia pra viver. Como disse Marcelo Camelo, é como se a alegria recolhesse a mão pra não me alcançar. E a cada dia, o dia consegue ser pior. Não importa o quanto eu diga pra mim mesma que vai ficar tudo bem, que vai tudo se resolver, que eu vou conseguir resolver tudo, parece que, por mais que eu tente resolver, tudo se embaralha mais. Nem lendo e vivendo na vida de outra pessoa eu consigo deixar isso de lado. Me consome de dentro pra fora. E de fora pra dentro. Parece que...

When I Put My Finger On Your Trigger

“Happiness is a warm gun” Puxou o gatilho. Rompantes de alegria esborratavam pelas suas têmporas. A arma quente, o corpo no chão. Jorrando sangue. Jorrando, jorrando, jorrando. Deixou-o esvaziar. E saiu dali, satisfeito consigo. Sabia que esse sentimento de realização seria tão passageiro quanto sempre fora. Umas duas horas, no máximo, e depois estaria pronto pra encontrar mais alguém a quem perseguir. Não era um perseguidor. Não se via como um assassino. Não se via como nada. Gostava de ver o sangue jorrar, sempre certo de pra onde ia, mas deveras incerto de pra que servia. Mantivera pessoas vivas por dias, só para assisti-las sangrar aos pouquinhos, cada dia mais, cada dia mais. Era razoavelmente bonito, sedutor. Mulheres eram presas fáceis. Sua orgia de sangue era sempre completa, mas sempre necessitava de mais. Sentia-se mal, por vezes. Medo de ser pego. Mas nunca era. E sabe como dizem, happiness is a warm gun.

Sem Propósito

Alguém aí? Alguém pra ler? Alguém que não esteja dormindo, esteja interessado e entediado? Pois bem, a quem interessar: Alguém já se sentiu entediado com a vida? Como se ela parasse e estagnasse, visse o tempo passar, e só as mesmas coisas se repetissem, continuamente, em um círculo sem fim e sem começo de tédio e falta de propósito. Não? Nunca se sentiu assim? Então me deixa explicar: é como se você fizesse tudo igual todo dia, sem parar, sem pausa, sem intervalo. Mesmo que esses existam, compridos ou não, sempre parece que você não tem pausa, que recomeça de onde parou, e que nunca vai parar de verdade. Dormir não é recarregar as baterias, por que você está sempre na massacrante atividade de ser e respirar, respirar e expirar. Expirar a validade, o prazo, a noite, o tempo, a vida. Tudo expira, menos o labor diário (e com a sensação de prolongada inutilidade, você também não). Suspiro. Cansada sem ter com o que cansar, cansada de pensar, cansada de viver. Por que não pode ser um pou...

The Only One That's Really Judging You Is Yourself

“The only one that’s really judging you is yourself, nobody else, nobody else” Fechou as portas com um baque absurdamente forte. Pegou a mala de cima da cômoda ridiculamente alta, e atirou-a com força na cama, provocando um outro estrondo de proporções semelhantes ao primeiro. Uma semana. Uma longa semana em um hotel distante de tudo e de todos, sem recepção de celular, sem internet, sem outras pessoas com quem pudesse conversar além da família. Família. Não gostava de como soava. Quando foi que passou a ter uma família? Um tempo atrás família era só seu pai, sua mãe e sua irmã mais nova. Agora tinha uma esposa particularmente bonita, porém mais vazia que um saco plástico. E duas crianças, que berravam o dia inteiro. O dia inteiro, todo dia, vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. Saía do maldito escritório, esperando cinco minutos de silêncio, e quando menos esperava, era pego pela batalha diária de fazer os pirralhos deglutirem os vegetais, pelos telefonemas histéricos ...

Home Is Where The Heart Is

Olhando minhas fotos ao som de Memory Lane, do Mcfly, descobri relíquias. Fotos que eu nem lembrava existirem. Eventos que eu nem lembrava ter comparecido. Pessoas que faziam parte do meu dia, do cotidiano, que eu sabia de quase tudo, e que agora não sei de absolutamente nada. Tudo muda tanto. Suas escolhas influenciam mais que diretamente em quem você se torna ou se tornou, e algumas pessoas simplesmente não cabem mais na sua presente ou passada situação. Não é culpa sua. Não é culpa delas. Só não cabe mais. Me dei conta de quantas pessoas passaram pela minha vida. Não foram poucas. Já participei de vários grupos de amigos, várias tribos, de muitas pessoas diferentes. Ofendi e fui ofendida. Mudei e mudaram. Todos mudam. E acontece que agora não sei a que grupo pertenço. Tenho, ao meu lado, as pessoas que eu sempre tive ao meu lado, e as quais eu tenho a certeza que não me deixarão jamais. Algumas pessoas, por mais que efêmeras na minha vida, deixaram marcas eternas. ...